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A estória está aqui provisoriamente, porque não tenho nenhum site para publicar. Se alguém indicar algum site, eu agradeço.
Por Leona-EBM
Introdução
Cinco longos e verdadeiros anos se passaram na vida dos amantes de Rondon. A cidade continuou pulsante, cheia de vida com seus defeitos e qualidades. Quanto aos seus habitantes não houve uma mudança significativa, as pessoas continuaram com suas características urbanas.
Dentro dessa atmosfera Ryori e Yuy continuaram juntos, enfrentando a dura realidade, acordando dos mais belos sonhos para deparar-se com o cotidiano, com uma vida rotineira entre um casal. O amor era à base de tudo, sem ele jamais poderiam continuar, pois afinal, todos são de mundos diferentes e isso causa atritos quando eles colidem um com o outro.
“O amor não consiste em olhar um para o outro, mas sim em olhar juntos para a mesma direção”. (Antoine de Saint-Exupéry)
Por Leona-EBM
Mundos 3
“A crença de ser
a juventude a época mais feliz da vida é baseada numa falácia.
A pessoa mais feliz é aquela que tem os pensamentos mais interessantes.
Assim, podemos tornarmo-nos mais felizes na medida em que nos tornamos mais
velhos”.
(Montesquieu)
O verão havia chegado em Rondon. A umidade do ar havia caído muito desde então. As lojas anunciavam liquidações de roupas de inverno, e as vendas de protetores solares, roupas de banho e óculos escuros subiram a níveis altíssimos.
Yuy encontrava-se deitado no chão da sala, aproveitando o piso frio. O moreno estava vivendo com Ryori há dois anos sob o mesmo teto. A casa em que viviam ficava num bairro nobre e pouco movimentado, sendo a última casa da rua.
O calor estava insuportável, mas felizmente a casa tinha ar condicionado e Yuy aproveitava a brisa fresca que vinha do aparelho. No entanto, sua garganta já estava começando a sentir o mal daquela maravilha da tecnologia, logo estaria seriamente gripado, mas Yuy não se importava, no momento queria apenas se refrescar.
O moreno estava quase cochilando, quando ouve a porta se abrindo. Ele senta-se e olha para o ruivo que chegava da rua. Ryori não estava usando seu clássico sobretudo, pelo contrário, estava usando uma camiseta branca e um jeans azul rasgado. Seus cabelos ruivos estavam presos, num baixo rabo de cavalo.
- Muito quente lá fora? – indagou o moreno, levantando-se, indo até o ruivo que colocou uma sacola de supermercado em cima da mesa central da sala.
- Um inferno, não me peça mais para sair – disse contrariado. O ruivo se dirigiu até o banheiro, jogando sua camiseta no chão, enquanto suas mãos cuidavam de retirar sua calça.
- Ryori, eu estava pensando... – Yuy foi engatinhando até o banheiro, não tinha forças para levantar. Seus cabelos negros, que agora chegavam até seus ombros caíam no seu rosto, grudando em algumas gotículas de suor.
- Diga – disse o ruivo, abrindo o chuveiro no modo “verão”, deixando a água fria cair por seu dorso. Um sorriso desenhou-se no seu rosto ao sentir seu corpo esfriar.
- Podíamos viajar – disse, encostando-se no batente da porta, olhando para o ruivo que se banhava.
Ryori olhou para o garoto sentado no chão do banheiro e depois voltou sua atenção para o chuveiro, olhando para cima, vendo milhares de gotículas de água vindo na sua direção, como se fosse uma chuva de alfinetes. O silêncio foi cortado com um suspiro alto que Yuy havia soltado, mostrando sua inquietação.
- Eu acho que não vai dar – disse Ryori, finalmente.
- Por que não?
- Tenho assuntos a tratar. Você acha que é fácil o que eu faço? Tenho meu próprio negócio.
- Ah, você só pensa em trabalho – disse irritado – nunca saímos para lugares diferentes. Por que você não dá um tempo?
- Hum! Você come e bebe com o dinheiro do meu trabalho, sabia? – disse secamente, desligando a ducha.
Yuy ficou em silêncio, sentindo-se indefeso para argumentar, mas não desistiu.
- E isso quer dizer o quê?
- Nada, apenas não reclame que eu trabalho. É fácil para você, que só fica em casa curtindo a vida. Não reclame Yuy, quando der, eu pago umas férias para nós – disse, secando-se numa toalha de algodão, mas logo a jogou de lado e colocou um roupão de seda.
O ruivo saiu do banheiro, passando por cima do moreno. Ele foi até a geladeira, procurando uma latinha de cerveja e quando a encontrou não hesitou, abriu-a e começou a beber, sentindo aquele gosto amargo descer por sua garganta. Yuy o acompanhava com o seu olhar, mas não tinha mais nada a dizer, estava chateado com o comentário, mas não podia negar que era verdade.
Ryori começou a mexer nos armários, procurando alguma coisa para comer. No entanto, não havia nada que prestasse, ele olhou para as panelas que estavam empilhadas na pia, mas todas estavam sujas.
- Yuy, você podia cozinhar alguma coisa para mim, não? – gritou da cozinha, contrariado – eu comprei algumas coisas no mercado, mas pelo visto não da para fazer muita coisa.
- Tem miojo no armário – disse o moreno.
- Eu não quero comer essa bosta! Vai comprar alguma coisa no mercado, aliás... vai fazer umas compras no mercado.
Yuy respirou fundo, ele olhou para janela, vendo como o sol castigava aos pobres humanos que saíam de casa. Com muito esforço ele se levantou e foi andando até a cozinha, ou melhor, arrastando-se.
- Você parece cansado. O que andou fazendo? – indagou o ruivo, aproximando-se dele, puxando uma mexa do cabelo que estava cobrindo seus olhos.
- Nada...
- Hum, é o que parece. Você podia arrumar essa casa, não? Está uma lixeira... Aliás, você deveria procurar algo para fazer!
- Ryori... Por que está tão mal humorado? – indagou Yuy.
- Hum, estou?
- Sim, insuportável. Não pára de me encher desde que chegou. Eu não estou a fim de limpar nada e muito menos cozinhar.
O ruivo suspirou, não estava com vontade de discutir e Yuy estava muito rebelde ultimamente. Ele deu um beijo no rosto do moreno.
- Vá comprar alguma coisa para essa casa. Vou ter que contratar uma faxineira para dar um trato nessa bagunça.
- Ryori. Eu estou de saco cheio daqui – disse o que o incomodava há um tempo.
O ruivo estreitou seu olhar, havia ficado perturbado com a revelação. Ele ficou olhando para Yuy que havia se calado, esperando que ele dissesse alguma coisa, mas nenhum dos dois disse nada.
Yuy deu um passo para trás, mas não foi longe, pois Ryori ainda segurava uma mecha do seu cabelo. Os dois ficaram se encarando por um tempo, até que a voz seca de Yuy invade a casa.
- Estou ficando muito tempo sozinho.
- Desculpe – disse – mas você sabe que eu tenho meus negócios.
- Eu sei disso, sei que você trabalha muito para ficar sustentando um mimado como eu – disse amargamente – mas eu não estou feliz.
- Não te faço feliz? – indagou friamente, mas por dentro, seu coração deu uma batida mais forte.
Yuy riu baixinho, olhando para o chão.
- Nunca pensei que diria isso depois de tanto tempo, mas eu sinto que as coisas não estão indo muito bem.
- O que você quer que eu faça?
- Não sei, mas faz tempo que não saímos mais juntos, que não conversamos; que não fazemos... amor. Você não me procura como antes, Ryori! – desabafou.
Ao ver que a conversa estava ficando mais séria, Ryori puxou o moreno até a sala, fazendo-o sentar-se no sofá, onde ele próprio acabou se sentando também.
- Como assim eu não te procuro mais?
- Não disse isso. Disse que não me procura como antes – suspirou envergonhado – eu sinto falta.
O ruivo não sabia o que dizer. Ele começou a pensar nos últimos dias, lembrando que chegava em casa altas horas da noite, isso é, quando chegava em casa, pois passava dias fora, tentando ampliar seus negócios.
Yuy fechou seus olhos, pensando em como poderia continuar aquela conversa sem ter que tocar em assuntos mais delicados, mas não teve tempo, pois sua atenção foi desviada para o seu celular que começou a tocar. O moreno levantou-se sob o olhar do ruivo, pegando o aparelho e logo em seguida atendendo-o.
- Alô!
- Alô, Yuy! É o Atsu, como vai?
- Ah! Atsu, eu vou bem e você?
- Hei, Yuy, não era você que estava procurando um emprego?
- Ah! Verdade, eu estou. Por que?
- Você já tem dezoito anos, certo? Tem uma vaga num barzinho aqui, para trabalhar na recepção, mas é um lugar descolado... você vai trabalhar, das 22 horas às 6 da manhã. O que você acha?
- Hum, interessante, mas precisa de alguma experiência? Eu não sei nada – disse, sentindo-se inseguro.
- Sem problema, quando eu entrei aqui, não sabia fazer nada. Eu indiquei você para meu supervisor. O que você me diz de passar aqui amanhã às 16 horas? Ai você conversa e vê se te interessa! Vai ser muito divertido trabalharmos juntos!
- Eu também acho! Pode deixar que eu passo aí amanhã... er... aí eu falo com quem? Você vai estar ai? Por favor, vai comigo! – pediu, suplicante.
- Pode deixar que eu me encontro com você. Anota o endereço. Rua dos girassóis, número 3000, próximo ao banco central. É uma casa de tijolinhos, bem antiga, não tem como errar!
- Ok, obrigada Atsu!
- De nada, preciso ir agora, tenho que levar minha irmã na aula de violino, até mais Yuy, até amanhã!
Yuy desligou com um sorriso satisfatório no rosto, finalmente ia poder ocupar-se de alguma coisa. Ele olhou para o ruivo, vendo que ele estava com um olhar intrigado.
- Quem era? – indagou Ryori.
- Atsu, um colega que eu fiz no curso de informática – disse – ele arranjou uma entrevista para mim – sorriu.
- Trabalhar no que?
- Trabalhar num barzinho. Na recepção eu acho. Amanhã eu vejo direitinho – disse, sentindo seu coração acelerar, suas mãos já estavam suando. Yuy era muito sensível e ansioso e como era sua primeira entrevista, seu corpo parecia que ia entrar em erupção.
Ryori ficou um tempo em silêncio, não havia gostado da idéia de deixar Yuy num barzinho. O ruivo levantou-se, caminhando até Yuy, que agora estava anotando num papel o endereço do lugar.
- DNA – disse Ryori baixinho, olhando para o pedaço de papel.
- O quê? – Yuy o encarou sem entender o que dissera.
- O nome desse barzinho é DNA.
- Pelo visto, conhece! Como que é?
- Hum... um barzinho bem alternativo, não sei se você irá gostar, além disso, rola muita briga, porque é open bar até as duas da manhã. Resumindo... – Ryori, ficou em silêncio.
- Resumindo? – indagou, intrigado.
- Você não vai! – disse finalmente, arrancando o papel da mão de Yuy.
- Ah! Como assim?? Você não vai mandar em mim!
Ryori começou a andar, deixando Yuy falando sozinho. Os dois foram até o quarto, onde Ryori procurava alguma coisa para se vestir, ele olhou atentamente para suas vestes pretas, mas queria algo mais leve. Acabou por colocar um short de seda azul marinho e uma regata preta, seus cabelos estavam soltos para poderem secar livremente sem deixar marcas.
O ruivo jogou-se na cama e pegou seu maço de cigarros, mas para sua infelicidade estava vazio. Seu corpo sentiu um arrepio momentâneo só de pensar que estava longe de sua nicotina, mas logo compraria outro maço, ou melhor, ia pedir para alguém trazer até sua casa, pois estava quente demais para sair.
- Trás um pouco de saquê para mim! – Ryori pediu para Yuy, que estava encostado no batente da porta.
- Quer beber saquê agora?
- Sim, seria bom se tivesse algum aperitivo, mas não tem nada nessa casa – reclamou.
- Hum! Não tem mais saquê e não pense que eu não irei amanhã – disse – vou comprar alguma coisa no mercado.
- Yuy! – chamou-o, antes que partisse.
- O que foi? Quer algo em especial?
- Você não precisa trabalhar – disse secamente.
- Mesmo? – sorriu cinicamente – eu já procurei tanta coisa, já mandei tantos currículos para tentar arrumar alguma coisa e agora que eu finalmente tenho uma entrevista você me fala isso. Você deveria me apoiar Ryori.
O ruivo sentou-se na cama, suspirando. Ultimamente estava ficando sem paciência para nada.
- Você não é nenhum morto de fome para ter que trabalhar num lugar como aquele. Por que não procura algum emprego como auxiliar de escritório ou coisas do tipo?
- Porque não me chamaram, oras! Eu mandei currículos para vários lugares, mas ninguém me chamou, não tenho experiência Ryori, hoje em dia as empresas querem que você tenha 18 anos de idade com 19 anos de experiência na área. Uma verdadeira bosta!
- Hum... tudo bem! – disse.
- Sério? – sorriu – que bom que você me apóia! – disse, indo até o ruivo, dando um beijo nos seus lábios.
- Mas... se acontecer qualquer coisa, qualquer coisa que eu ache que pode afetar você de algum modo naquele lugar, você irá sair de lá imediatamente! – disse, dando um beijo no seu pescoço, aspirando um pouco daquele perfume natural.
- Calma. Para você tudo é perigoso! – disse, rindo baixinho – eu tenho que fazer minha avaliação. Eu também não quero ficar num lugar que me faça mal.
Ryori ficou em silêncio, sentindo aquele corpo que tanto apreciava. Encostou sua cabeça no ombro magro de Yuy, sentindo as mãos do moreno alisarem sua cabeça, num carinho bem gostoso, como sua mãe lhe fazia quando era criança e estava com medo de ir dormir.
“Você não me procura mais como antes...”, Ryori lembrou das palavras do seu namorado. O ruivo apertou mais o abraço, caindo para trás na cama, com o corpo do moreno por cima. Ryori observou a face de Yuy e notando como ele havia mudado. O moreno tinha traços fortes, mais quadrados e tinha até um pouco de barba, apesar de ter poucos pêlos. Seus braços e pernas estavam mais definidos... O tempo havia passado!
Yuy pegou os pulsos de Ryori o levando até o alto de sua cabeça, prendendo-os, enquanto inclinava seu tronco para frente a fim de capturar aqueles lábios rosados. E o fez! Mordiscando seu lábio inferior para logo em seguida adentrar com sua habilidosa língua, sentindo o gosto e o calor daquela cavidade que tanto lhe atraía. O moreno jogou todo peso de seu corpo, prensando Ryori. O ruivo virou um pouco seu rosto para buscar um pouco de ar, mas logo foi atacado pelas mãos hábeis de Yuy.
