|
A
terapia musical no candomblé
Rosa
Maria Susanna Barbara
USP/Pós
Graduação em Sociologia
Trabalho
apresentado no seminário temático ST08 "Experiências religiosas
e novas espiritualidades".
VIII
Jornadas sobre Alternativas Religiosas na América Latina
São
Paulo, 22 a 25 de setembro
de 1998
st08-4.
“Possui
verdadeira música em si só aquele que compõe uma sinfonia afinando a
harmonia do corpo com aquela da alma” Platão, Timeo, IX, 591 d.
Em
vários lugares do mundo a música e a dança dominam todo o universo do
ritual. Apesar de vários estudos terem relatado o papel e a importância
da música e da dança no ritual do candomblé (Barbára, 1995; Behague,
1978, 1984; Cossard-Binon, 1967, 1981; Lody, 1995; Luz, 1995; Lunhing,
1990; Martins, 1995; Omari, 1990; Segato, 1995) falta uma análise
aprofundada sobre o tema.
Um
estudo que abordou a função da dança e da música no ritual e a ligação
entre elas foi feito pelo antropólogo De Martino e o etnomusicólogo
Carpitella, que no final dos anos 50 analisaram o tarantismo. O
tarantismo foi um fenômeno observado até os anos 60 no sul da Itália,
embora segundo pesquisas recentes ainda pode ser encontrado nos dias
contemporâneos (Di Lecce, 1997) em Puglia, uma região da Itália do
sul. Segundo a tradição, em momentos específicos do ano, uma tarântula
(existem vários tipos dela na região) mordia os camponeses, na maioria
as mulheres, mas também os homens, usualmente nas mãos, nos pés ou no
púbis. As pessoas mordidas caíam em um estado catatônico, que
encontrava solução num ritual corêutico-musical
que era organizado em época preestabelecida na capela de São Paulo em
Galatina. O ritual previa um longo módulo corêutico-musical com a
presença de um simbolismo onde são enfatizados pelos participantes os
movimentos e os comportamentos da tarântula, tendo também papel
fundamental as cores. Procurando
abordar a complexidade do fenômeno do tarantismo. De Martino desenvolve
uma analise que aborda varias dimensões: a historico-religiosa, a
social, a psicológica e a psiquiátrica, conduzendo a pesquisa com uma
equipe multidisciplinar. O ritual do tarantismo pode ser definido como
“terapêutico”
na interpretação feita
por De Martino. As conclusões de De Martino oferecem hipóteses
importantes para pensarmos a função da música e da dança em
rituais públicos, em particular na sua dimensão psicológica - terapêutica.
Segundo
ele, o modelo corêutico-musical servia como uma técnica protetora em
um quadro mágico-religioso, funcionando como meio de proteção contra
as crises através do acionamento de modelos tradicionais de gestos,
sons, figuras coreuticas, ritmos e melodias. Além disso, funcionava
como instrumento de evocação e de controle socialmente admitidos e
operantes cada vez que percebia-se a crise do tarantismo.
De
Martino trabalha com a relação entre crise e som no ritual.
Para ele a crise é o momento em que a tarântula toma posse do
corpo e deixa o indivíduo em um estado descrito como catatônico ou de
grande agitação. Para ser resolvido esse estado tem que ser inserido
num contexto ritual onde a
música desenvolve o papel da organizadora da desordem e a dança
expressa a ordem.
Nesse
estudo utilizamos algumas das suas observações para a investigação
da dimensão terapêutica do candomblé. Entendemos que no candomblé
pode-se pensar a crise enquanto chamado do orixá que promove a suspensão
da identidade cotidiana. Seguindo as indicações da música que prepara
culturalmente o fiel a ser possuído, as iniciadas resolvem
“terapeuticamente” a crise, deixando o orixá dançar no seu corpo
ao longo do ritual. Durante
o fenômeno do transe, o corpo da filha ou
filhou-de-santo torna-se
o próprio orixá superando
a dicotomia corpo/espirito, forma/conteúdo.
Objetivo desse artigo é mostrar a ligação que une a música e
a dança na resolução da crise no contexto do ritual, oferecendo uma
resolução que prevê a suspensão da identidade cotidiana para dar
espaço a uma nova, a identidade do orixá. Essa ligação nos leva a
considerar a experiência do corpo, fundamental na construção da nova
identidade religiosa e na transformação da doença e do sofrimento em
fundamento pessoal.
QUANDO O CORPO FALA
O candomblé é uma religião fundamentada sobre crenças
em divindades chamadas orixás e sobre a procura do encontro com o
sagrado via o fenômeno da possessão.
O transe no candomblé, como diz Prandi: "... pelos menos em
suas primeiras etapas iniciáticas, é experiência religiosa intensa e
profunda, pessoal e intransferível. Como a dor e as paixões não-religiosas
experimentadas, não pode ser mensurado nem descrito, a não ser
metaforicamente e indiretamente" (Prandi, 1991: 171).
Segundo
a filosofia do candomblé, o homem deve estar em contato contínuo e
harmônico com a natureza, que fala aos mortais através de vários
tipos de mensagens e através das suas vibrações captadas pelo corpo.
Os seus ritmos são acompanhados de uma experiência sensual contínua,
fundamental para a aprendizagem esotérica, que começa desde os
primeiros contatos com o terreiro e continua ao longo da vida toda.
Tendo como base o contexto cultural holístico do candomblé, o corpo
está diretamente relacionado a uma divindade e, por extensão, a um dos
elementos naturais primordiais e aos demais elementos a ele associados,
como relatam Barros e Teixeira (1992: 43).
O corpo é percebido como uma das manifestações das divindades
e por isso sagrado e construído segundo padrões culturais ao longo do
caminho religioso e da iniciação, quando necessária.
Sendo,
para a filosofia do candomblé, o corpo humano uma cópia das formas e
das energias do cosmo, os próprios elementos (ar, água, terra, mata e
fogo)
juntam-se segundo arquétipos
diferentes. As palavras de Pelosini (1994:94) aplicam-se bem a essa
concepção do corpo humano: “...o universo (macrocosmo) e o homem
(microcosmo) são criaturas similares, que obedecem às mesmas leis como
um tipo de fantástico e perfeito relógio cósmico que marca com
harmonia os ritmos universais".
Assim cada parte do corpo tem um significado simbólico: a parte
frontal é relacionada ao futuro e ao orixá dono-da-cabeça,
enquanto a parte posterior é relacionada ao passado. O lado direito é
ligado aos ancestrais masculinos enquanto o lado esquerdo aos ancestrais
femininos. Cada parte está relacionada a um orixá em particular e as
aberturas do corpo a Exu.
