Há vidas que passam a circular em torno de uma cicatriz. Há
pessoas que fazem de um tempo, real ou imaginariamente
sofrido, uma forma de ilusão, teimosamente atualizada
nos objetos, seres do seu cotidiano. Isto é o que dirige o
seu querer, inaugural e subseqüentemente lesado.
Há quem viva de papéis e faz disso o seu papel. Muitos papéis não
circulam; todavia enchem arquivos. Eles são da ordem do
interdito. Do não revelado.
Há pessoas que sofrem e fazem do ato de sofrer um discurso
carente de ouvidos prontos a ouvir a se compadecer. Aí
reside sua satisfação, seu bem-estar, seu sim, que é,
também, seu não.
Há quem duvide e creia que duvidar é ato de fé. Há quem, de tanto
duvidar, acredita que haja, em lugar, algo digno de
sua dúvida.
Há quem, de público e púlpitos, a dois e em solilóquios,
proclame valores defenda leis e regras, marcas de um tempo,
sem base qualquer de sustentação para os dias atuais.
Há quem coloque o amor no incondicional da demanda e transfira as
dores do cotidiano a tributo pago por ser feliz.
Há pessoas que, sua fraqueza faz sua força, jogo de sedução,
artimanha prevista ou imprevisível, na disputa do poder.
Outros há que se dobram, para não se quebrarem e,
ainda, outros há que rastejam para melhor puxarem o
assoalho de quem não lhe quer.
No conflito,há quem desista, abandone a luta. E há outros
que, crendo residir ali fonte de mudança, provoca-o,
incentiva-o não sendo todos, contudo, que conseguem
ver o que resulta no final. Ou por deserção ou por ter
ficado no caminho.
Há quem discurse sobre a pobreza e comova as massas, discurse
sobre a justiça e açoite os pobres (muito
embora, depois, lhes faça doações de trocados).
Em nome de Deus, há quem pregue ilusões, mantenha cativo um
séqüito e use passar por arauto do libertador. Há quem nunca
diga sim; há quem nunca diga não; um e outro dispensáveis,
porque desservem aos próprios seus.
Há quem faça da esperança uma bandeira de luta e da fé seu esteio
de ação. Há quem ame com a própria vida. Esse,
bem-aventurado.
Extraído do Livro: Textos Escolhidos (escritos filosóficos) de
Airton Freire. Págs. 111 a 1114