DUAS INSCRIÇÕES INÉDITAS ENCONTRADAS EM SERPINS (LOUSÃ)

 

António João Nunes Monteiro

A igreja matriz da freguesia de Serpins, concelho da Lousã, ergue-se no cimo de um morro — o Cabeço da Igreja — rodeado a Leste, Norte e Oeste pelo rio Ceira, local estrategicamente indicado para a implantação de um castrum. Este facto chamou-nos desde logo a atenção, considerando que a existência do actual templo poderia muito provavelmente ser um indício da continuidade de povoamento ou, mais plausivelmente, o último estádio de uma sobreposição de cultos. Efectivamente, informar-nos-ia o P. António Maria Domingos, pároco de Serpins [Agradecemos-lhe as valiosas informações que nos forneceu e a possibilidade de estudarmos o espólio arqueológico que salvaguardou], terem surgido as fundações de uma "capela", quando das obras de reconstrução da actual igreja. Embora não tenham sido anotadas quaisquer medidas ou esboçada planta desses vestígios, houve o cuidado de guardar os numerosos azulejos, que então surgiram.

Posteriormente — haverá uns quatro anos — foram construídos uns barracões, junto à igreja, no local conhecido por Cemitério Velho. Muitas pedras daí saíram e se perderam, sem terem sido devidamente observadas. Segundo nos disseram, os garotos distraíam-se a fazê-las rebolar pela íngreme encosta até ao rio. Houve, porém, algumas peças que foram poupadas e se encontram hoje guardadas na casa paroquial frente à igreja. Tivemos a ventura de aí descobrir, além de duas cabeceiras de sepultura medievais, os fragmentos de duas pequenas aras funerárias romanas, de que damos notícia[Estamos em dívida para com o Dr José d’ Encarnação, nosso mestre e amigo, pela orientação neste estudo e estimulo para a sua publicação]

1 — O mais belo dos fragmentos (foto 1), cerca de metade do monumento, trabalhado num grés vermelho de grão fino, ostenta um capitel muito danificado e, no campo epigráfico, perfeitamente legíveis e bem conservadas, as duas primeiras linhas da inscrição. É ainda possível determinar o limite superior da terceira linha pelo vestígio, bem visível, da haste transversal da penúltima ou antepenúltima letra.

Dimensões (em centímetros): 24,5/21 x 24/17,5 x 13.

Sobre o que resta do campo epigráfico, com uma largura de 17,5 em e uma altura máxima e mínima de 13 cm e 8 cm respectivamente, está gravado o seguinte texto:

 

L(ucii) GALLI(i) F/RONTO/[NIS ... E? vel F ?][...]

De Lúcio Gálio Frontão...

Altura das letras: 1. 1=3,6; 1. 2=3,8; 1. 3=0,7 (o que resta). Espaços interlineares: 1=1,8; 2=1; 3=1,3.

As capitais foram desenhadas com bastante esmero e perfeitamente alinhadas. Na 1.1, o A encontra-se picado, talvez por ocasião do desenterramento, mas tal facto não dificulta a leitura. Na 1.2, a primeira letra — um R — deduz-se facilmente quer pela curvatura superior, que não foi abrangido pela fractura, quer pelo sentido; a terceira e quarta letras encontram-se em nexo (NT), certamente porque o ordinator pretendeu dar maior destaque ao cognomen e maior harmonia à disposição das letras. Este nexo forma um conjunto levemente maior que as outras letras. Os OO são de uma perfeição extraordinária. A 1.3, impossível de reconstituir na sua totalidade, deduz-se pelo vestígio da penúltima ou antepenúltima letra um E ou um F.

O facto da identificação deste personagem ser feita através dos tria nomina, omitindo a filiação, pode ser tomado como indicativo de se tratar de um liberto, nada desejoso de recordar a sua ascendência, ou de um peregrino.

