CARTA ARQUEOLÓGICA DO CONCELHO DA LOUSÃ
Relatório das Prospecções efectuadas em 1987 (1ª fase)
Rosa Maria Caldeira Amaro
Luísa Cortesão Portela
Neste relatório em que transmitiremos os resultados da prospecção arqueológica efectuada no concelho da Lousã, na segunda quinzena de Agosto p.p., pretendemos primeiramente alertar para o facto de o trabalho efectuado representar o início e uma ínfima parte do muito que está por realizar neste domínio.
Realizar a carta arqueológica de um concelho como o da Lousã, comporta algumas dificuldades, nomeadamente pela quase inacessibilidade de alguns locais e pela vegetação que cobre grande parte da área concelhia.
Aos obstáculos do meio físico, junta-se alguma desconfiança das gentes lousanenses que omitiram ou esqueceram(?) testemunhos do seu passado, que nos ajudariam, dada a quase ausência de referências escritas, na pesquisa dos vestígios de outras épocas.
Acrescente-se ainda que a indisponibilidade de tempo, não nos permitiu efectuar a prospecção sistemática de toda a área do concelho e particularmente das freguesias de Casal de Ermio e Vilarinho.
Objectivos do trabalho desenvolvido
Estabelecer a rede de povoamento da zona, desde a pré-história/continuidade ou descontinuidade de ocupação.
Descobrir as vias de acesso/penetração no território concelhio.
Registo de todos os vestígios do passado próximo ou distante e principalmente, dos que corram risco de destruição.
Neste sentido, estudámos a toponímia da região, alguns livros de cadastros bem como as fotografias aéreas.
A atenção ao relevo, aos recursos naturais e aos elementos de modificação do meio ao longo do tempo, foi conciliada como estudo toponímico, de molde a direccionar a prospecção para descoberta dos habitats e de outros testemunhos dos homens que povoam a zona.
Assim, a estrutura deste relatório baseia-se na organização dos dados recolhidos no terreno, através de informação oral e/ou escrita. Organização esta, que não será definitiva mas se alterará à medida que os conhecimentos sobre a região e o seu passado aumentarem.
LOCAIS DE POSSÍVEL INTERESSE ARQUEOLÓGICO
20 Cabeço da Bandeira
Monte localizado entre os rios Ceira e Arouce (c. 189.000/353.175) com cota máxima de 184 m e rodeado por um baixio.
Encontra-se coberto de mato e abundam os seixos rolados.
A prospecção superficial efectuada nas encostas norte, este e oeste, bem como no cimo do cabeço, resultou infrutífera na recolha de material de interesse arqueológico.
Pensamos, no entanto, ser um local a merecer uma prospecção sistemática, dado possuir uma excelente localização para a implantação de um estabelecimento populacional (castro).
1 Relvios
Sítio localizado na base da encosta sudoeste do Cabeço da Bandeira num terreno agrícola (c. 188.325/352.950).
Pelo que foi observado no local e perante as informaçôes fornecidas pelos proprietários[Próximo de uma estrutura de seixos rolados (cista?), foi encontrado um machado metálico que se encontra em análise no C. F. N. da Universidade de Lisboa] parece-nos ser uma das áreas a merecer uma intervenção urgente, de molde a detectar/recuperar o material e estruturas que eventualmente aí se encontrem.
Neste sentido, pensamos ser conveniente a programação de uma campanha de escavação, pois, de outra forma o local corre o risco de ser completamente destruído pelos trabalhos agrícolas.
21 Cabeços das Fráguas
Monte situado entre as ribeiras do Tapado (oeste) do Arneiro (este) e o rio Ceira a nordeste, com cota máxima de 104 m (c. 186.775/355.000).
De salientar, a presença de seixos rolados, bem como a enorme extensão de mato que cobre totalmente o cume e as encostas do monte.
Este cabeço possui também, algumas condições para a implantação de um castro, mas a prospecção realizada no cume e encosta nordeste, não teve resultados positivos.
2. Casal das Fráguas
Em toda a extensão entre o ribeiro do Arneiro e o rio Arouce (c. 186.825/ /354.150), encontram-se pedaços de escória[
Enviado para análise ao C. F. N. da Universidade de Lisboa.]de dimensões variadas.Convém realçar o facto de existir próximo a "alminha do ouro" e as referências de algumas pessoas da povoação aos seus antepassados que aludiam a minas de ouro.
Não nos foi possível prospectar toda a zona em que o referido material aparece. Contamos reexaminá-la e tentar estabelecer relações com outros centros mineiros da Beira, sem esquecer o material proveniente dos Relvios.
