A Demanda do Santo Graal
Aquel castelo havia nome "Brut" e era bem assentado, se houvesse abastamento (1) de água. E o senhor daquel castelo era rei e havia nome Brutos, por amor daquel rei Brutos que o poborara (2) primeiro. E sabede que o senhorio daquele castelo se estendia a todas partes üa jornada. Aquel Brutos, que entam reinava, era um dos bons cavaleiros do mundo e mui rico à maravilha, e havia muito conquerido (3) per sua cavalaria, e havia üa filha de XV anos, que era a mais fremosa donzela do reino de Logres. E aquela sezom (4) que os cavaleiros vieron, estava el-rei acostado a üa fresta em seu paço. E quando os viu assi armados vir e sem companha, conhoceu que eram cavaleiros andantes, e foi mui alegre com eles, ca muito amara sempre cavalaria e aqueles que se trabalhavam dela. Entam lhes enviou dizer per dous cavaleiros que viessem com ele pousar, ca non queria que pousassem com outrem. Quando Galaaz e Boors ouvirom seu mandado (5), teverom que era grã cortesia e guardecerom-lho muito e forom-se com os cavaleiros. E depois que foram dentro e foram desarmados, el-rei feze-os assentar a par de si e fez-lhes muita honra e começou-lhes a preguntar das suas fazendas. E eles lhe disserom ende algüas cousas. E a filha del-rei Brutos, que era mui fremosa cousa, catou mui grã peça (6) Galaaz e semelhou-lhe tam fremoso e tam bem talhado, que o amou de coraçom, que nunca amou cousa no mundo tanto, que non partia del os olhos. E quanto o mais catava, mais se pagava del (7) e o mais amava.
Assi amou a donzela Galaaz, pero nunca o vira nem soubera que cousa era amor, e catava Galaaz e prezava-o em seu coraçom mais que todalas cousas e que nunca molher homem prezou; e por esso lhe semelhava que se o nom houvesse a sua vontade, que morreria. E por esto cuidava ela acabar mui ligeiramente seu desejo, ca o cavaleiro era mui mancebo e mui fremoso. E ela cuidava que de grado se outorgaria em tal cousa, porque ela era das fremosas molheres do reino de Logres. E esto a confortava, que era ele cavaleiro mancebo. E por aquesto cuidava acabar mais toste (8) seu desejo. Mas era em seu coraçom tam triste, porque havia pavor que, se fezesse algüa infinta (9) que o queria amar, que esto lhe seria a mal teúdo (10), se lho soubessem; e se algüa cousa nom fezesse como houvesse aquelo que desejava, que o nom poderia sofrer. Esto cuidou a donzela enquanto seu padre siia (11) falando com os cavaleiros. E depois que cuidou tanto, que nom pode mais, foi-se pera a câmara e leixou-se cair em seu leito e começou a fazer tam grã dó (12) como se tevesse seu padre morto ante si. Pero nom dava vozes, mas chorava tam de coraçom, que maravilha era. E ela assi fazendo seu dó, entrou sua ama, que era dona de grã guisa (13), que a criara de pequena e a amava tanto como se fosse sua filha. E quando ela viu a donzela tam de coraçom chorar, maravilhou-se que era e disse:
─ Ai, Senhora! Que havedes? Fez-vos alguém algum pesar? Dizede, minha senhora, porque chorades, e eu vos porei i conselho (14), ca jamais nom serei leda, em-mentre (15) vós fordes triste.
E a donzela nom lhe quis dizer porque chorava. E ela começou-a a confortar, e disse-lhe:
─ Em todalas guisas, dizede-me que havedes e donde vos vem este pesar.
E a donzela calou-se e leixou já quanto seu dó. E disse-lhe a ama:
─ Se me nom dizedes o que havedes, eu o direi a vosso padre. Pero será milhor que mo digades, ca se cousa é de cobrir, nom hajades medo que vos eu descubra nunca.
Quando a donzela viu que sua ama o queria dizer a seu padre, foi muito espantada, ca havia mui grã medo, ca era mui bravo e de forte coraçom.
─ Ai, dona! Por Deus, disse ela, nom vades; ante vos direi o que me preguntastes, mas per tal preito (16) que me nom descobrades.
─ Nom hajades medo, disse ela, ca pois é cousa de encobrir, eu vo-la encobrirei mui bem.
Entom disse a donzela:
─ Eu amo tanto um destes cavaleiros andantes, que aqui som, que, se o nom houver à minha vontade, que nom chegarei a cras (17), ante me matarei com minhas mãos.
Quando a dona esto ouvira, houve tam grã pesar, que nom soube que fezesse, ca bem sabia que se a donzela o cavaleiro houvesse à sua vontade, que nom podia ser que o el-rei nom soubesse, que tarde ou cedo; e quando soubesse que o cavaleiro com ela era, ele era tam bravo que mataria a donzela e quantos a i ajudassem.