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O nomen GALLIUS aparece-nos, na Península Ibérica, seguido por vezes de cognomen latino, como neste caso; contudo, julgamos dever salientar a significativa percentagem de inscrições em que tal não se verifica: efectivamente, em pouco mais de uma dezena de inscrições recolhidas por Hübner [CIL. II, p. 1063], quatro delas apresentam este antropónimo seguido de cognomina não latinos, tratando-se, nalguns casos, de libertos. Este nomen é tipicamente latino, embora desconhecido nalgumas partes da Lusitânia [R. ETIENNE e G. FABRE, Fouilles de Conimbriga, II, Paris, 1976, p. 78]Untermann [UNTERMANN, Jurgen, Elementosde um Atlas Antroponímico de La Hispânia Antigua, Madrid, 1965, mapa 41 (GALLUS), p. 111-112] notaria que o antropónimo GALLUS e os seus derivados —entre os quais se conta GALLIUS — só aparecem nas partes mais romanizadas da Península, ou seja, com maior incidência a sul, alguma dispersão ao longo da costa mediterrânica até Barcelona e na costa ocidental até ao rio Mondego.

O cognomen latino FRONTO é muito frequente na Península [Ver mapa de distribuição em: Nelson Correia Borges, "Conimbriga", XV, 1976, p. 120].

No respeitante à datação, julgamos pertencer este monumento ao séc. I d.C., atendendo ao perfeito tipo de letra e à omissão da fórmula D(iis) M(anibus) S(acrum).

2 — O segundo fragmento (foto 2) é também o que resta de outra pequena ara de proporções um pouco maiores que as do monumento atrás estudado. O material usado foi igualmente o grés vermelho de grão fino, certamente oriundo da mesma pedreira [Acompanhou-nos nesta visita o nosso amigo António Duarte Sequeira geólogo, a quem devemos a classificação dos materiais em que foram esculpidas estas aras, além de nos ter chamado a atenção para o facto das ombreiras da porta principal da igreja serem do mesmo tipo e características da rocha destes monumentos. Estas vieram de uma pedreira de Alveite Grande, Olho Marinho, no concelho de Vila Nova de Poiares.]. A parte superior desta ara encontra-se muito danificada, sendo provável que apresentasse, inicialmente, duas pequenas volutas no capítel e, no topo, um fóculo, embora deste último não tenham subsistido quaisquer vestígios.

Dimensões: 28 x 29 x 17.

O que nos resta do campo epigráfico resume-se a um tosco quadrado de lados acidentalmente arredondados, com uma altura de 22,5 cm e 29 cm de largura. Embora a superfície desta ara se encontre mais maltratada que a anterior, são perfeitamente legíveis as duas primeiras linhas, deduzindo-se uma terceira pelo vestígio superior de duas letras.

 

Leitura: FLAVVS / LEPIDI F(ilius) / ... [A?R?] ...

Flavo, filho de Lépido...

Altura das letras: 4,8. Espaços: 1=9; 2=2,5.

Foi a harmonia a principal preocupação do ordinator. As letras, quer da 1.1 quer da 1.2 — e quase poderíamos dizer da 1. 3, observando atentamente os vestígios que dela restam — estão perfeitamente alinhadas e gravadas. Essa preocupação de harmonia é visível também na equidistância dos espaços interlineares bem posta em evidência na 1.2 onde o D fica como que isolado, a uma aparente equidistância dos II que o ladeiam, formando a palavra LEPIDI um todo com o F de filius, separado apenas por um bem distinto punctus distinguens.

Na 1.1, o A de FLAVVS não apresenta a haste transversal, o que pode atestar a antiguidade deste monumento. Da 1.3 nada mais nos resta que um pequeno vértice, 2 cm antes do vestígio da curvatura, provavelmente dum R. Inicialmente julgámos poder ler ANNORVM, ideia que afastámos por ser evidente a falta de espaço para tal número de letras; tratar-se-á da palavra MARITVS, não estando pois indicada a idade da personagem, como seria de esperar?

