Minha Caminhada

 

As narrativas que se seguem são prova de um dia no cotidiano de alguém.

 

                          PARTE I

 

   Minha caminhada começa numa rua.

 Passo em frente ao Centro de Cultura: biblioteca e café da cidade.

Não me atrevo a entrar em tal lugar, ele traz más recordações.

Ali conheci Júnia, apaixonei-me por ela, tendo chegado a namorá-la algumas vezes.

No entanto nosso romance acabou.

Não posso querer eu estar neste local em que seus quadros, as portas e as pessoas  lembra ela.

Júnia separou-se de mim em momento delicado. Estava começando a aguardar mais ansiosamente seu telefonema.

 Um dia, após beijá-la no cinema caminhávamos no parque em meio à flores roxas e amarelas, uma fonte de água límpida escorria no fundo, homens caminhavam atarefados e um passarinho cantando nos observava de longe.

Foi um beijo, que enquanto acontecia desejei de fato ter Júnia.

 Levá-la a outros locais: praças e ruas novas.

Marcaríamos um encontro em bairro desconhecido para ambos.

Num domingo caminharíamos de mãos dadas em silêncio, passos lentos, aumentando o bater de nossos corações. Esse eterno momento se deitaria enquanto passávamos em frente à casas dos desconhecidos, que dentro dormiam ou andavam despreocupadamente entre seus corredores, e que por situar-se em região incomum tornariam-se ainda mais estranhos. Atmosfera enigmática, quase inexistente, a não ser o desejo do amor que pulsaria ainda depois de amanhã.

Meu sonho no entanto não era levá-la à montanhas, bosques longínquos, cachoeiras ou aeroportos. Seria ter com ela nos ambientes convencionais, de preferência os mais viciados de minha rotina.

Quem nos visse: o funcionário da habitual mercearia, meus companheiros da aula de natação, os que estivessem nos automóveis no sinal fechado, os vizinhos, inclusive aquele jovenzinho arrogante que me olha com desdém.

Todos haveriam de me respeitar pelo troféu que exibo: a raríssima Júnia.

Era minha.

 

“ Pense duas vezes antes de me cumprimentar “, seria a política imediata das formalidades.

Meus amigos não são problema, não os tenho como ameaça, neste caso a relação há de ser a mais sincera, sem afetações.

Cumprimentaríamos com aquele ar de cumplicidade, e qualquer um que me conhece o bastante para me ter como irmão pensaria:

‘ O lobo Guilherme conquistou seu quinhão, onde está o meu ? ‘

 

Onde faria questões de estar não seria onde se acham os gentis e bem-afortunados amigos, que só me trazem alegria e cuidado, e sim onde se encontram os ratos peçonhentos e mal-educados.

O funcionário da Escola de Belas Artes, aquele músico de merda que toca, e mal, bolero, o idiota que rejeitou meu assento no ônibus, e aquele porteiro mal-intencionado.

 Todos que me destrataram, dirigindo olhares autoritários como se eu fosse um inconveniente, uma criança inoportuna.

“ Canalha, miserável, pensei eu da primeira vez que, desprotegido, permiti tal situação constrangedora afirmar-se."

 

Da próxima vez entretanto não pensarei nada, ou pelo menos demonstrarei isso

na aparência, quando com Júnia me deparar com esses marginais.

Ao vê-los passaria somente por suas feias faces um olhar entediado, como se ali nada encontrasse. Talvez uma mosca ou uma formiga.

Mas eles notariam meu governo. Veria ela me abraçando, virando afoita minha face para beijá-la. Uma mensagem ascenderia em seus olhares.

Assim se leria:

 

“  Veja esta mulher.

    Veja como me ama.

    Como ela me quer.

    Como sou forte e influente à ela. 

    Nunca um outro homem ganhará esse amor de uma mulher.

    Vocês não são e nunca conseguirão ser nada para essa mulher,

    a não ser provar o quanto são macacos. “   

 

Porém, sei que não é oportuno ocupar-se de tal maneira com situações insignificantes.

Onde realmente exibiria a peça seria nas festas de círculo íntimo, aquelas em que há grande número de amigos e conhecidos.

Daniela, Gisele, Maria Clarice, Luciana, Ana, Isabela, Priscila, Mônica, Carol, a outra Carol, e tantas que me rejeitaram.

O que pensaria as presentes me vendo com a majestade ?

 

“   Veja como é bela.

     Veja como é magnífica essa mulher.

     Olhe as sobrancelhas, o pescoço.

     Note a delicadeza dos lábios, o charme do tronco.

     Que nobreza !

     Como se levanta, sorri, como dança o tchá-tchá,

     e como recolhe um olhar.

     Como pode existir mulher assim ?

     Ela está além de todas.

     E é minha.