Agora que estava com os braços livres, Ryori deu um impulso com seu corpo, invertendo as posições, ficando por cima do corpo menor. O ruivo sentou-se no baixo ventre de Yuy, sentindo o volume que havia se formado.
- Estava sentindo falta disso? – indagou o ruivo, inclinando-se para frente, capturando com os lábios a orelha de Yuy.
- Muito! – revelou.
- Pode deixar que eu acabarei com isso hoje... Vou fazer tudo o que eu puder para te enlouquecer de prazer – sussurrou sedutoramente.
- Eu quero ver... e não aceito serviço incompleto! – provocou, passando as mãos pelos braços super definidos de Ryori.
Ryori riu baixinho, pensando por onde começava a judiar do seu pequeno Yuy. Logo se iniciou um beijo ardente, seus corpos roçavam-se com intensidade. Ryori parou um instante para arrancar as roupas de Yuy e as dele também. Agora estavam livres para brincar.
O moreno sorriu timidamente ao ver aquele corpo cobrir o seu. E como adorava isso. Sentia-se completo quando Ryori lhe dava toda sua atenção. As mãos de Yuy passaram pelo dorso de Ryori, alisando-o com carinho e muita atenção, enquanto suas narinas aspiravam o cheiro indescritível de Ryori.
O ruivo sorriu de canto e começou a descer seus beijos pela curva do pescoço do seu amado. Lambia aquele pedaço de pele, dando algumas mordidas de leve para depois chupá-lo, tomando cuidado para não deixar marcas. Até gostaria de marcar Yuy com seus toques, mas depois ia ouvir muitas reclamações. Afinal, quem gostava de sair todo roxo na rua?
Os dois ficaram num amasso quente e apaixonado. Suas pernas roçavam-se uma na outra e seus braços tentavam agarrar o corpo do outro de forma desesperada. Suas respirações estavam agitadas e mal conseguiam respirar entre um beijo e outro.
Ryori apertava as nádegas de seu namorado e sentia que Yuy fazia o mesmo com ele. Aos poucos sua mão foi adentrando no vão entre as nádegas de Yuy, procurando aquela entrada que tanto lhe chamava a atenção. Quando passou seu dedo indicador por ali, sentiu as pernas de Yuy abrirem-se um pouco para lhe dar espaço.
Num curto espaço de tempo, Yuy moveu-se, empurrando Ryori para trás, ficando em cima do ruivo. Ele flexionou seus joelhos e inclinou-se para frente, capturando os lábios de Ryori. Quanto ao ruivo, ele adorou a nova posição, pois assim tinha mais espaço para tocar Yuy e não demorou a fazê-lo, colocando um dedo dentro daquele corpo.
O moreno sentiu o toque, dando um leve gemido, mas não parou de beijar a boca de seu namorado. Seu beijo foi cessando até que resolveu descer sua língua pelo corpo de Ryori, chegando no seu membro quente e pulsante. Yuy deu uma última olhada para Ryori, que o observava com expectativa e depois abocanhou seu sexo.
Ryori abriu a boca buscando mais ar, enquanto sentia seu membro se chupado e beijado. As mãos de Yuy acariciavam seu testículo com delicadeza para não machucá-lo. Alguns gemidos abafados saíam pela garganta de Ryori.
- Yuy... pare – pediu, suplicante. Era uma tortura imaginar que aquela boca não ia mais lhe dar aquela atenção, mas não podia gozar daquele jeito.
O moreno parou com o que fazia, vendo que Ryori havia franzido seu cenho, incomodando-se por ele ter largado seu membro. No entanto, o ruivo não ficou parado, ele puxou Yuy pelos ombros, deixando-o deitado em cima dele.
Com uma mão Ryori segurou a base do seu membro e com sua outra mão foi guiando o moreno para baixo, fazendo ele descer seu corpo até o membro de Ryori encostar-se à entrada do seu corpo. Yuy fechou os olhos e foi descendo lentamente até que sentiu a glande do membro de Ryori adentrar no seu corpo.
Um lento vai-e-vem foi iniciado. Yuy movimentava-se para frente e para trás lentamente, sentindo Ryori preenchê-lo por inteiro. Ora ele beijava a boca de Ryori, ora empurrava seu corpo para trás com mais intensidade, ora gemia alto e ignorava completamente o ruivo. Para Ryori, tudo aquilo estava sendo maravilhoso, ele podia ver o tórax liso e definido de Yuy e sua face que se modificava a todo instante em prazer. Yuy estava delirante e muito sedutor.
O ruivo abraçou o corpo de Yuy, impedindo-o de se mover. O moreno o olhou indagando o motivo daquela parada e Ryori moveu-se, invertendo as posições, ficando em cima do moreno para voltá-lo a penetrá-lo com mais força desta vez.
O corpo de Yuy começou a se balançado para frente e para trás. Seus longos cabelos negros espalhavam-se pela cama, seus olhos estavam abertos, olhando para a face concentrada de Ryori. Quanto ao ruivo, este estava amando ver cada expressão de Yuy, queria dar-lhe mais prazer e o fez, fechando sua mão no membro do moreno, começando a masturbá-lo.
A cabeça de Yuy balançava de um lado para o outro, tentando conter a onde de prazer que lhe invadia. Seu corpo estava começando a ficar tenso e sentia uma onda elétrica correr por seu sangue. Seus gemidos eram cada vez mais altos, contrários dos de Ryori que eram baixos e roucos.
Nesse ritmo incessante ambos pareciam duas máquinas no auge da sua produção. Ryori acabou gozando no interior de seu amado namorado, mas mesmo depois de obter o seu prazer máximo, ainda não havia conseguido fazer Yuy gozar. Ele saiu de dentro do moreno e fechou sua boca naquele membro, chupando-o. E não demorou a Yuy despejar seu sêmen na boca de Ryori.
Quando terminou, Ryori deitou-se na cama, puxando Yuy para ficar junto ao seu corpo. Os dois ficaram um tempo em silêncio, procurando respirar direito. Um sorriso de satisfação desenhou-se nos lábios de Yuy.
O casal continuou parado, deixando um sono gostoso lhes tomar. E dormiram abraçados, sentindo o calor do outro os envolver.
Yuy olhou para o lado, vendo o relógio que marcava sete horas. Ele olhou para o céu, vendo como estava mais escuro e cheio de estrelas, mostrando que no dia seguinte ia ter outro dia lindo e ensolarado. Ele olhou para o outro lado vendo Ryori esparramado na cama, e seu namorado parecia estar bem cansado.
- “E pensar que vida de traficante é cansativa...” – pensou, pegando o controle remoto da televisão e ligando-a em seguida. Yuy ficou passando por alguns canais até que algo lhe chamou a atenção. Estava passando o filme favorito do seu falecido pai. Os olhos de Yuy encheram-se de lágrimas, mas nenhuma caiu, ele ficou um tempo em silêncio, lembrando-se de como seu pai gostava de assistir aos velhos filmes de artes marciais para depois tentar fazer alguns dos golpes.
Yuy saiu da cama, desligando a televisão e trancando-se no banheiro. Ele nem acendeu a luz, apenas sentou-se no azulejo frio e abraçou seus próprios joelhos, afundando sua cabeça no vão dos seus braços para começar a chorar baixinho, sentindo falta do seu querido pai. Suas lágrimas não hesitavam em cair por seu rosto, entretanto ficou em silêncio, tentando não fazer barulho apesar de sentir que a dor no coração era tão forte que parecia impossível não gritar de saudade e solidão.
Ryori abriu os olhos lentamente, olhando para os lados. Ele sentou-se na cama e foi andando meio sonolento para o banheiro, mas acabou encontrando a porta trancada.
- Yuy, você está aí? – indagou, encostando sua orelha na porta, tentando ouvir alguma coisa.
- Sim. Vou tomar banho – disse baixinho, tentando não soluçar.
Ryori ergueu uma das suas sobrancelhas e ficou em silêncio, tentando imaginar o que se passava na cabeça do seu amado.
- Então por que está com a luz apagada?
- Porque eu quis.
- Yuy, abre a porta – pediu.
- Não.
- Abre!
- Não, me deixe em paz.
- Essa porta vai abrir com ou sem sua ajuda – disse contrariado.
- Me faça esse favor, Ryori. Deixe-me sozinho – pediu suplicante. Na verdade não queria discutir esse assunto com Ryori.
O ruivo ficou um tempo em silêncio, tentando decodificar aquela voz baixinha e trêmula.
- Por que está chorando?
- Nada.
- Foi algo que eu fiz? – indagou, sentando-se no chão do quarto, encostando suas costas na porta de madeira.
- Não... – disse baixinho. Mas na verdade Ryori era o principal culpado por seu pai não estar mais presente na sua vida.
- Se for por causa do emprego... você sabe que eu falo muita besteira, você não precisa trabalhar – disse, sentindo-se inseguro, pois não sabia o que o afligia.
Yuy levantou-se e foi até a pia do banheiro, começando a lavar seu rosto, ele tentou se olhar no espelho, mas estava muito escuro para isso. A luz foi acesa e o chuveiro foi ligado.
O ruivo apenas ouvia o que o outro fazia em silêncio, não sabia o que falar, pois não sabia o motivo da tristeza do seu amado. Momentos depois, Ryori ouve o chuveiro sendo desligado, ele olha para o relógio que ficava ao lado da cama, vendo que já se passava das oito horas.
A porta foi destrancada, Yuy saiu do banheiro usando um roupão branco. Seu rosto não estava mais vermelho, no entanto seu semblante estava entristecido.
Ryori ainda encontrava-se sentado no chão, ele ficou olhando o moreno atravessar o quarto em silêncio e pegar algumas roupas no armário. Yuy acabou vestindo apenas um short preto e olhou para o ruivo, que o indagava em silêncio.
- Eu estou bem – disse, quebrando o silêncio – desculpa.
- Desculpa pelo o quê?
- Por te preocupar, devia ser mais maduro.
- Não entendo. Por que deveria ser mais maduro? – Ryori começou a levantar-se, caminhando até o moreno, exibindo seu corpo nu.
- Eu sempre dou crises – disse, olhando para o chão.
- Não, você não dá crises por bobeira. Sempre tem alguma razão – disse, tocando no queixo do seu amado para encarar aquele par de olhos azuis cobalto – diga, por que estava chorando?
- Quer mesmo saber? – indagou, soltando um longo suspiro. Sua respiração começou ficar acelerada só de pensar em compartilhar sua tristeza com Ryori.
- Sim – disse sem expressão.
- Eu liguei a TV e vi um filme que meu pai costumava assistir. Fiquei triste, com saudade – disse, desviando o olhar de Ryori.
Um longo suspiro deixou o corpo de Ryori, ele olhou para a expressão do seu namorado e então fechou os olhos, pensando no que ia falar. Mas nenhuma palavra pensada foi digna de ser pronunciada, Ryori apenas abraçou o corpo menor ficando em silêncio.
Os dois ficaram abraçados por alguns minutos, até que Yuy começou sentir suas pernas tremerem de fraqueza, ele queria sentar-se e sentia fome. Não queria falar mais em seu pai, pois além de ficar triste ia acabar entristecendo Ryori, fazendo o clima ficar tenso durante dias.
- Ryori...
- Hum?
- Estou com fome – disse.
- Vamos sair para comer alguma coisa – disse, afastando-se do moreno, indo até seu armário pegar uma roupa para se vestir.
Yuy fez o mesmo, foi até seu armário pegando uma bermuda jeans, uma camiseta vermelha e um par de all stars preto. Ele jogou seus cabelos para trás, os prendendo num médio rabo de cavalo, deixando sua franja cair por seus olhos. Ryori por sua vez, vestiu uma calça jeans preta toda desfiada e uma camiseta da mesma cor, calçou um par de tênis de cano alto e saiu do quarto.
Os dois saíram do apartamento e desceram até a garagem sem dizerem nada um para o outro. O Porsche preto de Ryori estava estacionado num canto, eles foram até ele e logo saíram em alta velocidade. Quando atingiram a avenida principal, Ryori encarou seu namorado que estava olhando para o nada.
- Onde quer ir? – indagou o ruivo.
- Não sei, escolhe – disse.
Ryori parou o carro numa rua pouco movimentada. Eles saíram do carro e foram andando pela calçada, algumas pessoas que passavam pelo casal se afastavam, por medo de esbarrarem com o líder do tráfico da cidade. Outros olhavam pela janela para ver Ryori passando e outros tratavam de se esconder, pois eram de alguma gangue inimiga, apesar de que Ryori havia acabado com qualquer gangue dos arredores.
Yuy abriu um largo sorriso ao ver que Ryori estava levando-o para o lugar onde teria sua entrevista no dia seguinte. Ele olhou para o seu namorado que não fez nenhuma expressão.
- O que está tramando? – indagou – você não vai me levar aqui.
- Você disse para eu escolher. Agora entra – disse, empurrando Yuy, que quase tropeçou no degrau da escada.
O casal entrou no barzinho, pegando uma comanda eletrônica na entrada. Uma atendente veio correndo atender o famoso Ryori Nako, Yuy apenas ficou olhando o lugar.
A casa era toda feita de tijolos alaranjados, as mesas eram feitas com troncos de árvores, a iluminação era bem amarelada e um som alto invadia seus ouvidos. O cheiro de cigarro e bebida estava em todos os lugares. Era um ambiente rústico e ao lado de algumas caixas de som tinha uma TV de tela plana passando alguns clipes de música.
Yuy foi seguindo o ruivo que se sentou numa larga mesa redonda que foi preparada imediatamente para o casal. Os dois sentaram e receberam os cardápios.
- O ambiente é agradável – comentou, com um largo sorriso.
- Que bom que gostou. O que vai pedir?
- Deixa-me abrir o cardápio primeiro, nem vi o que tem – disse, abrindo o cardápio, quando leu todo o menu, encarou Ryori meio contrariado.
- O que foi? – indagou o ruivo, ao notar que o outro estava lhe olhando há um tempo.
- Aqui só tem bebidas – comentou – no máximo algumas porções. Eu queria comer comida mesmo.
- Tem lanches também. Por que não escolhe alguma coisa? – indagou, olhando para o ambiente ao redor.
Yuy viu que seu namorado ainda estava de mau humor e aquilo era preocupante. Ryori de mau humor em casa era uma coisa, agora quando estava em algum ambiente público, isso podia se transformar numa bola de neve.
- Eu quero... Eu quero... Vejamos. Eu quero esse lanche chamado Paraíso e um suco de laranja – disse, fechando o cardápio – e você?
Ryori fechou seu cardápio e olhou para a garçonete que estava por perto, ela logo veio com um papel e uma caneta nas mãos.
- Dois Paraíso, um suco de laranja, uma cerveja Rein e uma garrafa de saquê – pediu, entregando os dois cardápios para a moça que anotou tudo com atenção, pois não queria errar os pedidos do ruivo.
