I – A paixão que nasce

No meu seio será meu
Para o uso que eu quiser.
Nos teus braços me abandono,
Ao teu lado sou mulher.

1. Uma gota de sangue

Aquele era o seu pior inimigo. O mais cruel, o mais cínico, o mais impiedoso. Um inimigo que falava a verdade. Sempre. Sempre a verdade. Toda aquela verdade que conhecia muito bem e que nunca abandonava.
Ainda com a escova de cabelo na mão, não podia deixar de encará-lo. Lá estava ele, encarando a garota de volta, com os próprios olhos da menina. De um lado, eles estavam molhados. Do outro, refletiam-se gelados, vítreos, sem compaixão.
- Feia...
sufocou um soluço.
- Gorda...
Uma lágrima formou-se na pontinha da pálpebra.
- Que óculos horrorosos...
Como um bichinho que foge, a lágrima saiu da toca e foi esconder-se no aro dos óculos.
- Você plantou uma rosa no nariz, é?
- Cale a boca... Por favor...
Já mais grossa, a lágrima livrou-se dos óculos e escorreu pelo rosto de .
- Sabe que essa rosa vai ficar amarela? Amarela e grande...
A lágrima penetrou-lhe pelos lábios e reconheceu aquele gosto salgado, tão comum e tão amargo em momentos como aquele.
- Por favor... Me deixe em paz...
- Você vai espremer a rosa amarela. O seu nariz vai inchar...
Os lábios de apertaram-se, molhados, sem palavras. Aquela garota, que sempre tinha resposta para tudo, sempre uma gozação na hora certa, uma tirada de gênio que deixava qualquer provocador sem graça, não sabia o que dizer quando seu grande inimigo apontava sadicamente cada ponto fraco que havia para apontar.
- ... E você vai ter vergonha de voltar às aulas na semana que vem...
- Cale a boca!
A raiva foi tanta que a escova de cabelo voou com força, acertando o inimigo em cheio, bem na cara.
- ! Vem cá. Morreu aí no banheiro, é?
O chamado penetrou-lhe os ouvidos, acordando a menina do pesadelo que ela sofria acordada. A voz irritante da mãe, estridente como uma campainha de despertador. Devia estar com enxaqueca, como sempre. Na certa ia reclamar de alguma coisa, exigir que a filha respeitasse pelo menos sua dor de cabeça, queixar-se de...
O combate com o inimigo estava suspenso, por hora. sacudiu a cabeça, como se despertasse, e esfregou o rosto, apagando as marcas da luta. Uma última olhada para o inimigo. Ele a olhou de volta, agora com uma rachadura de alto e baixo.
“Sete anos de azar!”, pensou . “Será que minha mãe quebrou dois espelhos quando eu nasci?”
- ! – ainda mais irritada, a voz da mãe invadiu o banheiro. – Não me ouviu chamar?

(...)

A mãe apertava as têmporas com as mãos, como se a cabeça fosse cair se ela largasse,
- Você sabe que eu não posso gritar, . Você devia...
- Está bem, mãe. O que você quer?
- Ai, ai. Tia Denise acabou de telefonar. É aniversário do e ela faz questão que você vá.
- ? Que ?
- O seu primo, ora. Não se lembra dele? Vocês brincavam tanto...
- Ah, mãe! Isso já faz um século...
- É, faz tempo mesmo. Também, Denise foi casar-se com um homem que não para em nenhum lugar! Não sei o que tanto tem aquele sujeito de se mudar de cidade. Mas parece que desta vez vai sossegar. Ele está bem de vida, agora. Montou uma casa que é uma beleza. Denise vai fazer uma festa para o que...
- Que droga! Aniversário de criança!
- é mais velho que você, .
- Eu não quero ir.
- Não discuta, . Minha cabeça está me matando!

(...)

- É claro que eu vou! – concordou , do outro lado da linha – As férias estão no fim mesmo, e os programas andam raros. Acho até gozado: sempre sou eu quem tem de arrastar você para alguma festa, mas você sempre arranja uma desculpa, sempre tem que estudar...
- Acontece que eu não quero ir sozinha, . – desculpo-se como se estivesse convidando a amiga para uma sessão de tortura. – Minha mãe “exige” que eu vá. É aniversário do , um primo que eu não vejo há anos. Dizem que sempre foi o melhor aluno da classe. Um chato! E o pior é que ele foi transferido para o nosso colégio. A partir de segunda-feira, vou ter que conviver com o chatinho a vida inteira. Faltam só dois dias... A festa deve ser tão chata quanto ele. A gente fica só um tempinho e...
- Já disse que vou, . Uma festa é uma festa. E esta não deve ser mais chata do que as outras...

