Lousã

Divergem as opiniões acerca da fundação da vila da Lousã. Defendem uns que a Lousã foi fundada pelo rei Arunce, cuja corte era em Conimbriga, e que terá sido obrigado a refugiar-se com a sua filha, a princesa Peralta, num castelo que mandou para tal construir em plena Serra. Terá então sido nas proximidades desse castelo que se veio a constituir a vila da Lousã.

Outra versão é a de que no local onde hoje se situa a vila, haveria já uma povoação romana denominada "Villa Lausana", uma exploração agrária no centro da qual se encontrariam as residências, quer dos senhores quer dos servos, e outros edifícios necessários ao dia a dia de uma vida comunitária.

Aliás, quer nas proximidades da Lousã e Serpins, quer mesmo no perímetro urbano da vila, foram já encontrados vestígios romanos — cipos funerários, telhas, tijolos, utensílios de vidro e metal e moedas, entre outros.

Apesar do desmembramento do império romano, estas povoações terão continuado a existir, mas só no século X se volta a ter referências à Lousã, ou mais propriamente, a Arouce, numa altura em que os cristãos tentam a reconquista do território aos mouros.

Com efeito, é de 943 que data um documento que oficia um contrato realizado entre Zoleiman Abaiub e o abade Mestúlio, do Mosteiro de Lorvão, e onde pela primeira vez se faz referência a "Arauz". Arouce seria então a povoação mais importante da região, estando localizada junto ao morro onde [existiria] o castelo.

Terá sido nesta altura que recomeçou a repovoa[mento] do local onde hoje se situa a vila da Lousã, embora se acredite que tal local nunca tenha ficado completamente desabitado. De qualquer modo, seria apenas a partir do século XI que a bacia da Lousã se desenvolveu, quando à sobrevivência do povo já não era necessária a sombra e a protecção do castelo.

A fundação do castelo, ou a sua reforma conforme as opiniões, deve-se então a D. Sesnando, moçárabe de Tentúgal a quem D. Fernando Magno ofereceu o condado de Coimbra após a sua reconquista definitiva em 1064. A ele se deve a pacificação de todo o território, bem como a sua profunda reorganização e desenvolvimento.

A prosperidade do território continuou depois do nascimento da nação, no reinado de D.

Afonso Henriques, que em 1151 deu foral a Arouce. Mais tarde, em 1160, um documento régio faz já referência, para além de Arouce, à Lousã e a Vilarinho.

A região foi sempre de grande importância, confirmada [em 1217] por D. Afonso II, mais tarde, em 1513, revogado por nova carta de D. Manuel I.

D. Dinis fez o seu filho bastardo, D. João Afonso, senhor da vila da Lousã, cargo que foi sempre ao longo dos tempos ocupado por nobres incluindo o D Pedro, duque de Coimbra. A D. Pedro seguiu-se Pedro de Góis, o seu genro Pedro Machado e o filho deste Francisco Machado. Foi com este último que D. Jorge, filho de D. João II e fundador da Casa Ducal de Aveiro, fez uma troca de terrenos no Alentejo, ficando com o senhorio da Lousã.

O senhorio da Lousã permaneceu na Casa Ducal de Aveiro, até ser extinto por D. José passando nessa altura para a coroa portuguesa.

A Lousã voltou a viver momentos importantes para a sua história no século XVI, aquando da criação da Misericórida, em 1566, durante o reinado de D. Sebastião.

A prosperidade voltou no século XVIII quando na Lousã foram construídas novas casas, posteriormente habitadas por famílias nobres. Ainda hoje, algumas destas casas integram o património da vila, constituindo um belíssimo conjunto de edifícios, um dos melhores do país e da região centro.

Foi também no século XVIII que a Lousã se desenvolveu economicamente, nomeadamente com a criação da indústria do papel. Esta indústria era de grande prestígio, abastecendo inclusive a Companhia de Jesus de Coimbra, a Tipografia Académica fundada pelo marquês de Pombal e mesmo a Casa da Moeda. Mais tarde, no século XIX, a Lousã viu nascer uma outra empresa, a Tipografia Lousanense, ainda hoje a funcionar, e sendo uma das mais prestigiadas do país.

