Equipe de Pediatria - HMD
Protocolo - Diarréia aguda no paciente internado
Protocolo revisto em jan 2006

  A Criança com diarréia aguda usualmente será internada por um dos seguintes motivos:

1.
Diarréia aguda com desidratação:
    1.1. Desidratação moderada, mas com vômitos que impedem a terapia de hidratação oral. Os vômitos persistem após o     
          manejo inicial no pronto-socorro.
    1.2. Desidratação grave, devido a diarréia intensa ou a vômitos, havendo repercussão  hemodinâmica ou queda do sensório.

2. Diarréia sanguinolenta com suspeita de infecção intestinal bacteriana invasiva


Em todos os casos de internação com diarréia aguda, a enfermagem deverá ser orientada a tomar os devidos  cuidados, conforme orientações da SCIH  (prescrever precauções de contato para diarréia).

1-A criança internada com diarréia aguda e desidratação:

Manejo geral:
.- Nas crianças internadas com diarréia aguda e desidratação a reparação endovenosa com Ringer lactato ou solução de soro fisiológico e glicosado isotônico em partes iguais usualmente terá sido iniciada no Pronto-Socorro, seguindo o protocolo daquela unidade.
     
      -Crianças com desidratação moderada receberão de  20 a 40ml/kg.
      -As crianças com desidratação grave receberão de 50 a 100 ml/kg.

-
O manejo destes pacientes não inclui uso de antibióticos, a não ser que haja outros focos infecciosos (urina, vias aéreas,etc). Estes casos constituem excessão. O hemograma com leucocitose e neutrofilia, principalmente no paciente desidratado, não deve ser isoladamente  interpretado como indicativo de infecção bacteriana.

- Após a internação,  reavaliar a criança ao término da  infusão do soro de reparação, monitorando o seu estado de hidratação e a presença de diurese. Se necessário  prescrever novo soro de reparação, cerca de 10ml/kg/hora, o qual será repetido quantas vezes necessário

-A hidratação endovenosa deverá ser administrada preferencialmente em bomba de infusão, principalmente em crianças menores de 5 anos.

-Em algumas crianças poderá haver muita dificuldade para obter acesso venoso. Se a criança nãoaceitar o soro por via oral, desde que não haja desidratação grave, poderá ser iniciada a hidratação com a solução de hidratação oral, administrada por sonda gástrica.
O volume calculado será o mesmo previsto para a via venosa. Nas crianças com desidratação grave, o acesso venoso é imperativo e o cirurgião devera ser chamado para punçãode acesso central,

-Após atingir estado de hidratação, com diurese presente (micção), iniciar a solução venosa de manutenção, com potássio, acrescida volume para compensar as estimativas de perdas futuras que  ainda ocorrerão (tabela 1).

- A solução  de manutenção
não deverá conter gluconato de cálcio, exceto em crianças menores de 1 mês, crianças com desnutrição grave,  ou naquelas com hipocalcemia comprovada.

- A hidratação venosa de manutençãoserá mantida até que cessem os vômitos e/ou  a criança esteja aceitando líquidos por via oral.

- Crianças com vômitos intensos deverão receber antieméticos por via endovenosa. A presença de vômitos esporádicos não é indicação  administração deste tipo de medicamento.

-As crianças admitidas com vômitos intensos, enquanto estão recebendo soro de reparação, deverão permanecer em  jejum  por cerca de 3 a 4 hs.

-Como antieméticos poderá ser usada a metoclopramida. (Plasil – 0,25mg/kg/dose - ampola com 10mg/2ml - 5mg/ml) ou Ondansetron (Nausedron, Vonal  - 0,15mg/kg/dose - ampola com 4mg/2ml ).
(ref 10 e 11 )

-
Algumas crianças com evidências de gastrite ou esofagite péptica aguda, principalmente aquelas com raias de sangue nos vômitos, poderão se beneficiar como uso de ranitidina ( 2 - 4mg/kg/dia  EV , divididos em 3 doses - ampola com 2ml/50mg).
Em casos de gastrite ou esofagite mais acentuados, usar o omeprazol (10mg uma vez ao dia , para crianças ate 20kg, e 20mg/dia para criança acima de 20kg).

