Entrevista com o Padre Airton

 

Pe. Airton,  as pessoas falam e perguntam a respeito da obra da
Fundação Terra fundada pelo senhor há 23 anos; já houve várias entrevistas
da mídia, jornais e canais de televisão como também em rádios, mas hoje
queremos dar uma atenção especial ao homem Servo de Deus, o sacerdote Airton Freire o qual completa 25 anos de vida religiosa, de serviço e sacerdócio em favor dos pobres e da evangelização do Povo de Deus

Padre Airton, um jubileu de prata é a oportunidade de certa forma de fazer um balanço dos anos transcorridos como sacerdote. Como é que o senhor se sentia quando iniciou essa carreira? Quais eram as expectativas e os ideais? Quais as metas e os objetivos?
Pe. Airton - Quando iniciei meu ministério sacerdotal eu era um jovem de 26
anos e tinha como meta servir a Deus aonde Ele me colocasse e pedi a Deus
que me mostrasse segundo a sua vontade aonde Ele me queria. Foi ai que,
depois de dois anos de padre, numa tarde, eu conheci a Rua do Lixo, e,
conhecendo, ali me fixei, e tornou-se prioridade na minha vida, algo pelo
qual definitivamente optei.

 

Hoje, 25 anos depois quais são seus sentimentos a respeito desses itens? As expectativas foram preenchidas? Houve surpresas? As metas foram e estão sendo alcançadas?
Pe. Airton - Eu tomo como resposta para inicio um adágio popular: “O homem
propõe, Deus dispõe.” A minha proposta era de servir; mesmo antes de ser
padre eu me percebia como alguém que tinha um grande amor pelos pobres. A
forma como Deus haveria de dispor isto aos poucos foi se revelando, de modo
que 25 anos depois eu percebo que Deus na minha fraqueza operou.


Na sua opinião de que tipo de sacerdócio ou sacerdote a Igreja
desses nossos tempos de agora precisa?
Pe. Airton - Sempre precisará de um padre disponível a escuta do Povo de
Deus, ao diálogo, ao serviço, e anunciar onde Jesus está.


Qual a sua visão do mundo de hoje? Neste mundo qual o papel da Igreja?
Pe. Airton - Eu tomo como resposta aquela passagem do Canon da Missa da
Reconciliação: “No meio de uma geração dilacerada pela discórdia, sejamos um sinal de sua presença.” Isso do Canon. E de um documento da Igreja chamado Gaudiumet. Se existe também outra resposta: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias do homem de hoje são as angústias, as tristezas e as esperanças dos discípulos de Cristo. E não há alegria maior e não há realidade humana , verdadeiramente humana que não encontre eco em seu Coração. Portanto num mundo dilacerado por discórdias vejo uma Igreja feita de pessoas solidárias e aberta a encarnar , como Cristo encarnou, o ideal
transformador a partir de Cristo Jesus.


Como esta a Igreja hoje em relação aos problemas do homem moderno?                                                          
Como ela se situa nesse contexto perturbado que é o nosso?
Pe. Airton -Como Mãe Serva ela precisa ser; mãe, por ser mestra, mestra da
Palavra a quem ela precisa primeiramente servir ao anunciar, e, como mãe de
muitos filhos a quem ela precisa servir na escuta, no diálogo e no
testemunho dos seus.


Que luzes, que pontos luminosos de esperança o senhor enxerga no
horizonte da humanidade e da Igreja?
Pe. Airton - Pontos de esperança no horizonte da humanidade: uma consciência
de que o caminho e Cristo; isto no despertar de várias comunidades, as mais
novas, os movimentos mais recentes apontam para uma direção de que, a partir
de Cristo, existe um poder emergente; quando antes se falava de uma
pós-modernidade em que Deus estaria morto, ressurge a consciência na
humanidade de que, a partir dos movimentos emergentes tendo Cristo como
centro há esperança para a humanidade. Ao lado disso, a consciência
ecológica, cada vez mais crescendo, da necessidade de se unir para salvar o
destino dessa mesma humanidade.


