Trovas à morte de Inês de Castro

Garcia de Resende – 1516

 

 

Senhoras, se algum senhor

vos quiser bem ou servir

quem tomar tal servidor

eu lhe quero descobrir

o galardão do amor.

 

Por sua Mercê saber

o que deve de fazer

vej’o que fez esta dama,

que de si vos dará fama

se estas trovas quereis ler

 

Qual será o coração
tão cru e sem piedade,
que lhe não cause paixão
uma tão grã crueldade
e morte tão sem razão?

 

Triste de mim, inocente,
que, por ter muito fervente lealdade, fé, amor
ao príncipe, meu senhor,
me mataram cruamente!

 

A minha desaventura
não contente d’acabar-me,
por me dar maior tristura
me foi pôr em tant’altura,
para d’alto derribar-me;

 

Que,se me matara alguém,
antes de ter tanto bem,
em tais chamas não ardera,
pai, filhos não conhecera,
nem me chorara ninguém.

 

Eu era moça, menina,
por nome Dona Inês
de Castro, e de tal doutrina
e virtudes, qu’era dina
de meu mal ser ao revés.

 

Vivia sem me lembrar
que paixão podia dar
nem dá-la ninguém a mim:
foi-m’o príncipe olhar,
por seu nojo e minha fim.

Começou-m’a desejar

trabalhou por me servir;

Fortuna foi ordenar
dous corações conformar
a uma vontade vir.

 

Conheceu-me, conheci-o,
quis-me bem e eu a ele,

perdeu-me, também perdi-o; nunca té morte foi frio
o bem que, triste, pus nele.

 

Dei-lhe minha liberdade,
não senti perda de fama;
pus nele minha verdade,
quis fazer sua vontade,
sendo mui formosa dama.

 

Por m’estas obras pagar
nunca jamais quis casar;
pelo qual, aconselhado
foi el-rei qu’era forçado,
pelo seu, de me matar.

 

Estava mui acatada,
como princesa servida,
em meus paços mui honrada,

de tudo mui abastada,
de meu senhor mui querida.

 

Estando mui de vagar,
bem fora de tal cuidar,
em Coimbra, d’assossego,

pelos campos do Mondego cavaleiros vi somar.

 

Como as cousas qu’hão de ser logo dão no coração,
comecei entristecer
e comigo só dizer:
“Estes homens onde irão?”

 

E tanto que perguntei,
soube logo qu’era el-rei.
quando o vi tão apressado,
meu coração trespassado
foi, que nunca mais falei. 

E quando vi que descia,
saí a porta da sala,
devinhando o que queria;
com grão choro e cortesia
lhe fiz uma triste fala.

 

Meus filhos pus de redor
de mim com grande humildade;
mui cortada de temor
lhe disse: - “Havei, senhor,

desta triste piedade!

 

“Não possa mais a paixão
que o que deveis fazer;
metei nisso bem a mão,
qu’é de fraco coração
sem porquê matar mulher;

 

Quanto mais a mim, que dão

culpa não sendo razão,
por ser mãe dos inocentes

qu’ante vós estão presentes,
os quais vossos netos são.

 

“E tem tão pouca idade
que, se não forem criados
de mim, só com saudade
e sua grande orfandade
morrerão desamparados.

 

Olhe bem quanta crueza
fará nisto Voss’Alteza,
e também, senhor, olhai
pois do príncipe sois pai,
não lhe deis tanta tristeza.

 

“Mas, pois eu nunca errei
e sempre mereci mais,
deveis, poderoso rei,
não quebrantar vossa lei,
que, se morro, quebrantais.

 

Usai mais de piedade
que de rigor nem vontade,

 havei dó, senhor, de mim,
não me deis tão triste fim,
pois que nunca fiz maldade!”

 

El-rei, vendo como estava,

houve de mim compaixão
e viu o que não olhava:
qu’eu a ele não errava
nem fizera traição.

 

E vendo quão de verdade
tive amor e lealdade
ao príncipe, cuja são,
pôde mais a piedade
que a determinação.

 

Que, se m’ele defendera
que seu filho não amasse,
e lh’eu não obedecera,
então com razão pudera
dar-m’a morte qu’ordenasse;

 

Mas vendo que nenhum’hora,
dês que nasci até’gora,
nunca disso me falou,
quando se disto lembrou,
foi-se pela porta fora.

 

Com seu rosto lagrimoso,
co propósito mudado,
muito triste, mui cuidoso,
como rei mui piedoso,
mui cristão e esforçado.

 

Um daqueles que trazia
consigo na companhia,
cavaleiro desalmado,
de trás dele, mui irado,
estas palavras dizia:

 

“-Senhor, vossa piedade

é digna de repreender,
pois que, sem necessidade, mudaram vossa vontade

lágrimas duma mulher.

