
P
a g a n i n i
(1782-1840)
Niccolo Paganini nasceu em Gênova (Itália) em 27 de outubro de 1782. De família
humilde, seu pai, Antonio Paganini, era um operário
do porto, no entanto, e apesar de sua condição social, era um bandolinista
amador, apaixonado pela música e quem primeiro ensinou seu filho nessa arte.
Pouco tempo depois, Paganini começou a ter aulas de violino com Antonio Cervetto,
violinista da orquestra do Teatro de Gênova e com Giacomo Costa, mestre de
capela da catedral de São Lourenço.
Nessa época, sua paixão pelo violino era grande, segundo ele mesmo declarou,
quando adulto, ao recordar sua infância: ‘Eu era um entusiasta do meu
instrumento e estudava continuamente com o intuito de descobrir posições
completamente novas, que jamais haviam sido escutadas, cuja combinação deixasse
as pessoas estupefatas’.
Aos nove anos estreou como interprete em sua cidade natal, tocando com grande
êxito sua Variações sobre a Carmanhola, uma canção revolucionária anônima que
datava da época de Luis XVII e cujo nome procedia de um ornamento que levavam,
no sul da França e norte da Itália, os trabalhadores piemonteses originários da
Carmanhola. Segundo o cronista Conestabile, o prestigioso músico Salvatore Tinti
ficou completamente maravilhado ao ouvir Paganini tocar em sua casa as Variações
sobre a Carmanhola com uma precisão e entoações tão perfeitas que em virtude de
sua idade poderia ser qualificada como uma interpretação fantástica.
Seus progressos no campo da interpretação prenunciavam a eclosão de um gênio do
violino, tanto que seu pai decidiu, em 1795, levá-lo à cidade italiana de Parma,
para que estudasse com Alessandro Rolla, conhecido violinista. Desse período,
data sua curiosidade pelo violão, outro instrumento cujos segredos dominou, sem,
no entanto, tê-lo utilizado demasiado em seus concertos.
Em 1796, tocou para o renomado violinista alemão Rodolfo Kreutzer - a quem
Beethoven dedicaria a célebre Sonata para piano e violino n.º 9 em lá maior - e
no ano seguinte iniciou uma turnê de concertos pela Lombardia, em companhia de
seu pai. Quando regressou a Parma, Rolla declarou-se incapaz de ajudá-lo: ‘Não
posso fazer nada por ti. A melhor solução é procurar por Ferdinando Paer. Aqui
não farias mais do que perder seu tempo!’. Por esse motivo, em 1797, começou um
período de estudo de quatro anos com Gasparo Ghiaretti e Ferdinando Paer,
célebre compositor operístico e, de 1801 a 1804, decidiu aprofundar seus
conhecimentos de violão, assim como da obra de Locatelli, compositor barroco que
provavelmente inspirou suas primeiras composições de destaque, os destacados
Caprichos Op. 1 (24).
A partir de então, Paganini começava ser um músico bastante conhecido. Em 1805,
Paganini foi nomeado em Lucca primeiro violinista e diretor de orquestra da
corte da princesa Elisa Bacciochi, irmã de Napoleão, cargo que ocupou até 1813.
Nessa cidade, Paganini dedicou-se à composição e ao aprimoramento das técnicas
do violino, além de se ocupar, segundo a lenda que o perseguiu durante toda a
sua vida, de uma de suas grandes paixões: seu amor pelas mulheres. Outra de suas
paixões, e que o faria perder grande parte de sua fortuna, era o jogo. Pode-se
dizer que, de alguma maneira, o jogo e as mulheres interromperam sua carreira.
