B e e t h o v e n

(1770-1827)
Ludwig van Beethoven nasceu em Bonn (Alemanha), em 16 de dezembro de 1770,
descendente de uma família de remota origem holandesa, cujo sobrenome
significava ‘horta de beterrabas’ e no qual a partícula van, não indicava
nenhuma nobreza. Seu avô, também chamado Luís, foi maestro de capela do príncipe
eleitor de Bonn. O pai de Beethoven, Johann, foi tenor nessa mesma capela.
Pretendeu amestrá-lo como menino prodígio no piano, mas era um homem fraco,
inculto e rude, que terminou consumido pelo alcoolismo. Beethoven teve infância
infeliz.
Aos oito anos de idade apresentou um concerto para cravo. Em uma carta pública
de 1780, Christian Gottlob Neefe afirmava que o seu discípulo, Beethoven, de dez
anos, dominava todo o repertório de J.S.Bach e o apresentava como um segundo
Mozart.
Beethoven fez os primeiros estudos em Bonn sob a orientação de Neefe (1781),
tornando-se organista-assistente da capela eleitoral (1784). Iniciou sua
carreira de compositor com alguns lieder, três sonatas para piano e uns
quartetos para piano e cordas. Sua fama começou a transcender e o príncipe
eleitor o enviou para Viena. Maximiliano, arquiduque da Áustria, subsidiou seus
estudos.
Foi uma viagem pouco proveitosa, pois Beethoven teve de voltar em pouco tempo
para assistir a morte da mãe. Mesmo assim, chegou a conhecer Mozart já doente,
absorto pela composição de Don Giovanni. Em Bonn, Beethoven atravessou um
período de grandes dificuldades financeiras.
Pouco tempo depois, Haydn leu algumas de suas obras e convidou a voltar para
Viena para seguir ‘estudos vigiados’ com ele. Também tomou lições com
Albrechtsberg e Salieri. Exibia-se como pianista virtuose nos salões
aristocráticos. Apesar das suas maneiras rudes e do seu republicanismo
ostensivo, sempre esteve Beethoven generosamente protegido pela alta sociedade
vienense (o arquiduque Rodolfo, as famílias Brunswick e Lichnowsky, o conde
Rasumovsky etc.). Melhorou de posição social e formação musical pela ajuda de
mecenas, que em 1792 lhe possibilitaram a mudança definitiva para Viena.
Em 1795 Beethoven publicou o sua primeira obra, integrada pelos Trios para piano
Op. 1 (3). Obras que, como as Sonatas para piano Op. 2, mostravam a
personalidade (embora não ainda o gênio) de seu criador. Esse gênio começou a se
revelar só anos depois, em seu Op. 7 e Op. 10.
Os últimos anos do século XVIII parece ter sido a época mais feliz da desditosa
vida de Beethoven: o sucesso profissional, a proteção e lisonja dos poderosos,
as amizades profundas, talvez o amor. Embora várias figuras femininas tenham
cruzado a sua vida, provavelmente a única realmente importante tenha sido a
‘jovem amada’, Giulietta Guicciardi, cujos 17 anos e encanto fútil conquistaram
Viena, e a quem o compositor dedicou a sua Sonata ao luar.
Também foi nessa época (1801) que se instalou em Beethoven uma crescente surdez,
que em pouco tempo se tornaria irreversível. Desesperado, Beethoven redigiu em
Heiligenstadt, então subúrbio de Viena, seu testamento, decidido a suicidar-se.
A crise foi, porém, superada e, sendo parcial sua surdez, o compositor ainda
pôde continuar a sua carreira. Como ele mesmo descreveu, ‘foi a arte, e só a
arte, que me salvou’. Beethoven utilizava uma corneta para atenuar sua surdez,
antes de ter de usar os cadernos de anotações.
Foi o tempo de sua única ópera, Fidélio, exaltação do amor conjugal, das grandes
Sonatas para piano - Patéticae Apaixonado, dos monumentais concertos, dos
quartetos para cordas do período médio; o tempo, principalmente, das obras que
lhe deram maior popularidade, suas revolucionárias sinfonias e, em especial, a
Sinfonia n.º 5. Os membros da aristocracia austríaca, lhe concederam em 1809,
uma pensão vitalícia. Sua carreira pública chegou ao ponto culminante em 1814,
por ocasião do Congresso de Viena.