As orelhas, por exemplo, sendo orifícios são defendidas com argolas
pingentes que balançando produzem um barulho que afasta os influxos
negativos. As palmas das mãos
e as solas dos pés são pontos em que pode-se perder energia e recebê-la.
Por isso na presença das divindades os fiéis viram as palmas de
frente para elas. Cada parte do corpo corresponde a uma divindade.
A cabeça é fundamental porque é a sede do orí
que contem o odú, o destino pessoal.
"Para
os iorubás a cabeça é a parte mais vital do corpo humano: contem o cérebro,
a morada da sabedoria e da razão; os olhos, a luz que ilumina os passos
do homem pelos labirintos da vida, o nariz que serve como uma espécie
de ventilação da alma; os ouvidos com os quais o homem escuta e reage
aos sons, e a boca com a
qual ele come e mantém o corpo e a alma juntos. " ( Babatunde
Lawal, 1983: 46).
De
fato existe um dito iorubá que
diz: "Ori buruku, kossi orixá" ou seja "cabeça
não equilibrada não dá orixá".
Senhora
da cabeça, é Iemanjá que harmoniza as energias positivas e negativas
e por isso numa das suas coreografias dança levando alternativamente as
mãos a frente e atrás da cabeça. Iemanjá executa a função de
orientar e de equilibrar seus filhos.
Ela protege também os seios, por ser a Mãe por excelência e
por isso ocupa-se da nutrição dos seres humanos.
Uma lenda conta da exuberância do seu corpo e dos seus seios,
dos quais um é maior que o outro.
O
ventre, sede dos órgãos sexuais, e o útero são protegidos por Oxum,
por exemplo. As cadeiras também são uma área sagrada do corpo humano:
a bacia e as nádegas representam a fertilidade.
Ogum,
o dono dos caminhos, é o dono dos pés, do movimento, da vida que
continua.
A
voz do orixá é o ke ou o ilá, um grito que é emitido só
ao longo do transe. Esse
grito é o símbolo da individualidade, é a energia daquela pessoa; é
o som criador e individual que testemunha a identidade daquela filha ou
filho.
Os
olhos são muito importantes, porque conforme as palavras de algumas mães-de-santo:
"nos falam do orixá daquela pessoa". Ao longo da pesquisa
percebi o olhar diferente das mães-de-santo em varias ocasiões:
durante a adivinhação o olhar parece suspenso, enquanto ao longo do
transe, os olhos estão fechados indicando que a atenção é voltada
para o interior do corpo, para uma outra dimensão, a do espirito,
segundo a filosofia iorubá e conforme a pesquisa de campo.
O
corpo no candomblé é o
templo do sagrado por excelência, é sagrado porque é vivo, vida
expressa através da motricidade que experimenta o espaço e o tempo e
que comunica aos outros, aos fiéis, à comunidade, expressando assim o
conceito central da filosofia
da existência africana “Eu sou porque você é”, conceito que
sublinha a importância de cada um na comunidade e o encontro harmônico
com o outro.
O corpo pode ser considerado um vaso que contem o orixá, algo de muito
precioso que "manda em nos", conforme as falas das
entrevistadas. Eis o porque da forma das quartinhas que lembram o corpo
das mulheres
que segundo alguns informantes africanos teriam uma facilidade a ser
possuídas.
No
momento da possessão a postura do corpo muda completamente, o rosto
adquire uma expressão fechada, às vezes os lábios são empurrados
para frente, os olhos são fechados, a figura humana tremendo, adquire
para as iabás da água
uma postura “mais
redonda” no sentido que os cotovelos são alargados a altura do busto
que é levemente dobrado para o baixo, e para os orixás guerreiros,
Ogum e Xangô mais reta; mais voltada para o céu para as divindades
mais jovens, Ogum, Oxossi e Iansã e mais dobrada para o chão para as
divindades velhas, Nana e Obaluaié.
O
TRANSE E A IDENTIDADE FEMININA
Na
visão do candomblé, com a iniciação as mulheres
recuperam uma identidade natural e social perdida por varias causas
que é o fundamento ou melhor a tradição religiosa e que estava
presente desde o nascimento. Esta é inscrita no corpo, construído
ritualmente através de longas etapas de aprendizagem e incorporação
dos fundamentos da vida
religiosa. A medida em que
o filho-de-santo vai avançando nos passos de sua iniciação,
estará também ingressando numa ordem sócio-cosmológica, onde o corpo
e suas sensações ocupam lugar de destaque (Brito Polvora, 1995). O
processo de construção de um filho-de-santo se dá basicamente
pelos rituais nos quais o sujeito terá impressos “os
sinais” desta iniciação
no corpo (Barros e Teixeira, 1992), já que será no e
através deste que se inscrevem tais rituais.
Segundo
os contos das novas iniciadas, o chamado do orixá acontece em várias
formas: sonhos, sensações, visões, doenças
estranhas que não são confirmadas pela medicina tradicional e
em geral um sofrimento psíquico ou físico que manifesta-se de um dia
para o outro sem uma explicação certa.
Nas falas das mulheres percebe-se
uma dicotomia na vivência das emoções, existe um “dentro”
do corpo e um “fora” do corpo. Um dentro rico e tumultuado e um fora
neutro. De um lado as mulheres explicitam as suas emoções, mas só
aquelas que são aceitas no cotidiano e na lógica do grupo; do outro,
praticam ritos que lhe dão a liberdade para abrir outras possibilidades
expressivas sobre um mundo emotivo que, para poder ser expresso, tem que
encontrar modalidades que fogem ao controle do tempo e do espaço do
cotidiano. As profundas emoções subjetivas são incorporadas e
veiculadas no corpo e sobre o corpo. Na convivência com as filhas-de-santo
e nas longas conversas com elas percebe-se a profundidade e a ambigüidade
do mundo feminino cheio de desejos, de emoções quase sempre secretas e
não atendidas, algo de incontrolável.
Segundo
algumas mães-de-santo o corpo feminino é um corpo mais acessível as
energias externas pela própria característica do ser mulher: é um
corpo "aberto" que deixa a mulher, mensalmente aberta, ao
longo da menstruação e ao longo da gravidez. Essas experiências tão
femininas são momentos nos quais as mulheres são particularmente sensíveis
e têm seus corpos transformados, acompanhando obrigatoriamente os
ritmos da natureza.