(...)

Lá estava ele de novo. O inimigo, agora rachado de cima a baixo, dizendo para que ela ficava medonha com aquela blusa, que seu cabelo estava um lixo, que todo mundo ia rir dela na festa...
- Todos riem, não é? Só que eu nunca dou tempo para que riem de mim. Eles têm de rir do que digo. Têm de rir comigo, na hora em que eu quero que eles riam. Todo mundo ri do que eu digo, não é? , a grande brincalhona! a contadora de casos. Vamos, riam todos com !
Levemente, seus dedos tocaram a face fria do inimigo, bem na rachadura. Lentamente, seus dedos percorreram a borda quebrada, tateando como um cego que procura reconhecer alguém.
- Todos riem... Mas eu não queria tantos risos. Eu queria um sorriso apenas. Um só. Queria estar quieta e ver alguém aproximar-se, olhando nos olhos... sorrindo... Eu sorriria de volta, e nada mais precisaria ser dito.
deixou as lágrimas correrem fartas pelo rosto. Foi aí que o inimigo resolveu feri-la mais fundo e cortou-lhe o dedo com a borda da rachadura. Num gesto maquinal, a menina levou o dedo á boca, chupando o ferimento. Na rachadura, no peito do inimigo, ficou uma gota de sangue.
O dedo não doía quase nada. Era ali que doía.

2. Lindo como um deus

- Que cheiro com, ! Que perfume você está usando?
- Deixe de besteira, . É o mesmo que o seu.
estava linda, como sempre. Linda como de propósito para humilhar .

(...)

