Santa Inês, de José de Anchieta

Cordeirinha linda,
como folga o povo
porque vossa vinda
lhe dá lume novo!

Nossa culpa escura
fugirá depressa,
Pois vossa cabeça
vem com luz tão pura.

Vinde mui depressa
ajudar o povo,
pois, com vossa vinda,
lhe dais lume novo.

Cordeirinha santa,
de lesu querida,
vossa santa vinda
o diabo espanta.

Vossa formosura
honra é do povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.

Vós sois, cordeirinha,
de lesu formoso,
mas o vosso esposo
já vos fez rainha.

Por isso vos canta
com prazer, o povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.

Virginal cabeça
pola fé cortada,
com vossa chegada,
já ninguém pereça.

Também padeirinha
sois de nosso povo,
Pois, com vossa vinda,
lhe dais lume novo.

 

 

 

 

 

 

Do Santíssimo Sacramento

Ó que pão, ó que comida,
ó que divino manjar
se nos dá no santo altar
cada dia!

Filho da Virgem Maria,
que Deus-Padre cá mandou
e por nós na cruz passou
crua morte,

e para que nos conforte
se deixou no sacramento
para dar-nos, com aumento,
sua graça,

esta divina fogaça
é manjar de lutadores,
galardão de vencedores
esforçados,

deleite de namorados,
que, co'o gosto deste pão,
deixam a deleitação
transitória.

Quem quiser haver vitória
do falso contentamento,
goste deste sacramento
divinal.

Este dá vida imortal,
este mata toda fome,
porque nele Deus e homem
se contêm.

É fonte de todo bem,
da qual quem bem se embebeda
não tenha medo da queda
do pecado.

Ó que divino bocado,
que tem todos os sabores!
Vinde, pobres pecadores,
a comer!

Não tendes de que temer,
senão de vossos pecados.
Se forem bem confessados,
isso basta,

qu'este manjar tudo gasta,
porque é fogo gastador,
que com seu divino ardor
tudo abrasa.

 
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