Conforme
a pesquisa, as iniciadas esperam o momento de ser recolhidas, momento
nunca falado antecipadamente, com ar deprimido, tocando a cabeça como
para mostrar dor e se lamentando, ou deitadas na esteira, não podendo
se levantar mais pelas vertigens. É como se o mundo interior das emoções,
que por muito tempo esteve fechado, saísse prepotentemente fora do seu
lugar e conseguisse tomar conta do corpo sem limites. É muito comum, de
fato que as iniciadas devam abandonar o trabalho enquanto esperam
a data da iniciação. Segundo a observação da vida no terreiro
e as falas das filhas-de-santo percebe-se o corpo das mulheres como
fragmentado. As experiências da vida, o casamento, os filhos, a falta
de trabalho comprometem o fluir das emoções e o mundo interior
pretende sair e se mostrar ao lado exterior, o mundo.
De
um lado as mulheres vivenciam esse corpo externo que não expressa as
emoções e que vive o mundo
rotineiramente, atuando numa gestualidade cotidiana; do outro se
encontram no terreiro e contam as sensações do próprio corpo e as
dores com metáforas muitos fortes como:
“a cabeça tomou fogo!" "Naquele momento senti uma
corrente correr por baixo da pele!"
"Estava ai esperando o ônibus e a terra rodava, parecia de
estar sobre um barco! É uma sensação de arrepiar!”.
Nas
entrevistas apareceu um mundo fantástico e em movimento que agitasse no
corpo das mulheres e que com grande dificuldade pode ser expresso com
palavras e ser entendido por aquele que não o experimentaram. Por isso
as percepções vivenciadas separam, conforme as falas das
entrevistadas, o mundo dos do candomblé daquele “de fora da seita”,
divisão muito forte para os fieis.
A
iniciação dá um sentido a essas experiências e inscreve o corpo com
uma própria identidade subjetiva na ordem cosmológica e social através
da transformação dessas sensações e através da inversão do espaço
e do tempo cotidiano.
As
sensações da vida são experiências valorizadas que são transmitidas
e são faladas num contexto ritual em que ao corpo e as suas percepções
é permitido um lugar de destaque na
cerimônia religiosa.
O
ritual religioso repete um padrão idêntico: as forças, as energias
penetram, do exterior, no corpo feminino; pode ser através da mordida
da aranha, no caso do tarantismo, ou da energia do orixá ou de uma
outra divindade conduzindo a uma experiência existencial que dá à
mulher um novo fundamento para a própria história pessoal e social.
Muitas vezes ouvi, de fato, as iniciadas dizer: "Eu tinha que
passar por isso, para aprender!".
Com
a iniciação dá-se a transformação das experiências interiores, do
sofrimento, da dor em paz ou pelo menos alivio e
equilíbrio através duma nova história pessoal e social que
todas as mulheres incorporam nos seus próprios corpos, como uma sorte
de memória secreta que só aqueles que vivenciam a mesma coisa podem
perceber.
A
iniciação que como relata Prandi: "consiste, pois, em etapas de
aprendizado ritual, por parte da filha-de-santo e em estágios de
adensamento da sacralidade do orixá particular desta iniciada"
(1991: 171) e o desenvolvimento de uma nova identidade permite a experiência
e a orientação de emoções subjetivas a ser orientadas no mundo
exterior. O corpo aprende assim a lidar com essas emoções e a
conduzi-las sempre mais até ser “fechado”, num sentido de não se
deixar mais invadir e assim dirigir a própria vida no mundo.
A
DOENÇA E O SOFRIMENTO NO CANDOMBLÉ
A
noção de saúde no candomblé é algo de muito complicado a ser
entendido, tem a ver com o lado espiritual, físico, psicológico,
cosmológico e social, é
uma experiência holística que o fiel é chamado a vivenciar. Sendo os
rituais voltados para a reconstrução da antiga ligação entre o aiê,
a terra e o orum, o mundo dos orixás, a doença física ou psíquica
é na maioria das vezes, o sinal de uma falta de ligação, de uma
desordem com o mundo espiritual, como por exemplo uma pessoa feita
raramente deve deixar de tomar conta do seu orixá, porque a divindade
pode mandar um problema físico específico
para sinalizar que a comunicação com ela foi interrompida.
A
chamada do orixá e a seguinte entrada na religião pode acontecer por vários
motivos: por herança familiar, pelo sofrimento, pelo amor, como relatam
as mães-de-santo.
Na
categoria do sofrimento estão as doença cujas causas podem ser:
-A
doença como pedido da divindade que quer ser feita. Às vezes aparecem
doenças estranhas que a medicina oficial não sabe explicar e cuidar e
que somem com o desenvolver das cerimônias, obrigações. Os iniciados contam claramente que tem uma grande diferença
entre o “antes”
e o “depois” da iniciação.
-Vários
problemas de ordem econômica, afetiva ou de saúde, etc. podem
acontecer caso o iniciado se afaste do seu santo, no sentido de não
cuidar mais dele. O santo deixa seu filho só e sem proteção.
-No
caso de ser tido fixado na cabeça do filho um santo errado.
-No
caso do encosto de Egum, quer dizer que uma pessoa é
carregada da energia de um espírito de um morto.
-No
caso de estar com o corpo aberto, como durante a menstruação, causa
que permite uma perda de axé, energia, o que configura
uma situação de vulnerabilidade.
-No
caso do mal olhado: muitas vezes a inveja pode afetar através do olho
grosso, uma capacidade, que poucas pessoas tem, de passar
influências negativas através do olhar.
-Ao
mesmo tempo existem algumas doenças como aquelas de pele ou distúrbios
digestivos que são tratadas a nível farmacológico, com base em um
profundo conhecimento de plantas medicinais, ministradas através de chás
ou banhos de ervas.
A IDENTIDADE SONORA
INDIVIDUAL E A DO ORIXÁ
Segundo
as lendas a divindade suprema dá a vida ao homem através do sopro, emí,
por isso o candomblé pode ser considerado uma religião pneumática,
quer dizer que a criação originou-se pelo ritmo da respiração da
divindade. Segundo a
mitologia cada pessoa nasce com um dono-da-cabeça, que vive no corpo
através do seu ritmo individual, da sua respiração, do seu andar.
Esse ritmo pessoal por várias causas, pode ser esquecido ao longo da
vida.
O ritmo interior ligado ao orixá dono-da-cabeça
ao longo da aproximação à religião e mais exatamente na iniciação
é feito emergir e fixado definitivamente no corpo.
A
personalidade do orixá é inscrita no corpo da iniciada em rituais
secretos que prevêem como condição o uso do ritmo e do som.
Nessa fase dramática
da vida da iniciada, a base rítmica do próprio dono-da-cabeça,
o toque especifico e a sua cantiga vai tornar-se um ritmo permanente que
serve como pano de fundo para as atividades progressivas do recém
nascido. Assim todas as vezes que os alabés
tocarem, a identidade sonora da filha-de-santo responderá aos
tambores cujo toque chamam o seu orixá.
