Doação

 Filêmon viu de longe pessoas que distribuíam pão para os pobres e outros, próximos ainda, que negociavam                                                                                                                                                                    Olhando-os ele disse:  Assim como existem aqueles que dão e não se doam, há aqueles que fazem do dar um ato  de negar-se; dar para se ver aliviado, dar para não ser mais incomodado, dar para manter afastado, dar para manter isolado, para não ser atrapalhado, dar, dar... mas, ao dar não se doam. Há os que não se doam, não se permitem cativar, nem se tornam cativados, porque os que se doam amam,  e os que os amam se percebem vulneráveis, e acreditam que  mais vale falar daquilo que o faz apresentar-se forte  do que doar-se, tendo por conseqüência o sentir-se vulnerável. 

Há alguns que se doam mesmo quando nada dão. São coisas que passam antes, pelo coração, podem ter acesso aos que se doam, os que não somente dão.    

Há os que dão e se vêem perdidos. Há os que fazem do doar-se um ato desmedido. Há aqueles que fazem do ato de juntar uma forma de adquirir um sentido. E há aqueles que fazem da busca, do ato de conquistar um motivo a mais para manter-se vivo. Aqueles fazem do ato de buscar,  de encontrar mais um motivo ou principal motivo, para manterem-se vivos. Então, tu poderias, aí onde tu estás, perguntar: o que é aquilo de que meu coração se faz ou se fez cativo? O que é aquilo que torna o meu ser dividido ou indiviso? Em que situações eu me percebo desencontrado? O que eu faço para a minha vida o meu maior achado? A partir de que eu poderei me reconhecer?  A partir de que eu poderei ser reencontrado? Onde eu encontro a medida do que me faz capaz de não viver alienado? Por quem me sinto mais profundamente amado? A que ou a quem eu confio mais completamente os meus cuidados? E a medida em que estas perguntas vão sendo feitas, vão acordando, fazendo emergir, aflorar em tua alma coisas que, ao iniciares com as respostas, entendes que elas pudessem vir a ser acordadas.

 Há pessoas que fazem  do espaço de ausência uma forma de convencer outros a que possam lhe dar o que elas por si mesmas acreditam não poder conseguir achar, encontrar. Em ao fazer isso, elas inauguram um espaço perigoso, o espaço da sedução, da cativação imaginária em que, colocando-se no lugar daquele que é carente, busca ter no outro o preenchimento do qual ele próprio é faltante.    

 Considera que aquele em relação ao qual tu buscas, tu demandas, é tão faltante quanto tu és, tão carente quanto tu és, realiza as demandas que tu fazes, embora de outras formas, em outras situações.   Há pessoas que não admitem perder, porque, para elas é preciso sempre ganhar. E os que pensam em ganhar sempre ou enganam ou fazem mentir a mente.      

Há certas coisas que nos chegam e nos dão avisos de chegadas e nos tocam não sei em que  região da nossa alma e nos fazem perceber que, em algum momento, o que se aproxima mostrará a que veio e a razão de sua chegada. Há certos sinais que já nos falam de quê? Há certas coisas que já nos permitem outras coisas antever. E eu pergunto: é de se crer? Ficarei a espera de algo aconteça ou alguma coisa, antes que venha acontecer, eu poderei fazer? Descobre, por exemplo: qual a razão fundamental, aquilo que me faz viver? Descobre a pedra fundamental pela qual tu possas dizer: por isto eu vivo, por isto eu hei de viver, sem o que, viver, para mim, não será mais viver. 

 Há certas coisas que nos dizem que é preciso tomar certa direção e há certas coisas que nos dizem: é preciso agir com mais agilidade, com maior precaução. Preciso é estar aberto para fazer  leitura dos sinais e encontrar neles um sentido; do contrário, serei eu mesmo aquele que fará os meus próprios desmentidos. Há nisso alguma razão? Isto faz sentido? Porque se assim  procederes, por demasiada lentidão ou por ausência de agilidade, tu verás que chegará ao momento em que hás de descobrir que aquilo que mais te constrange, aquilo que mais te oprime, com certeza, tu trazes contigo. Pois um fato é sempre um fato e, depois de acontecido, permanecerá como um fato.  A leitura que farás do fato é o que fará a diferença,  é o que marcará o teu posicionamento e é como tu viverás, intensamente cada momento.

 

Extraído do Livro Laçaremos Redes, págs. 134  a 138 de Airton Freire

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