- Então são dois Paraíso, um suco de laranja, uma cerveja Rein e uma garrafa de saquê?
- Isso – disse Yuy.
- Um minuto! – disse, saindo.
Yuy agradeceu com um largo sorriso no rosto e voltou sua atenção a Ryori.
- Eu gostei daqui Ryori – disse animado – será que eu consigo trabalhar aqui?
- Provavelmente.
- Ah, tomara que sim – disse, soltando um longo suspiro – estou ansioso.
- Não fique, a vaga já é sua.
- Vai saber. Sempre têm concorrência – disse- e eu não tenho experiência, apesar de ser indicado por meu colega.
- Onde está seu colega? – indagou Ryori.
Yuy levantou-se e olhou ao redor tentando ver algum rosto conhecido, ele fixou seu olhar no balcão e viu que seu colega estava ali, pegando algumas bebidas e as colocando numa bandeja.
- Já volto! – disse animado, indo até seu colega.
Ryori apenas observou o moreno atravessar a sala, chamando a atenção de algumas pessoas. Ele ficou observando Yuy com seu amigo do curso, notando como era sorridente, como articulava os braços, como era sedutor e charmoso. Todas essas ações seduziam Ryori.
No outro lado do salão, Yuy conversava animadamente com seu colega.
- Então veio analisar o lugar antes? – indagou o Atsu.
- Ah, sim – disse, o que não era uma verdade.
- O que achou?
- Legal, gostei. Estou nervoso por amanhã – revelou.
- Fique tranqüilo, tudo vai dar certo. Vamos nos encontrar as 16h00 horas aqui na frente, para você não ficar sozinho. Então depois podemos pegar um cinema. O que acha?
- Pode ser, eu queria ver um filme que saiu mesmo. Só não sei se ainda está em cartaz – comentou, pensativo.
- Na hora nós vemos – disse – o pessoal está tenso aqui hoje.
- Por que?
- Tem um cara barra pesada aqui hoje. O gerente está nervoso e quer que sejamos perfeitos – comentou baixinho – eu não sei quem é ao certo, mas cuidado para não esbarrar em ninguém.
O moreno teve um ataque de riso naquele instante, afinal a única pessoa que ele poderia estar se referindo seria Ryori.
- O que foi? – indagou, tocando no ombro de Yuy.
- Não se preocupe, esse cara barra pesada não vai fazer nada contra você! – disse.
- Ah, fala baixo, vai que ele houve – disse, olhando para os lados com certa desconfiança, não sabia quem era ao certo.
- Tudo bem, eu o conheço. Quer que eu o apresente?
- Co... Como assim? – indagou assustado – você conhece o líder do tráfico de Rondon? – indagou sussurrante.
- Sim, ele está ali – disse, apontando para Ryori que os encarava. O ruivo já estava bebendo sua cerveja.
O rapaz virou a cabeça de Yuy para o outro lado rapidamente, fazendo o moreno sentir um forte estalo no pescoço.
- Ele viu a gente, você é doido de apontar assim? Não olhe de novo!
- Ah, você quer quebrar meu pescoço? – indagou, fazendo uma massagem no seu próprio pescoço – eu não te contei, mas Ryori e eu moramos juntos.
Atsu ficou em silêncio, tentando engolir aquela informação. O moreno ficou esperando que ele dissesse alguma coisa, mas antes que os dois se pronunciassem, o supervisor de Atsu apareceu gritando com ele por estar parado conversando.
- Eu vou lá, depois conversamos – disse, afastando do rapaz, não querendo causar encrenca para ele.
O moreno sentou-se à mesa e abriu um largo sorriso para o seu querido namorado.
- Demorou – reclamou.
- Desculpa.
- Por que está apontando para mim?
- Porque ele disse que tinha um cara barra pesada aqui e não sabia quem era, então apontei para você – disse, tocando na mão de Ryori.
- Ele não sabia de mim?
- Não, por que eu falaria?
- Hum!
Yuy sorriu e pegou seu lanche, começando a comê-lo, adorando sentir o sabor da carne acebolada.
Minutos mais tarde a garrafa de saquê estava pela metade e Ryori mostrava sinais de estar com um humor pior que antes. Isso estava ficando cada vez mais preocupante.
- Ryori, vamos embora? – pediu.
- Não quer comer mais nada?
- Não. Eu quero sair daqui – disse.
- Não gostou do lugar? – indagou, exibindo um sorriso cínico.
Yuy bufou e ficou em silêncio, o moreno levantou-se de súbito, fazendo Ryori levantar-se também, instintivamente.
- Aonde vai? – indagou o ruivo.
- Embora, não quero mais ficar aqui.
Ryori pegou um maço de dinheiro e jogou em cima da mesa, ele pegou a garrafa e saiu na frente, atravessando o salão sem diminuir seu passo, esbarrando nas pessoas que não perceberam sua presença ou não conseguiram desviar a tempo.
O moreno apenas o seguiu sem olhar para os lados, mas antes de sair ele avistou seu amigo que lhe acenou com um lindo sorriso no rosto. Yuy sentiu um frio na sua barriga ao encontrar aquele lindo sorriso, diferentemente de Ryori que dificilmente sorria daquele jeito, ao contrário, apenas exibia sorriso cínicos ou maldosos.
- Amanhã às 16h! – disse Yuy, afastando-se.
Quando saiu do barzinho não encontrou Ryori, então se postou a caminhar na direção do carro e quando chegou, encontrou o ruivo sentado no capô do carro, fumando um cigarro.
Yuy sentou no assento e olhou para Ryori que olhava para cima, observando as estrelas. Ele fumava tranqüilamente, mostrando não ter pressa alguma.
- Vamos embora – Yuy pediu, mas não obteve resposta – Por favor, eu não quero brigar.
- Alguém está brigando aqui?
- Não, mas estou ficando irritado.
- Por que?
- Porque está agindo como um idiota. Estou me cansando disso. Você podia ser menos rei de vez em quando – desabafou – você podia tratar as pessoas melhor, por exemplo. Podia ser mais educado até comigo.
Ryori o olhou de canto, notando como uma criatura daquela continuava a lhe criticar desde o momento que o conheceu. E mesmo assim Ryori não conseguia ficar verdadeiramente furioso.
- Eu estou relaxando um pouco, se quiser, pode ir indo – disse, voltando a olhar para o céu.
Para Yuy aquilo foi à gota d’água, ele saiu do carro batendo a porta com força e foi caminhando sem rumo pela calçada, recebendo alguns olhares curiosos. O moreno sumiu na esquina seguinte, entretanto ele conhecia bem o seu namorado. Ryori era impulsivo e logo ia aparecer atrás dele buzinado e pedindo para que ele entrasse no carro.
No entanto Yuy não queria briga, não queria confrontos, estava emocionalmente frágil e confuso ultimamente. Tinha medo de pensar em romper sua relação pelo fato de não agüentar a personalidade do ruivo. E sem pensar em mais nada, Yuy começou a correr entrando num barzinho qualquer, sentando-se no balcão. Um atendente veio atendê-lo, Yuy pediu apenas uma batida e ficou a olhar a rua pela janela.
E como previsto, viu o carro de Ryori passar lentamente pela rua. Viu o olhar atencioso do ruivo. Ficou a observá-lo até que o carro sumiu da sua vista, tratou de pegar sua bebida e degustá-la amargamente.
- Será que isso é uma crise no relacionamento? – perguntou para si mesmo.
- Talvez, por que não me conta o que está acontecendo? – indagou o barman, intrometendo-se no seu monólogo.
- Ah, eu estou namorando há uns cinco anos e acho que o relacionamento está decaindo – desabafou para o desconhecido que o ouvia atentamente.
- É namorada ou namorado? – indagou, sem devaneios.
- Namorado – disse, sem vergonha ou receio.
- Hum, homens são diferentes. Dois egos batendo um contra o outro. Sem contar que as brigas são mais sérias – comentou – eu também estava passando por isso, namorei cinco anos um cara lindo, mas acabou.
- Cinco anos? Deve ter sido doloroso. Mas eu não quero terminar, eu o amo... Mas ele sempre foi errado.
- Tsc, tsc, tsc... Garotinho, você não pode ficar com alguém que acha que está errado desde sempre. Tem que arrumar isso ou nunca vai ser feliz. O que ele te fez?
O barman se afastou um pouco para preparar uma nova bebida, Yuy pensou um pouco no que ia falar, e quando o barman voltou, disse:
- Ele sempre foi a fim de um cara e eu ainda acho que sente uma queda por ele. Ele é muito arrogante com as outras pessoas, nunca é educado e sempre briga e ... er... Bate nos outros!
- Nossa, pelo visto ele é violento. Por acaso, ele já lhe agrediu?
- Não, nunca. Mas já machucou uma pessoa que eu gostava muito – comentou baixinho.
- Hum, e você já reclamou disso com ele? – indagou o barman, enquanto arrumava sua bandana vermelha com flores amarelas.
- Já, mas ele não diz nada. Ele é cínico! Eu odeio o seu cinismo, sempre com aquele olhar frio e aquele maldito sorriso sarcástico! – disse, alterando seu tom de voz. Após desabafar, deu um gole na sua bebida.
- Por que você não dá um tempo no namoro? Vai viajar, morar com um amigo, visitar um parente distante. Algo do tipo. Aí volta e conversa, e aí vamos ver se o seu namorado é tão indiferente assim! – aconselhou, afastando-se novamente para preparar mais uma bebida para um cliente.
A mente de Yuy correu por suas lembranças, pensando em quem poderia visitar e nenhuma pessoa veio a sua mente, apenas o seu primo, mas não poderia ir visitá-lo por causa de alguns episódios passados. E tinha a casa do seu pai, mas ficaria depressivo se ficasse sozinho lá e Ryori o encontraria logo.
- E ele joga na minha cara que eu não trabalho e não arrumo a casa – disse.
- Você não trabalha, por que? Isso é importante! – disse – não tiro a razão dele.
- Mas ele tirou tudo de mim, me levou para sua casa e disse para eu deixar ser cuidado. Eu deixei de fazer alguns planos para ficar com ele, deixei meu orgulho e meus sentimentos. E agora ele fica jogando na minha cara.
- Hum, mas eu acho que se você trabalhar sua mente irá parar de ficar pensando no que dá errado no relacionamento. Você vai conhecer pessoas novas, vai crescer, vai ter dinheiro para pagar uma viagem para bem longe dele quando estiver de saco cheio, pense nisso – disse, dando uma piscada.
- Acho que você tem razão. Talvez eu dê um tempo, mas não posso falar isso para ele, talvez ele me tranque num quarto – comentou.
- Hum, o namorado é perigoso então. Faça o seguinte, vá até a sua casa quando ele não estiver, pegue suas coisas e suma, deixe uma cartinha e depois volte.
- Será? – indagou Yuy, meio receoso.
- Claro! Aí você observa o que ele faz, caso ele pule a cerca, você já sabe que tipo de pessoa ele é.
- O pior é que eu sei o tipo de pessoa que ele é.
- Sendo assim, vá logo rapaz. Não pode ficar se remoendo assim. Bom, eu tenho que ir agora, já são duas horas e sairei mais cedo. Foi bom falar com você gracinha, boa sorte – disse o barman, afastando-se, jogando seu avental no balcão.
- Obrigada. Qual é o seu nome?
- Pode me chamar de Law, e o seu gracinha?
- Yuy – disse, com um sorriso amarelo.
- Até mais – despediu-se, sumindo do balcão.
Yuy terminou sua bebida e foi pagar, antes que o barzinho fechasse, pois não queria pegar fila. O moreno saiu do bar, sentindo sua cabeça rodar, pois a bebida estava muito forte e não estava acostumado a beber. O moreno colocou as mãos nos bolsos da calça e foi caminhando pela rua.
Uma hora depois, Yuy olha para cima avistando o apartamento que dividia com Ryori. Não tinha para onde ir, ele foi caminhando até que passou pelo hall de entrada no prédio, cumprimentando o porteiro e indo até o elevador, esperando-o.
Quando chegou na cobertura, onde vivia com Ryori, pegou a chave no bolso de trás da sua calça e abriu a porta. A sala estava escura e parecia que não havia ninguém em casa, Yuy entrou em todos os quartos procurando por Ryori, mas estava sozinho.
- “Nem voltou para casa” – pensou entristecido. Yuy pegou seu celular e ligou para sua amiga Rebeca.
- Alô, Rebeca?
- Yuy? Por Era, você sabe que horas são? – indagou a menina com uma voz sonolenta.
- Desculpe, eu preciso da sua ajuda.
- Ah, claro Yuy. Para ligar essa hora, você realmente precisa de algo. Diga o que é.
- Eu briguei com o Ryori e não queria ficar aqui – disse – posso passar a noite na sua casa?
- Claro, venha para cá agora. Vou te esperar.
- Já vou. Tchau!
Yuy foi até seu quarto, pegou uma mochila e jogou suas coisas, seu pertences.
O moreno saiu rapidamente, correndo até o metrô mais próximo da sua casa. Caminhando naquele ritmo ia demorar uma hora até chegar, pois morava num bairro nobre onde não existia transporte público. E diferentemente das outras cidades, Rondon tinha transporte 24 horas.
Quando chegou ao metro, Yuy logo tomou o primeiro trem que passou. Menos de quinze minutos estava no bairro de Rebeca, ele caminhou pelas ruas daquele bairro desabitado, chegando ao apartamento da garota, que agora vivia sozinha.
Yuy tocou o interfone e logo recebeu a voz animada da sua amiga. O portão abriu automaticamente e Yuy adentrou no prédio, subindo as escadas, pois ela morava no primeiro andar. Quando bateu na porta, foi calorosamente recebido por sua amiga de ginásio.
O moreno adentrou no pequeno apartamento, colocando sua mochila no chão.
- Perdão, eu não devia te incomodar, mas não sabia a quem recorrer – disse – você é minha única amiga.
- Yuy, você sempre pode contar comigo! – disse, dando um abraço no amigo, fazendo seu coração bater mais forte ao sentir os músculos e o cheiro do corpo do moreno, que sempre foi sua paixão.
Rebeca correu até seu quarto e pegou um colchão, jogando ao lado da sua cama, ela o cobriu com um lençol azul de seda, colocou uma colcha e um travesseiro velho.
- Aqui está sua cama – disse, animada – eu vou levantar às dez horas, tem comida na geladeira.
- Obrigado, Rebeca.
- De nada bobo, agora me conta o que aconteceu.
Yuy sentou-se na cama da garota e começou a contar tudo o que estava acontecendo. Rebeca ouvia atentamente e aconselhava Yuy a deixar o ruivo e dar um rumo decente na sua vida.
