
Frei Santa Rita Durão
O Caramuru - O afogamento de Moema
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XXXVI É fama então que a multidão formosa as damas, que Diogo pretendiam, Vendo avançar-se a nau na via undosa, E que a esperança de o alcançar perdiam, Entre as ondas com ânsia furiosa, Nadando o esposo pelo mar seguiam, E nem tanta água que flutua vaga ardor que o peito tem, banhando apaga. XXXVII Copiosa multidão da nau francesa Corre a ver o espetáculo assombrada; E, ignorando a ocasião de estranha empresa, Pasma da turba feminil que nada. Uma, que às mais precede em gentileza, Não vinha menos bela do que irada: Era Moema, que de inveja geme, E já vizinha à nau se apega ao leme. XXXVIII "Bárbaro (a bela diz), tigre e não homem... Porém o tigre, por cruel que brame, Acha forças amor que enfim o domem; Só a ti não domou, Por mais que eu te ame. Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem, Como não consumis aquele infame? Mas pagar tanto amor com tédio e asco... Ah! que corisco és tu... raio... penhasco! XXXIX Bem puderes, cruel, ter sido esquivo, Quando eu a fé rendia ao teu engano; Nem me ofenderas a escutar-me altivo, Que é favor, dado a tempo, um desengano; Porém, deixando o coração cativo Com fazer-te a meus rogos sempre humano, Fugiste-me, traidor, e desta sorte Paga meu fino amor tão crua morte? |
XL Tão dura ingratidão menos sentira, E esse fado cruel doce me fora, Se a meu despeito triunfar não vira Essa indigna, essa infame, essa traidora! Por serva, por escrava, te seguira, Se não temera de chamar senhora A vil Paraguassu, que, sem que o creia, Sobre ser-me inferior é néscia e feia.
XLI |