Tudo indica que entre a irmã de Napoleão e o violinista genovês havia algo mais
que uma relação profissional. Em uma ocasião, Paganini relatou um episódio que
ocorreu naquela corte: ao que parece, havia anunciado que apresentaria uma
novidade em honra da princesa, titulada Cena amorosa. O compositor apareceu no
teatro, completamente lotado, com um violino que possuía apenas duas cordas, a
mais grave e a mais aguda: ‘Uma deveria expressar os sentimentos de uma jovem, a
outra deveria emprestar sua voz a um jovem apaixonado. Com essa finalidade,
estabeleci uma espécie de doce e sentimental diálogo, no qual as mais cálidas
palavras eram seguidas pelos arrebatos do ciúme. Eram melodias, às vezes,
insinuantes e outras lamentosas, eram gritos de alegria, de cólera, de dor e de
felicidade. Essa cena foi coroada de êxito. Não falo dos olhares que a dama dos
meus pensamentos me dirigiu’.
Na época em que viveu em Lucca, Paganini conheceu algumas das personalidades
mais importantes da cultura européia. Em 1813, iniciou sua amizade com Rossini,
a quem sempre respeitou. Alguns anos mais tarde, seria Stendhal quem declararia
sua admiração pela técnica de Paganini, mostrando um sentido artístico notável
ao escrever as seguintes linhas sobre a primeira vez que ouviu o músico tocar:
‘Paganini me parece o primeiro violinista italiano. Ele se sobressai por sua
doçura. Toca concertos insignificantes, como os que em Paris fazem bocejar,
porém seu grande mérito é a doçura. Tem trinta e dois anos. Com o tempo, talvez
toque coisas melhores do que concertos, ou também tenha o bom senso de
compreender que vale mais a pena tocar uma formosa ária de Mozart’.
Paganini gostava de cortejar as mulheres e em várias ocasiões pensou em casar-se
com algumas delas. Em 1822, decidiu-se casar com a jovem Carolina Banchieri, e
por isso solicitou a um amigo que lhe enviasse os papéis necessários, porém
omitindo alguns detalhes: ‘Com relação ao documento de batismo, não gostaria que
contasse que já entrei em meu quadragésimo ano. Se você puder conversar com o
pároco de San Salvatore e ver se é possível que conste que tenho menos de
quarenta, me produziria grande satisfação’. No entanto, o casamento não chegou a
se realizar. A atração que o compositor sentia por essas mulheres, segundo suas
próprias palavras, não superava três ou quatro dias. Somente uma delas, Antonia
Bianchi, uma jovem bailarina, representaria algo importante na vida do músico.
Segundo muitos biógrafos, Paganini sentia verdadeira obsessão para se casar e
formar uma família. Inclusive, havia declarado em algumas ocasiões: ‘meus dias
passam felizes, e poderei me ver encarnado em meus filhos’. No entanto, em 1822,
um renomado médico de Pávia, Siro Borda, lhe diagnosticou a sífilis, doença que
naquela época era considerada incurável e que representava um impedimento para o
seu desejo de ser pai. Devido à isso, Paganini mergulhou em uma grave depressão
e assim permaneceu por quase dois anos, sem se sentir capaz de compor.
Embora várias mulheres tenham passado pela vida do compositor, e em um momento
ou outro ocupado seus pensamentos, somente uma delas conseguiu penetrar seu
coração, a jovem bailarina italiana Antonia Bianchi. O violinista genovês
conviveu com Antonia de 1824 até 1828, em uma relação que foi marcada por altos
e baixos, incluindo cenas tempestuosas em público. Em julho de 1825, em carta a
um amigo Paganini comentava: ‘É bom que saiba que a senhorita Bianchi possui um
grande defeito. Fica histérica sem motivo algum. Uma noite, porque não a levei à
casa de um negociante, onde não pensava em permanecer por mais de quinze
minutos, porque apenas necessitava resolver alguns assuntos, agarrou a caixa do
meu violino e atirou no chão quatro vezes, até destruí-la por completo. Graças
ao meu fiel criado, que conseguiu se apoderar do meu violino, ou melhor, que
conseguiu arrancá-lo de suas mãos, pudemos salvá-lo por um milagre’.