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A personagem é identificada apenas pelo cognome FLAVVS, seguido da filiação, o que nos prova tratar-se de um indígena romanizado. Flavus pode ser de origem celta, se atendermos a que uma das suas variantes é FLAUS, considerado celta, que aparece em contextos indígenas [Ver José d’ ENCARNAÇÃO, Divindades Indígenas sob o Domínio Romano em Portugal, Lisboa. 1975, p. 323]. Aliás Kajanto [I. KAJANTO, The Latin Cognomina, Helsinquia, 1965, p. 18, 37, 227] inclui Flavus entre os cognomes latinos, sublinhando porém a sua predominância na Península: 59 exemplos num total de 102 registados no conjunto do CIL. Em Conimbriga, uma importante inscrição [Fouilles..., II, n.º 21, p. 43-44] menciona a oficina de um indígena Flavo, onde teria sido preparado o monumento. Em Thamusida, no Norte de África, mencionasse, num diploma militar, Flavus, soldado da Cohors II Hispana C. R., natural da cidade autrígona de Virouesca, no norte da Península [José Maria SOLANA SAINZ, Autrigonia Romana, Valladolid, 1978, p. 206-208]. A observação dos índices do CIL II (p. 1083) revela-nos como predominante a forma FLAVUS sobre todas as variantes numa proporção aproximada de 4 para 1. Se atentarmos na distribuição do antropónimo Flavvs e seus derivados, na Península Ibérica (mapa anexo p. 3A), julgamos poder salientar uma predominância a norte do Tejo e a NW da Península, não obstante os cinco exemplos de Tarragona. Não deixa de ser significativa a sua ausência, quase total, nas zonas mais fortemente romanizadas, como o caso da Bética, onde, como vimos, Gallus, se encontra largamente representado. Não nos parece, pois, forçada a hipótese de que os locais onde estes dois antropónimos se encontram referendados com evidência, correspondam a pontos da Península onde se verificaria um maior contacto dos povos com um maior índice de romanização com outros de características celtas ainda bem acentuadas. Assim, sobressaem-nos, como principais focos de intercâmbio: Conimbriga (incluindo a Lousã, relativamente próxima), a zona de Mérida e Tarragona. Quanto à área da Lousã, julgamos assentar a sua importância na existência das minas de ouro, comprovadamente exploradas pelos romanos [Cfr. Jorge ALARCÃO Portugal Romano, Lisboa, 1973, p. 123. Como reforço da nossa hipótese, cfr. o que afirma José d’ENCARNAÇÃO, a propósito da divindade ILURBEDA (o.c., p. 200 a 203].

Quanto ao cognomen que identifica o pai do falecido, LEPIDUS, embora tipicamente latino, não é muito frequente na Península Ibérica: Hübner (CIL II, p. 1085) apenas recolheu treze inscrições com este antropónimo ou seus derivados. A distribuição parece-nos dispersa por toda a Península, como insignificante representação no interior. No conjunto do mundo romano, Kajanto [J. KAJANTO, 0.c., p. 283] recolheu pouco mais de uma centena de exemplos. Em Conimbriga, regista-se um oleiro com esse nome [Fouilles..., II, n.º 185, p. 128].

Atendendo ao tipo de letra, ao uso do nominativo e à omissão da fórmula D(íís) M(anibus) S(acrum), atribuímos também este monumento ao séc. I da nossa era.

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LEGENDA DO MAPA

Abreviaturas:

FC = Robert ÉTIENNE e Georges FÁBRE, Epígraphie et sculpture (Fouilles de Conimbriga II) Paris 1976.

H = Aemilius HÜBNER, Corpus Inscriptionum Latinarum, II, Berlim 1869, Suplemento 1893.

ILER = José VIVES, Inscripciones Latinas de la España Romana, Barcelona, I, 1971, II 1972.

RIT = Géza ALFÕLDY, Die Römischen Inschriften von Tarraco, Berlim 1975.

1 — SERPINS (Lousã) (inédito)

2 — CONIMBRIGA: H 372, ILER 4925, FC n.º 50; H 366, ILER 4861, FC n.º 39; FC n.º 21

3 — COLLIPO (Batalha): H 355, ILER 4019

4 — BEJA: ILER 3627 [Na opinião de J. d’ Encarnação, esta inscrição não é de Beja, mas sim da província de Cáceres; incluímo-la, pois, com muitas reservas.