Realmente era linda a casa da tia Denise. O que não combinava com aquela beleza toda era a própria tia Denise. Recebia os convidados como se fosse ela que estivesse fazendo aniversário. E o pior é que ela estava vestida como se ainda fosse uma adolescente.
- ! Há quanto tempo! Como você está crescida... Está uma mocinha perfeita!
“E a senhora não está nem uma mocinha perfeita!”, pensou enquanto aceitava os beijinhos da tia.
- E essa lindeza, quem é?
- É , minha amiga. Pensei que a senhora não se importaria se...
- Oh, mas é claro que não me importo! Você fez muito bem em trazê-la. vai adorar mais uma linda menina na festa. Mas entrem, entrem!
De fora, já podia ouvir o som ligado naquele volume “chega-de-papo”. Monotonamente, o surto da bateria reboava como se dissesse “não entre... Não entre...”
apertou a mão de e arrastou a amiga atrás da dona da casa.
As dimensões do salão perdiam-se nos cantos escurecidos pela iluminação precária, cheia de clarões piscantes, destinados a excitar os espíritos. Corpos sacudiam-se ao ritmo de uma som frenético, meio misturados numa massa multicor que formava um bloco único, anônimo, como a representação de um inferno alegre, alucinante...
Tia Denise falava sem parar, apontava para todos os lados e ria muito, mas nenhum som humano poderia sobrepor-se àquela loucura.
- A senhora é mais ridícula do que eu esperava! – riu-se também , aproveitando-se da oportunidade de acobertar a fraqueza debaixo daquele som infernal.
- Hein?
- Eu disse que a senhora é ridícula!
- Desculpe, querida, mas eu não ouço nada com essa música... Oh, veja quem vem vindo!
Mesmo sem entender direito o que estava sendo dito, voltou a cabeça para onde a tia apontava.
Da massa confusa de dançarinos, uma figura destacava-se.
Foi como se os mais ousados sonhos de tivessem tomado corpo e forma.
Corpo e forma de sonho.
O sonho dos sonhos de .
Ele se aproximou, com aquela luz maluca fazendo brilhar sues dentes e o branco dos olhos.
E que dentes!
E que olhos!
Tia Denise ria mais ainda e apontava o rapaz, papagueando sempre. Pouco ou nada dava para se entender, por mais que a ti berrasse. Mas praticamente adivinhou, praticamente leu nos lábios da tia a palavra-chave daquele discurso:
- ... ...
! Aquele era !
Na memória de , só havia o registro distante de um primo entre tantos, talvez um daqueles moleques briguentos que só pensava em futebol. Mas o moleque tinha se transformado.
- Como é o nome daquele deus grego? – raciocinou em voz alta, acobertada pelo som da festa – Dionísio? Apolo? Adônis? Não importa. Vou chamá-lo “sonho”!
- Hein?
Tia Denise berrava para o filho e apontava as duas amigas. disse alguma coisa, bem-humorado, e abraçou , apertado. Tia Denise sacudiu a cabeça várias vezes e indicou . O rapaz falou novamente, rindo sempre, e voltou-se para a garota certa.
sentiu-se enlaçada por aqueles braços, e o rosto do garoto colou-se ao dela.
- Oi, prima. Como você ficou linda... – bem próximo ao ouvido de a voz quente de envolveu-a, claramente, distintamente, fazendo-a surda a qualquer outro som.
- Linda?! – sussurrou a menina, surpresa e enlevada – Eu? Sou linda? Você disse que eu sou linda?
Mesmo colado a ela, não entendeu o sussurro. E, como se fosse um confeiteiro colocando uma cereja como um toque final de gênio sobre a torta mais apetitosa, o rapaz beijou o rosto de com força, fazendo estalar seus lábios.
A luzes, as cores e o sangue de misturaram-se numa vertigem gostosa, e o ímpeto da menina foi fechar os olhos e colocar-se na pontinha dos pés, oferecendo os lábios a .
Mas, em vez disso, o que foi rir alto, dizendo qualquer coisa, como se fosse a piada mais engraçada do mundo...
- , era você que eu estive esperando a vida toda...
Como se aquilo fosse um jogo, o rapaz falava também, rindo, sem entender nada do que ouvia.
- Sonho. O meu sonho. Você é o meu sonho feito homem...
Ainda segurando os ombros de , ria muito.
- Eu nasci para amar você, meu sonho...
Naquele instante, a música chegou ao fim, e a palavra “sonho” ressoou claramente pelo salão.
- Hein? Sonho? O que você disse?
- Nada, primo...
Os acordes da música lenta, romântica, iniciaram uma nova seleção, preparada para secar o suor dos dançarinos. esperou novamente o calor do abraço de , pronta a deslizar pelo salão ao seu comando, não importava para onde ele a guiasse. Ao infinito, talvez...
- E esta gatinha aqui, quem é?
- Hã? Ah! É , minha amiga...
- Então vamos nos apresentar, .
E foi que aqueles braços envolveram e carregaram para misturar-se á nova massa que se formava, agora numa forma lenta, arfante.
Tia Denise já desaparecera. A música desta vez não encobria a voz, e foi num sussurro que falou:
- , devolva meu sonho...

(...)