Entom lhe disse a dona:
─ Ai, cousa sandia e misquinha e cativa, que é esto que me dizes, ou hás o sem (18) perdido, ou és encantada, que és donzela de grã guisa e és tam fremosa, e metes teu coraçom em um tam pobre cavaleiro estranho, que nom conheces? E se esta noite aqui for, nom será aqui de manhã nem ficará aqui por lhe dar teu padre toda sua terra. Guarda o que dizes e o que pensas e o que te poderá vir. Ai! cousa sandia, e como ousaste esto pensar? Certas (19), se o teu padre souber, todo o mundo nom te poderá valer, que te nom talhe a cabeça.
Quando a donzela esto ouviu, foi tam espantada, que bem quisera ser morta, ca do cavaleiro nom podia tolher o coraçom em nenhüa guisa, ante se trabalharia de haver em toda guisa o que pensava. E desconfortava-a muito a braveza de seu padre. A donzela, que em estas cousas pensava, chorava todavia. E quando falou, disse:
─ Ai! astrosa (20), cativa e a mais maldita cousa do mundo, maldita seja a hora em que eu naci.
─ Ora me dizede, disse a ama, semelha-vos bom conselho o que vos dei, de tolherdes (21) vosso coraçom daquel cavaleiro?
─ Si, disse ela, a quem podesse fazer de seu coraçom o que quere.
─ Convém, disse ela, que o façades, se escarnida (22) nom queredes ser.
─ Dona, disse ela, eu o farei, pois que vejo que al nom se guisa de ora ser.
Assi disse a donzela por se encobrir, mas al tinha no coraçom e al mostrou aquel serão (23). Pois que (24) se ambos os cavaleiros deitarom em üa câmara, a donzela, que bem cuidava que já dormiam e que sabia o leito de Galaaz, com grã pesar de que havia de fazer contra sua vontade o que lhe amor mandava, ca por sua má aventura tinha a donzela de rogar o cavaleiro. E pois ela veio à câmara u eles jaziam, entrou dentro e foi tam espantada que nom soube que fazer. E pero tornou em seu primeiro pensar que lhe o amor aconselhava, e esforçou-se tanto contra sua vontade, que foi a Galaaz e ergueu o cobertor e deitou-se a cabo dele (28). E Galaaz, que dormia mui feramente pelo trabalho que houvera, nom se espertou.
Quando a donzela viu que dormia, nom soube que fezesse, ca, se o espertasse, teria-a por sandia (27) e que assi soía (28) fazer aos outros que i vinham; e haveria ende (29) maior espanto e maior sanha (30), quando visse que se assi desnudava sem rogo (31). Entam disse antre si, a voz baixa:
─ Cativa, escarnida som e arrefeçada (32), e jamais nunca haverei honra de rem que faça, quando por meu pecado e por meu feito e sem rogo me vim deitar com este cavaleiro estranho, que nom sabe rem (33) da minha vida! Depois disse:
─ Ai, cousa néscia, que é esto que tu dizes? Tu nom poderia fazer cousa por este cavaleiro, que te seja vergonha nem desonra.
E ela cuidava que, pois ela se deitar a par dele, que el comprisse seu coraçom (34), e em nenhüa guisa nom cuidava, pois que ela era tam fremosa e de tam grã guisa que el tam vilão fosse que nom comprisse sua vontade. Entam se chegou a ele mais que ante e pôs mão em ele mui passo (35) pelo apertar; mas, quando sentiu a estamenha que o cavaleiro vestia, ca sem estamenha (36) nunca ele era noite nem dia, ela foi tam espantada que disse logo:
─ Ai, cativa, que é esto que vejo? Nem é ele cavaleiro dos cavaleiros andantes que dizem que som namorados, mas é daqueles que a sua vida e a sua lidice (37) é sempre em penitência, pela qual lhes vem grã bem para o outro mundo e perdoa Deus àqueles que erro houverem feito contra ele. E por nenhüa rem, disse ela, nom posso eu acabar com ele o que queria. E como quer que este cavaleiro seja ledo para parecer, grande é o marteiro (38) da sua carne, mas mostra bem que o seu coraçom pensa em al, e nom em aquelo que a minha carne mesquinha e cativa deseja. Este é dos verdadeiros cavaleiros da demanda do Santo Graal, e em mal ponto (39) foi tam fremoso por mim.
Entam começou a chorar e fazer seu dó o mais baixo que ela pôde, que a nom ouvissem.