Passou duas horas desde que Yuy chegou, Rebeca havia desistido de ir para a faculdade, pois estava muito entusiasmada de estar com Yuy ali no seu quarto, mais propriamente dito, deitado na sua cama, dando toda sua atenção a ela.
A garota se aproximou, jogando suas mechas castanhas para trás dos ombros, ela tocou no rosto de Yuy e lhe deu um beijo no rosto, fazendo o moreno ficar sem reação.
- Yuy, eu gosto muito de você – disse- fica comigo, não volta para ele.
Yuy ficou sem reação, ele sentiu seu coração se desmanchar. Por que todos eram tão atenciosos com ele menos Ryori? Até mesmo um desconhecido qualquer o tratava melhor que Ryori. Seu amigo Atsu era amável e gentil. Seus amigos do curso também eram pessoas decentes. Apenas Ryori fugia do seu grupo de amizades. Como podia se relacionar com o tipo de pessoa que mais detestava? Eram de outros mundos.
Os olhos esverdeados de Rebeca estavam seduzindo Yuy, que ficou surpreso de sentir uma forte atração por sua amiga, uma mulher. E sem perceber seus lábios estavam colados com os dela.
Rebeca puxou o corpo de Yuy para cima do seu, enquanto seus braços envolviam seu corpo, aquecendo-o, dando todo carinho que guardou durante cinco longos anos. Yuy por sua vez estava sentindo um cretino e não conseguia pedir para que ela parasse.
- Eu sei que você não gosta de mulher. Mas por favor, pela primeira vez, me dê o que eu sempre quis – pediu.
- O que você sempre quis? – indagou sem entender.
- Eu quero ficar com você pelo menos uma vez, por favor. Eu sempre quis isso. Só uma única vez, eu sei que você não me ama como eu quero – revelou.
- Rebeca, mas isso... Eu não posso – disse, indignado.
- Por favor, uma vez. Você é homem suficiente para fazer isso!
Yuy sentiu a mão de Rebeca apertar suas nádegas, toda aquela situação estava lhe deixando enjoado. Beijar uma mulher era muito estranho, e seu corpo era tão sensível que tinha medo de machucá-la. Yuy afastou-se, sentando-se na cama.
- Acho melhor ir embora.
- Não, por favor! – pediu, agarrando-o por trás – fique aqui.
- Não posso, eu faço mal a você. Eu não quero isso – disse, entristecido – nunca poderei lhe dar nada.
- Só um beijo, eu te peço!
Yuy refletiu por um tempo e resolveu dar o que ela tanto queria. Ele virou-se e a abraçou, passando sua mão por suas coxas, subindo pelas suas nádegas indo até sua cintura a apertando. E com a outra mão puxou a nunca da garota em sua direção e fechou sua boca na dela, num beijão feroz e cheio de paixão. Rebeca perdeu o ar ao sentir a língua quente e molhada de Yuy correr por sua cavidade como se fosse uma serpente.
Os dois ficaram se beijando por um longo tempo, Rebeca passava suas mãos pelo corpo de Yuy, mas não tinha ângulo para colocar a mão em seu membro, o que a frustrara. A garota se afastou um pouco do abraço apertado de Yuy e desabotoou o botão do short jeans de Yuy, tocando no seu membro que estava adormecido, começando a acariciá-lo.
O moreno tentou resistir, mas cedeu ao toque delicado de Rebeca. Era tão diferente das mãos másculas de Ryori, ela tinha um perfume adocicado, suas mãos eram macias e seus lábios doces e pequenos. Yuy permitiu-se ser seduzido e sem perceber foi levado ao mar de rosas pelas mãos de Rebeca que o acaricia com emoção.
Alguns gemidos tímidos deixaram os lábios de Yuy, ele jogou seu tronco para trás, batendo sua cabeça contra o colchão. Seu corpo estava tenso e só conseguia sentir prazer. Não pensava em Ryori, não pensava em traição e nem pensava que estava fazendo aquilo com uma mulher. No momento só registrava seu prazer, ignorando qualquer pensamento negativo ou preocupante que pudesse infiltrar-se em sua mente.
Rebeca sorriu triunfante ao notar as maçãs avermelhadas de Yuy, ela acelerou o ritmo da sua massagem levando o jovem Yuy a loucura. E não demorou muito para receber um líquido quente e grudento nas suas mãos. Quando terminou, Rebeca sentou-se ao lado de Yuy e o olhou atenciosamente, registrando qualquer expressão de Yuy. Finalmente havia conseguido o que tanto queria, entretanto, sentia medo da reação do outro.
- Yuy, eu...
- Não, não precisa dizer nada. Vamos esquecer, tudo bem? – pediu, suplicante com a voz alterada.
- Eu queria terminar – disse, determinada.
- O que? Como... Como assim terminar? – indagou, exasperado, sentando-se imediatamente na cama, trazendo grande parte das suas mechas caírem por seu rosto.
- Eu quero você dentro de mim! – disse, abaixando a cabeça, fazendo seu rosto ruborizar de vergonha.
- Não, eu não posso – disse, levantando-se da cama, fechando o botão do seu short.
O ambiente estava tenso, Yuy olhou para sua colega que estava com lágrimas nos olhos. Talvez fosse por causa da negação, ninguém gostava de ser rejeitado. O moreno saiu do quarto, sentando-se no chão da cozinha, sentido o azulejo frio contra suas costas, fazendo seu corpo se arrepiar.
- “O que eu estou fazendo? Não posso fazer isso com Rebeca e nem com Ryori. Se ele descobrir... ele me mata e ela também” – pensou.
O moreno estava se torturando com seus pensamentos, quando Rebeca apareceu na cozinha, usando um pequeno roupão rosa claro. Ela se aproximou e sentou ao lado de Yuy ficando em silêncio, a garota tocou na sua mão e depois encostou sua cabeça no seu ombro, fechando seus olhos, ficando em silêncio.
Os minutos passaram-se e Yuy percebeu que Rebeca acabou dormindo no seu ombro. Ele se afastou com delicadeza e depois a pegou no colo com cuidado para não despertá-la. Rebeca abriu os olhos e resmungou alguma coisa, mas não estava consciente.
A porta do quarto foi aberta e Yuy colocou sua amiga na cama, cobrindo-a com um lençol. Rebeca estava em paz, Yuy ficou olhando para sua face angelical e então olhou para sua cama, e nesse momento sentiu seus ombros pesarem juntamente com suas pálpebras que insistiam em fechar. Sem demora, jogou-se na cama improvisada.
- “Perdoe-me Rebeca, eu não posso lhe dar o que quer. E se eu te desse seria muito canalha e não quero fazer isso com você” – pensou – “agora vamos ver se consigo encarar Ryori”.
“Não há diferença
entre um sábio e um tolo quando estão apaixonados.
Quando alguém está apaixonado, começa por enganar-se
a si mesmo e acaba por enganar os outros”.
No dia seguinte, Yuy abriu os olhos de repente, tentando entender onde estava. Ele pensou rapidamente e as imagens da noite anterior lhe vieram à tona, fazendo-o levantar-se abruptamente.
Podia-se ouvir o som de um rádio alto, Yuy foi levantando, seguindo a música e quanto mais se aproximava, mais reconhecia a pessoa que estava cantando. Ele entrou na cozinha, vendo Rebeca preparar o almoço ao mesmo tempo em que cantarolava.
- Boa tarde! – disse ela, exibindo um sorriso.
- Oi – disse Yuy, olhando para a água que borbulhava na panela.
- Yuy, quanto à ontem. Perdoe-me, vamos esquecer – pediu – eu fui indelicada e insensível!
- Não, eu que peço desculpas. Perdão! – disse, envergonhado ao mesmo tempo em que passava as mãos com nervosismo por seus cabelos.
- Estou fazendo macarronada – disse, abrindo uma panela onde havia um maravilhoso molho da cor avermelhada.
- Hum... Eu adoro – disse, esquecendo o assunto da noite anterior. Afinal, existiam assuntos que não deveriam ser tocados ou relembrados.
Yuy sentou-se na mesa da cozinha que tinha a forma de uma pêra e era pintada da cor vermelha. Ele afastou os pratos e colocou seu cotovelo na mesa, enquanto ouvia o monólogo da sua amiga sobre a faculdade.
Após o almoço, Yuy foi tomar um banho, pois tinha a entrevista no barzinho. Com a ajuda de Rebeca, Yuy colocou uma calça de sarja preta e uma camisa branca que tinha um corte bem delineado, permitindo que Yuy ficasse com os ombros mais largos e o tronco mais comprido. Ele penteou seus cabelos para trás e os prendeu.
- Boa sorte – desejou Rebeca, enquanto abria a porta para o moreno.
- Obrigada – disse, dando um beijo no rosto da menina.
Quando Yuy saiu, Rebeca desmoronou. Ele correu pela sala pegando seu telefone e trancando-se no quarto, no momento só queria ficar se remoendo por não ter o amor e atenção da pessoa que gostava.
Yuy caminhava tranqüilamente pelas ruas de Rondon, ele cumprimentava algumas pessoas conhecidas e outras que tinham amizade com Ryori. Na verdade, não conhecia muito bem que os cumprimentava.
Quando o moreno chegou na frente do bar, além de encontrar Atsu que sorriu em lhe ver, ele também avistou o carro de Ryori parado na frente do barzinho, mas o ruivo não estava lá. Yuy respirou fundo, permitindo que o máximo de ar possível adentrassem por seu pulmão, para assim oxigenar o seu cérebro e aliviar a tensão.
- Olá, como vai? – indagou Yuy, estendendo a mão para cumprimentar seu amigo.
- Bem, chegou cedo! – disse.
- Você também! – comentou, olhando para o seu relógio de pulso.
- Eu acho que não tem problema você falar com o gerente antes. Lembre-se o nome dele é Karl e ele não gosta de piadinhas – disse.
- Hum, ok! Estou nervoso – revelou, enquanto secava o suor das suas mãos no pano da calça.
- Não fique, ele é gente boa, apenas não gosta de piadinhas. Vamos entrando.
Os dois entraram no barzinho. Yuy observou o lugar sem o encanto que ele produzia nos seus clientes à noite. Tudo estava com uma iluminação clara e as cadeiras estavam em cima das mesas. As janelas estavam abertas e uma mulher limpava o chão.
Yuy foi levado para um quarto ao fundo, ele passou por um estreito corredor onde havia quatro portas de madeira. Ele entrou na porta central, encontrando um rapaz de mais ou menos vinte e cinco anos de idade. Ele estava conversando com alguém no celular. Karl parecia simpático, ele tinha um visual jovial. Seus olhos eram castanhos claros e seus cabelos negros como a noite. Ele tinha a pele amorenada e traços fortes no rosto.
- Karl, esse é o Yuy – Atsu disse ao entrar na sala.
Atsu empurrou Yuy para que se sentasse na cadeira que ficava de frente para a grande mesa de vidro. Yuy ficou olhando para a sala ao seu redor observando os quadros de pessoas famosas com quem Karl havia tirado fotos.
- Hum, hum! Boa tarde, Yuy. Meu nome é Karl e eu sou o gerente do DNA! – disse, estendendo sua mão na direção de Yuy, que o cumprimentou com um largo sorriso no rosto.
- Boa tarde, é um prazer.
- Soube que nunca trabalhou – comentou, pegando a ficha de Yuy.
- Sim, saí do colegial e atualmente estou fazendo um curso de informática.
- O que lhe atrai no DNA? Digo, por que tem interesse em trabalhar aqui? – indagou.
Yuy pensou um pouco antes de falar, não havia preparado nenhuma resposta para as possíveis perguntas que receberia.
- Eu gosto de trabalhar com o público, gosto do ambiente do DNA e acho um ambiente agradável – disse, suando frio, atropelando algumas palavras.
- Sinto muito, Yuy, mas não posso dar essa vaga a você – disse, rapidamente.
- Não? Só por causa da minha resposta? – indagou exasperado.
Karl refletiu um pouco e disse sem hesitação:
- Nako passou por aqui e pediu para que eu não o aceitasse nesse emprego. Portanto, eu não posso desobedecer a ordens superiores.
- Ordens superiores? Você não tem um patrão? Tem que obedecer a um traficante? – indagou, irritado, alterando seu tom de voz.
- Acho que nem o dono irá querer contrariar o senhor Nako, portanto, não insista. Acho que você pode resolver seus problemas pessoais primeiro para depois tentar se adaptar a vida de Rondon – disse, tranqüilamente, enquanto acendia a um charuto – preste atenção garoto, não sei o que fez para Nako, mas tem sorte de ainda estar vivo. Ele nunca foi de pedir para fazer essas coisas, não que eu saiba. Sempre que ele se irrita... Ele passa a faca, se é que me entende – completou, dando uma piscada para Yuy.
O moreno levantou-se lentamente, sentindo seu sangue ferver de ódio. Ele saiu da sala sem dizer nada, batendo a porta com força.
- E aí, como foi? – indagou Atsu, meio receoso.
- Não!
- Não? Mas como não? Ele disse que ia te contratar! O que você disse? – indagou exasperado.
- Nada, nada. Depois te explico, agora preciso ir – disse, afastando-se do olhar preocupante do seu amigo.
Quando Yuy sumiu da visão de Atsu o garoto correu para a sala do gerente querendo explicações. Enquanto isso Yuy estava saindo do barzinho, ele soltava seus cabelos que ainda estavam molhados e abria os primeiros botões da sua camisa.
- Já terminou sua entrevista?
Yuy olhou para o seu lado vendo Ryori encostado a uma parede de tijolos. O ruivo fumava um cigarro e seu olhar era calmo e inexpressivo. O moreno respirou fundo e virou as costas para Ryori, postando-se a caminhar.
- “Não acredito. Não acredito, não! Ele não pode ter feito isso comigo. Ele sabia como era importante para mim” – pensava, enraivecido.
Yuy ia virar a esquina, mas sentiu uma mão fechar-se em seu ombro, puxando-o para trás. Quando virou encontrou um par de olhos azuis claros e uma face irritada.
- Não me deixe falando sozinho – disse Ryori.
- Acabou – disse Yuy, sem pensar duas vezes.
- O que? – Ryori indagou sem entender, franzindo seu cenho.
- Isso mesmo, acabou. Eu não quero mais ficar com você. Chega dessa novelinha Ryori, só estamos nos magoando. Acho melhor não nos vermos mais – disse, sentindo seu coração palpitar. Mas não queria pensar duas vezes. Estava com raiva e não queria ser gentil.
- Como? – Ryori indagou novamente, não estava conseguindo assimilar.
- Você está surdo? Eu não quero mais ficar com você. Nosso namoro acabou. Eu não agüento mais viver com uma pessoa arrogante, mimada, e acha que sabe tudo e o pior de tudo que assassinou o meu pai! Eu não quero mais falar com você. Some da minha vida – disse, alterando seu tom de voz.