8 Cabeço da Igreja
Situado entre o rio Ceira e a ribeira da Avessada, com cota máxima de 128 m (c. 194.450/354.325), domina todo o baixo fértil de Serpins. Apresenta-se deste modo, como o local ideal para a implantação de estabelecimentos populacionais anteriores à construção da igreja.
Saliente-se que, em muitos casos, nos locais onde se edificaram monumentos cristãos, existia já uma tradição e continuidade de utilização. Em função do material encontrado
[MONTEIRO, António J. Nunes, "Duas inscrições inéditas encontradas em Serpins (Lousã)", in Conímbriga, vol. XIX, 1980, pp. 161 a 173. O autor refere na altura da construção de "uns barracões junto à igreja, no local conhecido por Cemitério Velho" foram encontradas "duas cabeceiras de sepultura medievais (...) fragmentos de duas pequenas aras funerárias romanas". Presentemente estes materiais encontram-se guardados em más condições na casa paroquial juntamente com outras imagens e desconhecidas da maior parte da população de Serpins.] a hipótese formulada pode ter fundamento. Desta forma consideramos prioritária a realização de uma sondagem no cabeço referido.7 Outeiro
Antes do desvio que conduz à capela de Serpins, num socalco fronteiriço à estrada (c. 194.200/354.600), foram encontradas segundo o sr. João Carvalho, duas mós, uma delas fragmentada e uma estrutura de pedra aparelhada (muro?) quando o seu irmão, sr. António Carvalho, abriu uma vala para plantação de videiras. As mós encontram-se na posse deste último
[Segundo o sr. António Carvalho destinam-se a ser oferecidas ao Museu da Lousã.], mas o muro (?) foi destruído.Recolhemos telhão com características romanas nas imediações.
Informou-nos o sr. João Carvalho que, por altura do alargamento da estrada foi encontrado um forno (?) de pedra e barro do lado oposto a este socalco (150 m), na direcção da estação de caminho de ferro de Serpins.
Ao que parece, poderá colocar-se a hipótese já aventada para o Cabeço da Igreja, mas somente através de sondagens articuladas, a mesma poderá ser confirmada.
6 Quinta do Sítio
Localiza-se no centro da vila da Lousã (c. 190.300/349.350). Dado que a propriedade mudou recentemente de dono, não nos foi possível contactar com os antigos proprietários, nem sequer observar o local. Reservamos para um futuro próximo, se vários condicionalismos o permitirem, a realização de uma pequena sondagem, de molde a comprovarmos a hipótese de existirem nesse local, vestígios da presença romana da região[
Depositados no Museu da Lousã e provenientes da quinta: 1 boião e 4 unguentários de vidro romano.]17 Quinto do Cano
Localizada na vila da Lousã (c. 190.450/349.025). Não nos foi possível confirmar os dados fornecidos por Corte Real[
Na sua monografia arqueológica do concelho refere o autor os seguintes achados: 1 mó romana (?), 1 botão de barretina e um moeda datada de 1757, para além de um cano que segundo o antigo proprietário atravessa a quinta a 15 cm de profundidade, coberto por pequenas lajes de lousa, pp. 79/80]dado o proprietário da quinta ter falecido.Pensamos, no entanto, ser um local em que se deveria efectuar uma sondagem por forma a ajuizar do interesse arqueológico pelo sítio.
4 Covelos
Na E. N. 17 entre Segade e Ponte Velha (c. 187.357/355.800), existe um posto de venda de automóveis pertencente ao sr. Virgilio.
Num terreno em frente, recolhemos vários fragmentos de telhão e segundo Corte Real
[Idem, p. 146. O referido pote encontra-se em restauro no Museu Monográfico de Conímbriga.], havia sido encontrado neste local uma coluna e um pote.A coluna, suporta presentemente o alpendre da casa da viúva do sr. António Ferreira, a 150 m do posto de venda de automóveis. Consoante as informações da senhora, a referida coluna foi encontrada no Carvalhal.
9 N. S.ª da Piedade Castelo (c. 191.275/347.750)
Pela observação do local e recolha de telha medieval e moderna (?) bem como pela excelente localização, pensamos ser um dos sítios que merece a realização de uma sondagem para averiguar da possibilidade de outros estabelecimentos populacionais, anteriores à construção do castelo.
10 N. Sr.ª da Piedade Azenhas (c. 191.100/384.000)
O estado de degradação em que se encontram as azenhas ao longo do rio, leva-nos a lamentar que tal conjunto não seja restaurado e conservado, podendo dessa forma, integrar um percurso turístico e local de lazer, que certamente enriqueceria um espaço já tão procurado.