A cabo de üa peça (40), espertou-se Galaaz e tornou-se contra (41) a donzela, e maravilhou-se e abriu os olhos. E quando viu que era donzela, espantou-se e foi sanhudo (42) muito e fez-se afora dela e sinou-se (43) e disse:
─ Ai, donzela! Quem vos enviou acá? Certas, mau conselho vos deu; e eu cuidava que de outra natura érades vós; e rogo-vos, por cortesia e por honra de vós, que vos vades daqui, ca, certas, o vosso fol (44) pensar nom catarei (45) eu, se Deus quiser, ca mais devo dultar (46) perigo da minha alma, ca fazer vossa vontade.
Quando a donzela esto ouviu, houve tam grã pesar, que nom soube que fezesse, ca a resposta de Galaaz, que ela amava sobejo, lhe fez perder o sem e lhe fez perder todo o coraçom. E el lhe disse:
─ Ai, donzela! Mal aconselhada sodes; metede mentes (47) em vossa fazenda, e catade a alteza do vosso linhagem e de vosso padre, e fazede que nom prendam desonra per vós.
Quando a donzela esto ouviu, respondeu como mulher fora de sem:
─ Senhor, nom há i mester al, pois que me tam pouco preçades (48), que em nenhüma guisa nom queredes senam matar-me. E a morte é migo cedo, ca me matarei com minhas mãos e haveredes ende maior pecado, ca se me tevéssedes i convosco, ca vós sodes razom da minha morte, e vós ma podedes tolher (49), se vós quiserdes.
E Galaaz nom soube que dissesse, e disse à donzela que se se matasse como dizia e per tal razom, bem entendesse que nom daria el rem por sua morte; e de outra guisa lhe disse ca se fosse a mais fremosa que Nosso Senhor fezesse, el nom cataria mais por ela. E disse-lhe ca mais lhe valeria se estar em virgindade, ca se lhe os outros fezessem tanto como ele, bem poderia ser que morreria virgem. E a donzela, que era toda como tolheita (50), quando viu que nom poderia de Galaaz haver seu prazer, disse:
─ Como, cavaleiro, todavia (51) queredes ser tam vilão, que me nom queredes al fazer?
─ Nom, disse el, bem vos digo e bem sede em segura.
─ Por boa fé, disse ela, esto será
folia (52), ca morredes porém ante que daqui saiades.
─ Nom sei, disse el, o que será, mas se esso fosse, ante eu queria
morrer fazendo lealdade, ca escapar e fazer torto (53), o que nom queria.
Depois que esto ouviu, nom atendeu mais, ante saiu e foi correndo à espada de Galaaz, que pendia à entrada da porta da câmara, e sacou-a da bainha e filhou-a a âmbalas mãos e disse a Galaaz:
─ Senhor cavaleiro, vedes aqui o engano que havia nos meus primeiros amores. E mal dia fostes tam fremoso, que tam caramente me converá (54) comprar vossa beldade.
Quando Galaaz viu que ela tinha a espada na mão e que se queria ferir com ela, saiu todo espantado e deu-lhe vozes:
─ Ai, boa donzela! Sofre-te um pouco (55) e nom te mates assi, ca eu farei todo o teu prazer.
E ela que era tam coitada que nom poderia mais, respondeu per sanha:
─ Senhor cavaleiro, tarde mo dissestes.
Entam ergueu a espada e feriu-se de toda sua força per meio do peito, de guisa que a espada passou-a e pareceu da outra parte, e a donzela caiu em terra morta, que nom falou mais palavra.
Apud A. Magne, A Demanda do Santo Graal, I,
páginas 154-160
1- provisão; 2- povoara; 3- conquistado; 4- estação, momento; 5- recado; 6- olhou, contemplou longamente; 7- gostava dele; 8- cedo; 9- fingimento; 10- tido; 11- estava; 12- lastimar tanto; 13- de alta posição social; 14- remédio, 15- enquanto, 16- sob a condição; 17- amanhã; 18- juízo; 19- certamente; 20- infeliz; 21- livrardes; 22- ludibriada; 23- tarde; 24- depois que; 25- embora; 26- junto dele; 27- louca; 28- costumava; 29- por isso; 30- ira; 31- sem pedir; 32- aviltada; 33- coisa, mas neste contexto significa nada; 34- vontade, intento; 35- bem devagar; 36- tecido áspero de lã; 37- alegria; 38- martírio; 39- em má hora; 40- momento, lapso de tempo; 41- voltou-se para; 42- furioso; 43- persignou-se, fez o sinal da cruz; 44- louco; 45- entenderei; 46- temer, recear; 47- prestai atenção, observai; 48- elogiais; 49- tirar, livrar-me dela; 50- paralisada; 51- de toda maneira, ainda; 52- loucura; 53- cometer uma ofensa; 54- convirá; 55- contém-te por instante.