Sendo
a iniciação a representação do nascimento, o fiel nasce
simbolicamente uma segunda vez, numa nova vida, e sendo o som, o ritmo,
o movimento, elementos constantes da vida fetal, serão também os
movimentos e os ritmos que as iniciadas aprendem no ronko que irão
ocupar uma parte importante da sua memória originária e serão
inscritos no seu corpo. Assim, no contexto holístico do candomblé esses elementos são
partes integrantes do ser e da sua identidade, não existindo a
dicotomia cartesiana corpo/espirito.
A identidade sonora (o toque do orixá) pode ser equiparada a um
fundamento da iniciada que ela manifestará nos rituais periódicos.
Os
toques tão diferentes de Oiá ou de Iemanjá, por exemplo, atestam
inequivocamente os traços da personalidade desses orixás, a primeira
nervosa e livre, a segunda uma matrona calma e independente.
De fato, cada orixá tem seu toque que é único e original e que
simbolicamente corresponde a sua voz, a sua personalidade, a seu
movimento, as seus aspectos mitológicos e aos
elementos naturais dos quais é composto. Essa identidade sonora
do orixá contém a identidade sonora do possuído. A música é a
comunicação entre o filho e o orixá, enquanto a dança é a manifestação
dessa comunicação. O
possuído reconhece, a um nível não consciente, os ritmos e os
movimentos precedentemente
inscritos no seu corpo e todas as vezes em que ouve a sua identidade
sonora, ele responde. A
comunicação acontece aí a um nível muito sutil: o som dos tambores
propaga-se através de todos os sentidos, a música envolve a pessoa
como um todo e a obriga a comparticipar do som.
Em geral com a passagem do tempo e aumentando os anos de iniciação
o ritmo interior corresponderá sempre mais
ao ritmo exterior, numa progressiva
união e conhecimento com
o orixá do qual se é filho. Segundo o povo do santo é o orixá que
decide se a própria filha tem que recebê-lo e por quanto tempo e com
qual intensidade.
AS
CARACTERISTICAS DA MÚSICA E DA DANÇA
Para
entender a função e o sentido simbólico da dança e da música no
ritual é preciso lembrar
que o candomblé apresenta algumas das características básicas das
religiões africanas. Em primeiro lugar o fato de ser uma religião
holistica. Cada aspecto da vida é ligado a um outro numa corrente
infinita onde cada parte existe em função da outra, em uma
eterna procura de harmonia e equilíbrio. Existe de fato uma ligação
indissolúvel entre o cosmo, o ser, o divino que manifesta-se na existência
dos homens e, nessa ligação entre sensível e supra-sensível, a música
adquire uma importância especial porque é a vibração do orixá.
Todo o ritual esforça-se por voltar ao tempo do mito, da origem
e de recriar aquele tempo, aquela antiga harmonia. A música e a dança
são utilizadas nesse sentido. Possuem
algumas características em comum que são fundamentais ao desenvolver
do ritual. Tendo como base o princípio de que o som é o resultado de
uma interação dinâmica entre as vibrações que propagam-se do tambor
percutido por o alabé, o sacerdote-musico. O som
é condutor de axé, poder de realização que
aparece em todo seu conteúdo simbólico nos instrumentos musicais.
Por isso os atabaques são instrumentos sagrados e recebem
todos os anos rituais apropriados, assim como são tocados só por
sacerdotes especiais.
A
música no candomblé é caracterizada por uma ciclicidade da frase
musical, ou seja o padrão rítmico,
o time-line repete-se ao infinito. A noção de tempo aqui
expressa é bem diferente da noção ocidental. Não se trata, como
nesta, de criar uma historia temporal, onde há um começo e um fim. No
candomblé o padrão rítmico é repetido sem um começo nem um final.
Não se trata de uma simples repetição,
mas da possibilidade de se
criar todas as vezes a origem. Assim na festa de Iemanjá, por exemplo,
cria-se a própria energia da água do mar e esta é re-originada através
a repetição do time-line
e do movimento da dança. Todos
os fieis presentes tem que se concentrar e dançando e cantando a mesma
cantiga três vezes origina-se a energia sagrada do orixá.
Por isso é muito importante estar presente nos momentos rituais,
porque só nestes pode-se criar novamente o sagrado.
Parece que existe quase
uma tentativa de parar o tempo e o seu fluxo na busca de um centro único,
fixo e eterno.
A
característica principal da música é de ser polirítmica, quer dizer
que cada atabaque
tem seu padrão rítmico que se liga àquele dos outros tambores num
ensamble thematic cycle que harmoniza
os vários instrumentos.
O
atabaque maior,
o rum, é o único que se permite variações, ele toma
conta da cabeça que manda sobre o resto do corpo e dirige os pés através
da coluna humana. O rum é tocado com as mãos,
corresponde ao “fundamento religioso”. O rumpi e
o lé são a base rítmica.
O primeiro manda sobre os braços enquanto o segundo dirige o movimento
dos ombros, que é contínuo e o mais solto possível; o lé
produz um som seco, firme e penetrante. Toca-se
com as varetas e, segundo o toque utilizado pelo alabé,
emite sons de diferentes alturas. Os sons
mais “acentuados”, o stress, conduzem os movimentos
do corpo todo da filha-de-santo na dança. Assim os dois
tambores menores criam um fundo rítmico sobre o qual o rum manda
e cria variações. Existe
um outro instrumento, o agogô, uma campainha de metal que é percutido
com uma vareta. É um metalofone que
emite um som com um timbre agudo. No
toque de Oiá é tocado com um ritmo fortemente sincopado.
Pode-se
entender melhor a função da música tomando outra vez Carpitella
quando falando da música da tarantela explica que: "....tem
uma divisão entre a pulsação da seção rítmica (organeto, pandeiro
e violão) e a pulsação de fora, o off-beat do violino (para o caráter
de improvisação da parte melódica)... forma-se assim uma sobreposição
entre as pulsações: um ritmo isométrico
puro acentuado e efeitos rítmicos atrasados, síncope,
que junto dão origem a uma estrutura polirítmica. (Carpitella in: De
Martino, 1994: 351)
Existem
dois aspectos expressos na música que refletem dois momentos típicos
das técnicas religiosas: a dilatação e a exasperação da crise que
é musicalmente elaborada com técnicas expressivas particulares como os
ritmos acentuados, síncope, efeitos instrumentais, vários tipos de
percussões dos tambores, gritos), e do controle e contenção da crise
que reflete-se sobretudo no obstinado ritmo isométrico.
Talvez enquanto a
poliritmia atua em função da dilatação e da exasperação da crise,
o ritmo isometrico obstinado funciona como controlador e contendor da
crise. Para entender a conexão estreita entre a música e a dança e a
experiência do fiel é preciso ter em mente que são percebidas por
todos os sentidos, não só através do ouvido e do olhar, mas também
através da pele, envolvendo o fiel como um todo.