Maquinalmente, tinha apanhado um copo de uma bandeja que alguém lhe estendera. O líquido estava amargo demais para um refrigerante, e aquele já devia ser o terceiro copo que aceitava. Ou talvez fosse o quarto.
Tinha escapado silenciosamente pela porta-janela envidraçada que dava para o jardim e agora estava na penumbra, sozinha, com seu copo, vendo de fora o grupo de dançarinos consumir uma após outra, as músicas da seleção romântica. Com aquela iluminação, não era possível distinguir ninguém, mas via, em todos os casais, um só par de namorados.
A porta-janela era como uma tela de cinema. Sozinha, no escuro da platéia, assistia àquele filme, imaginando a história, criando cada fala, cada cena.
Interrompendo o filme, na tela iluminada surgiu uma silhueta que não fazia parte do enredo. A silhueta caminhou até ela.
- Oi. É uma festa particular? Por que não me convida?
A luz do salão iluminou o rosto do rapaz á sua frente, que a olhava nos olhos, sorrindo.
desviou o olhar e por um momento odiou aquele rapaz que vinha distraí-la em sua sentinela.
- Eu sou o . E você?
- Eu? Sou a ilusão...
- É um nome estranho para quem está sozinha. A ilusão nunca anda sozinha...
- Pode me chamar de cretina, então. É o meu apelido.
- Cretino é aquele que crê em tudo o que ouve. Você não acredita em tudo?
- Eu? Não. Só naquilo que me ilude.
- Acreditaria se eu dissesse que é a garota mais linda da festa?
- Não. Eu diria que você está zoando comigo e o esbofetearia.
- Seria uma nova experiência ser esbofeteado pela ilusão.
- Ou por uma cretina...
- Você tem resposta para tudo, não é?
- Não. Só para quem tem pergunta para tudo.
entornou rapidamente o resto do copo e o líquido escorreu quente, queimando tudo por onde passava.
- Quer outro refrigerante? Vou buscar.
afastou-se e aproveitou para internar-se no jardim, escondendo-se na sombra.
Pela porta-janela saía o vulto de um casal abraçado. Impossível reconhecê-los sob a pouca luz do jardim, mas adivinhou. Eram eles. Só podiam ser e . Viu quando a menina ergueu o rosto e quando o rapaz a envolveu num beijo longo, definitivo. Apenas duas silhuetas. Mas só podiam ser os dois. Ai...
Dentro da cabeça de , os vapores da bebida explodiram, lançando fogo através de todas as veias e artérias. O mundo osculou de repente, e a menina sentiu a terra úmida contra o rosto.
Não perdeu a consciência, mas não conseguia mover-se. Tudo sentia, porém. Parece até que sentia mais do que nunca. Percebia a grama a picar-lhe o rosto e os braços fortes que começavam a levantá-la. Não conseguia falar, mas seu cérebro vibrava, excitava-se, pulsava como um coração:
... Você veio...” Apertou-se intensamente contra o peito que a amparava. O calor daquele corpo forte deu-lhe febre e seus lábios espremeram-se loucamente contra aquela pele quente, com cheiro de colônia masculina. Uma correntinha roçou-lhe o rosto e ela ergueu a cabeça, oferecendo os lábios úmidos, ávidos, desesperados...
Uma boca maravilhosa colou-se á dela, enquanto o vigor daqueles braços a apertava com loucura. Sentiu-se morrer de felicidade e o mundo apagou-se com o nome adorado estourando em sua cabeça como um coro de anjos.
...”

3. Um domingo de espera

- Como eu fui idiota! Como eu sou idiota! Fiquei escondida naquele jardim, como uma idiota, imaginando, como uma idiota, que estava dançando com a festa inteira. Pobrezinho, vai ver ficou o tempo todo me procurando... Até me encontrar no jardim, bêbada como uma idiota!
- Idiota... – xingou o inimigo rachado. – E se ele ficou mesmo com a Rosna a festa inteira?
- Cale-se! E por que ele foi me procurar no jardim? Por que me beijou? Ah, eu posso morrer agora, mas aquele beijo ninguém vai tirar de mim!
Aquele beijo... ainda sentia os lábios queimando e as narinas embriagadas com aquele cheiro de sonho.
Tia Denise tinha se incumbido de levá-la para casa e acordara, naquele domingo, com enjoo de ressaca e gosto de na boca.
A manhã começou mal, naturalmente, com a mãe piorando da enxaqueca e lamentando-se pelo que diriam os vizinhos ao ver sua filha – uma pirralha! – chegar em casa bêbada como uma porca.
- Ah, se seu pai fosse vivo, você ia ver o que ia lhe acontecer!
- Mas papai está vivo!
- Não. Para mim, ele está morto. Com aquela sujeitinha, para mim ele está morto!
- Mortos não mandam cheques, mamãe...
Tudo, afinal, tinha passado, menos a lembrança daquele beijo. Menos a lembrança de . Pensou em telefonar para ele mas, se ligasse, o que iria dizer? Na certa acabaria nervosa, fazendo alguma de suas brincadeiras, e estragaria tudo. Não, tudo não. Não havia o que pudesse estragar o que tinha começado com aquele beijo. Aquele beijo fora um compromisso. Não por ser um beijo, mas por ter sido um beijo como aquele.
tinha pressa. É claro que tinha pressa. Era preciso reencontrar para não largá-lo nunca mais. Mas era domingo, dia-de-sair-com-papai. Essa era oura razão para esperar mais um dia, o dia que separava a descoberta do homem dos seus sonhos e o reinício das aulas. O início de uma nov vida. Uma vida com .
Pensou em escrever. Uma carta, talvez. Ou mais. Um texto onde ela poria de tudo, desde versos nascidos da paixão até pequenas confissões, como se quisesse pôr-se a limpo, exibir sua alma nua, preencher um passaporte para que a tomasse, a levasse embora e nunca mais a deixasse voltar.
Escrever ela sabia. No colégio, ninguém podia disputar com ela na hora de falar e de escrever. Ah, se pudesse ela usaria aquele domingo apenas para pensar, para repassar cada momento daquele encontro estonteante, daquela felicidade imensa.
Os domingos, porém, não eram de , nem para escrever, nem para pensar. Os domingos eram de papai.
Quando a buzina soou, deu a última olhada para o inimigo, mostrou-lhe a língua e foi ao encontro do pai-de-todos-os-domingos.