5 — BENCANTEL (Vila Viçosa): H 5211, ILER 4154

6 — MÉRIDA: H 5226, ILER 5647a

7 — CÁCERES: H 750, ILER 4090

8 — VALÊNCIA DE ALCANTARA: ILER 5970

9 — IDANHA: ILER 973

10 — IDANHA: ILER 4854

11 — CÓRIA: H 987, ILER 4370; H 778

12 — TALAVERA DE LA REINA: H 908, ILER 4274

13 — BEJAR (Salamanca): H 882, ILER 4076

14 — SEGÓVIA: H 2729, ILER 5277

15 — HINOJOSA DE DUERO: ILER 3236

16 — FRESNADILLO (Zamora): ILER 2344

17 — MORAL: H 2625

18 — MORAL: H 2620, ILER 6580

19 — VILLALCAMPO (Zamora): ILER 6723

20 — BRAGANÇA: H 2502, ILER 4429

21 — LAGOMAR (Donai — Bragança): H 6293, ILER 2298

22 — SACOIAS (Baçal — Bragança): H 5620, ILER 2641

23 — CHAVES: H 2486, ILER 5033

24 — S. MARTINHO DE VÁRZEA DO DOURO (Marco de Canaveses): H 2376, ILER 136 [No ILER é erradamente indicada como sendo de Coimbra]

25 — SANTA COMBA (Paredes): ILER 5083b

26 — CALDAS DE VIZELA (Guimarães): H 2405, ILER 658; H 5557

27 — SERZEDELO (Guimarães): H 5562, ILER 787

28 — S. MIGUEL-0-ANJO (V. N. Famalicão): H 5561, ILER 770

29 — BANDE: ILER 63

30 — SANTA EUFÉMIA DE AMBIA (Orense): ILER 5977

31 — ORENSE: H 2526, ILER 647

32 — SAYAR (Pontevedra): ILER 985

33 — PONTE DO NAVIA (Galiza): ILER 6340

34 — POSTIGO Y MISA: H 5644, ILER 141

35 — VILLALIS (Léon): H 2553 = 2556, ILER 25 = 27 (2 exemplos com os mesmos indivíduos)

36 — LEÓN: H 2669, ILER 4692; H 5688

37 — LEÓN: ILER 4498

38 — PUEBLA DE LILLO (León): H 5675, ILER 3500

39 — ABLANEDA (Astúrias): H ILER 5632

40 — CORAO (Astúrias): H 2712, ILER 5436

41 — LLÉNIN (Astúrias): H 5753, ILER 5847

42 — SEGISAMA: H 5812, ILER 2825

43 — CORUNHA DEL CONDE (Burgos): H 2774, ILER 17

44 — LARA DE LOS INFANTES (Burgos): H 2864, ILER 5320; H 2868, ILER 2353; H 5800

45 — LARA DE LOS INFANTES: H 2852, ILER 6372

46— SAN ESTEBAN(Soria): H 2814, ILER 192

47 — TRICIO: H 2889

48 — MIRANDA: H 2924, ILER 959

49 — SARAZO (Alava): ILER 6773

50 — SALVATIERRA (Alava): H 2943, ILER 2576

51 — ANGOSTINA (Alava): ILER 6780

52 — MARAÑON (Navarra): ILER 4946

53 — ARELLANO (Navarra): ILER 5752

54— ESLAVA (Navarra): ILER 57

55 — SANTACARA (Navarra): H 2964, ILER 3469

56 — BUJARRABAL (Siguenza): H 2847

57 — BARCELONA: ILER 5231; H 4523, ILER 5555

58 — TARRAGONA: H 4332, ILER 6438, RIT 368

59 — TARRAGONA: H 4168 = 3587, ILER 5619 = 5643, RIT 199; ILER 395, RIT 43; RIT 210; H 4192, ILER 1323, RIT 330

60 — TORTOSA (Região): H 4022, ILER 4563

61 — JÁTIVA: H 3626, ILER 5409

62 — GUADIX: H 3395, ILER 5517

Não assinaladas por dificuldade de localização rigorosa:

D LUSITÂNIA (Região de Cáceres?): H 950, ILER 5361

O SAN FRUTOS (Léon?): H 5673, ILER 2303

D SANTA MARIA DE CONDADO (Galiza): ILER 6005

O FUENTES, mus. S. Vicente: ILER 3502

   

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