Parábolas

Um filósofo disse: se em parábolas pudesse tu nos contar o que  de mais íntimo em ti há, o que nos dirias, o que de ensino de ti  nós aprenderíamos?

Como sempre fazia, Filêmon  parou, pensou, como se orasse e assim falou:  Se a luz de antes vier a faltar, observa o ocaso e a beleza que nele há. Se a chuva tão abundantemente, não estiver mais a molhar, considera a qualidade da terra, o fruto que nela se encerra e o quanto do que foi feito nela ainda há. Se os caçadores já não estão ao teu lado, considera que muitos cresceram aos teus cuidados. Se a espera se faz longa, agora leva em conta que é tua e só tua esta hora. O que é teu ninguém poderá tirar, pois está no teu ser, pela comunhão com o Ser que não passará. Se o céu se cobre de nuvens, considera a chuva que poderá cair. Se os ventos soprarem impetuosamente, considera que no vento o calor pode fugir. Olha o outro lado da questão. Por tais coisas, não entristeças teu coração. Estás na luz. Não dês asa ao que seduz. Permanece sereno e tão teu e somente teu é este momento. Muito há de ti em tudo o que há. Esperar-se-á para posteriores momentos o que, preservada agora tua alma, teu corpo, sentimentos, voltarás pelas mãos dos plantadores novamente.

Que as fogueiras não te consumam. Que o barulho do mar não te acorde. Que o brilho das estrelas não te ofusque. Que o cantar dos pássaros não te embeveça. Vai pela estrada. Segue o teu caminho. Não temas o calor do sol. Não temas pedras nem espinhos. Mantém a tranqüilidade. Empoeirado pode ser onde pisarás. Todavia na certeza do rumo certo, tu te acalmarás. leva contigo o que mais próximo de ti estiver. Convence-lhe, antes,de que, juntos, há um caminho a se fazer e que deverão ir até onde der. Mune-te de coragem. Evita contudo as aragens. Nada faças do que convencido não estiveres e nisso não queiras persistir. Guarda pois o que te digo. Fiquem atentos os teus ouvidos. Não sofras com a dor do peito nem do que vem de fora em forma de alaridos.

Reconstitui a unidade perdida. Cuida em curar as feridas. Se houver alegria na chegada, em paz também seja a partida. Desata o nó da questão. Não te inclines demasiadamente para o coração, se isto ferir a razão, perdendo nisto tua atual condição. Não deixes para depois. Há muito que se fazer agora. Contudo, da verdade não se assenhora. É patrimônio comum. Se fores arauto da autenticidade, não serás tão só, mas um. Conserva a constância. Não dês lugar a sofrimentos em razão de evitáveis contratempos. Evita sobretudo desperdiçar o que palavras poderiam conter. Deixando de falar muito, poderás construir. Evita que e por ti algo venha a se ruir. Se nada puderes dizer nem fazer, cuida em não insistir. Se enevoado estiver o caminho, não queiras avançar. Se a chuva cair, se o terreno alagar, não queiras ou forces atravessar antes de, primeiramente o terreno alagado sondar. A transparência te salvará. Na clareza do pensamento poderás te firmar. Gelo demasiado pode queimar. Ardor em excesso pode combustar. Frio e calor hão que se temperar. Não te exponhas demasiadamente ao sol nem percas o descanso da noite por causa do arrebol. Colheita farta poderás fazer, se precipitação não houver, na escolha do grão que poderás vir a ter. A todos a tudo não faças alusão. Há sementes que só se plantão no coração. Fica atento para os tempos de então. Quem te fartará quem há muito está a te esperar e a sede que ora te consome em poço profundo vais encontrar.

Há algo que não se pode vender. Há algo que não se pode reter. Há algo que não podes conter. Há coisas que, a depender de ti, pode não acontecer. Evita, pois, o que, depois, não terás como te valer. Há muito por se dizer. Muito mais por se aprender. A lição tu já sabes. Resta só fazer. Não queira tu rasurar o que já escreveste ou rasgar o tecido que teceste. Bem maior em ti há. Lembra-te: há coisas a se evitarem. Tanto no dizer quanto no fazer é possível uma outra forma de ser.

Assim pode ser.

Extraído do livro "Laçaremos Redes" pág. 57 a 61 de Airton Freire

                                    

 

                

 

                 
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