A conservação desses moinhos de água, parte integrante do património cultural da Lousã, seria certamente um projecto que beneficiaria o turismo da região.
11 Capela de Reguengos (c. 193.875/352.475)
Pequena capela integrada numa antiga casa senhorial (séc. XVII-XVIII), que se encontra em péssimo estado de conservação. Serve actualmente para arrumações e o altar está em risco de ruir com as imagens corroídas por parasitas e fragmentadas. Os paramentos do sacerdote estão amontoados numa gaveta e sujeitos ao ataque dos roedores.
Apesar da referida capela pertencer a um particular, parece votada ao abandono, merecendo por isso esta chamada de atenção, pois é parte do património lousanense que se está a degradar.
19 Olho Marinho - Grutas (?)
A entrada (?) situa-se num monte por detrás da casa do guarda florestal, com cota máxima de 366 m (c. 195.375/359.125). Possui grande afloramentos graníticos, o que a priori oferece boas condições para a existência de tais cavidades, se bem que a localização do monte não ofereça muitas garantias. Aguardamos a desobstrução da entrada e inspecção do local, para apresentarmos uma resposta definitiva.
16 Cabeço do Moiro
Monte térreo com cota máxima de 247 m (c. 347.950/187.727), situado entre as Levegadas e Vale de Neira.
Actualmente existe aí uma igreja que domina quase todo o cabeço. Através de informação de locais soubemos que havia por detrás da igreja (a 20 m) uma entrada, actualmente obstruída por muro construído recentemente para delimitação da propriedade. Na parte oposta e exterior do mesmo, encontramos um orificio completamente entulhado.
Foi-nos referido no local, que anteriormente a ter sido tapado o acesso, várias pessoas aí penetraram e encontraram corredores cavados na terra com traves de madeira. Pensamos, ser premente o desentulhe da referida entrada.
9 Cavada
Num caminho muito antigo (c. 188.450/348.400), entre Cavada e Cabeço do Moiro foram encontrados vários fragmentos de telhão romano (?). Consoante informação no local, foram encontrados, numa área próxima, vários potes de ferro que foram posteriormente vendidos.
Pensamos, que deverá ser uma zona a prospectar de forma sistemática.
Dado que, a maioria dos achados referenciados para esta zona, são desprovidos de contexto, torna-se muito difícil estabelecer cronologias ou construir hipóteses minimamente sólidas.
No entanto, o material referido, bem como as informações de que dispomos, até ao momento, apontam para a existência na zona, de estabelecimentos humanos na época romana e que continuaram pela Idade Média.
A atestar esta hipótese estão as pontes, as vias e achados isolados, que são indicadores de um movimento e de uma dinâmica de que o baixio da Lousã é propiciador.
Todavia, variadíssimas questões permanecem sem resposta: que género de estabelecimentos humanos? Qual a sua duração? Que espaços ocuparam? Que tipo de populações existiam antes da chegada dos romanos? Como se articularam e conviveram? Como evoluiram estas populações?
Só uma prospecção sistemática no terreno, aliada a uma recolha de testemunhos orais e estudo documental, que projectamos realizar, nos poderá oferecer respostas a tais dúvidas.
Pensamos, portanto, que grande parte dos vestígios do passado lousanense estão, ainda, enterrados por todo o concelho e apelamos à consciencialização e responsabilização de particulares e muito especialmente da autarquia.
É fundamental que em cada obra, na abertura de estradas, etc., sejam tidas as devidas cautelas, perante qualquer objecto, material ou estrutura invulgar, que deverá ser conservado ou enviado aos serviços competentes, de modo que emitam uma opinião sobre o achado e o procedimento mais adequado.A informação das populações sobre determinados procedimentos a este nível evitaria destruições em muitos casos involuntárias e motivadas pelo desconhecimento da importância desses vestígios e do papel que podem desempenhar, no desenvolvimento actual da sua terra. Sobre esta questão, temos alguns projectos que apresentaremos oportunamente, caso sejam do interesse da autarquia.
Assim, defendemos a continuação do trabalho iniciado e consequente evolução, para a realização de um roteiro turístico cultural do concelho, que não englobe somente vestígios remotos da vida das pessoas, mas seja um instrumento dinamizador do presente.
Finalmente, queremos agradecer o apoio dos vários departamentos da Câmara Municipal por nós contactados, bem como aos Bombeiros Voluntários da Lousã. Um último agradecimento a Maria Alcina Moreira, pela disponibilidade e entusiasmo com que nos acompanhou.