Qual sua maior alegria no exercício do sacerdócio ao longo desses
anos?
Pe. Airton - A minha maior alegria consiste em ter trabalhado para resgatar
a vida e a vida plena, a vida em sua totalidade, espiritual e material,
sobretudo da parte mais excluída, da parte mais sofrida, a parte que para
Deus é a mais cara por ser a mais desfigurada.

 

Qual sua maior decepção? Dor?
Se decepção houve, decepção aconteceu todas as vezes que o amor vindo contra mim ou a partir de mim não prevaleceu.
 

Na sua opinião qual a postura do laicato para com o sacerdócio?
Como podem os leigos ajudar a vida sacerdotal? Qual sua experiência nesse campo?
Pe. Airton - O laicato possui sua especificidade na Igreja. O laicato
precisa ter e tomar consciência de seu lugar de transformador. É fermento na
massa, num mundo que precisa de testemunhos e de serviço a partir do modelo de Cristo Nosso Senhor. Minha experiência nesse campo é de que nós, sem o laicato, nós do clero, de forma específica os assim chamados consagrados, não teremos opção de trabalhar; ou seja: o laicato e o estado de vida consagrado precisam juntos, na mesma direção, em vista do mesmo objetivo, embora na sua especificidade cada qual, juntos caminhar. Do contrário ficaremos divididos, cindidos e isso não testemunha a verdade maior da unidade que Cristo veio como herança nos deixar.


Em 25 anos de vida sacerdotal o que o senhor sente como sendo a parte mais positiva e frutífera em termos de realizações concretas: seus escritos, suas músicas, sua pregação, seu trabalho junto aos pobres, os grupos que foram surgindo aqui e ali, os Ipas (Institutos Padre Airton)? Fale um pouco a respeito desses frutos de sua vida sacerdotal; fale da colheita.
Pe. Airton - A Fundação Terra foi o primeiro espaço efetivamente que
aconteceu para ajudar os pobres, os excluídos. Depois a Comunidade de Vida
dos Servos de Deus, a Casa de Retiros da Sagrada Família, os grupos de
reflexão, de evangelização que existem em Fortaleza, Recife, Arcoverde,
Belo-Horizonte. Todos eles são expressões de um único ideal: que Cristo seja
o centro da vida das pessoas e que o Evangelho se torne uma prática, uma
tradução prática do ideal. Mas, se perguntar de tudo isso o que de melhor
aconteceu e que: em diferentes modalidades, vidas foram resgatadas em todos
os momentos pelos quais passei e que comigo muitas pessoas viveram ou ainda estão a viver.


Sua saúde sofreu grandes abalos nesse período; como tem sido carregar essa cruz no âmbito de seu serviço sacerdotal que nunca diminuiu em intensidade e frutos, pelo contrário. Como tem sido isso? Sua vida parece ser um milagre permanente, a que se deve? Longas horas de escuta, celebrações, a procura incessante por parte das pessoas e isso tudo com uma saúde tão frágil?
Pe. Airton - Eu sou um frágil instrumento na mão do meu Senhor. Ele dispõe
de mim segundo o poder de sua vontade, Segundo a benevolente misericórdia de seu Coração transpassado.

 

Que conselho o senhor daria hoje a um seminarista que se prepara ao sacerdócio?
Pe. Airton - Eu diria: “Meu irmão, que acima de tudo tenhas um grande amor a
Deus, um grande amor a Deus e que tu ames a teu próximo como tu amas a ti
mesmo. Nisto não vai nenhuma novidade, mas eu repito para ti: isso é o
essencial, isso é o núcleo de toda e qualquer espiritualidade.”

 

Aos jovens?
Pe. Airton - Jovens, eu vou dizer uma expressão antiga de uma música também antiga: Jovem, se alguma vez o céu te parecer escuro, por tudo que é sagrado não vás ao inferno a procura de luz. Ou seja: tua noite escura passará; se a tua esperança não morrer e ela em Deus depositada estiver e ai permanecer com certeza não faltará. Mas, se em razão da provação desistires de lutar, de acreditar, de ter esperança e se compensações outras ao longo da vida vieres buscar, acredita nesta verdade, e esta verdade á a que reluz: não
deixes o céu por ser escuro nem vás ao inferno a procura de luz.