A
característica polirítmica da música existe também na dança. Cada
parte do corpo segue um padrão de movimento, como se correspondesse a
um ritmo, a um "time-line" específico.
A base dos movimentos, a parte isométrica, é dada pelo
movimento dos pés ligados à cabeça via coluna vertebral.
Outra característica da dança, em estreita conexão com os
ritmos é o policentrismo,
ou seja o fato do que o movimento tem que sair do interior e propagar-se
para o exterior. No corpo humano não existe um só centro de pulsão
energética, mas muitos. Os
principais são a bacia, os pés e um ponto no fundo do pescoço que
manda nos movimentos dos ombros, segundo os informantes.
A dança sagrada não é puro deslocamento no espaço, mas o
corpo se movimentando, ocupa uma estrutura espacial, cria um espaço
pessoal. As filhas-de-santo movimentam-se
em todas as direções, cada uma na sua estrutura espaço-temporal,
seguindo a reciclagem da frase-musical.
Outra
característica é a forma do círculo. As danças desenvolvem-se em círculo
e na direção anti-horária. O
circulo sagrado lembra o tempo-espaço do mito que segundo as lendas
remete à antiga divindade da terra.
A
repetição do movimento é percebida como uma criação de algo de
novo, cada movimento dá
origem a divindade e dá a possibilidade de voltar no tempo e no espaço
da começo.
Nas
danças do candomblé os pés estão em contato contínuo com a terra
para absorver as suas energias e, simbolicamente, percutindo-a ao longo
da dança, o fiel é obrigado ao encontro com “esse mundo”,
aquele no qual vivemos e estamos presente no aqui e agora; não
é como na dança clássica onde a performance advém sobre as pontas do
pés simbolizando a procura de um “outro mundo” e ou a rejeição
deste.
O
corpo em movimento assume um significado simbólico, segundo os níveis
de verticalidade, alto-médio-baixo. O nível alto relaciona a pessoa
com o elemento ar; o nível baixo relaciona o corpo com a energia da
terra, que, segundo Oliveira
(1994): “tem que dar o apoio necessário para sustentar-se”; o nível
médio inter-relaciona os outros dois.
O corpo movimenta-se também na horizontal, ampliando os
movimentos semelhante a uma bola hipotética, como nas danças de Iemanjá,
ou desenhando com os braços, uma forma redonda, como nas de
“afastamento” de Oiá-Iansã. Assim as danças podem desenvolver-se
tanto ampliando os movimentos,
quanto subindo e descendo ao longo de uma linha imaginária, como na dança
das ondas de Iemanjá.
Nas
danças sagradas tudo tem um sentido e um significado. Assim,
os orixás jovens pulam dançando, e interrompem os
movimentos com paradas repentinas e nervosas, como Oiá-Iansã ou
Ogum, demonstrando mais
energia, enquanto os orixás mais velhos dançam com mais calma e com
movimentos mais contínuos,
como Oxalá ou Nanã Buruku. Os
orixás guerreiros dançam com uma postura mais ereta, com pulos nos
momentos mais dramáticos e alcançando com o corpo mais espaço, seja
na linha vertical seja na horizontal, enquanto as divindades velhas dançam curvadas na direção do chão. É o caso de
Omolu ou de Nanã Buruku, cuja gestualidade expressa sua ligação com
os ancestrais e com o retorno à terra, aiê , ao orum, o não conhecível.
Em
geral todas as danças dos orixás possuem as seguintes características:
-
a importância do grupo que fortifica a ligação entre os fiéis e
oferece a possibilidade de ver a própria imagem refletida como num
espelho, dançando os mesmos passos com os irmãos-de-santo e
a possibilidade de individualizar-se no transe, dançando por si
e para os outros a própria identidade rítmica;
-a
relação com o elemento terra, a mãe terra que alimenta e que é a
base dos homens, sendo o lugar dos ancestrais;
-a
importância do ritmo que como explica Belinga (1994) é o próprio
“verbo” e tem assim a função de chamar e de organizar a desordem,
o momento da crise seja a nível macrocósmico, seja a nível microcósmico;
-a
simplicidade dos movimentos que podem ser repetidos ciclicamente e que
ajudam o fiel a si concentrar sobre si mesmo para permitir a descida da
divindade e a sua fixação no corpo;
-a
oferta de uma simbologia dançada, cantada, tocada que permite à
iniciada dar uma resposta ao não-senso do sofrimento traduzindo a dor
na linguagem do mito.
No
ritual, a dança não pode existir sem a música e vice-versa, porque um
é para o outro um “call and response” a nível energético. O rum,
o tambor mestre, na dança do transe, dialoga com o orixá, a filha-de-santo
possuida. O time-line não é fixo, mas segue a dança e a dança
segue os mandamentos do tambor.
Na
dança e na realização da música a idéia fundamental é de estar em
harmonia consigo mesmo e com o resto do grupo, tendo a comunidade uma
maior possibilidade de sobrevivência quando todos os fiéis participam.
Sendo a música tão importante, assim são os sacerdotes-músicos, os alabés
que aprendem o repertório ao longo do tempo. São eles que podem chamar
a comunidade e sobretudo os orixás a descer na festa, são eles que
ajudam os fiéis a cair no santo acelerando os ritmos,
e que encerram a festa com um toque especial.
A
dança sobretudo na primeira parte do ritual, no xirê, é um
tipo de meditação dinâmica e por isso dança-se “pequeneninho”,
com a função de se concentrar. Os
toques dos orixás poderiam ser comparados a um mantra que ajuda
a se focalizar no próprio eixo. A
percussão dos pés, a repetição dos mesmos movimentos sustentados
pelos ritmos dos tambores, obriga
o corpo a se centrar e a seguir o ritmo que do exterior liga-se ao
interior, parando o fluxo do pensamento cotidiano e obrigando o fiel a
se relacionar com o interior, por isso na dança os olhos estão
fechados a simbolizar que o olhar é voltado para o interior.
Conforme
já observado através da dança e da música pretende-se parar o fluxo
do tempo para poder voltar ao momento do mito, onde tudo começou e onde
pode-se agir com a ajuda da magia para poder reequilibrar as energias,
como era no começo e sempre será.
O ritual todo é um esforço para voltar ao “começo”.
O
tempo é o tempo circular do mito que começa e acaba no mesmo ponto,
ciclicamente e ritmicamente seguindo os ritmos da natureza, dia-noite,
sol-lua, estações, etc. O tempo, nesse sentido é movimento, é a
materialização do movimento, como diz Duplan (1987): "para marcar
o tempo, temos que agir, batendo sobre um tambor com a mão ou sobre o
chão com os pés. Criando o tempo, criamos o movimento."