     Desfrutei os dotes da donzela, bebi da fonte e não do reservatório.

     Conheço todo o pecado feminino, mas que vocês por tudo que acreditam saber      

     sobre si mesmas ou outras, inclusive esta.

     Essa é a mais bela de todas as mulheres.  “

 

Desfilaria entediado entre as rodas que se formariam e sairia.

     

                  PARTE II

 

No entanto, minha alegria terminou.

Júnia me trocou por Alberto. Homem detestável.

Ele evoca tudo que há de ultrapassado.

Digo por um ato em particular que baseou-se nesta pessoa mijar publicamente no Centro de Cultura, em um evento destinado à apresentações teatrais.

É por isto que também hoje me desagrada tal lugar.

A lembrança dos primeiros mágicos momentos com Júnia, os inesperados suspiros que palpitavam quando nós ali nos víamos é agora grosseiramente importunado pela imagem fálica de meu opositor. Não posso deixar de associá-la, e unicamente associá-la com seu romance com Júnia.

Meu contentamento reside hoje na lembrança de que esse relacionamento absurdo acabou.  

 PARTE III

Algo acaba de acontecer, e me alterou profundamente.

Viro uma esquina e logo vejo Maiana em um bar.

O fato é de ser irrelevante, mas não o é.

Não é pelo fato de ela estar junto à um homem.

Eu o conheço.

É um rapaz que namorou muito tempo uma jovem, tendo tido inúmeras amantes,

eu sei.

Ele é um sujeito deprimente e e essa namorada uma cachorra.

Ambos representam o casal das futilidades.

Mas... Maiana não é assim.

Ela é diferente.

Eu tributei muito da atenção, insinuei diversos interesses.

Ela sabe, ela compreende tudo.

Ela percebeu que eu a amei, que ainda a amo.

Estar com aquele sujeitinho a deprimiu.

Ele é um vagabundo, um pobretão, no sentido espiritual.

Um ator que se deixa convencer por qualquer cachê, se seduz facilmente por qualquer promessa de status que venda a “segurança” de pertencer à um rebanho.

Na verdade, eu amo tal cafajeste oportuno que ainda essa noite se deitará com a princesa.

Ela, em que repito, moderei os trajes, observei a conduta e dediquei às melhores palavras, tudo com não outra intenção de impressioná-la.

No entanto, a gentalha insisti em  pôr suas mãos sobre a pele macia.

O que são minhas noites de estudo ?

Espinosa, Marx, Sartre e Aristóteles. Não teriam os pensadores sofrido essa mesma dor ?

Oh, como me sinto enfraquecido com a visão daquela mulher alegre e descontraída com aquele fanfarrão.

Penso que fui insolente. Por demais infantil ao cortejá-la.

Quem sou eu ?

O nobre estudioso e conhecedor das artes ou tímido cavalheiro ?

Por que tenho que passar por essas provações ?

Antes, teria negado a primeira palavra àquela moça.

Não comprometeria minha autonomia dessa maneira.

                

                PARTE IV

 

Como saber se o dia está contente ?

 

Olhando automóveis na rua, encontro um táxi.

Ele me lembra a noite de ontem.

Estava em um casamento tão bonito.

Usava um terno branco com uma camiseta marrom comprida e uma gravata preta.

Me abraçavam e eram muitos os elogios.

Todos muito elegantes e cheirosos, conversavam entre si gostosamente.

O ambiente era imediatamente agradável e logo suspeitei de poder haver algo especial que poetisava a cerimônia.

Recolhendo-me à um canto da festa noto a orquestra, que já devia estar à horas ali. Agora me lembro: o que encantou a situação era uma melodia de Handel.

Mais tarde tocaram Steve Wonder: “ I just called to say I love you.“

Todas as épocas poderiam ser requisitadas. Havia negros perto do palco, de forma que se portavam à vista dos músicos. Era claro que uma vez eles ali haveria sempre harmonia na orquestra.

O evento foi realmente fantástico.

No entanto, ocorreu antes um triste deslize em minha casa .

Mas não o bastante para comprometer meu humor na festa.

Irei dar uma rápida explicação para não atrapalhar a leitura da festa.

Quem é pai há de saber que embora as maiores alegrias, filhos às vezes chateiam.

Tenho muitos.

São quadros.

Os ciprestes, de Van Gogh; O mercado, de Gauguin; A Dança-Renoir; O casal Arnolfini-van Eyck, e tantos outros.

Todos têm tratamento igual, mas às vezes alguns requerem mais atenção.

Não citarei quem foi, mas tivemos uma discussão quando me arrumava para sair.

É que este em especial é ciumento, e não pode me ver distraído saindo de casa.

De sorte que o problema se resolveu logo, poupando-me de atitudes mais drásticas, como ter de, infelizmente, utilizar novamente o chicote.