Ryori arregalou seus olhos ao ouvir todo esse sermão. Ele não conseguiu falar nada, apenas soltou Yuy, deixando o moreno virar as costas e partir, sumindo após virar outra esquina. O ruivo encostou-se na grade de metal que estava ao seu lado e olhou ao seu redor, sentindo que o mundo estava desabando aos céus pés, mas desta vez Ryori não sabia se suportaria o peso.
O ruivo caminhou até seu carro meio cambaleante, ele não conseguia arranjar forças. Quando chegou até seu carro, caiu no seu assento, ligou o carro e saiu rapidamente dali, sumindo da cidade, indo para a fronteira de Rondon e outra cidade. Era um lugar vazio, e com uma bela vista para a cidade. Quando parou seu carro, olhou para o céu azul e sentiu-se insignificante no meio de toda aquela imensidão.
- “Assassino do seu pai... ele me disse que havia me perdoado. Ele havia me perdoado...” – pensou, entristecido – “eu estou perdido, mas... não vou deixar você sair assim da minha vida Yuy. Espere-me que logo eu irei te buscar e voltaremos a ser como antes. Se você quer viajar, eu irei levá-lo para longe de qualquer pensamento que possa acabar com nossa relação, pois ela é imutável e ninguém poderá impedi-la de prosseguir”.
“Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente, eu sei que vou te amar”.
“E cada verso meu será
Prá te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda minha vida”.
O caminho de Yuy não era certo, ele sempre foi protegido por alguém, ora por seu pai, ora por seus amigos, ora por Ryori. Mas agora não tinha ninguém.
Ele avistou um parque e entrou sem hesitar procurando um lugar onde pudesse sentar e refletir. Uma grande árvore no centro de um gramado verde límpido chamou a atenção de Yuy, que se sentou, encostando-se a árvore, usufruindo a sua sombra.
- “Eu perdi tudo. Não tenho casa, não tenho emprego, não tenho namorado, não tenho amigos... não tenho nada. Ah! Pai, como eu queria que você estivesse aqui para me aconselhar” – pensava, enquanto sentia uma leve dor na garganta, pois segurava seu choro.
O moreno abraçou seus joelhos com força e abaixou sua cabeça, enquanto desabafa em lágrimas. Seu peito tremia, fazendo todo seu corpo balançar e era impossível ficar em silêncio, pois alguns gemidos saíam de dentro da sua alma, cortando os ventos, sendo ecoados por aquele parque.
O céu estava com um tom azulado e a cada minuto ficava mais escuro. Os gigantes postes de luzes começaram a ficarem iluminados, e alguns guardas rondavam o parque comunicando que o lugar fecharia e que todos deveriam se dirigir à saída.
Um som alto e agudo invadia os ouvidos de Yuy, que estava sonolento. Ele ergueu sua cabeça vendo que um guarda se aproximava dele, apontando uma lanterna na sua direção.
- O parque está fechando – disse o guarda, aproximando-se.
- Ah, obrigado – disse Yuy, erguendo-se lentamente.
- A saída é por ali – informou o guarda, um pouco desconfiado.
Yuy observou que ele havia colado sua mão no cassetete que carregava junto ao seu cinto. O moreno não demorou a se afastar com a cabeça baixa e as mãos no bolso. Logo ele alcançou uma estradinha de pedra e chegou ao grande portão de metal, onde havia uma pequena porta aberta.
Quando alcançou as ruas, Yuy olhou para os lados, sentindo-se perdido. O que faria agora? Não podia voltar para o apartamento de Rebeca e suas economias estavam no apartamento de Ryori.
- “Eu preciso ir lá” – pensou – “acho que Ryori não deve estar lá”.
O moreno começou a caminhar lentamente, desejando não chegar ao seu destino. No meio do caminho ligou para Rebeca comunicando que ia apenas passar para pegar suas coisas.
Após pegar um ônibus, Yuy já estava no bairro onde vivia com Ryori. Ele chegou ao apartamento, passando rapidamente pelo porteiro, esquecendo-se de cumprimentá-lo. Ele pegou o elevador e ficou observando os números subirem apressadamente.
O elevador parou na cobertura, dando entrada apenas a um pequeno corredor onde havia uma grande porta de metal. Ele pegou sua chave no bolso da calça e fez a menção de abrir a porta.
- “Acho melhor tocar a campainha” – pensou, tocando no interfone. Ele aguardou um instante, mas nada aconteceu.
O movimento foi repetido duas vezes, mas a porta não foi aberta e Yuy não ouvia nada no interior do apartamento. O moreno pegou sua chave e a levou até a fechadura, girando-a lentamente, destrancando a porta. Ele entrou no apartamento e fechou a porta logo atrás, acendendo a luz logo em seguida.
- Demorou! – a voz fria de Ryori cortou a sala.
Yuy encarou a figura que se encontrava sentada na poltrona da sala. Ryori estava com os cabelos soltos, deixando seus fios escondendo seu rosto, mas não podiam esconder o olhar felino do seu dono.
- Ah, Ryori – murmurou.
- Onde estava?
- Por aí. Mas não vou demorar – disse, olhando para o chão.
- Aonde vai? – indagou Ryori, apoiando seu cotovelo direto na poltrona para depois inclinar sua cabeça, apoiando-a nas costas de sua mão.
Yuy não respondeu, ele caminhou pela sala, passando pela poltrona de Ryori, indo até o quarto do casal. No entanto não foi sozinho, pois Ryori o seguiu rapidamente. Quando Yuy chegou no quarto, caminhou até seu armário, abrindo a primeira gaveta, procurando uma caixa de metal, onde guardava suas economias.
- Está procurando isso? – indagou Ryori, apontando para uma pequena caixinha de metal inox, que estava em cima da escrivaninha.
- Por que pegou? – indagou o moreno, mostrando-se impaciente.
- Achei que facilitaria para você – disse – por acaso não era isso que procurava.
- Sim, tem razão. Muito gentil da sua parte. Agora me diga o motivo de tanta delicadeza – pediu, provocante.
- Não me provoque!
- Não preciso de muito para te provocar, Ryori. Você fica irritado com qualquer coisa – disse, caminhando até a escrivaninha – agora, você vai me impedir de partir, vai me dizer alguma coisa ou vai me ameaçar? Ou quem sabe me matar! – concluiu, exibindo um olhar contrariado ao mesmo tempo provocante.
O olhar de Ryori estreitou, seu cenho franziu-se e suas mãos fecharam-se com uma força violenta. O ruivo fechou os olhos, tentando ignorar aquela provocação, mas não conseguiu, seu sangue fervia de ódio.
- Vai pagar pelo que disse – vociferou.
- Como meu pai? – indagou Yuy em seguida.
- Não como ele – disse, ignorando o efeito da frase anterior, surpreendendo Yuy, que pensou que desarmaria o ruivo com o comentário, mas isso não aconteceu.
- O que quer dizer? Vai atirar em mim também, Ryori? – insistiu, abrindo os braços.
O ruivo tremia de ódio, ele sabia que estava sendo testado e não acreditava que Yuy estava falando com ele daquele jeito, com aquelas palavras, ferindo-o sem nenhum sinal de compaixão. E conhecendo-se bem, Ryori sabia que logo perderia o controle das suas ações.
As pernas de Ryori moveram-se rapidamente, ele afastou-se do quarto e foi até a varanda da sala, olhando para a avenida logo abaixo. Yuy surpreendeu-se com a atitude do ruivo, mas sabia que havia passado dos limites. Ele saiu do quarto e passou pela sala, observando Ryori com atenção.
O coração de Yuy estava batendo cada vez mais forte, sua mente não estava preparada para deixar de ver, pensar ou tocar em Ryori. O moreno sentou-se no sofá da sala, sentindo que faltava forças para continuar a andar.
Logo a ira que o consumia de manhã começou a ceder, Yuy acalmou sua respiração e começou a pensar nos bons momentos que Ryori lhe proporcionou, pois apenas havia listado as coisas negativas em seu relacionamento. Havia ignorado as qualidades do seu amado ruivo.
O ruivo olhou de canto vendo que Yuy havia sentado no sofá e agora o estava observado. O líder do tráfico de Rondon estava sentindo seu sangue arder como brasa em chama, ainda não havia engolido todo o veneno que Yuy soltou desde que chegou.
- Por que ainda está aqui? – indagou Ryori com uma voz controlada.
- Quer que eu vá embora? – indagou, hesitante.
- Não estava partindo? Não disse o que queria? – indagou, virando-se para frente, encostando-se a grade de metal.
- Você me irrita tanto, Ryori – revelou – por que você faz isso?
O ruivo riu baixinho, como se tivesse ouvido uma doce piada. Ele tocou em seu próprio rosto e em seguida coçou seus olhos, procurando encontrar paciência em algum lugar, ou então ia enforcar Yuy e jogá-lo daquele terraço.
Yuy percebeu que o olhar de Ryori não era amistoso. Era um olhar indecifrável para ele, pois nunca havia visto aquela expressão. Seu corpo havia se arrepiado por instinto como se implorasse para que ele saísse rapidamente dali. Uma voz no fundo do seu coração dizia para partir e Yuy começava a dar atenção a ela.
O moreno levantou-se, chamando a atenção do ruivo. Ele virou-se de costas e caminhou até a porta, antes de sair deu uma última olhada para trás, vendo que Ryori havia dado alguns passos na sua direção, como se fosse agarrá-lo com unhas ferozes, a fim de arregaçá-lo. Essa cena estava começando fazer ele sentir medo do seu amado ruivo.
- “É esse o olhar que você exibe para seus inimigos?” - indagou em pensamento, vendo que o ruivo deu mais alguns passos na sua direção – “se eu virar de costas, sinto não que não abrirei os olhos novamente” – pensou, vendo que Ryori não havia mudado aquela expressão e que ele se movia a cada segundo.
Parecia um filme de terror. Ryori estava com um olhar assassino, seus lábios estavam entreabertos e seus dedos moviam-se lentamente, como se estivesse tocando piano, apesar de não chamarem tanta atenção assim.
Entregando-se na incerteza dos atos de Ryori, Yuy fechou seus olhos e deixou-se à mercê de qualquer ataque da sua presa. Um frio gélido correu por sua espinha, mas mesmo assim não abriu os olhos. Ele ouviu o som de alguns passos, e curioso resolveu abrir os olhos, encontrando-se no escuro, tendo apenas a luz da varanda como salvação.
Alguns segundos passaram-se, Yuy sabia que Ryori estava ao seu lado, encostando a parede ao lado do interruptor. Agora ele pensava se se movia para saída ou então ficava ali esperando alguma reação de Ryori. Yuy respirou fundo e virou-se na direção da porta, pois não agüentava mais ficar ali parado, ansiando alguma atitude do ruivo. Precisava agir, sair dali, ser agarrado ou qualquer outra coisa que o tirasse daquela situação.
A maçaneta da porta foi girada, Yuy a abriu rapidamente, sentindo um ar fresco tocar seu rosto, mas quando deu o primeiro passo para sair dali, a porta foi fechada num forte estrondo. O moreno olhou para o lado, vendo a sombra do braço de Ryori que empurrou a porta.
A caixa de metal foi arrancada das mãos de Yuy e jogadas no chão, fazendo um barulho alto e agudo. O moreno abriu a boca para falar alguma coisa, mas nenhum som saiu, apenas um ar quente e amedrontado.
A mão de Yuy tocou a porta de metal a sua frente, sentindo sua frieza, tentando acalmar seu coração que batia ferozmente. Ele fechou seus olhos e então deslizou sua mão na direção da mão de Ryori, que ainda permanecia pressionando a porta. Quando o fez, sentiu os dedos gélidos e trêmulos de Ryori. Os dedos de Yuy acariciaram sua mão, mas não teve resposta.
- Ryori – o chamou, não obtendo resposta – por que pediu para não me admitirem? – indagou um tempo depois, sentindo sua voz ecoar pela sala.
- Isso não importa mais – sussurrou friamente, deixando seu hálito envolver aquele espaço.
- Por que não?
- Porque não precisa mais saber – sussurrou.
Yuy não entedia o que Ryori queria dizer. Talvez estivesse negando que o ruivo realmente pensava em matá-lo.
- Quer me matar Ryori? – indagou finalmente.
- Sim – respondeu rapidamente desta vez.
Yuy travou, ele pensou em tentar mudar a cabeça do ruivo, mas ao invés disso, perguntou:
- Como quer me matar?
A sala ficou silenciosa, Yuy esperava uma resposta que não teve. Ele abriu a boca para voltar a indagar, mas sentiu o braço de Ryori fechar-se em seu pescoço, puxando-o para trás, sufocando-o. Nos primeiros segundos tentou soltar-se, mas a força do ruivo era superior e quando percebeu, Yuy não encostava mais seus pés no chão.
Os olhos de Yuy começaram a se fechar, não agüentava mais toda aquela violência contra seu pescoço. E quando pensou que perderia as forças, foi solto, caindo no chão. O moreno teve um ataque de tosse, apoiando suas mãos no chão para não cair.
- Não pensei, que fosse realmente fazer isso... – murmurou, sofrendo com a dor que sentia. Parecia que seu peito ia explodir por ter ficado tanto tempo sem ar.
Uma mão agarrou um braço de Yuy, começando a arrastá-lo pela sala, a até a varanda. Quando chegaram até a varanda, Yuy foi jogado contra a grade de metal. O moreno ergueu seu olhar, observando a face de Ryori que não havia se alterado em nada, o que lhe causou calafrios.
O ruivo visualizou aquele rosto que tanto desejava e então viu como ele estava assustado. Ele fechou seus punhos com força e virou-se de costas, fechando a janela de vidro que separava a sala da varanda, deixando Yuy preso do lado de fora.
Ryori sentou-se na poltrona, pegando uma garrafa de saquê que estava em cima de uma pequena mesinha redonda de vidro. Ele colocou seus pés descalços em cima da mesinha e virou a garrafa, sorvendo o líquido do seu interior.
O moreno sentia-se um peixe no aquário. Ele sentiu a brisa fria da noite atingir-lhe o corpo, ele estava cansado e como sono, mas não conseguia deixar de olhar para Ryori, apesar da sala estar no escuro, ainda podia ver a palidez do seu rosto.
Horas mais tarde, Yuy caiu exausto, batendo sua cabeça contra o chão de mármore, ignorando o frio, a fome, a sede e o medo que o consumia minuto a minuto. Da sala, Ryori ainda estava parado, observando seu amado namorado em silêncio, sem piscar, com o mesmo olhar de antes, apesar de estar mais controlado.
“Eu
sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou”.
“Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu por toda minha vida”.
(Eu sei que vou te amar, composição: Chico Buarque e Tom Jobim)
O céu da manhã surgiu acinzentado, uma brisa fresca corria pelos ares carregando um ar gélido e anunciando a visita de uma chuva que não demoraria a chegar.
