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O barroco missioneiro Segundo ARNT et al. (1998, p. 31-39), no Brasil, a ascensão do gênero artístico Barroco acompanhou a descoberta do ouro em Minas Gerais. Em cinqüenta anos, 600 000 portugueses emigraram para o Brasil. Desses, calcula o historiador Jaelson Britan Trindade, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, (IPHAN), que pelo menos 800 eram artistas. O barroco brasileiro caracterizava-se pela tropicalidade, permissividade e a sensualidade da miscigenação das culturas. No Brasil, as ordens religiosas incorporaram o negro e o índio, e , na medida que os artistas portugueses passaram a ter filhos com escravas, por exemplo, estes repassaram as técnicas a artesãos mestiços. A partir disso, os santos ganharam feições amulatadas e os anjinhos morenos receberam viçosas perucas loiras, conforme nos mostra a ilustração número 5 na página seguinte. Podemos destacar os primeiros gênios da arte barroca no Brasil: Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1730-1814); Padre Antônio Vieira (1608-1697); Gregório de Matos (1633-1696); Padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), entre outros. No Barroco missioneiro do século XVIII a produção escultórica mais significativa constituiu-se num fenômeno circunscrito às missões guaraníticas, fundadas pelos jesuítas espanhóis no sudeste do Estado. BELLOMO (1997, p. 41-42) cita que; Seguindo as determinações emanadas da Contra-Reforma, a Cia. de Jesus orientava seus quadros para que se utilizassem da arte na catequese e conversão dos indígenas. O painéis e tetos dos templos deveriam ser cobertos por apoteoses e glorificações da Virgem e dos santos da Igreja ou, senão, aparições de figuras divinas e devotos estupefatos, à beira de um transporte místico. Os altares e nichos deveriam ser povoados por um grande número de santos e santas que, pela sublimidade de gestos e expressões, pudessem inspirar devoção e arrebatamento. Por ser de formas movimentadas, cores vibrantes e gesticulações nervosas, o barroco foi um estilo que se ajustou perfeitamente a esses objetivos da Igreja.
A imaginária missioneira guarani, com raras exceções, é praticamente anônima. Sabe-se que os jesuítas orientavam os indígenas nas oficinas de arte, além de talharem algumas peças por inteiro. Nos séculos XVII e XVIII, essa arte desenvolveu-se com tamanha beleza, que deixava extasiados os viajantes que por ali passavam. Tais obras eram barrocas, porém, um barroco indianizado, visto que nas Reduções guaraníticas, seja pela distância e dificuldade de acesso, seja pela decisão própria de seus membros, o fato é que a produção de estátuas teve que improvisar soluções. Um exemplo disso foi a entrega da execução de certas obras a elementos nativos uma vez que, para a quantidade de obras desejadas, os artistas padres eram poucos e as importações dificultadas pelos custos de transporte. E, sem dúvida, disto decorreu a inevitável particularização do barroco missioneiro. Nos gestos, os elegantes frenesís da matriz européia tornaram-se mais postados e rijos. Nos volumes, a leveza quase volátil do modelo metropolitano adquiriu peso e gravidade. Os tecidos leves e esvoaçantes tornaram-se mais pesados e hirtos. As expressões exageradamente arrebatadas deram lugar a formas mais sisudas e graves. Segundo BELLOMO (1997, p. 42) “[...] em resumo: nas imagens missioneiras os aparentes exageros do barroco europeu foram, por assim dizer, corrigidos pela natureza severa e grave dos indígenas”. Há indícios bem palpáveis de um estilo jesuítico-guarani na arte missioneira; mas se , reconhece imediatamente, que a influência européia foi decisiva. Segundo TREVISAN (1978, p. 53), “tratando-se de Jesuítas, nada mais natural que imprimissem o selo da Ordem às obras de arte por eles orientadas”. E, algumas de suas preferências foram transmitidas: o culto ao cristo Crucificado e à Virgem, que era um tema barroco por excelência; a devoção aos três principais santos da Ordem: Santo Inácio, São Francisco Xavier e São Francisco de Borja. Os Santos, embora habitantes do paraíso, apresentam-se apenas como personagens históricas. Para TREVISAN (1987), o patrimônio escultórico das Missões pode ser dividido em quatro grandes classes: a) obras-primas dos grandes mestres, onde nada há dos nativos; são obras da autoria dos grandes mestres europeus que vieram para a América do Sul e muitos deles tinham-se formado em escolas de renome na Europa; b) esculturas elaboradas pelos indígenas segundo modelos europeus, pois o índio, submisso esteticamente ao jesuíta, como lhe era submisso eticamente, anulava-se perante a superioridade do mestre e limitava-se a copiá-lo, ou então, a ser instrumento servil em suas mãos; c) obras mistas, nas quais a técnica e o modelo europeus se unem ao espírito índio, onde alguma coisa induz o índio a violar os cânones impostos. d) plásticas indias, pois muito antes da chegada dos missionários, os índios dedicavam-se à escultura em pedra, possuindo uma cerâmica rudimentar. Para concluir, o que se visava com a arte sacra era despertar a devoção. E isso, ao que parece foi plenamente alcançado. A prova disso é que, ainda hoje, das quase duas mil peças missioneiras conhecidas, muitas se encontram em altares domésticos, recebendo piedosas e místicas reverências de seus devotos.
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