(...)

- Papai, você me acha linda?
O restaurante estava lotado Há quantos domingos, em quantos restaurantes já almoçara com o pai, desde que a “sujeitinha” o havia arrancado de casa? Talvez esse número não tivesse tanta importância se a menina não viesse percebendo que, a cada domingo, caía a qualidade do restaurante.
Mas ainda era em dinheiro o que pai lhe falava todos os domingos, e era em dinheiro que ele estava falando quando foi surpreendido pela pergunta da filha.
- Hein? É claro que eu acho. Você é a princesa do papai. A garotinha mais linda do mundo!
- Ah, não. Como garotinha não, papai. Quero saber se você me acha uma mulher linda!
estava feliz como nunca. Queria fazer algo de bom, algo grande, para dividir sua felicidade com alguém.
- Papai, eu quero conhecer a Lúcia.
Lúcia, a sujeitinha. Imagem de bruxa e megera inculcada e sua cabeça pelos lamentos da mãe. A mãe, abandonada à sua enxaqueca e á pensão mensal que garantia à menina as refeições de todos os dias, mas que já estava comprometendo a qualidade dos almoços de domingo.
- A Lúcia? Mas você sempre se recusou a...
- Isso foi antes, papai. O antes acaba passando. Hoje eu me sinto diferente. Acho que quero fazer todas as pazes que puder. Vamos começar pela Lúcia?
O pai passou o guardanapo pelos lábios e pareceu subitamente interessado no exame do paliteiro.
- Sabe, ... Eu estava esperando o momento certo para lhe contar. É que... Eu não estou mais com a Lúcia...
“Não está mais com a sujeitinha?”, pensou . “Então o serviço de informações da mamãe perdeu essa fofoca?”
- Talvez sua mãe tivesse razão. A Lúcia era... Bem... Mas eu encontrei alguém realmente legal. O nome dela é Helena. Você vai gostar dela. Hoje não é possível, porque ela foi visitar os filhos do primeiro casamento, já que eu ia sair com você. Mas, no próximo domingo, eu vou...
interrompeu o pai tocando-lhe delicadamente os lábios cm a ponta dos dedos e sorriu:
- É melhor não fazer planos, papai. No domingo que vem, talvez não seja mais Helena. Pode ser Márcia, ou Cristina, ou...
- ! – Você não devia...

(...)

“Como será que papai conheceu essa Helena? E a Lúcia? E a mamãe? Será que encontrou alguma delas bêbada, caída na grama de algum jardim? Será que tudo começou com um beijo? Um beijo como o do ?”
À noite, abraçada ao travesseiro, um só nome ocupava todo o ser de .
...”
Não conseguiu lembrar-se do primo em meio às pálidas recordações dos garotos de sua infância. Teria sido aquele que se divertia batendo nos menores? Ou aquele outro que teimava em tentar tirar sua calcinha?
- Quer tirar minha calcinha agora, ? (n.a: sem comentários para essa frase :x)

4. A primeira marca

- Oi, ! Nem telefonei para você ontem por que...
cegou atrasada na classe, como sempre. A professora já estava entrando, e só teve tempo para uma frase:
- Eu tenho uma coisa maravilhosa para te contar, !
- É? Eu também tenho uma novidade que vai fazer você cair dura, !
- Depois a gente fala.
Física! Uma matéria nova, como deveria ser novo naquele início de ensino médio. Tinha jeito de matemática. Naquele momento, porém, o que precisava era de uma boa aula de literatura, com poemas de Fernando Pessoa, Vinicius, Eduardo Alves da Costa, João Cabral...
, naquele momento, também estaria assistindo à sua primeira aula, e pensou e fingir que não entendia a tal física para, mais tarde, tomar algumas aulas particulares com ele. Sempre o primeiro da classe não foi isso que lhe disseram? Mas não era sobre física que a menina gostaria de conversar com . Ah, não era não!
A professora procurava conquistar a classe, mostrando-se simpática e engraçada. Simpática até que ela era, mas decididamente não era engraçada.
Distraída, deixava a caneta deslizar pela folha. Devia tomar notas, mas as palavras que lhe entravam pelos ouvidos chegavam totalmente transformadas às pontas de seus dedos.
- ... A física estuda a relação que existe...

