Inês de Castro Os lusíadas – Canto III (118-135)

Passada esta tão próspera vitória,
Tornado Afonso à Lusitana Terra,
A se lograr da paz com tanta glória
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste e dino da memória,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que despois de ser morta foi Rainha.

Tu, só tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.

De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,

Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo c’o sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra hûa fraca dama delicada?

Traziam-na os horríficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas vozes,
Saídas só da mágoa e saudade
Do seu Príncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,

Pera o céu cristalino alevantando,
Com lágrimas, os olhos piedosos
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos);
E despois, nos mininos atentando,
Que tão queridos tinha e tão mimosos,
Cuja orfindade como mãe temia,
Pera o avô cruel assi dizia:

Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aéreas tem o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piedoso sentimento
Como c’o a mãe de Nino já mostraram,
E c’os irmãos que Roma edificaram:

E se, vencendo a Maura resistência,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vida, com clemência,
A quem peja perdê-la não fez erro.
Mas, se to assi merece esta inocência,
Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,
Onde em lágrimas viva eternamente.
 
Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre leões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei.
Ali, c’o amor intrínseco e vontade
Naquele por quem mouro, criarei
Estas relíquias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste.)

Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra hua dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais e cavaleiros?

Qual contra a linda moça Policena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
C’o ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela, os olhos, com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha),
Na mísera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se oferece:

Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que despois a fez Rainha,
As espadas banhando e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, fervidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.

Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia!
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetistes.

Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lascivas maltratada
Da minina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida. 

As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram.
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome Amores.

 

Camões - Almeida Garrett
(Romantismo português)

XXI

Mal obediente o valoroso filho,
Domador das soberbas castelhanas,
Do venerando pai empunha o ceptro:
Afonso, que nos campos do Salado
As hostes granadis prostrou tremendas
Com pequeno poder. – Viçosos louros
De tamanha e tão próspera vitória
Caso triste murchou, crueza bárbara
Que à belíssima Inês deu morte injusta.
O próprio amor, cuja ferina sede
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
Inda às saudosas margens do Mondego,
junto à fonte que lágrimas formaram,
Verte sobre ele desusado pranto.
As nações do universo, que escutaram
As endechas do vate, as vão cantando;
E do bárbaro Neva ao culto Sena,
Desde o Tamisa frio ao Pado ardente,
Os lamentos de Inês repete a lira.

XXII

Brandas ninfas do plácido Mondego,
Vós que o doce gemer, que os namorados
Ais do prazer ouvistes pela selva
Que encobriu tanto amor, tanta ventura
Em tempos de mais dita; que escutastes
os magoados suspiros da saudade,
Quando ausente daquele por quem vive,
Só, gemedora rola, vai carpindo
A ausência do seu bem, do seu amado,
E aos montes, às ervinhas ensinando
O nome que no peito escrito tinhas;
Que depois, memorando a morte escura,
Longo tempo das umas cristalinas
Só lágrimas formosas derramastes,
E, por memória, em fonte convertidas,
O nome lhe pusestes, que inda dura,
Dos amores de Inês que ali passaram;
Vós ao vate os segredos recontastes,
Os mistérios de amor, e o pranto, as queixas
Da malfadada Castro. – A lira anseia-lhe,
A voz carpe-se, os tons gemem tão meigos,
Mas tão cortados de uma dor tão viva,
Que é um partir-se o coração de ouvi-los.

XXIII

Ausente é o esposo: solitária vaga
Pela várzea de flores recamada,
No pensamento alheado revolvendo
Ledos enganos d'alma, suavíssimas
Lembranças do passado. e a mais suave,
Lisonjeira esperança do futuro.
Oh! quando ela outra vez naqueles braços
O tornar a apertar, quando... Armas soam
De cavaleiros, e corcéis nitrindo
Nos átrios do palácio... escuta... É ele,
O seu Pedro, oh ventura! – «Esposo, esposo!»
Mas pelo ausente esposo o pai responde.
O amante não vem: juiz severo,
Pelos beijos de amor, lhe traz castigo
Que não merece amor, nem quando é crime.

XXIV

Cos filhinhos, em vão banhada em pranto,
Súplice implora os bárbaros. O ferro
Embebem crus no peito cristalino;
E as vivas rosas que das faces fogem,
Pela ferida a borbotões se esvaem
Cos inocentes filhos abraçada,
Não geme, não suspira; a beijos colhe,
Uma a uma, as feições que tanto ao vivo
As do querido amante lhe retratam.
Já pelos lábios derradeira foge
A última vida, o último sopro em ósculos
Todos amor, todos ternura. Os olhos
já da formosa luz se extinguem... Trémula,
Inda coa incerta mão procura os filhos,
Inda afagando imagens do seu Pedro,
Entre os amplexos maternais. – «Esposo,
Esposo... Esposo!...» balbuciando, expira

 A Fonte dos Amores
Soares de Passos - Poesias

Eis os sítios formosos, onde a triste
Nos dias d’ilusão viveu ditosa;
Eis a fonte serena, e os altos cedros
Que os segredos d’amor inda lhe guardam.
Oh! Quantas vezes, solitária fonte,
Após longo vagar por esses campos
Do plácido Mondego, nestas margens
A namorada Inês veio assentar-se,
E ausente de seu bem carpir saudosa,
Aos montes e às ervinhas ensinando
O nome que no peito escrito tinha!
E quantas, quantas vezes no silêncio
Desta grata soidão viste os amantes,
Esquecidos do mundo e a sós felizes,
Nos êxtases da terra os céus gozando!
Pobre, infeliz Inês! breves passaram
Os teus dias d’amor e de ventura.
Ao régio moço o moço renderas,
E o que em todos é lei, em ti foi crime.
Eis do bárbaro pai, do rei severo,
Se arma a dextra feroz, ei-lo que aos sítios
Onde habitava amor conduz a morte.
Distante do teu bem, ao desamparo,
Ai! não pudeste conjurar-lhe as iras.
Debalde aos pés d’Afonso lacrimosa
Pediste compaixão; debalde em ânsias
Abraçando teus filhinhos inocentes,
Os filhos de seu filho, a natureza
Invocaste e a piedade: a voz dos ímpios,
Dos vis algozes, te abafou as queixas,
E o cego rei te abandonou aos monstros.
Ei-los a ti correndo, ei-los que surdos
Aos ais, aos rogos que tremendo soltas,
No palpitante seio cristalino,
Que tanto amou, oh bárbaros! os ferros,
Os duros ferros com furor embebem.
Prostrada, agonizante, os doces filhos
Por derradeira vez unes ao peito,
E de teu Pedro murmurando o nome,
Aos inocentes abraçada expiras.

Inda, infeliz Inês, inda saudosos
Estes sítios que amavas te pranteiam.
As aves do arvoredo, os ecos, brisas,
Parecem murmurar a infanda história;
Teu sangue tinge as pedras, e esta fonte,
A fonte dos amores, dos teus amores,
Como que em som queixoso inda repete
Às margens, e aos rochedos comovidos,
Teu derradeiro, moribundo alento.

 

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