- As crianças que se alimentam ao seio deverão continuar recebendo o  leite materno normalmente.

- Prescrever creme protetor contra assaduras, especialmente para as crianças que ainda usam fraldas.

- Assim que estiver sem vômitos por um período de 3 a 4 horas  a criança em geral poderá aceitar a solução de hidratação oral (com 45 ou 90meq/l de sódio), a qual deve ser prescrita e os pais orientados a oferecê-la após cada novo episódio de vômito ou evacuação.  O volume a ser oferecido após cada evacuação ou vômito é de 50 a 100ml para crianças < 2 anos e de 100 a 200 ml para aquelas > 2 anos.  Oferecer este volume fracionadamente, de acordo com a aceitação da criança. Ao prescrever a SRO  tomar o cuidado de orientar a reposição do frasco ao seu término (para que não seja interrompida a sua oferta). Neste momento, pode ser liberada também a ingestão de outros líquidos por via oral, sempre em pequenos volumes de cada vez.

- A criança deverá ser reavaliada periodicamente para monitorar a freqüência e intensidade das perdas e o seu estado de hidratação.
- Nas crianças que apresentarem novas perdas em volume superior ao estimado inicialmente, caso não tenha sido possível a reposição por via oral, prescrever novos soros de reparação endovenosa 10ml/kg/hora.

- Havendo melhora dos vômitos e aceitação de líquidos e SRO, diminuir o gotejamento do soro a 2/3 ou metade da manutenção. Iniciar alimentos pastosos em pequenos volumes de cada vez. Neste momento tomar o cuidado de orientar por escrito à enfermagem que, havendo perda do acesso venoso, o médico responsável deve ser comunicado antes da ser feita nova punção venosa (a qual poderá ser dispensada).

- A via de acesso venosa deverá ser mantida até que a criança esteja sem vômitos e esteja aceitando bem,  por via oral, os  líquidos ou a SRO oferecidos. Em  muitas crianças que já estão prestes a receber alta,  poderá ser suspenso o soro venoso, mantendo-se o acesso com tapoim. (A menos que haja a perda acidental do acesso venoso, quando a necessidade de nova punção dependerá da evolução clínica).

Critério de alta hospitalar:

- Criança capaz de se manter hidratada, através da reposição oral, estando por pelo menos 6 a 12 horas sem vômitos.

-A persistência da diarreia não impede a alta hospitalar, desde que as perdas estejam sendo repostas por via oral.

- À alta, prescrever a solução de reidratação oral, que deverá continuar sendo oferecida no domicílio, após  cada vômito ou evacuação diarreica.

Exames laboratoriais:

-Nos pacientes com diarréia aguda e desidratação, em geral não são necessários exames laboratoriais.

- Em crianças pequenas (em geral menores um ano) ou naquelas  admitidas com desidratação grave recomenda-se a dosagem de íons, que poderá ajudar na correção dos distúrbios hidroeletrolíticos.  O material para exame deverá ser colhido após a administração do soro de reparação (correção inicial da desidratação), a não ser qua haja suspeita de desidratação hipernatrêmica. 

- Hemograma, glicemia, creatinina, gasometria, transaminases, exames de urina, ou outros exames deverão ser pedidos em casos de suspeita de complicações. Lembrar que  hemograma com leucocitose e neutrofilia, nãosignifica necessariamente infecção bacteriana. Frequentemente  a diarréia por rotavírus apresenta-se incialmente com este hemograma.

- Exames de fezes como a pesquisa de rotavírus poderão ser solicitados quando o médico responsável considerar indicado.