Mas a vida pacífica dos habitantes da Lousã sofreu logo no início do século XIX, um forte revés com as invasões francesas. Em Março de 1811, por altura da terceira invasão, quando os exércitos de Massena já retiravam, alguns destacamentos desviaram-se e pilharam várias localidades da zona da Serra da Lousã. As tropas saquearam e destruíram casas, celeiros e igrejas. Da igreja matriz da Lousã foi na altura roubada uma rica banqueta e uma custódia que havia sido doada ao templo pelo Padre Cáceres, no século XVI.

Ainda no século XIX foi construída uma nova igreja matriz e são também nesse século o Hospital e o matadouro. Em 1927 foi construído o Cine-Teatro, o mais antigo do distrito de Coimbra.

A viragem decisiva da Lousã deu-se com a inauguração dos caminhos de ferro da companhia privada "Caminhos de Ferro do Mondego", em 1906, mais tarde comprada pela CP. A linha, projectada inicialmente para servir também Arganil, acabou por chegar apenas à Lousã por falta de verbas. Só mais tarde, na década de 30, se prolongou até Serpins.

O benefício extraordinário que a Lousã obteve com o seu ramal, proporcionou o aparecimento de outras indústrias, como as de fiação, de produção de energia, moagens, licores, serrações e serralharias, transformando a vocação essencialmente agrícola do concelho, deslocando do sector primário para o secundário grande parte da mão de obra disponível. A florestação da serra e as modernas técnicas de produção de energia, fornecendo a força motriz indispensável, foram decisivas para o arranque da Lousã para uma era industrial.

Outro facto notório do início do século na vila, foi a construção da estrada Lousã - Castanheira de Pêra, que em 1999 comemorou 70 anos de existência, e que ajudou a aproximar ainda mais os dois concelhos.

Foi já também neste século, em 1924, que os lousanenses tiveram iluminação pública eléctrica, em substituição da velha iluminação a petróleo. A empresa Padilha e Rebelo, mais tarde Companhia Eléctrica das Beiras, nasceu 1igada às indústrias mais arcaicas (serrações e moagens) e aproveitou as condições naturais existentes na região para se "aventurar" na área da electricidade. Foi igualmente uma "fonte" de emprego para os locais, permitindo ao mesmo tempo que a indústria continuasse a florescer. Curiosamente, o seu primeiro gerador ainda hoje funciona, ocasionalmente, quando o caudal do rio o permite.

Na segunda metade do século foi construído um aeródromo, já com 25 anos, e actualmente utilizado para combate a fogos florestais.

Mas por muito que se desenvolvessem os postos de trabalho na Lousã, o excedente de mão-de-obra nunca foi compensado. Se as aldeias serranas já se encontravam "desertas", foi a vez do vale ver partir centenas de pessoas...

 

Duas décadas de crescimento

No entanto as coisas mudaram, e nas últimas duas décadas a vila tem crescido de uma forma harmoniosa. Nos últimos dez anos o espaço ocupado pela vila duplicou, ganhando novas áreas, onde nasceram modernos bairros residenciais, estabelecimentos de ensino, o quartel dos Bombeiros e o Palácio da Justiça, entre outros.

Este crescimento levou, aliás, ao pedido de formação de duas novas freguesias, Gândaras e S. Bento, para além da Lousã. O processo da primeira foi já entregue na Assembleia da República, estando o outro também para breve. A criação destas duas novas freguesias surge não só por força do crescimento da vila, mas também muito da vontade das populações em gerir os seus próprios destinos.

O crescimento deu-se, no entanto, em dois momentos distintos: o primeiro quando os habitantes da Serra, do lado de Góis e da Castanheira, começaram a procurar emprego e casa na Lousã, aproximando-se assim do litoral; e o segundo quando a população de Coimbra começou a fugir da cidade e a procurar habitação nos concelhos limítrofes.