Em outra ocasião, na casa de amigos espanhóis, e enquanto a anfitriã os
apresentava a um apaixonado pelo violino, Antonia Bianchi os surpreendeu. O
próprio Paganini relatou o fato da seguinte maneira: ‘Talvez, acho eu, por
ciúme, disse para que a acompanhasse a casa. Eu lhe perguntei o porquê e ela me
deu uma bofetada, acompanhada por gritos infernais...Entrou em crise histérica e
não esperávamos que recobrasse a razão’. Da relação entre ambos, nasceu, em 23
de julho de 1826, Achilline, o único filho que se conhece do músico. Paganini o
adorava e, após a separação, viajou com ele por toda a Europa, como um
companheiro inseparável.
Durante a década de 1820, Paganini seguiu realizando concertos pelas cidades
italianas mais importantes. Sua fama de intérprete, dotado de características
técnicas quase mágicas, espalhou-se rapidamente. Não demorou para que começassem
a ser divulgados prodígios acerca de suas habilidades. Em 1821, difundiu-se em
episódio cuja veracidade nunca foi comprovada, segundo o qual alguém presenciara
Paganini tocar a partitura de Matilde de Shabran, de Rossini. No mesmo instante
em que as páginas iam caindo da mesa do seu autor, ainda frescas de tinta.
Conta-se que Paganini imitava o baixo, parodiava os efeitos orquestrais e
enriquecia o conjunto com uma mescla de variações. No ensaio geral de Matilde de
Shabran, seu autor, Rossini, costumava comentar o seguinte fato, ao se referir à
morte repentina do diretor de orquestra: ‘A amizade de Paganini foi muito
proveitosa. Ele dirigiu a obra durante três noites e chegou, inclusive, a tocar
com a viola um difícil solo de trompa, na ausência do maestro que também havia
ficado doente’.
A amizade entre Paganini e Rossini foi duradoura. Em fevereiro de 1822, ambos
encontraram-se em Roma, onde interpretaram e compuseram as músicas para o
carnaval daquela cidade. Durante essa década, surgiram algumas obras mais
importantes do compositor genovês.
A consagração definitiva de Paganini na Europa ocorreu em virtude da célebre
turnê que o músico iniciou em 1828 e que até 1834 fez com que percorresse grande
parte do continente. O entusiasmo que provocou não só no público comum, mas
também entre os artistas e intelectuais mais influentes da época foi notório e
propiciou a consolidação do mito do intérprete virtuoso como ídolo das massas.
Primeiramente, Paganini viajou para a Alemanha, Áustria, Boêmia, Saxônia,
Polônia, Baviera e Prússia. Em Viena, como em outras cidades que passou, obteve
grande êxito, sendo nomeado pelo imperador o virtuose da corte. Schubert,
desmentindo, talvez de maneira intencional, a fama demoníaca do genovês,
declarou: ‘Ouvi um anjo cantar no adágio de Paganini’.
Depois de percorrer meio continente, em 1831 chegou a Paris, onde no dia 9 de
março realizou o seu primeiro concerto naquela cidade, onde permaneceu até o mês
de maio. Sainte-Beuve, De Vigny, Rossini, George Sand, Théphile Gautier, De
Musset, Delacroix e Victor Hugo foram alguns dos literatos que se renderam ante
o talento de Paganini. No final de maio, o músico transferiu-se para a
Inglaterra, onde realizou um primeiro concerto no dia 3 de junho, em Londres.
Permaneceu nas ilhas britânicas até junho de 1832. Da capital do Tâmisa
escreveu: ‘Uma série de retratos feitos por diversos artistas apareceu nos
estabelecimentos comerciais. Alguns melhores, outros piores, que reproduzem
minha fisionomia, porém entre eles não apareceu nenhum que realmente se pareça
comigo. Também podem ser encontradas algumas caricaturas burlescas: uma onde eu
apareço tocando em uma posição estranha, enquanto o atril se encendeia e
arde...eu caio na risada e deixo que o façam’.
