Tangerina e Seus Limões
Numa pequena aldeia, num pequena casa à beira de um pequeno lago nasceu uma menina. Nasce tanta gente no mundo e a maior parte morre sem que ninguém ouça falar dela.
Aparentemente, era o que ia acontecer a esta menina. Na aldeia onde ela nascera, pouco ou nada acontecia, e a menina cresceu sem que ninguém alguma vez pensasse que ela podia vir a ser diferente.
A menina sonhava muito, mas se tivesse de escolher qual o sonho que queria ver realizado, ela escolhia vir a ter uma banda de rock. Na aldeia onde ela vivia ninguém sabia o que era rock, mas a menina via televisão e ouvia CD’s da sua vasta colecção. E sonhava um dia poder sair da pequena aldeia e marcar o mundo da música com a sua banda. Queria definitivamente ser diferente. Queria que a vissem como uma mente única e revolucionária.
Apesar de muito nova, a menina já pensava nestas coisas e fazia planos. Até já tinha decidido que a sua banda se iria chamar Tangerina e Seus Limões, o que só por si mostra que ela não era uma “rocker” banal.
Na aldeia onde vivia, a educação não era uma prioridade para as crianças e só com 10 anos é que a menina, chamemos-lhe Tangerina, foi para a escola, apesar de já ter aprendido o alfabeto e como juntar as letras muito antes, porque todas as letras dos seus CD’s a intrigavam e ela precisava de as ler.
A escola foi a pior parte da vida de Tangerina, porque a ideia da sua banda sempre foi segredo total e toda a gente pensava que os seus CD’s eram de canto gregoriano e músicas infantis. No entanto, quando Tangerina chegou à escola, descobriu que havia muitos jovens interessados em rock. O pior de tudo é que cada vez que falavam de alguma banda, Tangerina, que tinha cabelos pretos e curtos, ficava momentaneamente ruiva. As primeiras vezes que isso aconteceu, mas quando aquilo se tornou repetitivo, a família de Tangerina foi avisada e levaram-na a médicos de todas a especialidades e até cabeleireiros, mas ninguém percebeu o que se passava e todos estavam de acordo que aquilo era um caso inédito.
Para Tangerina, a mudança da cor do cabelo era muito inconveniente, porque a última coisa que ela queria era que associassem o cabelo vermelho com o seu estilo musical favorito. O seu pai era muito rígido quanto a isso e achava que quem ouvia rock eram miúdos idiotas que gostam de abanar a cabeça como malucos e meterem-se em drogas. E já tinha avisado lá em casa que enquanto ele fosse vivo, nem um CD de música rock passaria pela soleira da porta de casa.
Tangerina odiou a escola do primeiro ao último dia. Os seus colegas eram o mais insuportáveis possível, e sempre a gozaram pelo facto de ser diferente, no cabelo e em tudo o mais, desde a maneira de pesar à maneira de agir. Tangerina algumas vezes replicava e envolvia-se em discussões acaloradas, nalgumas das quais o seu cabelo mudava de cor freneticamente. Outras vezes fazia do silêncio desdenhoso a sua resposta. Mas cada dia de escola era uma tortura.
No entanto, Tangerina não pôde deixar de reparar em três solitários rapazes que nunca se envolviam na algazarra para lhe tecerem comentários rudes. Ela ficava-lhes grata mas sempre quis saber porquê. E tinha a sensação de que os três rapazes queriam saber mais sobre ela. Mas devido a toda a humilhação que tinha sofrido, Tangerina tornara-se verdadeiramente anti-social e nunca lhes dirigia palavra.
Tudo teria continuado assim se não fosse um pequeno projecto que os alunos tiveram de desenvolver e cujo tema era a música. Os três rapazes e Tangerina não foram escolhidos para nenhum grupo por nenhum dos outros colegas e viram-se obrigados a trabalhar juntos.
Ao saberem que cada grupo desenvolveria um estilo musical diferente, um ou dois colegas mais perspicazes não perderam tempo a espalhar pela turma a ordem geral: obrigar Tangerina a escolher o rock. Houve quem se sacrificasse para ópera, outros para a música clássica. E Tangerina e os três rapazes viram o seu grupo destinado ao rock, enquanto que o resto dos alunos observava o flamejante cabelo de Tangerina como se fosse um espectáculo esperado há muito.
Além dela, também os rapazes ostentavam expressões preocupadas. Um encostava a cabeça na mão, incomodado, outro olhava desesperadamente para o colo e o último esticava as mangas da camisola furiosamente como se as quisesse tornar mais compridas.
Foi preciso tempo para que os quatro começassem a relacionar-se e a trabalhar no projecto, mas uma vez que se tornaram mais amigáveis, o trabalho corria cada vez melhor e Tangerina descobriu que também eles eram apreciadores e até fanáticos por rock.
À medida que se encontravam e se conheciam melhor, cada vez confiavam mais uns nos outros, começaram a partilhar segredos. E que segredos! Cada um dos três rapazes, tinha um, muito parecido com o problema Tangerina, mas que tinham conseguido esconder durante todo o tempo: um tinha uma orelha que ficava arroxeada; outro, olhos que se tornavam amarelados e o último ficava com os pulsos às manchas esverdeadas sempre que se falava de rock. Tangerina também lhes contou o seu sonho secreto de brilhar na música.
Não é preciso dizer que assim nasceu a banda de rock Tangerina e os Seus Limões (o podre, o maduro e o verde).
Também convém mencionar que ao entrar no mundo da música, e como qualquer estrela de rock, arranjaram manias que lhes deram bastante jeito: Tangerina pintou o cabelo permanentemente de ruivo, o Podre fez tantos furos nas orelhas que era praticamente impossível ver-se pele, o Maduro passou a usar óculos de sol em tudo quanto era sítio e o Verde cobriu os braços de tatuagens.