Assim como existem aqueles que dão
e não se doam , há aqueles que fazem do dar um ato de
negar-se; dar para se ver aliviado, dar para não ser
mais incomodado, dar para manter afastado, dar para
manter isolado, para não ser atrapalhado, dar, dar...
Mas ao dar,não se doam, não se permitem cativar, nem se
tornam cativados, porque os que se doam amam, e os que
amam se percebem vulneráveis, e acreditam que mais vale
falar daquilo que o faz apresentar-se forte do que
doar-se, tendo por conseqüência o sentir-se
vulnerável.
Há alguns que se doam mesmo quando
nada dão. São coisas que passam antes pelo coração,
podem ter acesso aos que se doam, os que não somente
dão.
Há os que se dão e se vêem perdidos.
Há os que fazem do ato de doar-se um ato desmedido. Há
aqueles que fazem do ato de juntar uma forma de adquirir
um sentido. E há aqueles que fazem da busca, do ato de
conquistar um motivo a mais para manter-se vivo. Aqueles
que fazem do ato de buscar, de encontrar mais um motivo
ou principal motivo, para manterem-se vivos. Então, tu
poderias, aí onde tu estás perguntar: o que é aquilo de
que meu coração se faz ou se fez cativo? O que é aquilo
que torna o meu ser dividido ou indiviso? Em que
situações, eu me percebo desencontrado? O que eu faço
para minha vida o meu maior achado? A partir de que eu
poderei me reconhecer? A partir de que eu poderei ser
reencontrado? Onde eu encontro a medida do que me faz
capaz de não viver alienado? Por quem me sinto mais
profundamente amado? A que ou a quem, eu confio mais
completamente os meus cuidados?
E a medida em que estas perguntas vão
sendo feitas, vão acordando, fazendo emergir, aflorar em
tua alma coisas que, ao iniciares com as respostas,
entendes que elas pudessem vir a ser acordadas.
Há pessoas que fazem do espaço de
ausência uma forma de convencer outros a que possam lhes
dar o que elas por si mesmas acreditam não poder
conseguir achar, encontrar. E, ao fazer isso, elas
inauguram um espaço perigoso, o espaço da sedução, da
cativação imaginária em que, colocando-se no lugar
daquele que é carente, busca ter no outro o
preenchimento do qual ele próprio é falante.
Considera que aquele em relação ao
qual tu buscas, tu demandas, é tão falante quanto tu és,
tão carente quanto tu és, realiza as demandas que tu
fazes, embora de outras formas, em outras situações.
Há pessoas que não admitem perder,
porque para elas , é preciso sempre ganhar. E os
que em ganhar sempre ou enganam ou fazem mentir a
mente.
Há certas coisas que nos chegam e nos
dão avisos de chegadas e nos tocam não sei em que região
de nossa alma e nos fazem perceber que, em algum
momento, o que se aproxima mostrará a que veio e a razão
de sua chegada. Há certos sinais que já nos falam de
que? Há certas coisas que já nos permitem outras coisas
antever. E eu pergunto: é de se crer? Ficarei à
espera de que algo aconteça ou alguma coisa, antes que
venha a acontecer, eu poderei fazer? Descobre, por
exemplo: qual a razão fundamental, aquilo que me faz
viver? Descobre . A pedra fundamental, a razão mais
básica, mais fundamental pela qual tu possas dizer: por
isto eu vivo, por isto eu hei de viver, sem o que, viver
para mim não será mais viver.
Há certas coisas que nos dizem
que é preciso tomar certa direção e há certas coisas que
nos dizem: é preciso agir com mais agilidade, com maior
precaução. Preciso é estar aberto para fazer a leitura
dos sinais e encontrar neles um sentido; do contrário,
serei eu mesmo aquele que fará os meus próprios
desmentidos. Há nisso alguma razão? Isto faz sentido?
Porque se assim procederes, por demasiada lentidão ou
por ausência de agilidade, tu verás que chegarás ao
momento em que hás de descobrir que aquilo que
mais te constrange, aquilo que mais te oprime, com
certeza, tu trazes contigo. Pois um fato é sempre um
fato e, depois de acontecido, permanecerá como fato. A
leitura que farás do fato é o que fará a diferença, é o
que marcará o teu posicionamento e é como tu viverás,
intensamente, cada momento.
"O desejo de meu Pai", disse, certa
vez, Jesus, "é que nenhum deles se perca" (Jo
6,39)
Infelizmente, possibilidades de perdas
existem, mormente para os que amam, porque se tornam
vulneráveis. possibilidade de perdas existem para os que
se negam a amar, sobretudo porque não se cativam nem se
permitem cativar. Possibilidade de perdas existem para
todo ser de desejo, para todo aquele que deseja, porque
ao desejar poderá, nos objetos, vir se alienar,
sobretudo quando elege o objeto como aquele que fará de
sua falta a obturação.
"Tu obturás a falta que há em
mim, tu fecharás a cicatriz que trago comigo, tu me
trarás a redenção". Este é o discurso da Alienação.
Agora se juntos caminharmos como faltantes, como
demandantes, com reconhecimento da brecha que trazemos
em nós, com certeza, chegaremos aonde nos propusermos
chegar, se a graça de Deus nos permitir e se anos de
vida ainda tivermos até lá. Eu queria te pedir que pelas
perdas, não viesses tu totalmente a te perder. Que
pudesses fazer de tuas perdas atos de ganho, porque
mesmo perdendo poderás ganhar. Eu queria também te
pedir que não pedisses a Deus a graça de conseguir
e uma vez conseguindo não soubesses como lidar , porque
sofrerias por chances mais uma vez perdidas, talvez não
mais encontradas. Se quiseres atualizar , numa situação
nova, uma situação já passada, perderás a riqueza de
descobrir o encanto da situação presente, porque sobre
ela farás uma superposição. E querendo resolver questões
da mente, tu te perderás por razões do coração. Pois
aqueles que só vivem para a mente podem morrer, podem se
perder pela frieza dos cálculos, pela ausência de
emoção. E aqueles que vivem só pelo coração correm
grandes riscos de sofrerem os riscos e os perigos da
paixão.
Mantém pois o equilíbrio entre coração
e mente e que não digas a tua boca o que teu coração
desmente e não se ocupe o teu pensamento daquilo de que
não participa o teu coração; do contrário, sofrerás
perdas, perdas e danos, ao invés de superações, ganhos e
ganhos.
Louvado Seja o Nosso Senhor Jesus
Cristo.