 

Na festa, degustei canapés e uma torta que penso em aprender a fazer um dia.

Duvido haver alguém que não sonhe com uma noite dessa.

Revi conhecidos que em dado momento na conversa, quando especialmente interpelado concordei que sim, que estudava e em breve seria um profissional da área.

A fala porém, saiu com certa magia e ar de importância que eu próprio assustei.

Notei como era belo o estudo e a toda situação que a isso envolvia.

Conquistei respeito e talvez até admiração deles com isso.

Andava de terno e ereto, me achando um poeta famoso, um ator da Rede Globo, ou simplesmente alguém que acaso deparado com outrem, este necessariamente haveria de interromper imediatamente o que fizesse para me voltar um aceno, talvez recatado, ou mais explícito que dissesse:

“ Oh, Vossa Pessoa por aqui.

  Quanta honra ! “

 

               PARTE V

 

Não deveria ter bebido.

Não tenho dormido direito.

O rum me desperta vocações perigosas, que não tenho domínio.

Meu quarto destoa do ambiente decadente dos bares que tenho freqüentado.

Pessoas obscuras, conversas ameaçadoras é o que revela esses locais mal-iluminados.

 

Creio mais no esoterismo do que na afirmação de qualquer advogado.

Por enquanto estou na encarnado na Terra.

Já pensei em virar, ainda na adolescência monge asceta, de preferência trapista, aqueles que só abrem a boca para comer e cantar.

Não faria mal algum ao mundo. Este o único objetivo !

Corpo  e alma resguardados  das perigosas e baixas vibrações da Terra.

 

Crianças, prestem bem atenção:

O que escreverei  é mais importante que tudo aquilo que já me seduziu:

" O que desejo ?

 O que desejo de verdade ?

 Nada, a não ser, ser Jesus.

Cristo, o mais perfeito dos homens.

Desejo apenas a iluminação, conhecer a linguagem da natureza e à ela submeter-me espontaneamente, andar entre os homens esclarecidamente.

Amar tudo o que vejo, amar o dinheiro como meu irmão."

 

Passando próximo à um hospital, lembro-me que hoje não fiz a lista das pessoas

que gostaria de assassinar.

Elas estavam ficando muito repetidas.

Fora conhecidos pessoais, há de certo figuras públicas: Ana Maria Braga, Júnior, William

Bonner e John Wayne.

Ana Maria Braga é uma cadela, poderiam estuprá-la ao vivo. Recorde de audiência.

Júnior é o almofadinha cantor, não outro. Este, antes de cortar seu pescoço amarraria-o,

deixando-o ver eu estuprar sua apetitosa irmã, poderia ser numa apresentação da banda, em

auditório de T.V ou num estádio. Também porque não na casa deles ?

William Bonner é um cachorro louco.

John Wayne ? O canastrão do faroeste norte-americano.

Hoje não o colocarei na lista.

 

O único que me preocupa é o Papa  Paulo II, o lunático.

Acredito não atrair acidentes e/ou azar com essas listas.

 

Quando penso nisso um carteiro de supetão me esbarra.

O homem passa ressentido.

 

“ Não sou capaz de matar qualquer cachorro.

Não será a Sandy ou a prostituta velha que me ganharão os culhões.

Na verdade não passo de um cagão. “

 

              PARTE VI

 

Vejo um homem no chão ocupando proporcional área do passeio, à qual todos ignoravam.

Se a garota do ponto de ônibus não me desse tanta atenção, lamentaria mais a situação do pobre diabo.

Oh! Que dama, olhou-me cheia de paixão !

Se acaso aquela pequena não me encontrasse, ou mais grave, se um de meus familiares me agredisse verbalmente, agora mesmo me deitaria ao lado do homem.

Minha vontade  seria ter nenhuma vontade.

Mas, se aquela garota me encarasse e disse-se: “ Meu príncipe e me agarrasse, beijaríamos, passando ainda à fazer amor.

 

Aí sim, meu papel de transeunte mudaria.

Iria ao mendigo e o acordaria para dizer:

 

“ O senhor é um herói.

   Queria eu ter a capacidade de viver essa vida. “

 

Mas, como era linda essa mulher e como fiquei triste ao deixá-la.

Agora estou abatido.

 

Nessa situação respondo com modos rabugentos a indiferença dos transeuntes.

Na verdade são modos igualmente indiferentes e até simpáticos, se tiver de cumprimentar algum.

Não será por nenhum dos presentes conhecida a gravidade de meu estado.

De qualquer modo, não abaixo a cabeça para nenhum, até me deparar com a imagem sombria de um jovem com olhar incestuoso e silenciosa postura.

Reconheço nele uma anomalia.

Aqui farei uma declaração, que é antes um aviso.

Posso correr riscos em expor esse assunto.