2- A criança internada com diarréia sanguinolenta: (desinteria)_

- O termo diarréia sanguinolenta refere-se à  presença de diarréia  em que sangue vivo é visível nas fezes. Exclui-se desta definição a presença de raias de sangue sobre a superfície de fezes bem formadas, ou  a presença de sangue que só é detectado por microscopia ou testes bioquímicos, assim como a presença de sangue escuro (melena).

-Nem todas as crianças com desinteria necessitam internação hospitalar. A maioria poderá ser tratada ambulatorialmente. A internação estará indicada para as crianças com quadro clinico de infecção invasiva, ou com potencial para complicações como lactentes jovens.

-O diagnóstico de diarréia sanguinolenta em geral é feito perguntando-se para a mãe, ou observando-se as fezes. Ambos os métodos são igualmente sensíveis e  precisos. Entretanto, perguntar à mãe em geral é mais eficiente do que esperar que a criança evacue.
(OMS)

- A criança internada com diarréia sanguinolenta deve ser tratada a princípio tendo em vista uma disinteria por Shiguella.
(OMS).

- Em geral as perdas hidreletrolíticas não são severas nos casos desinteria. Entretanto, havendo desidratação ou vômitos, proceder a reposição das perdas como indicado para o paciente internado com diarréia e desidratação.

-
Antibioticoterapia – indicada na maioria das crianças internadas com diarréia sanguinolenta :

- Sulfa-trimetoprim (40mg/kg/dia sulfa em duas doses por 5 dias) ou ampicilina (100mg/kg/dia em 4 doses) não são mais usados rotineiramente em crianças internadas com desinteria, porque a resistência a estes antibióticos vem aumentando progressivamente.  Por outro lado, nos casos em que o antibiograma  mostrar sensibilidade, estes são os antibióticos de escolha. A amoxacilina, assim como as cefalosporinas de primeira e segunda geração 
não devem ser usadas para este fim.

Antibióticos de primeira escolha:


- Ácido nalidíxico : 15mg/kg/dose V.O. de 6/6hs, por 5 dias.  (Wintomylon - Apresentação 250mg/5ml)

- Em casos mais graves (toxemia, prostração intensa, impossibilidade de uso da via oral) : Ceftriaxone 50mg/kg/dia, IM ou EV divididos em 2 doses ao dia, por 5 dias.  As cefalosporinas de 3a geração para administração por via oral não são indicadas.

- Em alguns casos selecionados, por exemplo em  em crianças com infecções mais graves, em que o ácido nalidíxico não é eficaz ou quando há  contra-indicações ao uso do ceftriaxone (ex. alergia), a ciprofloxacina poderá ser usada (20mg/kg/dia  V. O de 12/12hs, por 3 a 5 dias).
(ver ref 9)   e  outros  artigos

- Deverá haver melhora clínica substancial após 48hs de antibioticoterapia. Nos casos em que não se observa a melhora esperada, um outro antibiótico deverá ser instituído.

- Nos casos de amebíase intestinal comprovada, ou quando há falha de dois antibióticos usualmente eficazes contra shiguella, deverá ser instituído tratamento metronidazol por via oral, na dose de 10mg/kg por dose, 3 vezes ao dia, por 5 dias (10 dias em casos mais graves).

- O encontro de trofozoítos de Giardia lamblia no EPF ou pesquisa do antígeno positiva indica o tratamento com metronidazol (20 mg/kg/dia em 2 doses por 7 dias).

- Na diarréia grave associada ao uso de antibióticos pensar no Clostridium difficile, fazer pesquisa da toxina
A nas fezes.  Caso positiva tratar com metronidazol oral (30 mg/kg/dia em 4 doses por 10 dias) ou vancomicina oral (20 mg/kg em 4 doses por 7 dias). Neste caso o uso concomitante de Saccharomyces boulardii diminui sensivelmente o número de recidivas.


