A quem
servimos, de que lugar estamos ou falamos, são questões
pertinentes a todo fim e começo de cada ano. Há quem o faça,
contudo de vez em quando. E o que resulta da prática que
levamos, só se decide onde com mais de um destino lidamos. Isso,
contudo, é obra do quotidiano. Vejamos. Na carroça que é a
história - nós, passageiros-transeuntes - somos, a um só tempo,
condutores-viajantes. O percurso sofrerá sempre do lado para o
qual nos inclinarmos, o lugar para onde vamos. E disso todos nós
cuidamos. Queiramos ou não queiramos. Coisas de que não se
escapa; coisas do quotidiano. A questão está em saber a quem se
dará a vez de passagem ( há sempre quem se atrase na viagem) Uns
seguem em disparada. Uns a outros causam danos. Até parece: o
que importa é o ponto de Chegada. E para esses a quem foi dado
ou que se deram vez, dão-lhes, como prêmio, a voz. E, aos
demais, restos do que nem há mais, o ter de se contentar, ficar
sem voz e sem vez.
Esses são
MARGINALIZADOS. OS BANIDOS. OS EXPLORADOS. Aqueles de quem já
disse - numa inversão de ordens e valores - serem os bem
aventurados. Esses que, a todo começo e final de cada ano,
lançam a questão: A quem servimos? De que lado estamos? O
verdadeiro e o falso da resposta, se numa teoria, nos desviamos
, nos confundimos, erramos. Se numa prática, a ela e nós
próprios encontramos. E, como da verdade ninguém é dono, a
vertente mais plausível (embora a mais ingrata!) de, nela, se
trilhar, é inverter a ordem e abrir espaço aos banidos
("Bem-aventurados os pobres... Os aflitos...") é fazer-se
semelhante, para ajudar os cativos. O problema é a largada.
Depois só depois a pista de chegada.
O importante é
despojar-se e recomeçar, como se fosse a primeira vez.
Extraído do
livro: TEXTOS ESCOLHIDOS (Escritos Filosóficos) de Airton
Freire. págs. 147 a 149.