O
espaço sagrado é o “campo” do culto, o lugar no qual o caos
transforma-se em cosmo, tornando possível a vida humana, por isso é
polissêmico. Existem dois
espaços, um interior, o próprio corpo da
filha-de-santo, receptáculo do sagrado, sagrado ele
mesmo, e um externo o barracão. Esses dois lugares são o teatro
da transformação ritual. Neles
o fiel deixa o mundo cotidiano e alcança o encontro tão assustador, mas tão desejado, com o divino.
É só no espaço sagrado continente que ele pode voltar à totalidade e comunicar-se com a divindade.
A
dança desenha não só o
percurso do corpo no espaço para chegar ao divino, mas também percorre
a planta arquitetônica do templo, desenhando
o caminho para alcançar o sagrado.
O espaço sagrado, o barracão, durante a dança, é preenchido com os corpos em movimento que
expressam as várias possibilidades no espaço do divino e a liberdade
do homem em se movimentar para todas as direções. A divindade e o
homem podem utilizar uma estrada curvilínea ou um caminho que prevê
varias mudanças de direções.
OS
RITMOS SINCOPADOS
A
síncope, outra característica típica da música africana e do
candomblé é o efeito rítmico produzido pelo prolongamento ou
deslocamento do acento do tempo fraco ao tempo forte.
O
prolongamento do acento faz com que não exista uma percussão na batida
forte. Assim, produz-se uma quebra da expectativa por uma batida forte e
por isso verifica-se um choque. Os
ritmos sincopados quebram a ordem dos ritmos esperados e criam assim um
novo padrão de ordem. O
nosso corpo, o coração, o nosso andar
obedecem a um funcionamento rítmico isócrono.
A falta desse ritmo provoca
um choque, uma sensação de caída. Simbolicamente nos fala da
possibilidade das coisas não acontecer sempre na mesma forma, e obriga
o corpo ao movimento. O ritmo sincopado proposto num modo obsessivo
adquire, no contexto ritual, uma grandíssima importância porque
altera a expectativa do padrão rítmico, movimentando os acentos do
tempo forte para o tempo fraco. Abre assim, talvez, a porta a outras
dimensões, indicando metaforicamente outras vias de conhecimento; vias
que requerem o corpo e não apenas a mente. Contribui, junto com outras
componentes do rito a abrir as portas do orum, o
inconhecivel.
Esse
movimento contínuo da sincope pode simbolizar o ritmo do universo e de
todos os seres que o habitam: “que movimentam-se entre os dois centros
da vida e da morte,..... Essa polarização indica o movimento contínuo
e a circulação do axé, a energia vital, a qual é a única
...a dar um sentido à música e ao canto entoado pelas filhas ou filhos-de-santo”.
(Luz, 1995:571). Segundo Sodré, a síncope contribui a dar uma idéia
de um tempo homogêneo capaz de voltar continuamente sobre ele mesmo,
onde cada fim é o começo cíclico de uma situação. (1979:21, cit de Luz,
1995: 567)
A síncope produz
simbolicamente uma ação cíclica
que liga-se ao conceito de reversibilidade do tempo e do espaço
no mito, que permite aos fieis voltar naquele
tempo e, assim, se
juntar a energia do orixá.
Essa volta não é uma simples emoção, mas produz efeitos físicos
no organismo, na respiração, no movimento, muito mais fluido, enfim no
corpo todo.
CONCLUSÃO
O
conceito de doença é algo de muito difícil a ser definido no candomblé,
porque em geral qualquer desordem ou modificação da normalidade tem a
ver com o lado espiritual. Conforme observei, no candomblé o orixá
pode chamar o fiel de várias maneiras, muitas vezes através de uma
doença ou de uma desordem psíquica. Se a divindade exige ser feita, a filha-de-santo
será iniciada, obtendo em vários casos a cura da doença e um
maior equilíbrio psicológico. O tratamento é em grande medida
conduzido através da música que põe em comunicação a terra, o aiê
com o mundo espiritual, o orum; o exterior e o interior.
A
cura da doença na terapêutica
do candomblé representa um
aspecto muito fascinante, e é oposta à terapêutica oficial, onde o
doente é privado do próprio corpo que na maioria das vezes é
fragmentado e sem uma própria historia.
No candomblé, o sofrimento é inscrito numa rede de relações
que consegue juntar a experiência pessoal, social e
sobrenatural, oferecendo uma explicação
e um tratamento mais
abrangente da própria dor.
É
um tratamento que utiliza basicamente o elemento sonoro - musical.
A música coloca o fiel em uma nova dimensão existencial, a da experiência
religiosa, protegendo-o no contexto ritual.
No
momento em que existe uma harmonia entre a musica interior e aquela dos
tambores, advém o conhecimento do outro, do divino e através do outro
de si. Aparece assim
o conceito do “duplo” divino; a filha-de-santo,
deixando-se possuir, cria ela mesma o “outro” e nesse processo de
criação-incorporação o experimenta intensamente dentro de si, até
ela mesma possui-lo, até inscrevê-lo no próprio corpo como uma nova
identidade-rítmica interior a qual poderá fazer referência ao longo
da sua vida.
No
candomblé é através do corpo que o homem começa o caminho da cura e
do conhecimento religioso. É no corpo que vivem as experiências e unem-se as várias
informações simbólicas sobre o mundo; é no corpo que, vivendo as
energias sagradas, o fiel pode comunicar com o divino. O corpo com a
iniciação age primeiro no mundo sagrado depois no mundo cotidiano
através uma gestualidade e uma dança aprendidas ao longo da estadia no
terreiro e interage dinamicamente com o espaço e com o tempo aos quais
dá novos sentidos e novas direções.
Na
dança de possessão, o corpo possuído pelo orixá, como relata
Galimberti: “habita o mundo. Um habitar que não é conhecer, mas se
sentir em casa” (1993:69). O espaço não é um espaço posicional (no
qual o corpo posiciona-se como objeto frente a outros objetos), mas
situacional (no sentido de ser vivido pelo corpo com todos os sentidos)
porque se mede a partir da situação na qual o corpo se encontra. É um
espaço que existe porque esse corpo existe, assim que o corpo não é
um grão de areia no espaço, pois não existiria espaço se ele não
existisse. Desde o corpo é
possível tomar todas as direções no espaço.
Esse espaço corpóreo (considerando o espaço realmente vivido e
conhecido sensualmente) não tem um significado só teórico, mas traz
consigo os traços dos sentimentos pessoais, das necessidades sociais e
dos elementos emotivos, como os de ter lugares conhecidos onde o corpo
pode voltar.