Na cobertura do luxuoso apartamento, um tremia incontrolavelmente do lado de fora, na varanda da sala. Enquanto o outro observava do lado de dentro, enrolando num cobertor xadrez.
- “Ele quer me matar desse jeito?” – indagava Yuy desesperado – “quer que eu morra de frio, fome e sede? Será que você é tão cruel assim, Ryori?”.
O ruivo levantou-se, chamando a atenção do moreno que o seguiu com o olhar. Ryori caminhou na direção do quarto, sumindo da vista de Yuy por longas e intermináveis horas. O moreno havia pensado em quebrar a janela, mas lembrou-se que era a prova de bala.
Yuy sentiu sua bexiga encher, ele levantou-se meio cambaleante e urinou num canto qualquer. Ele olhou para cima sentindo algumas gotas de chuva atingir-lhe a testa e neste instante ele olhou para algumas garrafas PET, que havia separado para a reciclagem. Rapidamente o moreno pegou duas garrafas, retirando suas tampas e deixando-as num canto escondido.
- “De sede eu não morro” – pensou, enquanto observava algumas gotas adentrarem no anterior da garrafa.
Ryori voltou à sala, usando um roupão preto que chegava até seus calcanhares. Seus cabelos estavam úmidos e sua face avermelhada, ele havia acabado de sair de um banho quente e estava comendo uma maçã. Ryori jogou-se na poltrona e voltou a observar Yuy, que estava sentado na mesma posição.
- Posso perguntar uma coisa? – pediu.
- Pode – disse o ruivo, enquanto mastigava.
- Como quer me matar?
Ryori ficou em silêncio por um instante e voltou a morder a maçã, não respondendo a pergunta.
- Deixe-me adivinhar. Quer que eu morra de frio? Sede? Fome? Quer que eu me mate?
Uma risada cortou o silêncio que havia se instalado na sala após as incessantes perguntas de Yuy. O moreno estava começando a ficar maluco com aquela atitude.
Yuy levantou-se, chamando a atenção de Ryori. Ele caminhou encostou-se na grade, ficando de costas para o ruivo. Seus olhos miraram o chão, vendo como estava longe. Jamais sobreviveria caso pulasse.
- Quer que eu me jogue? – indagou, sem encará-lo.
E como sempre, não houve resposta.
E nesse ritmo a noite foi chegando e a chuva aumentando. Yuy espirrava e tossia. Ele estava deitado no chão, virado de barriga para baixo, com o rosto virado na direção da grade, pois não suportava mais ver a cara de Ryori.
O moreno chorava baixinho, sentindo as gotas quentes correrem por seu rosto. Aquilo era a única coisa que lhe aquecia. Parecia que congelaria na gota seguinte, mas para seu desconforto, apenas tremia cada vez mais. Seus cabelos estavam misturados com a terra que havia caído dos vasos de planta. Estava sujo e encharcado.
Uma fome voraz invadiu o corpo de Yuy. Ele não comia direto desde que almoço na casa de Rebeca, depois disso não havia comido absolutamente nada. Apenas bebia a água da chuva.
A noite começou a passar e a madrugada chegou. Ryori havia ido para o quarto descansar e Yuy ficou jogado ao relento, sentindo seu peito arder, juntamente com seu estomago. Sua cabeça doía como nunca havia doído antes, seu corpo estava mole e ficava cada vez mais sem forças, parecia que ia morrer, pois sua visão estava turva.
No dia seguinte, Ryori caminhou até a sala com uma caneca de chá na mão, ele sorvia alguns goles com cuido para não se queimar, enquanto observava Yuy que estava em silêncio. Tinha visão apenas para suas costas, pois o moreno havia virado seu rosto na outra direção.
- “Acho que é o bastante” – pensou Ryori, colocando a caneca em cima da mesinha de vidro. Ele caminhou até a porta de vidro, abrindo-a, sentindo um vento gélido atingir-lhe.
Ryori tocou no braço de Yuy, assustando-se com a temperatura do seu corpo. Ele o puxou com rapidez, procurando ver seu rosto. Quando encarou o rosto do moreno, seus olhos arregalaram-se. Os lábios de Yuy estavam roxos, assim como as unhas de suas mão. Sua face estava pálida e mal sentia sua pulsação.
O corpo de Yuy foi levado para o quarto. Ryori o jogou na cama, arrancando as roupas molhadas e quando o fez, observou que havia manchas avermelhadas espalhadas pelo corpo do moreno.
- Yuy! – o chamou sucessivamente sem resposta.
O ruivo pegou seu telefone e ligou para um médico de confiança, pedindo para que viesse até seu apartamento com urgência. Ele explicou o que aconteceu e recebeu algumas instruções.
Quando desligou o telefone, Ryori secou o corpo de Yuy e o vestiu com um pijama azul claro do moreno e logo em seguida o cobriu com dois cobertores.
Vários tapas foram dados na face de Yuy para que ele acordasse, mas ele não se moveu, felizmente ele respirava apesar de ser uma respiração fraca. Antes de Ryori enlouquecesse o médico chegou com um ajudante, carregando duas maletas.
O médico examinou Yuy com atenção. Ele retirou um pouco de sangue do moreno e guardou na sua maleta, devidamente fechado e etiquetado.
- Quantos dias ele ficou na varanda? – indagou o doutor, abrindo as pálpebras de Yuy.
- Dois dias – disse, friamente.
- Sem comer e beber?
- Bebeu água da chuva – disse.
- Posso ir até a varanda? – indagou.
Ryori saiu do quarto pedindo para que o doutor o seguisse. O doutor de longos cabelos grisalhos caminhou até a varanda, observando atentamente o lugar onde Yuy havia ficado. Ele olhou para o chão vendo um pouco de terra.
- Marco, pegue minha lupa e meu estojo vermelho – pediu ao seu ajudante que apareceu logo em seguida com o equipamento.
O doutor ajustou seus óculos e através da lupa observou o punhado de terra que estava espalhada pelo chão. Um longo suspiro deixou o peito do doutor, ele caminhou até alguns vasos de planta observando que havia alguns vermes vermelhos.
Eram vermes da terra, eles vinham do lixo e alojavam-se na terra. O doutor observou que havia alguns sacos de lixo no meio de algumas garrafas PET, ele afastou as sacolas vendo um montinho de vermes alimentando-se de algumas sobras de carne.
- Ele dormiu aqui – falou o doutor consigo mesmo.
Ryori observava aqueles vermes avermelhados se arrastarem em direção a terra, querendo se esconder.
- O que é isso? – indagou Ryori.
- Vermes da terra, como são conhecidos. Seu nome científico é verme Redermions Celethy. Eles raramente são encontrados nos grandes centros e raramente transmitem doenças, pois morrem fácil. Eles se alimentam de restos orgânicos e se alojam na terra. Esse lugar é perfeito, olhe – disse, apontando para o montinho de vermes – eles gostam de lugares úmidos, quentes e com terra. Sem contar que tem restos de comida aqui.
- E o que isso tem haver com Yuy?
O doutor refletiu por um instante e disse:
- Temos que fazer alguns exames. Mas se for o que eu estou pensando, esses vermes tiveram contato com o paciente. Eles entram no nosso corpo, furando nossa pele.
Ryori arregalou os olhos, pela primeira vez depois de oito longos anos o doutor Micare havia visto uma expressão na face de Ryori. O velho franziu o cenho preocupado com a situação.
- Isso é grave? – indagou Ryori, perdido.
- Sim, se for o que penso. Temos que cuidar do garoto antes que os vermes comecem a comer seus órgãos internos.
Ryori virou as costas para o doutor e foi até o quarto, encontrando Yuy com os olhos semi-abertos. Ele correu até a cama, aproximando-se do moreno, que tremeu ao vê-lo.
- Yuy, como você está? – indagou, tocando na sua mão.
- Não me toque – murmurou.
- O que?
Yuy fechou os olhos ao sentir uma forte pontada na cabeça, ele sabia que logo perderia a consciência. Mas antes que isso acontecesse, o doutor afastou Ryori de Yuy delicadamente e começou a interrogá-lo.
- Yuy! O que está sentindo? – indagou.
- Dor – disse baixinho.
- Aonde?
- Tudo.
- Seus olhos estão doendo? Suas juntas estão ardendo?
- Ah, sim. Como sabe? – indagou, surpreso.
O doutor fez algumas anotações e nesse instante olhou para Ryori, que estava em pé ao seu lado.
- Precisamos interná-lo. Posso tirá-lo daqui?
- Sim – disse o ruivo, baixinho, sentindo-se fraco.
Na noite daquele mesmo dia. Yuy estava internado na clínica particular do doutor Micare. Ryori estava esperando os exames darem resultados. Felizmente através da alta tecnologia de Pratania, os exames sairiam logo.
Ryori se remoia de remorso, enquanto esperava os resultados do exame. No entanto, estava cego de ódio por Yuy e não queria deixá-lo partir de sua vida, havia achado melhor trancá-lo num lugar e esperar seu ódio cessar para depois tentar conversar com o moreno. Entretanto era óbvio que queria judiar, que queria se vingar das frias palavras de Yuy e das suas inúmeras provocações.
- Senhor Ryori – uma enfermeira chamou-o.
O ruivo levantou-se, exibindo seu longo dorso que estava encoberto pelo seu sobretudo preto. Ele caminhou pelo corredor, entrando na sala do doutor Micare, sentando-se e esperando que ele lhe dissesse o que se passava com Yuy.
- Ele não está muito bem – disse.
- Chega de delongas, diga logo.
O doutor tossiu e disse:
- As chances de sobrevivência são altas, mas se ocorrer qualquer deslize, qualquer baixa imunidade, creio que ele não sobreviverá. Temos que deixá-lo internado. Ele ficará tomando soro e antibióticos. Ele já tomou algumas vacinas e terá uma alimentação apenas com líquido.
- Quando ele ficará bom?
- Não sei – disse.
- Como assim não sabe? Estipule um tempo, seu imbecil – disse, contrariado.
- Er... Creio... Hum... Daqui uns dois meses – disse o doutor, chutando alto.
O ruivo levantou-se e saiu do consultório. Ele passou pelo quarto onde Yuy estava internado e depois partiu, pois não agüentava mais ficar naquele lugar.
Ryori saiu da clínica, alcançando as ruas de Rondon com seu Porsche preto. Ele não estava com cabeça para ir resolver alguns assuntos relacionados ao seu serviço e ao mesmo tempo não queria ir para casa. Ele ficou rodando por um tempo até que parou na frente de uma faculdade especializada em cursos artísticos de Rondon.
O ruivo ficou parado, olhando para o grande portal de metal que estava enchendo-se de pessoas aos poucos. Ele saiu do carro, encostando-se no capô do carro.
Minutos mais tarde, Ryori avistou um rapaz com longos fios aloirados, era Shibushi que saia da faculdade conversando com algumas pessoas. Ele suspirou ao ver o sorriso do loiro e foi se aproximando, com passos rápido a fim de pegá-lo antes que o mesmo entrasse no carro.
- Nako? – Shibushi sorriu ao vê-lo, achando estranha sua presença.
- Preciso falar com você – disse, puxando o loiro no meio daquela multidão, arrastando-o até seu carro.
- Não precisa me arrastar – disse, incomodado.
Shibushi sentou-se no assento do carro, jogando sua bolsa de pano no banco de trás. Ele arrumou sua camisa, desabotoando os dois primeiros botões, permitindo que a brisa fresca passasse por aquela região, refrescando-o.
- Está muito quente – comentou, jogando seus belos fios loiros para trás – Sobre o que você quer falar?
O ruivo ligou o motor do carro e afastou-se dali, sem dizer uma palavra sequer. Shibushi já havia percebi o péssimo humor de Ryori, então tratou de colocar o sinto de segurança antes que Ryori brecasse ou fizesse uma curva fechada.
Os grandes edifícios foram ficando para trás, Shibushi observava que estava se afastando do centro e que logo estaria na fronteira de Rondon com outra cidade. Mas sabia onde ia parar, e não foi surpresa quando Ryori parou o carro no alto de um morro. Aquele era o lugar favorito do ruivo.
Shibushi soltou o cinto de segurança e saiu do carro, aproximando-se da cerca de madeira, apoiando-se nela para observar a cidade logo abaixo. Ele podia ver sua faculdade dali, mas ela era apenas um ponto acinzentado no meio daqueles edifícios gigantes.
- O que houve? – indagou Shibushi, ao ver que Ryori estava encostado na cerca ao seu lado.
- Eu quase matei Yuy – disse, sem delongas.
Os olhos de Shibushi arregalaram-se, ele abriu seus lábios ligeiramente e não conseguiu fechá-los. O loiro ficou um tempo sem dizer nada, tentando assimilar aquela informação.
- Co... Como? – indagou.
- Eu... O tranquei na varanda da sala e o deixei lá por dois dias – disse – eu estava furioso. Ele ficou jogando na minha cara que eu matei o pai dele, que eu não prestava. Ele terminou comigo, pegou as coisas dele e estava indo embora – desabafou.
- Nossa! – exclamou – mas o que você fez para ele ficar assim?
- Ele queria uma merda de emprego, então pedi para não aceitá-lo. Ele ficou revoltado com isso e nos separamos – disse, soltando um longo suspiro em seguida.
- Bom, você não é muito fácil também – comentou Shibushi, chamando a atenção do ruivo – você não podia se meter desse jeito na vida dele, não tinha o direito.
- Claro que eu tenho!
- Não tem, não – retrucou Shibushi – está vendo? Você sempre acha que tem razão, mas não é o dono da verdade.
- Você está contra mim? – indagou, irritando-se.
- Sim. Você quer que eu concorde com você? – indagou.
O ruivo voltou seu olhar para a cidade, sentindo-se irritado com o comentário de Shibushi.
- Yuy é infantil, explosivo e carente de atenção – disse Shibushi – e você aceitou viver com uma criança.
O ruivo irritou-se com o comentário, encarando Shibushi de forma ameaçadora, mas o loiro continuou com o mesmo olhar impassível de sempre.
- E mais, você não aceita críticas – disse – olha só, já está querendo me matar.
- Cala a boca.
- Hum, o que vai fazer agora? Quer voltar a ficar com Yuy? – indagou.
- Eu não sei – disse, ajoelhando-se na terra, para logo em seguida sentar-se, encostando-se a cerca de madeira.
- Você o ama? – indagou Shibushi, sentando-se ao seu lado.
- O que é amar para você, Shibushi? – indagou, olhando de canto para o loiro.
Shibushi ficou um tempo pensativo, ele puxou a barra da sua calça de pano, vendo que ela já havia se sujado, depois voltou a olhar para o ruivo que parecia impaciente por uma resposta.