A lenda de Paganini, que foi sendo tecida ao longo dos anos, encontraria
respaldo na famosa turnê realizada entre os anos de 1828 e 1834. Entre os
artistas que puderam admirar sua arte, figuravam Liszt, Chopin, Schumann,
Goethe, entre outros.
Ao escutar o músico italiano, o primeiro deles declarou: ‘Que homem, que
violino, que artista! Meu Deus, quantos sofrimentos, quantas misérias, quantas
torturas naquelas quatro cordas!’. Do seu primeiro encontro com Paganini, um dos
ícones da literatura romântica, Johann Goethe, destacou: ‘Ontem escutei Paganini.
Para o que se define como prazer, isso que para mim flutua entre a sensualidade
e a inteligência, me falta uma base para esta coluna de chamas e nuvens...só
ouvi algo meteórico e não pude sequer percebê-lo’. Berlioz também se deixou
seduzir pelo gênio de Paganini. Em janeiro de 1834 ambos os músicos se
conheceram, e o genovês solicitou a Berlioz que compusesse para ele um solo para
viola. Desse pedido nasceu Haroldo na Itália, obra que, no entanto, Paganini
nunca chegou a interpretar.
A partir de 1834, a saúde do grande virtuose passou a dar sinais de debilidade,
agravada por sua carreira internacional febril e, aos poucos retirou-se de cena,
tendo como única companhia seu filho Achillino.
A lenda de Paganini permaneceu viva durante muito tempo. A sua morte foi
anunciada em 27 de maio de 1840, em Nice, cidade em que se instalou para tentar
recuperar sua saúde. Para os românticos, Paganini tornou-se um símbolo e um
exemplo. Um jornal francês definiu, assim, os últimos momentos de um dos maiores
mitos musicais de todos os tempos: ‘Na hora final, estendeu a mão ao encantado
violino, ao íntimo companheiro de sua peregrinação, ao consolador de suas penas,
e enviou aos céus, com as últimas notas, os suspiros finais de uma existência
que foi uma melodia’.
Paganini introduziu inovações que estenderam o registro do violino. Graças a
ele, a técnica deste instrumento ultrapassou a interpretação habitual e sua obra
apresenta dificuldades às que ele buscou superar: o uso de pizzicatos com a mão
esquerda, harmônicos com cordas duplas, arcadas em ricochetes e um tratamento
ousado da execução, influenciando violinistas como Ernst, Bériot e Vieuxtemps.
As primeiras obras conhecidas de Paganini datam do início do século XIX: os
Caprichos (24) - suas mais importantes composições, foram transcritos
posteriormente para piano por Schumann e Liszt -, a Sonata Concertante para
violão e violino em lá maior (1804), o Dueto amoroso, também para violão e
violino, e 12 sonatas para essa combinação instrumental, compostas a partir de
1805. Destacam-se também a Sonata Napoleão para a quarta corda, obra para
violino e orquestra (1807), 3 duetos concertantes para violino e violoncelo, e
uma série de quartetos para violão, viola, violino e violoncelo, os primeiros de
uma série de 21 que o músico compôs entre 1806 e 1820.
Na década de 1820 surgiram algumas obras mais importantes de Paganini, como por
exemplo, o Concerto para violino n.º 2 em si bemol menor Op. 7 (1826), o
Concerto para violino n.º 3 em mi maior (1826), a obra Convento de São Bernardo
(1828-1839), também para violino e orquestra, e o Concerto para violino n.º 4 em
ré menor (1830). A data do Concerto para violino n.º 1 em mi bemol maior Op. 6,
não é de todo confirmada, embora muitos musicólogos que estudaram a obra do
violinista genovês tenham situado a sua composição por volta de 1817.
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