 

E quereis qu’abarregado,
com filhos, como casado,
estê, senhor, vosso filho?
De vós mais me maravilho
que dele, qu’é namorado.

 

“Se a logo não matais,
não sereis nunca temido
nem farão o que mandais,
pois tão cedo vos mudais
do conselho qu’era havido.

 

Olhai quão justa querela

tendes, pois, por amor dela, vosso filho quer estar
sem casar e nos quer dar
muita guerra com Castela.

 

“Com sua morte escusareis muitas mortes, muitos danos,

vós, senhor, descansareis,
e a vós e a nós dareis
paz para duzentos anos.

 

O príncipe casará
filhos de benção terá,
será fora de pecado;
qu’agora será anojado,
amanhã lh’esquecerá.”

 

E ouvindo seu dizer,
el-rei ficou mui torvado
por em tais estremos ver,
e que havia de fazer
ou um ou outro, forçado.

 

Desejava dar-me vida,
por lhe não ter merecida
a morte nem nenhum mal:

sentia pena mortal
por ter feito tal partida.

 

E vendo que se lhe dava
a ele tod’esta culpa,
e que tanto o apertava,
disse àquele que bradava:
“-Minha benção me desculpa.

 

Se o vós quereis fazer,
fazei-o sem mo dizer,
qu’eu nisso não mando nada,

nem vejo essa coitada
por que deva de morrer.”

 

Dous cavaleiros irosos,
que tais palavras lh’ouviram,

mui crus e não piedosos,

perversos, desamorosos,
contra mim rijo se viram;

 

com as espadas na mão m’atravessam o coração,
a confissão me tolheram:
este é o galardão
que meus amores me deram.

 

Análise de: Cantiga sua partindo-se

 

ESTRUTURA EXTERNA

            O poema é constituído por um mote de quatro versos e uma glosa de nove versos, repetindo-se o último verso do mote no final da glosa. Trata-se, portanto, de uma cantiga. Apresenta o seguinte esquema rimático: ABAB CDCCDABAB. No mote, as rimas são cruzadas; na volta, há rima emparelhada entre o 7º e o 8º versos, interpolada entre o 6º e o 9º e rimas cruzadas nos restantes. Os versos são todos de redondilha maior (7 sílabas), graves e agudos. O ritmo é binário, pelo facto de todos os versos possuírem dois acentos rítmicos.

TEMA E DESENVOLVIMENTO

            Como é habitual neste tipo de poemas, o tema (tristeza decorrente da partida) é expresso de forma sintética no mote ("Senhora, partem tam tristes / meus olhos por vós...") e desenvolvido na glosa. Assim, a estrutura externa (mote e glosa) determina a estrutura interna (tema e desenvolvimento.

            O discurso poético dirige-se de um "Eu" (o sujeito poético) para um "Vós", identificado pela dupla apóstrofe inicial ("Senhora", "meu bem"). A interpelação do destinatário à cabeça do poema confere-lhe um caráter apelativo, revelando o verdadeiro objetivo do poeta: exprimir os seus sentimentos, é certo; mas principalmente comover, com a exposição deles, a amada. O sujeito poético adota, portanto, uma postura de dependência - de quem não ousa pedir, mas apenas sugerir - que faz lembrar a dos trovadores face à sua dama, prova de que algo da estética provençal foi incorporado na tradição poética e perdurou através dos tempos.

            No entanto, o sujeito poético é apenas explicitamente referido no segundo verso do mote ("meus olhos"), para logo se diluir, centrando-se o discurso, a partir daí, nos olhos, que, para o efeito, são personificados . De fato, são os olhos que partem ("...partem tam tristes / meus olhos...") e é deles que o poeta fala sempre, no decurso do poema.

            A utilização dos "olhos" como elemento polarizador da vida afectiva, tão freqüente em poesia, tem uma evidente justificação psicológica. Sendo, objectivamente, a principal porta de comunicação com o mundo exterior, tendemos todos a ver neles como que uma janela através da qual podemos vislumbrar o interior do outro. Não é por acaso que são considerados o "espelho da alma". Quando as palavras são insuficientes, é nos olhos que procuramos a confirmação do que desejamos ou receamos.

            Mas é com as palavras que os poetas trabalham e, antes de chegar ao fim do mote, o sujeito poético procura exprimir a intensidade do seu sofrimento de forma hiperbólica ("...nunca tam tristes vistes / outros nenhuns por ninguém"). A hipérbole é outro recurso estilístico com raízes psicológicas profundas e por isso utilizado com muita frequência, até na comunicação quotidiana. De facto, o exagero é um processo espontâneo de afirmação veemente. Apresentado o tema, vem o seu desenvolvimento.

