
Tomás Antônio Gonzaga
| Lira XXI Não sei, Marília, que tenho, Depois que vi o teu rosto; Pois quanto não é Marília, Já não posso ver com gosto. Noutra idade me alegrava, Até quando conversava Com o mais rude vaqueiro: Hoje, ó Bela, me aborrece Inda o trato lisonjeiro Do mais discreto pastor Que efeitos são os que sinto? Serão efeitos de Amor? Saio da minha cabana Sem reparar no que faço: Busco o sítio aonde moras, Suspendo defronte o passo. Fito os olhos na janela, Aonde, Marília bela, Tu chegas ao fim do dia; Se alguém passa, e te saúda, Bem que seja cortesia, Se acende na face a cor. Que efeitos são os que sinto? Serão os efeitos de Amor? Se estou, Marília, contigo, Não tenho um leve cuidado; Nem me lembra se são horas De levar à fonte o gado. Se vivo de ti distante, Ao minuto, ao breve instante Finge um dia o meu desgosto: |
Jamais,
Pastora, te vejo Que em seu semblante composto Não veja graça maior. Que efeitos são os que sinto? Serão os efeitos de Amor? Ando já com o juízo, Marília, tão perturbado, Que no mesmo aberto sulco Meto de novo o arado. Aqui no centeio pego, Noutra parte em vão o sego: Se alguém comigo conversa, Ou não respondo, ou respondo Noutra coisa tão diversa, Que nexo não tem menor. Que efeitos são os que sinto? Serão os efeitos de Amor? Se geme o bufo agoureiro, Só Marília me desvela, Enche-se o peito de mágoa, E não sei a causa dela. Mal durmo, Marília, sonho Que fero leão medonho Te devora nos meus braços: Gela-se o sangue nas veias, E solto do sono os laços À força da imensa dor. Ah! que os efeitos, que sinto, Só são efeitos de Amor.
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