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Lições de Vida
Então um pedagogo disse:
fala-nos das lições de vida que te trouxeram até aqui.
Olhando- os, Filêmon
disse:
Aprendi, desde uns tempos, que
a ausência de equilíbrio interno,em qualquer pessoa, revela-se na
desarrumação externa do que ela vive. Percebi que a harmonia e desarmonia
que traz alguém consigo revela-se, finalmente,em seu modo, em seu estilo
de vida. Fui percebendo que lidar com outros exige, primeiramente,
saber lidar consigo. E, por esta via, vi muitos se perderem, outros
todavia se reencontraram. Esse centro decisório a que chamamos coração,
tem no mundo externo sua extensão.
Por ele, o mundo é sentido e até ele chega o mundo
configurado. A ligação é tamanha entre os dois lados, que nada é
alheio ao que se passa dentro daquilo que acontece lá fora. Inversamente,
pode-se dizer que turbilhões ou calmarias, que se passam do lado de cá,
rapidamente tem repercussões do lado de lá. Depois, passei a prestar
atenção que mesmo em situações completamente diferentes, há pessoas que
cometem os mesmos erros.
Outras pessoas, por sua vez mesmo em condições as mais
precárias, conseguiam muito fazer. Não disse fazer muito, mas,"muito
fazer" que significa fazer bem, mesmo em fazendo pouco, o que já é
muito.
De concessão em concessão
feitas ao coração, em variadas e diferentes ocasiões, vi planos bem
elaborados falirem. Mudanças, por outro lado, vi acontecerem, a partir de
um ponto que não dava mais para continuar a ser como era antes. O ponto de
saturação é a ante-sala do ponto de mutação. Aliás, toda mutação acontece
a partir de um instante de saturação. Entendi depois, ainda, que o muito
saber não significa o bem querer. Isso significa que, bem quer não quem
muito sabe, mas muito sabe quem bem quer. Querer muito não garante o bem
querer; mas muito querer é condição para o bem que se quer. querer bem o
que se quer é bem querer. Isto não significa que bem é tudo o que se quer.
Também não significa que em todo sem querer esteja todo o bem. O bem por
si, é absolutamente simples. tanto assim que, em torno dele, se organiza
todo um discurso, todo um dizer para explicá-lo. Ele, todavia, apenas ele,
se diz sendo. Seu ser é seu dizer sobre si. E pronto.
Vi que há diferença entre os que não
querem bem e aqueles que o bem não querem. Há espaços nos primeiros para
uma mudança possível.
Quanto àqueles que o bem não querem, fizeram uma opção. Uma
decisão deliberada está na raiz de qualquer opção. Em se tratando de
algo dessa natureza, estamos já diante da prática do mal, que é a ausência
do bem. Só que tudo tem os dois lados; joio e trigo se parecem e
nada existe em estado absolutamente puro. Depois, logo depois,
compreendi que só o que é feito por amor e no amor vale a pena; que o
resto é só cansaço. Os anos vão se passando e mais claramente vamos
enxergando que há umas poucas (mas essenciais) coisas, para as quais vale
a pena viver, sofrer, lutar e morrer, se preciso for. Imprescindíveis
coisas. A paz é um grande motivo para se viver. A liberdade é um outro
grande motivo para se viver. São conquistas. E todas elas passam pelo
coração. Em todas elas precisa o coração entrar. Onde o coração não entra,
não é completa qualquer adesão.
Das maiores, das
mais difíceis, das mais comprometedoras, das verdadeiramente sérias
decisões o coração participa. Tanto assim que, quando excluído, ele se
agita. Há contudo e felizmente, um coração modelo de graça e de verdade,
de amorosamente grande e confiável ternura. Há um coração que,
ardentemente, deseja e espera o momento da partilha.
Seu pulsar é apelo. Ele busca um espaço de escuta. Nele não
há sombra de ciúme ou posse; traço algum de decepção ou revolta nele
existe. Um coração livre, aberto e soberano na arte de amar e de se dar.
Um coração que tem um querer: ensinar a ser como ele é "manso e humilde"
(Mt 11, 29). A forma que ele encontra para conseguir é única: coração
nunca visto assim. Nunca foi possível encontrar quem amasse tanto e ao
extremo como ele amou. Ele "amou até o fim" (Jo 13,1). Coração cuja
presença enche-me de ternura e "com-fusão".
Vendo-o tão esquecido de si, o meu ao seu não tem
comparação. Vendo-o tão despojado,contrastante ao meu, descubro-o e
entendo que, viver sem sem ele não é viver, é padecer, é precipitar-se na
mais abissal solidão. Sem ele, é povoar-se de nada; é o absurdo do sem
sentido;é perambular a esmo, sem saída; é ver o tempo passar e nada
acontecer; é naufragar e, sem esperança, morrer.
Coração amado, coração de um irmão.
De todos mais amado, amabilíssimo coração. Seja eu mais um, dentre os
milhões de amados teus, por quem tu bates. E se o meu ao teu ligares,
conhecerei aquele que assim te fez. A ti amando e por ti amado, lugar
algum em mim será achado que para ti não esteja reservado. E, juntos,
celebraremos a festa da mais perfeita unidade.
Extraído do Livro: Lançaremos Redes de Airton
Freire.
Págs. 34 a 39.
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