A aposta na indústria continua a ser notória, com a criação das zonas industriais de Matinhos e do Alto Padrão, que contribuem para a fixação da população e fazem com que hoje não haja desemprego na freguesia.

Embora o concelho tenha crescido em termos de receitas, de rendimento familiar, e esteja no topo de uma estatística recentemente divulgada no que diz respeito à qualidade de vida, continua a apresentar grandes carências a nível de acessos. As vias de comunicação têm de acompanhar o crescimento urbano, o que de momento não acontece. A EN 342 é um avanço tímido mas promissor, que surge com dez anos de atraso. E também o tão esperado metro de superfície, previsto para as primeiras décadas do novo século, é um dos grandes anseios das gentes lousanenses.

Melhorar o sistema de águas concelhio é igualmente uma preocupação do município. A renovação das tubagens está a ser feita e começa-se já a pensar onde ir buscar a água para o abastecimento público que começou a ser feito, recorde-se, na década de 40/50, de forma a acompanhar o crescimento da população. Apesar das várias nascentes que a Serra "coloca" à disposição, estas não são suficientes para servir a população da Lousã.

Outras acções de carácter ambiental e de melhoria da qualidade de vida dos munícipes têm sido tomadas. A recolha dos resíduos urbanos está a ser melhorada, atingindo a quase totalidade da população, e também a rede de esgotos já chega a quase todo o concelho, atingindo o seu tratamento valores muito significativos.

A grande aposta no turismo revelou outra grande carência na Lousã: a falta de uma residencial e de um bom hotel, aguardando os responsáveis autárquicos pela iniciativa de empresários.

No plano cultural, o concelho "soma e segue". Uma boa Biblioteca Municipal, o Museu Municipal com exposições permanentes, o Museu Etnográfico, o Cine-Teatro renovado e com diversificado programação musical e cinematográfica, e o Pavilhão Municipal de Exposições, inaugurado em 1999, fazem as delícias dos lousanenses.

A Sociedade Filarmónica Lousanense, o Rancho Folclórico "Os Corações da Lousã" e o Rancho "Estrelas da Ponte do Areal" levam igualmente bem longe o nome da Lousã.

Património rico e digno de visita

A vila da Lousã é farta em patrimónios culturais e locais de interesse turístico.

É disso exemplo a Câmara Municipal, um edifício do estilo barroco, com meio século de vida, que se abre para um amplo jardim. No seu interior tem diversos motivos de interesse, sendo de salientar os azulejos de gosto barroco e as pinturas do Salão Nobre. No Salão Nobre, a toda a largura, vê-se a tela alusiva à lenda da Lousã, da autoria de Carlos Reis e datada de 1940, e na parede fronteira o tríptico evocativo do trabalho dos lousanenses, de João Reis. No edifício da Câmara funciona ainda o Museu Municipal Álvaro de Lemos, com exposições permanentes.

No jardim fronteiro ao edifício dos Paços do Concelho foi erguido um monumento a Alcino Simões Lopes, também apelidado de "médico dos pobres", escultura da autoria de J. Reis Duarte e inaugurada em 1982.

A igreja matriz é um edifício de finais do século XIX, construído entre 1872 e 1882. Dedicado a S. Silvestre, tem uma arquitectura muito sóbria, sendo dignos de interesse a capela lateral do Santíssimo Sacramento, do século XVI, e, do lado oposto, a capela da família Ferraz, exteriormente manuelina mas com interior das épocas de S. Sebastião.

A Misericórdia, conjunto da Capela e da Casa do Despacho, é o edifício mais antigo da vila, remontando ao século XVI. A instituição foi fundada no tempo do reinado de D. Sebastião e da capela destaca-se o portal de estilo maneirista e datado de 1568.