            A glosa retoma exactamente a afirmação do mote, agora apresentada de uma forma mais elíptica : o sujeito e o verbo (meus olhos partem) são omitidos e fica apenas esta expressão adjectiva, mais curta e incisiva, como uma pancada que nos abala interiormente - "Tam tristes". E segue-se uma extensa (dado o tamanho do poema) acumulação de adjectivos, com os quais se pretende sugerir a intensidade do sofrimento: saudosos, doentes, cansados, chorosos, desejosos (da morte).       

            Naturalmente, esses adjectivos possuem um valor semântico fortemente disfórico, de forma a descreverem o profundo mal-estar em que o sujeito se encontra. A enumeração apresenta-se sob a forma de gradação , dispondo-se num crescendo que vai do óbvio "triste" até o "desejosos" da morte. Além disso, cada um dos adjectivos da série é precedido pelo advérbio de quantidade "tam", reforçando-se desse modo o efeito significativo da acumulação.

            O nível fónico colabora nessa expressão obsessiva do sofrimento pelo recurso à aliteração do /t/, que percorre todo o poema, mas se acentua exactamente nesta parte. Por meio da aliteração, reforçada pela repetição anafórica do advérbio "tam", cada um dos adjectivos com que se qualifica os olhos (e, portanto, o próprio sujeito) atinge-nos como uma pancada. O ritmo (outro elemento de natureza fónica) colabora também nessa tarefa, na medida em que cada sintagma adjectival corresponde a um elemento rítmico do verso:

Tam tristes | tam saudosos |tam doentes | tam cansados | tam chorosos |(...)

 

            E uma análise mais atenta revela-nos que a aliteração do /t/ tem ainda um outro efeito. Liga entre si, de forma inconsciente, algumas das palavras mais significativas do poema: partem/partida, tristes, vistes e o advérbio tam. Assim unidos, cada um deles reforça o valor expressivo dos restantes.
            E a série termina, mais uma vez, com uma expressão hiperbólica ("da morte mais desejosos / cem mil vezes que da vida"). Mas aqui a hipérbole é reforçada pela combinação com a antítese que opõe morte e vida. E a antítese, por sua vez, adquire maior força expressiva pelo recurso ao hipérbato , que coloca em posições extremas (início e final de verso) os dois elementos do par antitético:

(...)da morte mais desejosos cem mil vezes que da vida(...)

A segunda parte da glosa (vv. 10 a 13) retoma o mote, iniciando-se com a expressão utilizada no primeiro verso ("Partem tam tristes").           Mas continua o esforço para exprimir a intensidade do sofrimento, agora com a associação do adjectivo "tristes" com a sua forma substantivada "os tristes" (=olhos), a que se acrescenta explicitamente uma nota de desespero ("tam fora d'esperar bem"). O poema termina com a mesma hipérbole que fechara o mote ("que nunca tam tristes vistes / outros nenhuns por ninguém"), adquirindo assim uma estrutura circular, que sugere a ideia de que o sujeito está inexoravelmente condenado a sofrer o seu sofrimento, como se estivesse fechado dentro de uma redoma.

 

Acho que me deu Deos tudo
para mais meu padecer:
os olhos pera vos ver,
coraçam para sofrer,
e lingoa para ser mudo.

Olhos com que vos olhasse,
coraçam que consentisse,
lingoa que me condenasse,
mas nam ja que me salvasse
de quantos males sentisse.
Assi que me deu Deos tudo
para mais meu padecer:
os olhos para vos ver,
coraçam para sofrer,
e lingoa para ser mudo.

Francisco de Sousa

Cantiga sua partindo-se

 

Senhora, partem tam tristes

meus olhos por vós, meu bem,

que nunca tam tristes vistes

outros nenhuns por ninguém.

 

Tam tristes, tam saudosos,

tam doentes da partida,

tam cansados, tam chorosos,

da morte mais desejosos

cem mil vezes que da vida.

Partem tam tristes os tristes,

tam fora d' esperar bem,

que nunca tam tristes vistes

outros nenhuns por ninguém.

 

João Roiz Castello-Branco

Coração já repousavas

 

Coração já repousavas,

Já não tinhas sujeição,

Já vivias, já folgavas;

Pois porque te subjugavas

Outra vez, meu coração?

 

Sofre, pois te não sofreste

Na vida que já vivias;

Sofre, pois te tu perdeste,

Sofre, pois não conheceste

Como outra vez te perdias;

 

Sofre, pois já livre estavas

E quiseste sujeição;

Sofre, pois te não lembravas

Das dores de que escapavas:

Sofre, sofre, coração!

 

Jorge de Aguiar

 

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