Neste físico de um deus grego,
Numa intensa relação,
Eu, pálida e bêbada, tremo
E me afogo e me sufoco
Entre loucura e paixão...

- ... Entre a matéria e a energia...

Quero fundir meu corpo
No teu corpo junto ao meu.
Nos teus braços serei cega
Pra que sejas o meu guia.
Nós seremos a matéria,
Nosso amor será a energia...

- ... A energia afeta a matéria...

Se esse amor me modifica,
Me transforma, me edifica,
Se ele afeta tanto a mim,
Também te transformará.
A energia desse amor
Afetou-nos para sempre,
A matéria que hoje somos
Outra matéria será...

- ... E a matéria afeta a energia...

Seremos dois novos amantes
Pelo amor energizados,
Transformados,
Mas em quê?
Quem eras antes de mim?
Quem sou depois de você?

- ... Esse processo de transformação é o objetivo...

No meu seio será meu
Para o uso que eu quiser.
Nos teus braços me abandono,
Ao teu lado sou mulher...

(...)

O sinal veio interromper a aula e o poema. A aula seguinte seria inglês, e a classe se dividiria, misturando-se a grupos de outras séries, de acordo com o nível de conhecimento de cada aluno. estudava inglês há tempos e, por isso, fora selecionada para a turma mais adiantada.
Pensou em entregar o poema ao . Destacou a folha do bloco e guardou-a cuidadosamente dentro do fichário. Nem assinou. Assinar para quê? Não havia duas pessoas no mundo que pudessem ter escrito o que estava naquele papel.
Acenou para , que no inglês ficara numa turma mais fraca, e correu para a sala, pretendendo conseguir um lugar bem no fundo, onde pudesse recolher-se à sua ideia fixa. À ideia maravilhosa de .
!”
Foi a primeira imagem, em carne e fascinação, que surgiu diante dos olhos de . sorriu lindo, lindo sorriso, lindo , e a menina vacilou por um momento.
Pronto. Estava sentada na primeira fileira, longe de e ao alcance da respiração do professor de inglês.
Idiota! Agora nem podia olhar para sem chamar atenção. Mas ele estaria olhando para ela, o tempo todo. Até podia sentir o calor daquele olhar em sua nuca. Cerrou os olhos e recebeu a atenção de como se fosse um beijo. Um beijo suave, longo e quente.. Um beijo do .
- I think we could begin by reviwing the difective verbs. Of course, during the vacation you’d forget most of your English, didn’t you?
À frente de , o professor iniciou a aula, falando com aquele mesmo tom amistoso de todo início de ano letivo. Em poucos dias, ele, na certa, estaria aos gritos, pedindo silêncio em português.
Por cima do ombro de , a mão de um colega passou-lhe furtivamente um papelzinho dobrado. Com todo o cuidado, para que o professor não notasse, a menina desdobrou o papel no colo, por baixo da carteira. Foi como se um anjo tivesse surgido de camisola branca e trombeta de ouro para anunciar-lhe o paraíso.

Priminha querida,
Preciso muito falar com você. Onde poderemos conversar sossegados? Te adoro!

.

- It’s easy, isn’t it? But you mustn’t forget that there’s no rule to help you use those verbs...
“Ele quer falar comigo... Comigo!”, pensou a menina, sentindo-se quase febril.
Rabiscou rapidamente quatro palavras – Me encontre no laboratório – em uma folha, dobrou-a e passou para o colega de trás.
- You must practice, in order to know wich tense hás to be employed without the need of...
A torrente de palavras estrangeiras perdeu o sentindo para , enquanto as palabras de penetravam-lhe como se fossem vírus caindo em suas veias, misturando-se ao seu sangue e indo infectar-lhe o coração.
“Neste momento, ele deve estar igualzinho a mim, pensando em mim. Vamos pensar juntos, um no outro, . Será como se estivéssemos de mãos dadas...”
Num repente, baixou a cabeça e beijou o bilhete. Ao olhar novamente para aquela letra apressada, notou que uma marca redondinha tinha acabado de borrar a palavra adoro. Era a marca de uma lágrima. De felicidade...
- Eu também te adoro, meu amor. – balbuciou ela, apertando o bilhete contra o peito.



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