No
espaço cada objeto, cada planta, cada parte do corpo humano remetem
simbolicamente a outras coisas. Assim como a coluna sagrada presente em
vários terreiros liga o aiê, a terra ao orum, o
mundo sobrenatural, a coluna vertebral liga a cabeça, o ori com
os pés, a ancestralidade, permitindo ao longo do transe de voltar ao
tempo da origem quando não existia o corte entre o mundo dos homens e
aquele das divindades.
No
candomblé o corpo aprende a conhecer a própria origem e a própria essência
não só como mero conceito cognitivo, mas através da experiência
direta e vivida das emoções que o formam.
Cada
homem possui o próprio duplo sonoro no orum que encontra no momento da possessão que aprende a conhecer e
a expressar através da música e da dança, aprendida em momentos específicos
e num estado alterado de consciência para dar a possibilidade de
construir uma nova identidade. A musica dos atabaques conduz o fiel em
uma viagem simbólica que o transforma. A
filha-de-santo possui, dançando o próprio ritmo, o próprio
tempo e o próprio espaço.
A
percussão dos tambores, como sublinha Duplan
é a materialização do tempo e ter consciência do tempo é conhecer a
historia da própria família, é saber de ser um anel numa corrente
infinita que originou-se com o primeiro ancestral mítico do qual o
homem é uma parte.
As
danças ligadas estreitamente à música, permitem a presença viva,
partícipe e consoladora da
divindade entre os homens. Através das coreografias e através a contração
e a expansão dos
movimentos o orixá expressa a própria qualidade energética, percebível
só pelas iniciadas. A dança e a música expressam a divindade numa única
imagem onde conteúdo e forma se interligam estreitamente. Esta unidade
só é alcançada em momentos específicos, construídos ritualmente,
seguindo modelos culturais que repetem-se no tempo.
É transmitida através da experiência corporal e musical porque
os conteúdos são tão profundos que não poderiam ser comunicados só
com palavras. Eis porque o uso da linguagem não-verbal nos ritos remete
a imagens e sentimentos raramente expressos e por isso adquire um grande
poder. Os gestos possuem um significado, um efeito restaurador que as
simples palavras não podem oferecer.
Vivendo
o mito, dançando-o e cantando-o, o fiel consegue assumir, canalizar e
expressar os afetos e os próprios sentimentos; o ritmo das percussões
que ressoa no interior do corpo obriga o fiel ao ser, à presença e não
à fuga que o homem experimenta na frenesi do mundo contemporâneo.
A
comunicação com o mundo invisível através do transe permite de meter
em ato e de dinamizar as experiências
mitológicas favoráveis à cura, com a mobilização das
identidades míticas que podem traduzir a doença e canalizá-la em
novas experiências corporais no interior da estrutura continente do
rito.
A
música e a dança são terapêutica num sentido que não é através
das palavras que advém a cura, mas através das experiências
emocionais vividas pelo corpo até
a construção de uma nova identidade
mais profunda que será a nova base daquele fiel.
As
percepções do corpo não são mais rejeitadas como algo de
desconhecido, mas aceitadas e experienciadas como algo de precioso e de
aconselhador. Creia-se assim novas possibilidades existenciais através
de uma dialética que liga o exterior e o interior.
Esses
rituais articulam e ordenam novas “possibilidades existenciais”,
favorecendo assim uma nova organização e uma nova harmonia interna.
Novas possibilidades existenciais que
são oferecidas do externo: das outras filhas já iniciadas e dá
Mãe-de-santo. As
sacerdotisas “falam” à iniciada agindo com ela, dançam, cantam e
transformam as velhas experiências em experiências preciosas.
A
iniciada recolhe essas novas informações passadas a nível não-verbal
com as quais acorda, vive e canaliza as próprias emoções. As
iniciadas aprendem a reconhecer o próprio ritmo sonoro e ao acolhê-lo. Essa experiência não é puramente auditiva mais envolve
todos os sentidos. A
possessão permite assim um jogo, uma ligação entre o interior e o
exterior. O fiel deixando-se possuir cria o outro e nesse processo de
criação-incorporação o experimenta intensamente dentro de si até
ele mesmo possui-lo. O tempo é movimento
e criando o tempo cria-se o movimento que é vida, axé,
energia de vida, por isso o candomblé permite a presencia das
divindades vivas, porque aclama a vida como algo de precioso e sagrado
que deve ser vivido agora e aqui.
A
arte executa aqui a parte do leão criando
formas que simbolizam os sentimentos humanos (Langer, 1980:40). O
sofrimento e a desordem interna são acessíveis só através da
linguagem dos símbolos quer dizer através da comunicação não-verbal.
O ritmo, a musica, a dança, as cores permitem uma comunicação
bem mais profunda do simples comunicado explícito. O ritmo das
palavras, o toque parecido a um mantra, a concentração e a
expansão do corpo, o nível de verticalidade e de horizontalidade, o
uso do espaço, o uso do tempo, da música e da dança oferecem à filha-de-santo
a possibilidade de
construir e viver a própria identidade-ritmo, através uma pluralidade
de meios impregnados de emoção e não transmitidos
mecanicamente.
BIBLIOGRAFIA
ASANTE,
K. Welsh. Commonalities in African
Dance: an aesthetic foundation. Rithms of unity, Wesport. Connecticut:Greenwoad Press, 1985.
AUGRAS,
Monique. O Duplo e a Metamorfose. Petropolis: Vozes, 1983.
BABATUNDE
LAWAL. A arte pela vida: a vida pela arte. In: Afro-Ásia,
n.14, publicação do CEAO da UFBA, Salvador 1983.
BARBÁRA,
Rosamaria. A dança do vento e da tempestade. Tese
de mestrado da Ufba, 1995.
BARROS,
José Flávio de & TEIXEIRA, Maria Lina. O Código do corpo:
Inscrições e Marcas dos Orixás. in: MOURA, Carlos Eugênio
Marcondes de, Meu sinal
está no teu corpo: escritos sobre a religião dos orixás. São
Paulo: Edicon/Edusp, 1992, pp. 36-61.
BASTIDE,
Roger.Les Amériques Noires. Paris: Payot, 1967.
O Candomblé da Bahia (Rito nagô). São Paulo:
Nacional, 1978. Trad. Maria
Isaura Pereira de Queiroz .
BÉHAGUE, G. Some Liturgical Functions of
Afro-Brazilian Religious Music in Salvador. Bahia
“World of Music” , Berlino 19/3 e 4, pp.4-23.
Patterns of candomblé, Music performance: na
Afro-Brazilian Religious Setting. “Performance Practice”,
Contributions in Interculture and Comparative Studies, Westport, 12,
pp.223-54.
