Desertos
 

                     E  dos desertos o que tens a nos contar, pediu-lhes um viajante das terras?
      Se  para ti mesmo tivesses que, em voz alta falar, o que poderias nos ensinar?
      Fala-nos dos teus desertos, daqueles que tens distantes e daqueles que tens perto",
      pediu-lhes alguém.
 
                     Filêmon assim se expressou:
                     Desertos que atravessei, que me levaram ao ponto em que cheguei. Desertos
      que (des)conheci dentro e fora de mim. Desertos que nem quis, que são dos desertos
      mais íntimos, aqueles dos quais nem se diz.
 
                      Desertos o que são? Desertos onde estão? Dentro ou fora de ti? Por que razão
     desertos há? Quem vai ao deserto o que está a procurar? Desertos que não falam mais,
     dos quais nem se ouvem os ais. Deserto de onde estou? Do que passou? De como tenho vivido?
     Desertos de que coisas me têm acontecido?
 
                       Desertos ainda há - de que? - que me fazem ainda viver, espaço para onde eu vou
     e posso me refazer? Desertos, decerto, são sinônimos de solidão. Outros desertos há de não se
     saber ao certo para onde se dirigir quando tudo parece igual, como nunca tinha sido até então.
 
                       Deserto em meio a multidão. Desertos de quê? Desertos de quem? Desertos de amor
     e de sentido também. Desertos há, sempre haverá, por que será? Onde a água venha a faltar,
     onde a palavra soe vazia, onde se caminhe, se encaminhe, se desencaminhe e se parece estar no
     mesmo lugar, desertos há. Quando isso aconteceu? Quando se deu? A que se deveu?
                            
                       Deserto estando de que lado? Deserto mesmo tendo me dado, me posicionado?
     De mim, após  sobeja e caudalosamente rendo falado e tendo deserto de silêncio por resposta ter
     sido dado?
                           
                       Desertos há. Desertos de amor a que ou a quem? Amor aquém ou amor além?
     Desertos há de gente também. Deserto de esperança, de fé, de confiança em que e em quem?
                           
                       Deserto, puro absurdo, depois de tudo, não ter mais o que dizer e ainda ter que
     crer para poder continuar e assim continuar... em que isso vai resultar? Em que vai dar?
                           
                      Que nos desertos queira o Senhor te reconstruir para, depois, devolver-te a
     graça de poder, novamente, dizer: estou aqui.
                           
                      Desertos há de multidão, desertos de alegria e cheios de solidão; das noites
     mal dormidas, dos ditos mal contados, das manhãs não amanhecidas,  dos sonhos nunca realizados
     Desertos há.
                           
                      É no desejo do encontro que o oásis começa a se dar. É nos encontros que nos
     alegram tanto, como chuvas que irrigam os campos,  que o riso põe fim ao pranto e aos desencontros
     que nos fazem sofrer tanto. Pois, o que guardamos no peito que fechadura não tranca, que chave
     não abre, o que ninguém sabe em desertos internos guardam-se também.
 
                            Depois de tudo ter te sido tirado, completamente despojado, diante do Senhor
     tendo-se colocado, há que se dizer: restou tão somente o amor de tudo o que por amor foi registrado.
                            Desertos, desertos.... Só me resta tão somente a certeza de teu ardor, como real é
     a certeza  do amor de teu Senhor.
 
                            Quando nem mais dor há para lamentar, quando já cansado se estiver e se disser que
     não se pode mais agüentar, quando não se souber mais por onde continuar, quando não se souber
     mais o que fazer, quando a esperança cessar, quando o olhar se enevoar e muito distante mais não
     se puder ver, desertos aí há decerto há. Sempre haverá.
 
                            Que não venhas te perder na travessia que por desertos, estejas a fazer. Que não
     fiques preso à ilusão das miragens nem te açoitem o vento frio da noite, nem de dia o calor do cansaço.
                             Faze a travessia persistente e insistentemente e, acredita, bem próximo estará o dia,
     bem próximo estará o fim desta longa travessia.
 
 
                            Extraído do Livro: Lançaremos Redes, págs. 62 a 66  de Airton Freire.
 
 
 
 
 
 

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