Acredito porém que como nenhuma identidade é aqui revelada, e já há divulgações informais a respeito do assunto, que tal risco é quase improvável.

 

A informação é sigilosa.

Há um grupo de  pessoas que vêm praticando juntos crimes na cidade. 

São indivíduos de grande sagacidade que agem aqui na capital acerca de 2 meses.

A tática da organização consiste em assassinar utilizando pistolas com laser  indivíduos que se encontram nas janelas dos edifícios.

A quadrilha já atuou diversas vezes, e concomitamente, em pontos distantes.

Parece haver uma predileção por bairros longes que tenham prédios altos com locais ermos próximos, como matagais e lotes abandonados.

Ali os marginais se infiltram até escolher a vítima.

É suspeito que muitos chegam nos locais muitas horas antes do crime.

Há uma concordata entre a impressa local e a polícia de não tornar público o caso.

O motivo não é conhecido.

Todos aguardam que essa sociedade doentia se desfaça o mais rápido possível.

 

O rapaz que vejo está parado conversando com uma adolescente.

Ele se porta com desenvoltura.

Tento encarar aflito seu rosto, mas não consigo.

Por um instante eu quase interfiro na conversa. 

Penso depois em recorrer às autoridades.

 

            PARTE VII

 

Minhas pernas continuam.

Sob o fato de pisar.

Até então nunca vi observei nada tão repetitivo.

Uma após a outra. 

O pescoço pode movimentar-se para vários ângulos.

Remexo-o.

Vejo que um cavalo acompanhado de um policial cruza um passeio.

Pressinto ser um animal majestoso.

Havia perdido seu pai numa batalha.

Surge uma melodia de Vivaldi.

Tudo se encanta com sua música.

Vivaldi é padre.

Ainda existe a Teologia da Libertação ?

Espiritualidade e marxismo.

Que importa ?

No momento me interesso mais em conquistar o amor verdadeiro de um mulher.

Talvez esteja complexado com o fato.

Também desejo acercar-me mais sobre a arte do confucionismo.

 

              PARTE VIII 

 

Na quase esquina do quarteirão há um senhor de idade.

Nada mais autêntico que um senhor de idade preocupado com seu jantar.

Tudo se resolveria se fosse agora um desses velhos que andam no centro.

Se, por exemplo fosse aquele idoso que remexe seus bolsos, escolheria qualquer ônibus e entraria, acomodando-me entre os passageiros. Ficaria ali próximo, compartilhando do que se discute. Jovens conversando sobre automóveis e mulheres, enaltecendo umas e depreciando outras, ao passo que algumas ouvindo próximas, ajeitavam seus vestidos; empresários pensando nos negócios e alguns crentes na palavra de Deus.

Tudo trivialidades para o supremo que ali se achava.

 Se no mundo houvesse pessoas mais zelosas, alguma poderia perguntar ao mestre:

“_ O que deseja neste momento o senhor ? “

O que ele responderia de imediato, com a franqueza dos perfeitos:

“ _ Que o trajeto do ônibus demore o máximo possível ! “

 

À este homem me ajoelho.

Ele, que meus sofrimentos são igual nuvens, distrações pueris. Vê como me preocupo: com a aparência, com o reconhecimento social, o conforto da amizade, o amor das mulheres, o bem-estar da família e da casa.

Tudo isso este nobre cavalheiro perdeu: seu rosto enrugara-se, onde vai é passado despercebido, os grandes amigos partiram, seus familiares encontram-se nos atarefados e urgentes compromissos da vida, nele não há mais lugar para jogos ou fantasias amorosas, nem interesse político ou expectativas sociais.

No entanto, ele é mais bonito, sincero e importante que qualquer um de nós.

Acenderei uma vela essa noite com a esperança de em breve ser  também um

desses idosos.

 

Vejo um crucifixo na parede de um banco.

Disse que meu desejo último é igualar-me à Jesus.

 Nego.

Se pudesse hoje ser outra pessoa, seria Gandhi.

Não ele em desertos e em penosas meditações, mas o Mahatma na capa da Time,

em algum edição do pós-guerra.

 

Estampada a manchete com os dizeres:

A FORÇA DE UM ÚNICO HOMEM FOI CAPAZ DE DERROTAR O IMPÉRIO BRITÂNICO.

 

Voltando às escadas de minha casa vejo que é preciso me recolher.

Antes tomarei um banho morno.

Há quanto tempo não tomo um gostoso banho antes de me deitar.

A rua tomou-me por demais.

Esquecerei as opiniões precipitadas sobre lugares e as pessoas.

Quero somente despertar amanhã novamente.

Espero que quando estiver dormindo, visitando agradáveis sonhos, um louva-deus entre  zombeteiramente pela janela e jogue em cima de mim um feitiço, que faça com que eu me torne mais lento.

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