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As esperas Dize-nos, Filêmon, quando teremos que esperar ou que sentido nisso há? Assim quis saber um jovem estudante de direito, ao que lhe respondeu Filêmon: Esperar não significa ficar numa atitude de passividade. Esperar é, sobretudo, criar as condições de possibilidade, para que permaneça o que há de vir, para que não esmoreça o esforço desprendido, para que o que estiver nas vias de emergir possa, na verdade surgir. Esperar significa aguardar, por saber que, para certas coisas, não é possível protelar nem tampouco retardar; é no exato momento que o encontro se dará. O encontro acontece a partir da intersecção de duas vontades em determinado ponto. Partindo dali, acontece um pacto, mútua e íntima ligação. Para certas coisas é preciso esperar, o que significa estar atento para o tempo que a cada coisa é preciso dar. Não se pode queimar etapas, sob pena de que o processo em curso venha se estragar. Mesmo bem próximos uns dos outros, nem tudo de todos e de todo sabemos. Um tempo próprio a cada momento é preciso respeitar. Não há que se interceptar o curso natural do rio, a fim de que as vertentes possam, naturalmente, fluir, aproveitando-se o seu percurso, antes que ao mar venha se encontrar. Em definitivo, pois, esperar não significa atitude de passividade; esperar significa colaborar com a possibilidade e não retardar nem apressar o curso do rio que corre com tranqüilidade. Em algum momento, então, haverá um entrecruzamento ou alinhamento de duas ou mais vontades, assim como os afluentes desemborcam no rio e passam a fazer parte de uma única e mesma condição, sem perder contudo, sua individualidade. Assim, sem perder características próprias de nossa pessoalidade, o encontro definitivamente acontecerá, apesar dos prós e contras de toda e qualquer eventualidade, o que a dizer, senão a declarar, em se tratando de atos da interpessoalidade, que, apesar de ti ou até por causa de ti, um dia o rio encontrar-se-á com o mar, não há como evitar. Falar do tempo da espera é falar também do tempo da partida. Falar de um tempo de partida significa estar atento para a parte que vai da outra que fica. Para quem está chegando, de um outro lugar está partido e para quem esteja chegando, de um outro ponto está vindo. Daí, diga-se: a parte ida é a parte que vai da outra que fica. O que a parte ida leva consigo senão registros, devidos ou não, marcas, sinais, inscrições? Onde localizá-los? Nos ditos, não ditos, interditos, mal ditos, benditos, esses que se escrevem, que se borram ou se barram, que se inscrevem, e nem sempre se descrevem, prescrevem, a quem ou a que se devem. Diante disso o que fazer? Antes de se pensar acerca do quê, há que se tratar do para quê, pois o quê sem para quê equivale a não ter porquê. Partindo daí, espaço há para muito defeitos, desfeitos, mal feitos, atos a serem refeitos por corretos ou incorretos jeitos. Todavia, a antiga questão volta agora a se colocar: o que ou para que esperar? Há coisas que te chegam de surpresa. Há coisas que enche a tua alma, qual se enchem as represas. Há coisas que não tens como evitar. Há coisas que podem de teu objetivo primeiro se distanciar. Há concessões que foram feitas e agora descobres que, malgrado a receita, não sabes mais por onde chegar. De concessão em concessão, vais te afastando do objetivo primeiro do teu coração. Enquanto ages ou esperas, o que estás a encontrar? O que explica os teus desencontros até que ponto isto pode explicar? O que tu fazes vir quando teimas negar? O que negas que em ti não haja ou há? Por onde recomeçar? O que fazer? Onde esperança ainda há? O que reforçar? O que não dá mais para continuar? Por que assim tem sido? Por que assim tem havido? Por que será? O que significa esperar? Sobre isso há que se pensar. Extraído do livro Laçaremos Redes de Airton Freire. Págs. 106 a 110
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