- Para mim... Vejamos. Amar para mim é sempre desejar receber o sorriso da pessoa que amo, vê-la feliz, saber que eu sempre posso contar com ela. Amar é desejar estar sempre com aquela pessoa, e também é respeitar as diferenças, tolerar as brigas, perder seu orgulho, perder sua dignidade. E depois de tudo saber que é prisioneiro daquela pessoa que sempre está nos seus sonhos, e não se importar com isso – disse, pausadamente, suspirando a cada palavra.
- Profundo – disse, sem expressão.
- Não caçoe – pediu o loiro, batendo seu joelho contra o de Ryori.
- Shibushi, sentir atração por outras pessoas quer dizer que o relacionamento não tem mais amor? – indagou o ruivo, intrigado.
- Isso demonstra que o relacionamento não está indo muito bem, mas não quer dizer que não tenha mais amor. Acho que vocês precisam se perdoar de muitas coisas – disse – Yuy ainda sente a morte do pai e você ainda sente-se um monstro com isso. Se vocês brigarem sempre que tocarem nesse assunto... Acho que não vai ter futuro.
- Você sente atração por outras pessoas? – indagou.
- Que pergunta indiscreta – disse - não interessa!
Ryori arregalou os olhos. Não acreditava na insolência de Shibushi, mas deixou passar. No entanto estava curioso.
- Como você e Ruk estão?
- Pensei que o assunto fosse você – disse – eu não quero falar sobre isso.
- Vocês brigaram? – indagou ao ver que o humor do loiro estava mudando.
Porém, Shibushi nada disse, ficando a observar uma pequena formiga caminhar com um grande pedaço de folha nas costas, seu olhar fixou-se no pequeno inseto e não deu mais atenção as perguntas de Ryori. O ruivo por sua vez estava falando sozinho e isso o estava fazendo ficar irritado e com um humor pior ainda.
- Acho melhor você conversar com Yuy – disse Shibushi, após um longo momento de silêncio entre os dois – tentar arrumar as coisas e ver se é realmente isso que você quer.
O ruivo não disse mais nada, ele levantou-se e caminhou até seu carro, olhando para o loiro que continuava sentado no mesmo lugar, sem mover um músculo sequer.
- Vamos embora – disse Ryori, entrando no carro.
O loiro levantou-se lentamente, sentindo seus ossos estralarem. Ele caminhou lentamente até o carro, batendo suas mãos por suas roupas, retirando a poeira. Quando se sentou, já colocou o cinto, mas Ryori não havia ligado o motor, parecia estar pensativo.
Shibushi abriu a boca para falar algo, mas antes que algum som saísse o motor foi ligado e logo saíram dali. O loiro respirou fundo e apreciou a vista.
- Hei, deixe-me na faculdade – pediu.
- Não quer que eu te leve para casa?
- Meu carro está na faculdade, Nako – disse.
- Eu vou te levar para casa – disse, com convicção, ignorando o falatório do loiro.
Shibushi estava contrariado, seus braços estavam cruzados e não falava mais nada. Quando Ryori alcançou sua rua, o loiro suspirou vendo que não tinha mais jeito, e que ia ter que ir a pé para a faculdade amanhã.
O Porsche preto parou na frente de uma grande casa de tijolinhos vermelhos. Shibushi pegou sua bolsa no banco de trás e saiu do carro. Nesse instante o ruivo pegou seu celular fazendo uma ligação para um dos seus empregados, quando terminou de falar, desligou e saiu do carro.
- Vai entrar? – indagou Shibushi, receoso.
- Sim – disse, caminhando até a porta, passando pelo o anfitrião – E já pedi para buscarem seu carro.
- Que prático – comentou.
O loiro procurou sua chave na bolsa e quando a encontrou abriu a porta de madeira. Quando entraram, Ryori observou o ambiente cheio de flores e plantas. As paredes da casa tinham cores harmônicas, juntamente com as cortinas e os tapetes. Os dois caminharam até a sala, onde havia muitas almofadas jogadas num grande tapete esotérico.
O ruivo retirou sua bota e sentou-se numa das almofadas, vendo observando que havia muitos quadros jogados pelo chão da sala, eram as obras de Shibushi. Ele estava no segundo ano da faculdade de artes.
- Quer beber alguma coisa?
- O que você tem? – indagou, pegando um pequeno quadro onde estava pintada uma paisagem inacabada.
- Suco de laranja, limão e abacaxi – disse.
- Não tem nada alcoólico?
- Tenho vodca, serve?
Ryori arregalou os olhos e logo em seguida exibiu um lindo sorriso, como resposta. O loiro afastou-se e depois de uma longa espera voltou com outra roupa, agora estava vestindo uma calça de linho branco e uma regata de algodão roxa. Nas suas mãos tinha uma garrafa de vodca e na outra uma jarra de suco de limão.
A jarra e a garrafa foram colocadas em cima da mesa, o loiro afastou-se e trouxe dois copos.
- Raramente você tem algo assim – disse Ryori, abrindo a garrafa.
- Sim, pois você sempre bebe tudo quando vem aqui – disse, colocando um pouco de suco no seu copo.
- Mas você não toma mesmo – disse, pegando a garrafa. O ruivo virou a garrafa na sua direção, bebendo pelo gargalo.
- Quer ficar bêbado? – indagou Shibushi.
- Preciso de mais de uma garrafa dessa para ficar – disse, dando outro gole.
- Ah, mas você já fica alterado com isso. Aliás, você já é alterado normalmente – disse, rindo baixinho.
- Onde está Ruk? – indagou, olhando diretamente nos olhos claros de Shibushi, notando como ele havia desviado o olhar.
- Terminamos – revelou, entristecido.
O ruivo ficou em silêncio, na verdade estava surpreso. Sabia que tinha algo de errado, mas nunca pensaria que os dois estariam separados.
- Por que?
- Porque brigamos. Para variar estávamos brigando sempre.
- Brigando pelo o quê? – indagou, enquanto bebia a vodca em longos goles.
- Por tudo, chegou um momento que tudo irritava. E brigávamos.
- E como você está? Faz quanto tempo que isso aconteceu? E por que raios não me contou?
- Faz três semanas, ele sumiu. Não faço a mínima idéia onde ele esteja. E eu estou bem, apesar de ainda estar me acostumando a idéia de ficar sozinho. Amanhã íamos fazer três anos – disse, entristecido, colocando o copo de suco em cima da mesinha.
- E por que não me contou?
- Ah, Nako – riu baixinho – até parece que eu ia aparecer na sua casa e contar que eu e Ruk terminamos. Além de você me olhar com desprezo, Yuy ia me chutar dali!
- Yuy é gentil, ele não faria isso – disse – e eu não ia te chutar também.
- Claro que não – disse em tom de deboche – mas não quero falar sobre isso. E quanto a você, pare de beber e me diga onde está Yuy.
- Está internado, ficou doente por ficar exposto a alguns vermes do lixo enquanto ficou na varanda. Ele ficará bem, o doutor disse que ele sairá daqui uns dois meses no máximo – disse, voltando a beber.
A garrafa estava quase no fim, Shibushi observava com atenção o olhar do ruivo, vendo que ele estava começando a ficar sonolento. O loiro levantou-se sendo seguido pelo olhar do ruivo.
- Vem – pediu Shibushi, erguendo sua mão para o ruivo.
- Ir aonde?
- Tomar um banho e deitar, você não parece bem – disse, agarrando um braço de Ryori e o puxando para cima.
Ryori levantou-se a contra gosto, mas estava adorando ser cuidado por Shibushi, diferentemente de Yuy que ia passar reto e dormir, ignorando-o, pensando que Ryori era um forte guerreiro e nunca ficava sensível e indefeso.
Eles passaram por um estreito corredor que dava vista para um jardim encoberto que Shibushi havia feito. O ruivo observava tudo com atenção, felizmente não estava bêbado, mas queria descansar. Eles entraram no quarto e Shibushi foi até seu armário feito de bambu, pegando algumas coisas para Ryori.
O ruivo encostou-se na porta, observando a cama do quarto. Ela estava toda desarruma e havia muitas almofadas jogadas no chão. Ele olhou para Shibushi, notando como ele ainda era bagunceiro depois de tantos anos.
- Aqui está, Nako – disse, entregando uma camisa, uma cueca, uma calça e uma toalha para o ruivo – o banheiro é logo ali, vá tomar um banho e eu irei fazer alguma coisa para comermos.
O ruivo trancou-se no banheiro, vendo que havia um tapete feito de fibras de bambu. Ele suspirou e logo tratou de tomar uma ducha longa e quente, pois estava precisando descansar. Nesse meio tempo não conseguia parar de pensar em Yuy e se ele realmente queria continuar com o moreno.
- “O que eu faço?” – pensava, enquanto ensaboava seu corpo – “Será que nossa relação não dará certo? Afinal, tantos namoros terminam”.
O chuveiro foi desligado e Ryori começou a secar-se, ele colocou as roupas de Shibushi, achando engraçado usar roupas largas feita de linho de cores claras. Ele saiu do banheiro e viu que o loiro havia deixado um chinelo de pano na porta do banheiro para que ele usasse.
Um cheiro agradável invadiu as narinas de Ryori, ele caminhou até a cozinha, encontrando o loiro cortando alguns legumes.
- Ah, já tomou banho? – indagou, parando de cortar os legumes por um instante, mas logo se virou e voltou sua atenção ao que fazia.
Ryori sentou-se numa cadeira e ficou observando o loiro cozinhando. Shibushi estava fazendo um risoto e logo ia fritar o salmão que estava numa tigela.
- Está com fome? – indagou Shibushi.
- Um pouco – disse.
- Come quantos peixes? – indagou, jogando óleo na frigideira e já colocando dois pedaços de peixe.
- Você sempre cozinha? – indagou Ryori, ignorando a pergunta anterior.
- Sim, eu vou colocar uns três para você – disse, jogando três peixes a mais na larga frigideira, tomando cuidado para não despedaçar o peixe que era muito sensível.
- Você sempre cozinhava para vocês dois? – indagou.
- Sim, por que?
- Nada – disse, lembrando que sempre tinha que trazer alguma comida instantânea, pois Yuy se recusava a fazer qualquer tarefa doméstica.
- Eu adoro cozinhar, mas ultimamente estava comendo comida pronta – disse – não estou com muito humor para cozinhar só para mim, aliás, eu nem me lembro como fazer apenas uma porção.
Alguns minutos mais tarde, o peixe estava pronto e Shibushi retirava o risoto do forno, Ryori foi até o armário pegando pratos, copos e talheres. Ele arrumou a mesa e pegou a travessa e os peixes, colocando em cima da mesa, que era redonda e tinha uma toalha branca cheia de flores azuis.
Os dois começaram a se servir, Shibushi pegou o controle remoto e ligou o som, colocando uma música calma. Os dois conversavam sobre assuntos banais, esquecendo-se um pouco dos problemas. Quando terminaram o jantar, Shibushi levantou-se recolhendo os pratos e colocando na máquina de lavar. Ele abriu a porta da geladeira retirando uma salada de frutas e no armário pegou uma lata de creme de leite e leite condensado.
- Quer? - indagou, enquanto pegava dois pratos e colheres.
- Sim – disse, encostando seus cotovelos na mesa, apoiando sua cabeça nas mãos, observando Shibushi preparar a sobremesa.
Os dois se serviram da salada de fruta. Shibushi abriu as latas e jogou um pouco dos dois cremes no prato de Ryori e no seu. Ele deixou um pouco do creme escorrer pela lata e conseqüentemente cair nas suas mãos, mas aquilo não era problema, Shibushi começou a lamber seus dedos como uma criança que havia acabado de limpar a travessa de massa de bolo da mamãe.
Ryori ficou hipnotizado por aquela cena, ele via Shibushi lamber seus dedos e depois chupá-lo como se fosse uma criança, no entanto sua visão logo acabou, pois o loiro começou a comer a salada. O ruivo fez o mesmo, tentando tirar alguns pensamentos impertinentes da sua mente.
Depois de comerem, Shibushi foi até a sala e jogou-se nas almofadas. Ele estava cansado e tinha que fazer alguns trabalhos da faculdade, mas não podia ignorar a presença de Ryori.
- O que vai fazer amanhã? – indagou o ruivo.
- Ir para a faculdade, por que?
- Nada, eu vou visitar Yuy – disse.
Ryori abriu a boca para falar mais alguma coisa, mas ouviu um toque de celular, o ruivo foi até o quarto onde estavam suas coisas vendo que era o celular de Yuy, o ruivo caminhou com o aparelho até a sala vendo que havia cinco mensagens para o moreno.
- Trabalho? – indagou Shibushi.
- Não, esse celular é do Yuy. Tem umas cinco mensagens aqui – disse, abrindo a caixa de correio do celular.
- Ele não vai gostar de saber que você leu as mensagens – disse Shibushi.
- Então leia você – disse Ryori, jogando o celular no colo do loiro.
- Ele já não vai com a minha cara, agora vai me odiar. Eu não vou ler – disse.
- Leia logo! – retrucou irritado.
- Impaciente e mandão como sempre – disse Shibushi, abrindo a primeira mensagem.
O loiro abriu a primeira mensagem arregalando os olhos, depois ele leu as outras quatro mensagens e ficou em silêncio, pensando se dizia ou se apagava o que estava escrito.
- E então? – indagou Ryori.
- Er... Quer mesmo que eu leia?
- Sim, leia logo. Deve ser um amigo do curso – disse, suspirando.
O loiro viu que as mensagens não eram muito saudáveis para Ryori ler naquele momento, mas não seria certo esconder o jogo do seu amigo.
- Ok, então eu vou ler a primeira mensagem:
“Yuy, perdoe-me por ontem à noite, eu me excedi, mas meu coração bate forte quando eu te vejo. Eu te amo... me perdoe, Rebeca”.
- O que essa menina fez? – Ryori, gritou, encarando Shibushi que estava com uma cara surpresa.
- Calma, deixa-me ler o resto – disse, abrindo a próxima mensagem.
Segunda mensagem:
“Mas quando senti seu beijo, meu coração me disse que você era a única pessoa que eu irei amar. Eu sinto que seremos felizes juntos. Volte logo para casa”.
- Como assim beijo? Yuy a beijou? Não pode ser! – gritou, quase avançando no celular.
Shibushi pulou para a terceira mensagem, lendo rapidamente:
“Acho que você deve largar logo esse homem que te faz tão infeliz, não quero ver suas lágrimas. Quero o calor do seu corpo junto ao meu novamente. Beijos”.
O ruivo estava começando a enlouquecer e essa era a terceira mensagem ainda, ele estava se preparando psicologicamente para a quarta.
“Yuy, eu sinto muito pelo emprego. Acho que seu namorado não é muito amigo. Desculpa, cara. Depois nos falamos. Amanhã tem prova, não se esqueça. Atsu”.