 

Aos noivos que se preparam ao matrimônio?
Pe. Airton - Noivos, matrimônio e aliança; essa se faz primeiramente no
coração; o que se passará depois e o momento celebrativo daquilo que vocês
já deverão ter optado para ser vivido: uma aliança de coração.

 

Aos pais e mães de família?
Pe. Airton - Pais e mães guardem essa expressão que não é antiga: amor e
limite cabem em qualquer situação para os filhos. Amor e limite.

 

Aos idosos, aos avós?
Vocês são uma nau de sabedoria e conhecimento. E isso é um legado que
compete a vocês transmitir para gerações emergentes.

 

Uma palavra sua de alento aos doentes; aos presos, aos que
perderam a vontade de viver, de seguir tentando?
Pe. Airton - Tudo ganha sentido a partir de Cristo Jesus. Ele que fez de um
instrumento de condenação, um momento de salvação: o madeiro que do alto da colina reluz. Com isso quero dizer: qualquer que seja a provação se em
Cristo localizada, resultara numa alma burilada, trabalhada, aprovada, para
os posteriores embates.Vitoriosos vocês poderão ser se fizerem dos limites,
sofrimentos momentâneos uma forma de crescer.

 

Aos homens e mulheres de boa vontade neste mundo de hoje, aos que querem e buscam fazer a vontade de Deus num contexto tão conturbado?
Pe. Airton - A vocês pertence o Reino dos Céus.

 

Das suas obras escritas e seus CDs: Qual seu livro mais profundo?
Qual seu preferido? Porque? Qual seu CD preferido?
Pe. Airton - O meu livro preferido de todos que escrevi, eu acho que se
chame…esta sendo escrito, se chama: “A casa onde eu moro”. O meu CD
preferido se chama: “Ieshua”.
 

No seu sacerdócio qual o serviço ao Povo de Deus que mais o
realiza: a pregação, a escuta? Ministrar os sacramentos, celebrar a
Eucaristia...
Pe. Airton - Todos eles fazem parte de um único acontecimento: o de revelar
Cristo nas variadas maneiras e em determinados e variados momentos. Aonde a necessidade me pedir que faça acontecer: em alguns momentos eu escuto porque a necessidade é escutar. Em alguns momentos terei de pregar em outros terei de ministrar os sacramentos. Eu sinto-me por inteiro em qualquer um desses momentos e, em qualquer um deles sinto que estou cumprindo e realizando por vocação o mandato do Senhor: de anuncia - Lo por toda parte para salvação de quem nele crer e o confessar como Senhor. Alegria interior vem de atender por algum desses meios a necessidade premente de alguém que pede uma resposta ou um sacramento.

 

Qual a prece que Padre Airton, o sacerdote, eleva a Deus Pai por ocasião de seu Jubileu?
Pe. Airton - A prece que eu elevo a Deus é essa: que Ele faça de mim um
instrumento de sua vontade; essa prece que intimamente eu disse no dia de
minha ordenação repito ainda hoje e repetiria por mais 25 anos deixando Deus
dispor de mim segundo o desejo mais íntimo de seu Coração.

 

Hoje, qual seu maior desejo?
Pe. Airton - O meu maior desejo é que Deus me conceda a graça de perceber
que a obra iniciada por causa dele e a partir dele não vai morrer.

 

Hoje, qual seu pedido a este seu Povo de Deus que tanto lhe quer  bem e que o senhor, como pastor ama com tanta ternura e zelo?
Pe. Airton - Povo de Deus se vocês me perguntassem quem sou eu, eu diria: eu sou um aprendiz da vida, eu sou um servo de Deus, um padre que escuta. Por ser aprendiz, por ser um servo e por ser um homem de escuta em suas orações em algum momento, peça a Deus por mim, para que eu mantenha a minha fidelidade até o fim, conforme o meu definitivo sim há 25 anos atrás.

 

Artur e Fernando
 
FUNDAÇÃO TERRA 
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