BELINGA,
S.M.Eno. Musica e Letteratura nell'Africa Negra. Milano: Jaka Book, 1994.
BOAS, Franz. Dance and Music in the Life of the
Northwest Coast Indians of North America. In: BOAS, Franziska. The
Function of Dance in Human Society, New York: The Boas school, 1944.
BRAGA,
Julio. Contos Afro-Brasileiros. Salvador: Empresa Gráfica
da Bahia, 1989.
Ancestralidade Afro-Brasileira.
Salvador: Ianamá, 1992.
BRITO POLVORA. O corpo batuqueiro. in: FACHEL LEAL Ondina, Corpo e
Significado, UFRGS, 1995, pp.125-137
CARNEIRO,
Edison. Candomblés da Bahia. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1977.
Religiões
Negras.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.
CIAUDANO,
Sandro. La musica nel candomblé. Acta
do III Congreso em Etnomedicina. Universidade de Genôa, Departamento de
Antropologia Fisica, maio 1996.
COSSARD-BINON, Giséle. Contribuition a l’etude
des candomblés au Brésil: Le candomblé angola. Doctorat
de Troisième cycle (mimeo), Paris: Faculte des Letres et
Sciencies Humaines, s.d, 1967.
A
filha-de-santo.
in MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de, Olóòrisa: Escritos sobre a
religião dos orixás, São Paulo: Ágora, 1981.
COSTA
LIMA, Vivaldo da. A familia de santo nos candomblés jêje-nagôs
da Bahia: um estudo de relações intra-grupais. Salvador,
Ufba, dissertação de Mestrado, 1977.
DAVIDSON, Basil. La civiltá africana. Torino: Einaudi, 1972. (or. The Africans. An Entry to Cultural History,
London: Longmans, Green and Co. Ltd,
1969).
DI LECCE. Il Rito della Taranta oggi.
in: FERRARIS de NIGRIS, Musica, Rito e Aspetti terapeutici nella
cultura mediterranea , Genova: Erga, 1997.
DE MARTINO, Ernesto. La Terra del Rimorso.
Milano:
Il Saggiatore, 1994.
ELIADE,
Mircea. O mito do eterno ritorno. Lisbõa: Edições 70,
1969.
FALDINI,
Luisa. Religione e magia..Culti di possessione in Brasile.
Torino: Utet, 1997.
GALIMBERTI,
Umberto. Il corpo. Milano:
Feltrinelli, 1993.
JANH, John. Muntu, La civiltá africana moderna.
Torino: Einaudi, 1975. (Tit.orig. Umrisse der neoafrikanischen Kultur,
Eugen Diederichs Verlag, Dusseldorf, 1958).
LANGER,
Suzanne. Sentimento e Forma. São Paulo:
Perspectiva, 1980. (Tit.orig. Feeling and Form, 1953). Trad. M. Goldberger.
LEPINE,
Claude. Os estereótipos da personalidade no candomblé nagô.
in: MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de, Olóòrisa, escritos sobre a
religião dos orixás, São Paulo: Agora, 1981.
LÉVI-STRAUSS, Claude.
Mythologiques IV, L’ Homme Nu. Paris: PUF, 1967
LODY, Raul. O
Povo de santo, historia e cultura dos orixás, voduns, inquinces e
caboclos. Rio
de Janeiro: Palladio, 1995..
LUNHING,
Angela. Die Musik im candomblé nagô-ketu. Studien zur
afrobrasilianischen Musik in Salvador, Bahia. In: Beitrage zur
Ethnomusikologe, n.24, Hrsg.J.Kuckertz Musikverlag Karl Dieter Wagner,
Hamburg, 1990 a.
Música: coração do candomblé.
In: Rivista USP, n.7, São Paulo, 9-11, 1990b, pp.115-125.
LUZ,
Marco Aurelio. Agadá: Dinamica da Civilização
Africano-Brasileira. Centro Editorial e Didatico da UFBA,
SECNEB, Salvador, 1995.
MARTINS, Suzanna. A
study of the dance of Iemanjá. Dissertation to the
Temple University, 1995.
NEUMANN,
Erich. La grande madre. Roma: Astrolabio, 1981. (Tit.orig.
Die Grosse Mutter, Zurich: Verlag, 1991).
NKETIA
KWABENA, J. La musica dell’Africa. Torino: SEI,
1986 (orig. The Music of Africa, W.W.Nortone Company, 1974).
OMARI, Michelle, S. From
the inside to the outside: the Art of Candomblé. Monograph
Series (Number 24), Los Angeles: University of California, 1990.
PELOSINI,
Gaetano. La magia della spirale. L’ equilibrio totale in un
ordine cosmico. Roma:
Esoterica, 1994.
PRANDI,
Reginaldo. Os Candomblés de São Paulo. São Paulo
Hucitec e Editora da Universidade de São Paulo, 1991.
ROYCE ANNYA P. Field
Guide for the Collection of Ethnic Dance. MS, 1969 b.
The Antropology of Dance.
Bloomington: Indiana Unversity Prees, 1980.
ROUGET,
Gilbert. Musica e transe. Torino:Einaudi, 1985.
SACHS, Curt. World
History of the Dance. New York: W.W. Norton & Co., Inc.,
1937.
SANTOS,
Deoscoredes Maximiliano dos (Mestre Didi). História de um
terreiro nagô. 2a. ed., São Paulo: Max Limonade,
1988.
SANTOS, Juana Elbein dos. Os
Nagô e a morte. Petropolis: Vozes, 1977.
SANTOS,
Maria Stella de Azevedo. Meu
Tempo é agora. São Paulo: Oduduwa, 1993.
SEGATO,
Rita. Santo e Daimones. Brasilia. UNB, 1995.
SODRÉ,
Moniz. Samba o dono do corpo. Rio de Janeiro:
Codecri, 1979
VERGER,
Pierre. Note sur le culte des Orisa et Vodun. Ifan-Dakar, Mémorie de L’Institut
Francais d”Afrique Noir, 1957.
Flux et Reflux de
la traite des négres entre le Golf de Bénin et Bahia de todos os Santos.
Paris: Mouton, 1968.
Orixás.
Salvador: Corrupio, 1981.
Uma vez que o homem é formado por várias energias que o
influenciam e podem atrapalhá-lo ou confundi-lo, obscurecendo o
ritmo-respiração do dono-da-cabeça, é possivel que tal
esquecimento esteja relacionado ou venha a conduzir a uma “guerra
de orixás”, ou seja que o indivíduo
seja tomado por outras
energias alem daquelas do próprio dono-da-cabeça.
“Cada indivíduo pertence a um deus em particular, dono-da-cabeça
e da sua mente, do qual herdou as características do físico e da
personalidade” (Prandi, 1991:86).
|