Depois desses sucessos, a surdez começou a piorar, isolando o mestre quase
totalmente do mundo. A carência afetiva o levou a se trancar cada vez mais
dentro de si mesmo. Seus últimos anos também se viram amargurados pela saúde
precária, dificuldades financeiras e, principalmente, pelos problemas com seu
sobrinho Karl, os quais, indiretamente, foram a causa da sua morte: após uma
discussão, Beethoven saiu de casa no meio de uma tempestade, contraindo uma
pneumonia que pôs fim a seus dias em 26 de março de 1827. O cortejo fúnebre
contou com uma impressionante multidão de 20.000 pessoas, coisa inusual em uma
Viena que produzia gênios e depois, como com Mozart, dava-lhe as costas.
Beethoven impressionou os contemporâneos, além de sua arte, pelas manifestações
rudes de sua independência pessoal. Em torno de sua forte personalidade
formaram-se lendas, destinadas a salientar os sofrimentos e a grandeza do homem
titânico, chegando a falsear a perspectiva biográfica. A famosa carta (sem data
e sem endereço) à ‘amada imortal’ não tem maior importância para a interpretação
da obra, porque na arte de Beethoven não é sensível o elemento erótico. Errada
também é a opinião de ter o mestre sofrido pela incompreensão dos
contemporâneos: teve, em vida, os maiores sucessos e foi admirado como nenhum
outro compositor.
Também teve notável êxito material e, chegou a ditar preços aos seus editores.
Mas, sobretudo, foram mal compreendidos os efeitos de sua doença. Até 1814, a
surdez não foi total, permitindo a elaboração de numerosas obras-primas
musicais; depois dessa data, foi a própria surdez que abriu ao compositor as
portas de uma nova arte, toda abstrata. A grandeza de Beethoven não foi,
prejudicada pela surdez, e sua vida não se resume numa luta heróica contra a
doença.
As obras de Beethoven são intensamente romântica pela extremo subjetivismo, no
qual tem lugar a tragicidade patética e o júbilo triunfal, o idílio e o
humorismo burlesco, o idealismo eloqüente e a música profunda. Mas a forma
dessas manifestações é a do Classicismo vienense de Haydn e Mozart; são
cuidadosamente elaboradas e severamente disciplinadas. Essa obra romântica é,
paradoxalmente, a mais clássica que existe.
Beethoven viu-se admirado até a idolatria pelos seus contemporâneos. Sua
influência sobre toda a música do século XIX foi avassaladora. Também as obras
difíceis, as últimas sonatas e os últimos quartetos foram, enfim, compreendidos,
e a imensa popularidade de Beethoven chegou a estender-se à Sinfonia n.º 9. Mas
no fim do século começaram a surgir as primeiras vozes cépticas.
Achou-se que Beethoven tinha escrito sinfonias, sonatas e quartetos os mais
perfeitos, de modo que sua arte significava um fim, embora glorioso. Debussy
ousou manifestar aversão à eloqüência do mestre. Na época moderna já não existem
compositores beethovenianos. Sua influência parece terminada. Stravinsky
encontrou palavras duras contra o subjetivismo e o emocionalismo do mestre, o
que não o impediu de declarar a fuga para o Quarteto de cordas Op. 133 (1825),
como a maior manifestação da música ocidental.
Diferente de muitos outros compositores, Beethoven não foi menino prodígio. Teve
evolução lenta. À sua primeira obra escrita e publicada em Viena deu o nome de
Trios Op. 1, fazendo entender, com razão, apenas interesse biográfico e
histórico. Também é necessário descontar algumas obras escritas por encomenda e
elaboradas sem inspiração, como a Sinfonia de batalha, que foi composta em 1813
e apresentada em Viena em 1816 com sucesso retumbante mas efêmero.
Resta a grandiosa evolução, dos Trios Op. 1 até o último Quarteto Op. 135
(1826), evolução que não tem igual na história da música. O musicólogo russo
Wilhelm von Lenz, considerando 1802 e 1814 como datas decisivas na vida do
mestre, formulou a tese de três fases da criação de Beethoven: mocidade,
maturidade, últimas obras. Embora cronologicamente inexata (algumas obras não se
enquadram bem no esquema) a tese de Lenz é até hoje geralmente aceita.
Primeira fase - A primeira fase, de 1792 até 1802, caracteriza-se pelo frescor
juvenil, pelo brilho virtuosístico, pelo estilo galante do séc. XVIII, embora
interrompida por tempestades pscológicas bem pré-românticas e acessos de
melancolia. Galante, naquele sentido, é o famoso Septeto Op. 20 (1799-1800);
despreocupadamente alegre é a sua Sonata para piano e violino em fá maior Op. 24
- Primavera (1801); bem mozartiano ainda é o Concerto para piano n.º 3 em dó
menor (1800).