Bastante mais moderno é o Palácio da Justiça, onde se destaca na frontaria um conjunto escultórico em bronze, da autoria do mestre Joaquim Correia. O seu projecto é do arquitecto Luís Amoroso Lopes e dos engenheiros António Moreira e Luís Filipe Nascimento. No interior, na sala das sessões, encontra-se outro motivo de interesse: o grande tríptico mural executado por Lima de Freitas.

Junto ao Cine-Teatro da Lousã foi ainda erguido um singelo monumento em honra de José Cardoso, e constituído por um busto em bronze e um pedestal de pedra calcária de traçado moderno.

Lousã é igualmente conhecida pelas suas Casas Nobres, sendo de destacar o Palácio ou Casa dos Salazares, que possivelmente será transformado em hotel e que pertenceu à benemérita Viscondessa do Espinhal, as casas de Cima e de Baixo dos Almeida Serra, a casa de Fundo da Vila, a casa da Quinta de Santa Rita, um pouco afastada do centro da vila, a casa do comendador Montenegro e a casa da Lagartixa, no sopé da serra, entre outras.

O Castelo de Arouce e as Ermidas são pontos de passagem obrigatória para quem se desloca à Lousã. A Ermida de Nossa Senhora da Piedade, por exemplo, é um dos locais de maior fervor religioso da região.

Descendo a corrente do rio Arouce, encontra-se a velha fábrica de papel do Penedo, cujos edifícios, no típico estilo da revolução industrial, se encontram ainda intactos, mas cujo conjunto tem tido avultadas obras de modernização.

Mais recentemente, a aposta na cultura tem sido muito grande. A aquisição de diversos imóveis foi o primeiro passo para a criação de novos pontos turísticos. A antiga fábrica de papel do Boque, por exemplo, vai servir para um museu do papel. E também a casa do pintor Carlos Reis, bem como inúmeras obras suas conseguidos em leilões, vão ser aproveitadas para, em colaboração com a família do artista, ser feita uma casa-museu.

Também uma ideia muito aproximada de como era antigamente feito o azeite foi conseguido com a restauração do um antigo lagar, em Sarnadinha, cuja entrada em funcionamento com fins educativos se provê para breve.

 

João Luso emigrante emérito

Uma das figuras deste século na Lousã foi indiscutivelmente João Luso. Armando Erse de Figueiredo, de seu nome verdadeiro, foi muito novo para o Brasil, depois de ter feito alguns estudos em Coimbra.

Com a ideia de fazer vida no comércio, acabou por aproveitar todas as horas vagas que o emprego lhe deixava, dedicando-se à leitura o escrevendo também prosa e verso, que publicava posteriormente nas gazetas.

Começou então a ser conhecido por João Luso, pseudónimo que adoptou em recordação de Portugal e em honra da Lousã — terra de Joões.

Alguns anos depois de estar no Brasil, abandonou a vida comercial e dedicou-se ao jornalismo e às letras com um sucesso de meio século. Publicou crónicas, críticas literárias, escreveu numerosos romances e contos, realizou conferências o colaborou em muitas revistas e jornais, acabando por merecer, a honra de ser um dos raros membros estrangeiro efectivos da Academia Brasileira das Letras.

Voltou à Lousã algumas vezes e, da última, em 1930, foi entusiasticamente homenageado pelo grémio recreativo local e com um almoço no restaurante "Tavares", em Lisboa, onde participaram, diversas individualidades das áreas das artes e letras nacionais.

Tendo-lhe sido comunicada a nova instalação e desenvolvimento da velha e esquecida biblioteca municipal, desde logo se propôs enriquecê-la e valorizá-la com cerca de 600 volumes, da sua biblioteca particular e de autores e editores seus amigos. Nesta colecção de obras brasileiras há livros de real valor literário, científico, bibliográfico e artístico.

O município da Lousã, em reconhecimento e homenagem a João Luso, deu o seu nome a uma rua da vila.

João Luso faleceu no Brasil em 1950. [Sinais do Século. "As Beiras", 3 Fev. 2000]

 

   

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