Exames laboratoriais:

-Antes do início do antibiótico: coprocultura e parasitológico de fezes .
-Em crianças menores  de 1 ano ou pacientes considerados mais graves, ou quando houver suspeita de complicações,  solicitar           hemograma, hemocultura, uréia, creatinina, íons.
-Outros exames de acordo com a avaliação médica: Glicemia, gasometria, transaminases, urina, etc.
-Em situações em que há dúvida sobre o tipo de diarréia, solicitar também a pesquisa de piócitos e rotavírus.



Tabela 1 – Hidratação venosa de manutenção

Até 10 kg  ------------ 100ml/kg/dia
De 10 a 20 kg  ------- 1.000 ml + 50ml para cada kg acima de 10 kg
Acima de 20kg ------ 1.500 ml + 20 ml  para cada kg acima de 20 kg

Composição da solução: Soro glicosado5% : Soro fisiológico  3:1 ou 4:1
Potássio : 2 a 3 meq/kg/dia  (prescrito na forma de KCl 10%-1,34meq/ml). A administração de  potássio só deve ser iniciada após o restabelecimento de diurese . Em casos em que for constatada hipokalemia, o potássio poderá ser prescrito até a concentração de 40meq/litro de solução.

Reposição de perdas:
Volume a ser prescrito além da solução de manutenção: (solução 1:1 )
Perdas leves: 20ml/kg/24hs
Perdas moderadas: 40ml/kg/24hs
Perdas graves: 60ml/kg/24hs

VIDE AS REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS ABAIXO:
Referências bibliográficas

1-AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS.
The Management of Acute  gastroenteritis in Young Children. Pediatrics. 1996; 97: 424-435.

2-FERREIRA, R. A.; NORTON, R. C.; LEÃO, E. Desidratação e reidratação. . In:    LEÃO, E.; CORRÊA, E.J.; VIANA, M.B.; MOTA, J.A.C. Pediatria Ambulatorial.   3ª ed. Belo Horizonte: Coopmed, 1998: 327-331.

3-MOTA, J.A.C.; STARLING, A.L.P.; PENNA, F.J.; LEÃO, E. Diarréia aguda. In:    LEÃO, E.; CORRÊA, E.J.; VIANA, M.B.; MOTA, J.A.C. Pediatria Ambulatorial.   3ª ed. Belo Horizonte: Coopmed, 1998: 319-325.

4-MURPHY, M. S.
Guidelines for managing acute gastroenteritis based on a   systematic review of published research. Arch. Dis. Child. 1998; 79: 279-284.

5-
WHO Programme for the Control of Diarrhoeal Diseases - 1994 THE MANAGEMENT OF BLOODY DIARRHOEA IN YOUNG CHILDREN

6- WHO Programme for the Control of Diarrhoeal Diseases- 1995  THE TREATMENT OF DIARRHOEA

7- Bernard S. Kaplan et al,
The Pathogenesis and Treatment of Hemolytic uremic Syndrome Journal of the American Society of Nephrology Volume 9• Number 6 • June 1998

8- James P. Pataro,
Treatment of bacterial enteritis The Ped. J. infec. Dis 1998;17:420-421

9- EUGENE LEIBOVITZ, MD; JACOB JANCO, MD; LOLITA PIGLANSKY, MD; JOSEPH PRESS, MD; PABLO YAGUPSKY, MD; HEINZ REINHART, MD; IRIT YANIV, MD; RON DAGAN, MD 
Oral ciprofloxacin vs. intramuscular ceftriaxone as empiric treatment of acute invasive diarrhea in children  Pediatr Infect Dis J 2000 November;19(11):1060-1068

10- Reeves JJ, Shannon MW, Fleisher GR.
Ondansetron decreases vomiting associated with acute gastroenteritis: a randomized, controlled trial. Pediatrics 2002 Apr;109(4):e62

11-  Chris Ramsook, MD et al 
A randomized clinical trial comparing oral ondansetron with placebo in children with vomiting from acute gastroenteritis. Ann Emerg Med 2002 Apr;39(4):397-403
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