A melancolia manifesta-se na Sonata para piano n.º 3 em ré maior Op. 10
(1796-1798), nos Quartetos Op. 18 (6) (1798-1800) e na Sonata para piano e
violino n.º 2 em dó menor Op. 30 (1802), mas sobretudo na célebre Sonata para
piano n.º 2 em dó sustenido menor Op. 27, à qual a posteridade tem dado o
apelido de Sonata ao luar. Obra capital do pré-romantismo beethoveniano é a
Sonata para piano em dó menor Op. 13, à qual o próprio mestre deu o nome de
Patética (1798). A evolução do mestre evidencia-se na diferença sensível entre a
Sinfonia n.º 1 (1799) e a Sinfonia n.º 2 (1802).
Duas obras das mais conhecidas de Beethoven não se enquadram bem no esquema de
Lenz. Em 1803, já em plena segunda fase, a famosa Sonata para piano e violino em
lá maior Op. 47 - Kreutzer é o exemplo mais brilhante da primeira fase. Por
outro lado, já em 1802, a Sonata para piano n. 2 em ré menor Op. 31 manifesta
toda a tragicidade do gênio beethoveniano.
Segunda fase - A segunda fase, a da plena maturidade, abre em 1803 com a
colossal Sinfonia n.º 3 em mi bemol maior - Eroica. Do mesmo estilo trágico são,
em 1804, a sombria Sonata para piano em fá maior Op. 57 - Apaixonado, e o
segundo ato da única ópera de Beethoven, Leonora (mais tarde rebatizada Fidélio).
Mas ao mesmo tempo, em 1804, escreveu o mestre a triunfal Sonata para piano em
dó maior Op. 53 - Aurora (ou Waldstein) e, depois de duas aberturas menos bem
logradas para a ópera, a Leonora n.º 3 (1806), que conquistou a sala dos
concertos, talvez a mais gloriosa de todas as aberturas. Do ano de 1806 também
são o intensamente lírico Concerto para piano n.º 4 em sol maior Op. 58, o
majestoso Concerto para violino em ré maior Op. 61, e os Quartetos Op. 59, em fá
maior, mi menor e dó maior, dedicados ao conde Rasumovsky, os quartetos mais
brilhantes que existem.
Depois as obras-primas seguem-se sem interrupção: a trágica Sinfonia n.º 5 em dó
menor (1805-1807), a mais famosa de todas, e a não menos trágica abertura
Coriolano (1807), a idílica Sinfonia n.º 6 em fá maior - Pastoral (1807-1808), a
sombria Sonata para piano e violoncelo em lá maior Op. 69 (1808) e o Trio para
piano em ré maior Op. 70 (1808), de profunda melancolia; em 1809, a Sonata para
piano em mi bemol maior Op. 81 - Os adeuses. Em 1810, a música de cena
(incluindo grandiosa abertura) para a peça de Egmont, de Goethe; em 1812, a
Sinfonia n.º 7 em lá maior, a mais intensamente poética de todas, a humorística
Sinfonia n.º 8 em fá maior (1812) e o justamente famoso Trio para piano em si
bemol maior Op. 97 - Arquiduque; enfim, em 1812, a última Sonata para piano e
violino em sol maior Op. 96, despedida poética da segunda fase.
Terceira fase - Depois das festas de 1814, Beethoven, agora completamente surdo,
retira-se para a solidão, elaborando uma música totalmente diferente, abstrata,
interiorizada. O pórtico da terceira fase é a gigantesca Sonata para piano em si
bemol maior Op. 106 - Sonata para piano (1818). Seguem, 1820-1822, as três
últimas sonatas para piano, em mi maior Op. 109, em lá bemol maior Op. 110 e em
dó menor Op. 111. A última, Op. 111, seria - dir-se-ia - o sacrossanto
testamento pianístico de Beethoven, se não tivesse escrito, em 1823, as 33
Variações sobre uma valsa de Diabelli Op. 120. Sobre um tema banal, a maior obra
de variações da literatura musical.
Do mesmo ano de 1823 são a Sinfonia n.º 9, que o coral do último movimento, que
assustou os contemporâneos e é hoje a obra mais popular do mestre, e a gloriosa
Missa solene, obra de religiosidade livre de um grande individualista. Em 1824
inicia Beethoven o ciclo dos últimos quartetos: em mi bemol maior Op. 127, em lá
menor Op. 132 (1825), em si bemol maior Op. 130 (1825), do qual foi separada a
Fuga final Op. 133. Enfim, em 1826, o Quarteto em dó sustenido menor Op. 131,
mais uma dessas obras gigantescas para o pequeno elenco de quatro instrumentos
de cordas, e o comovente último Quarteto em fá maior Op. 135 (1826). São obras
de inigualável profundeza artística e grandes documentos humanos.
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