
R
a v e l
(1875-1937)
Maurice Joseph Ravel nasceu em Ciboure (França), perto de Saint-Jean-de-Luz,
Baixos Pirineus, a 7 de março de 1875. Entrou em
1889 no Conservatório de Paris e era ainda estudante quando apareceram suas
primeiras composições. Estas criaram para o jovem compositor a fama de
revolucionário perigoso, sendo-lhe negada por três vezes a atribuição do Prêmio
de Roma.
Sua vida se resumiu depois em trabalho interrompido apenas pela sua participação
na I Guerra Mundial. Em 1920 recusou a legião d'Honneur. Um acidente em 1932
provocou em Ravel um trauma de que jamais se recuperou. A memória foi afetada e
também a coordenação dos movimentos. Seus amigos organizaram viagens à Espanha e
ao Marrocos, a fim de distraí-lo. Operado em 1837, Ravel morreu em Paris a 28 de
dezembro de 1937, ainda inconsciente.
A vida de Ravel foi neutra, sem acontecimentos, a não ser as reações provocadas
por sua obra, reações que foram contraditórias, pois Ravel foi julgado
revolucionário nos círculos tradicionalistas do Conservatório e conservador
pelos círculos vanguardistas da década de 1920.
Ravel contribuiu mais para a extensão e abertura do que para a destruição do
sistema tonal clássico. Foi inovador em suas harmonias estranhas e clássico pelo
firme contorno de suas linhas melódicas. É nesse ponto mesmo que diverge de
Debussy, com quem foi, por equívoco, sempre comparado. Enquanto Debussy foi
músico impressionista, pela dissolução da linha melódica (tal como os pintores
impressionistas dissolveram o traço em proveito da luminosidade), Ravel foi
anti-impressionista na construção da melodia.
Não obstante, há uma atmosfera comum a Debussy, Ravel e outros músicos da época:
certo esoterismo da linguagem musical, pela procura de novas harmonias, e um
certo preciosismo temático, inspirado pelo Simbolismo, além de atração pelo
Oriente e pela Espanha. A influência entre os dois compositores foi recíproca.
Ravel, longe de ser um epígono, foi personalidade totalmente original. Sua
música é a revelação dessa personalidade, reticente e reservada, ao mesmo tempo
irônica e sentimental.
Apesar de ter sido inovador em todos os gêneros musicais e na própria estrutura
musical, não é um acaso a grande admiração de Ravel pela música pré-classicista
francesa e pelos mestres do Classicismo vienense: ele próprio foi algo como o
'último clássico', antes de Stravinsky e a escola de Schönberg realizarem a
grande subversão da música.
Entre as primeiras apresentações públicas das obras de Ravel está a abertura
Sherazade, uma ópera não realizada. Ravel foi um mestre da orquestração, na
descendência direta de Rimski-Korsakov, mas pouco do que fez foi produzido
originalmente para a orquestra.
Orquestrou obras para piano, suas e dos outros. É mesmo famosa a sua transcrição
para a orquestra dos Quadros de uma exposição, de Mussorgsky, que pode ser
considerada como obra original, raveliana. Escrito para orquestra é o célebre
Bolero (1927), que se desgastou pela execução repetida. Mas é obra
originalíssima pela sua estrutura rítmica e pela concepção melódica, que o
próprio Ravel definiu como 'um estudo em crescendo, com o tema obstinadamente
repetido'. Ravel também orquestrou sua obra pianística Pavana para uma infanta
morta, de que se falará a seguir.
Famoso são dois concertos, o Concerto para piano em ré maior (1931), também
conhecido como Concerto para mão esquerda, e o Concerto para piano em sol maior
(1932). Ravel tinha uma concepção clássica do concerto, como obra racional, mas
não é possível ignorar a dramaticidade inerente ao Concerto para mão esquerda,
escrito para o pianista Wittgenstein, que tinha na I Guerra Mundial perdido o
braço direito.
Muito se discutiu a estrutura rítmica da música de Ravel, herdeira dos ritmos de
dança dos barrocos franceses (Lully, Couperin, Rameau). Na sua obra mais
extensa, o balé Dafne e Cloé (1909-1912), reconhece-se tal sensualidade rítmica,
enquanto o poema coreógrafo A valsa (1919-1920) é de marcação propositalmente
lenta. Avesso à grandiloqüência, Ravel deixou, na ópera, duas obras de
singulares humor e fantasia: A hora espanhola (1907) e A criança e os
sortilégios (1925).
No setor de música de câmara, Ravel se revela em sua intimidade, em sua secreta
tensão; mas também como músico que, sem assumir qualquer radicalidade
estrutural, numa elaboração arquitetônica clássica, explora sensualmente as
sonoridades raras. São obras-primas o Quarteto para cordas em fá maior (1903), o
Trio para piano, violino e violoncelo (1914) e a Sonata para piano e violino
(1923-1927). De rara beleza melódica é a Introdução e Allegro (1906), para
harpa, cordas, flauta e clarineta, explorando um jogo singular de contrastes
harmônicos.
O primeiro êxito de Ravel foi uma peça pianística, Pavana para uma infanta morta
(1899), depois severamente julgada pelo autor, mas que persiste, em seu ritmo
elegíaco, como uma de suas produções mais memoráveis. Ravel evoluiu, no piano,
do impressionismo ainda sensível em Espelhos (1905), para os ritmos mais ásperos
de Gaspard de la nuit (1908) em que persistem, no entanto, arabescos cromáticos
fantasiosos.
Mestre do piano na linha de artifício caprichoso de Liszt, explorou a
espirituosidade em Valsas nobres e sentimentais (1911), mas tendeu depois para o
despojamento de O túmulo de Couperin (1917). Seu estilo pianístico explorou uma
aguda definição e acabamento formal, de feição neo-clássica.
Grande mestre da orquestra e do piano, Ravel deixou obra vocal restrita, mas de
grande singularidade. Sua escolha de textos era, às vezes, surpreendente, e o
compositor seguia estritamente o ritmo da própria linguagem verbal. São assim, o
ciclo das Histórias naturais (1906), segundo textos de Jules Renard, e as muito
posteriores Canções de Dom Quixote à Dulcinéia (1932) sobre textos de Paul
Morand. Música de câmara restrita são os ciclos Três poemas de Stéphane Mallarmé
(1913) e Chansons madégasses (1925-1926). Além de outros ciclos eruditos, deixou
várias transcrições de melodias populares.