- Menos mal essa – disse Shibushi, receoso de ler a última.
- E a última? Leia logo!
“Yuy, eu nunca havia sido tocada daquele jeito, eu nunca havia tocado “naquilo”, você sabe do que falo, ainda sinto seu cheiro na minha mão. Não diga que não vá voltar, pegue logo seu dinheiro e venha me buscar. Você sumiu há dias, me diga onde está que eu irei te buscar”.
Ryori ficou um tempo em silêncio, seu estava péssimo e não conseguia raciocinar direito.
- Acho que não rolou muita coisa – disse Shibushi, analisando as mensagens – deve ser uma garota virgem e apaixonada, Yuy deve ter impedido ela de atacar.
- Mas ele a beijou – disse, pausadamente. Saber que Yuy lhe traiu era terrível.
- Um beijo numa garota, ela deve ter provocado, roubado ou sei lá – disse Shibushi.
- Ela tocou nele! Yuy é bem mais forte que essa pirralha, podia tê-la afastado – gritou.
O loiro ficou em silêncio, Ryori tinha razão. Com apenas um empurrão Yuy podia tê-la afastado.
- Vocês brigaram, ele estava sensível, ela o tocou e o seduziu. Mas pelo visto não devem ter ido até o final, pelo fato dela não citar – disse.
- Se tivessem ido até o final, eu ia agora mesmo desligar os aparelhos que mantém Yuy vivo e arrancar os ossos dessa garota! – vociferou.
- Ia nada – disse Shibushi, colocando o celular em cima da mesa, e quando fez isso o aparelho tremeu e tocou uma música avisando que havia recebido outra mensagem.
- Leia logo – disse Ryori – anda!
Shibushi pegou o aparelho e sorriu aliviado ao ver que era a mensagem do outro garoto.
“Yuy, onde você está? Por que não apareceu no curso? Me liga. Atsu”.
- Era o colega do curso. Afinal você deixou Yuy incomunicável – disse Shibushi, colocando o aparelho em cima da mesinha, mas novamente o aparelho tremeu.
- Ah, só pode ser brincadeira, deve ter algum diabinho nos observando e fazendo isso – disse Shibushi, pegando o aparelho novamente com certa impaciência.
- O que é agora? – indagou Ryori.
- Ah, mensagem da operadora do celular. Promoções! – disse Shibushi aliviado.
O loiro ficou olhando para o aparelho celular e o desligou logo em seguida, chamando a atenção do ruivo.
- Por que fez isso? – indagou Ryori.
- Para que você pare de ter tanta raiva. Nako, você ama Yuy, vá e converse com ele. Pára de ficar arrumando empecilhos para não ficarem juntos – disse.
- Você não pode me dizer isso. Afinal, por que vocês se separaram, afinal? Diga espertalhão, você que sabe tudo. Não pode julgar os outros e nem dizer nada, Shibushi! – disse, indo até o loiro, arrancando o aparelho das suas mãos e o ligando logo em seguida.
- Idiota – xingou Shibushi, levantando-se e saindo da sala.
O ruivo acompanhou o loiro com olhar, mas não deu atenção voltando a ler as mensagens de Rebeca. Entretanto havia uma frase na segunda mensagem que Shibushi não havia lido.
“... Tenho as marcas dos seus dedos no meu corpo”.
O ruivo atacou o aparelho nas almofadas, felizmente não quebrou. Ryori saiu da sala, contrariado, deixando o aparelho para trás. Depois o pegaria para esfregá-lo na cara de Yuy.
Ryori ouviu o som do chuveiro ao longe, ele caminhou até o quarto de Shibushi, encontrando as roupas usadas do loiro jogadas em cima da cama. Ele se aproximou pegando a camisa de Shibushi, levando até suas narinas para aspirar o cheiro do outro.
O ruivo observou a cama a sua frente, ele retirou seu chinelo e sentou-se ali, ficando a olhar para o teto, pensando nas mensagens que acabou de ler, remoendo-se com o ódio.
Um longo tempo passou e a porta do banheiro foi aberta, fazendo um vapor quente invadir o quarto, carregando um cheiro de ervas. Era os cremes, xampus e sabonetes a base de ervas que Shibushi usava. O loiro saiu do banho usando um roupão de algodão vermelho.
Os olhos entristecidos de Shibushi miraram a figura de Ryori, vendo que o ruivo o observava. Ele caminhou até sua cama, pegando suas roupas, dobrando-as e colocando em cima da cadeira de madeira que ficava junto à penteadeira. O loiro ficou parado, olhando para suas roupas, pensando o que faria agora, pois Ryori mostrou querer ficar na sua cama e ele não estava bem humorado, poderia ser um perigo. Apesar de ser amigo de Ryori, se o provocasse ele com certeza ia reagir agressivamente.
O loiro caminhou até sua cama, sentando-se longe de Ryori. Ele pegou um livro, apagou a luz do quarto, ascendendo um abajur e começou a ler. Ryori pegou o controle da TV e começou a assistir a um filme qualquer, ficando em silêncio ao lado do loiro.
Shibushi não conseguia se concentrar no seu livro, ele o fechou e o colocou em cima da mesinha. A luz do abajur foi apagada e Shibushi deitou-se, puxando seu lençol.
O volume da TV era alto, mas Shibushi não queria reclamar, pois isso lembrava quando brigava com Ruk por esse motivo. No final das contas não queria ter uma televisão no quarto, pois perturbava o sono, entretanto não conseguia tirá-la de lá mesmo que Ruk jamais voltasse. Retirar a televisão era admitir que jamais voltariam.
Ryori desligou o aparelho, ele colocou o controle no chão e se deitou, virando seu corpo na direção de Shibushi, mas o loiro estava de costas para ele.
- Está irritado? – indagou Ryori.
- Sim.
- Hum! – resmungou, sentindo-se mal por ter dito aquilo, mas pedir desculpas não estava em cogitação.
O cheiro de Shibushi estava invadindo as narinas. O ruivo se aproximou do corpo do loiro, passando sua mão por sua cintura, quando fez isso sentiu que o corpo menor tremeu.
- O que está fazendo? – indagou Shibushi.
- Nada – disse, afundando a cabeça na nuca do loiro.
Os dois ficaram parados, sem dizer nada um ao outro apesar da estranha situação. Shibushi fechou os olhos tentando dormir, mas isso era impossível.
- Nako.
- Hum?
- Eu não consigo dormir assim – disse.
O ruivo afastou-se virando de costas para o outro lado, Shibushi respirou aliviado e virou sua cabeça na direção de Ryori, pelo fato de estar acostumado a dormir desse jeito. No entanto, o ruivo virou sua cabeça, ficando frente-a-frente com Shibushi.
- Eu vou dormir na sala – disse o loiro, fazendo a menção de levantar.
O ruivo não permitiu, ele puxou o braço de Shibushi, fazendo-o voltar a se deitar. E antes que Shibushi dissesse algo, Ryori se aproximou, puxando a cabeça do loiro, colocando-a no seu peito, abraçando seu corpo carinhosamente.
Shibushi ficou em silêncio, aceitando o abraço do ruivo, fechando os olhos e sentindo as batidas do coração de Ryori.
- “Por que será que nunca demos certo?” – pensava Ryori, olhando para face sonolenta de Shibushi – “Nos damos tão bem. Shibushi é tão perfeito, faz tudo o que eu gosto. Acho que é minha culpa, mas talvez seja essa a abertura para eu investir nisso. Talvez seja um sinal, Ruk está longe, Yuy me traiu... e ele está nos meus braços”.
Uma leve carícia foi feita na cabeça de Shibushi, o loiro sentia seu coração ficar cada vez mais acelerado. Uma vontade de sair correndo dali instalou-se no seu peito, mas estava tão quentinho e sentia-se tão protegido nos fortes braços de Ryori, que acabou desistindo.
E como previsto Ryori puxou a cabeça do loiro na sua direção, abaixando sua cabeça e indo buscar os lábios finos e rosados de Shibushi, capturando-os rapidamente para logo em seguida abrir sua boca, deixando seu hálito sair e adentrar na boca do outro. Sua língua deixou sua própria cavidade para explorar a outra, sentindo a maciez e o gosto de Shibushi.
O ruivo aspirou muito ar por sentir que precisava ou então ia sufocar. Ele subiu em cima do corpo do loiro, agarrando o pulso direto de Shibushi, levando para o alto e a sua outra mão estava fechada no maxilar do loiro.
Quando finalmente se separaram, os olhos de Shibushi estavam injetados de desespero. Ele não queria sentir sentimentos além da amizade por Ryori novamente, mas seu coração já estava começando a relembrar o passado. Shibushi fechou os olhos lembrando de Ruk, mas seus pensamentos não tinham espaço naquele momento, onde Ryori estava sentado em cima dele, observando-o, tentando decifrar o que se passava na sua cabeça.
- Vamos tentar de novo – disse Ryori, sussurrante. E no instante seguinte inclinou-se novamente, voltando a beijar Shibushi que começou a se remexer desta vez.
- Melhor não – disse – eu sei onde isso vai dar!
- Não fale mais nada. Deixe que eu cuido de tudo – disse, descendo sua língua pelo jugular do loiro.
- Não vai cuidar de mim, ninguém cuida – disse – nem você, nem o Ruk e nem ninguém cuidará. Logo voltará para Yuy, Nako. Você sabe disso, então pare de me ferir – pediu.
Ryori parou os beijos e ergueu seu tronco visualizando a figura desprotegida de Shibushi, vendo seu olhar entristecido e que no canto de seus olhos havia uma pequena poça de lágrimas que logo escorreriam.
- Ele me traiu – disse Ryori.
- Mas não foi intencional. Aquela garota o agarrou e você sabe que Yuy é muito sincero e que contaria. Vocês se amam e logo vão voltar. Pois se não se amassem, por qual outra razão você me deixaria, Nako? – indagou, entristecido, lembrando-se do passado.
- Por um lapso meu. Eu vejo que somos perfeitos um para o outro – sussurrou.
- Não te amo mais – disse – demorou para eu esquecer, mas esqueci. Agora sinto apenas desejo, mas não amor. Portanto, não me toque mais.
O ruivo soltou o pulso do loiro e saiu de cima dele, sentando-se na cama. Ele olhou para o corpo estirado de Shibushi, mas ele logo saiu da cama e trancou-se no banheiro. Ryori ouviu o som do chuveiro e então voltou a deitar-se. Ele tocou no seu peito, sentindo o seu coração bater contra seu peito ferozmente. Sua outra mão desceu até seu membro, sentindo como havia ficado duro só de beijar o loiro.
- “Apenas desejo... acho que seu coração pertence ao Ruk agora. E o meu eu não sei a quem pertence mais. No final, acho que só posso amar a mim mesmo” – pensou, entristecido. O ruivo levantou-se, trocando de roupa e saindo do quarto.
Ryori saiu da casa, olhando para o lugar com atenção. Ele entrou no seu Porsche e partiu, indo até a clínica que ficavam poucos minutos dali. Quando chegou, entrou rapidamente, passando pela atendente, entrando no quarto do moreno.
O ruivo sentou-se num banco que ficava próximo a janela e dormiu, com a sua mão fechada na arma que carregava na cintura caso aparecesse algum inimigo.
“A paixão jamais
combina com lógica ou com racionalidade.
A paixão é uma prisão paradisíaca”.
Na manhã do dia seguinte, Ryori abriu os olhos lentamente ao ouvir o som da porta abrindo-se. Ele viu a enfermeira sair com uma bandeja de café da manhã. Quando se ergueu na cadeira, Ryori viu que Yuy estava sentado, olhando-o com atenção.
- Olá, meu querido assassino – cumprimentou Yuy – eu estou preso a essa cama por sua culpa! – gritou logo em seguida.
- Bom dia – disse Ryori, secamente.
- Está feliz?
- Não.
- Acho melhor você sumir daqui. Não veja me visitar. Eu não suporto mais sua presença – vociferou.
O moreno deitou-se ao sentir uma forte tontura seguida de uma pontada que sentiu na nuca. Ryori percebeu as expressões de dor e caminhou até a cama, tocando na testa de Yuy, sentindo como estava quente.
- Eu fiquei com o seu celular. E seus amigos mandaram muitas mensagens – comentou Ryori.
- Ah! Que bondade a sua comunicar.
- As mensagens de Rebeca foram as mais interessantes. Parece que você conquistou o coração dela após dormirem juntos – disse, com um sorriso no rosto. Mas através daquela face inexpressiva, Ryori sentia seu estomago embrulhar só de cogitar que ele realmente tenha dormido com a garota.
Yuy arregalou seus olhos e encarou a face de Ryori. O moreno ficou um tempo em silêncio e disse com uma voz fraca:
- Não dormimos juntos. Ela me beijou, mas eu parei. Ela me tocou também, mas a afastei.
- Por que não a afastou desde o início?
- Porque não deu, não imaginei que ela faria isso. Ela é minha amiga e sem contar que eu não estava raciocinando direito, estava bravo com você – sussurrou.
- E agora todas as vezes que você ficar bravo comigo vai ficar se esfregando em qualquer um? – indagou, alterando seu tom de voz.
- Não, isso não vai acontecer. Pois não haverá próxima vez, não estamos mais juntos – disse.
- Você me ama, Yuy? – indagou, sem delongas, chamando a atenção do moreno.
- Não como antes – respondeu rapidamente.
- O que é amar para você? – indagou, curioso.
- Amar é ser amado, respeitado e não deixar que a pessoa que está com você acabar com seu orgulho e dignidade. Amar é construir algo, e não permitir ser escravo ou prisioneiro do outro – disse baixinho.
Ryori riu baixinho ao ver que a concepção de amar de Yuy e Shibushi eram completamente diferentes. O ruivo aproximou de Yuy, dando um leve beijo nos seus lábios, tentando ver se ainda podia sentir aquele frio na barriga ao fazer isso. E quando o beijou, seu coração disparou e sem perceber o beijou durou o dobro do tempo, pois Ryori não conseguia mais se separar daqueles lábios.
No entanto, uma mão empurrou o corpo de Ryori para trás, quando ele se deu conta que Yuy estava ficando vermelho por estar sem ar. O ruivo afastou-se e ouviu a tosse incessante do moreno.
- Mas ainda me ama? – indagou Ryori.
- Claro que sim, como posso deixar de amar de um dia para o outro? Apenas não o amo como antes, isso faz tempo.
- Não quer tentar de novo? Quer terminar e tentar apagar o que sobrou dos seus sentimentos?
Yuy estava abobado com as perguntas de Ryori. Desde quando Ryori Nako estava tão indagador? Desde quando ele estava com aquela face cansada e preocupada? Parecia o Ryori do passado, que era todo preocupado, cuidadoso e sempre protegia Yuy de qualquer coisa. Diferentemente do Ryori que o expulsava de casa quando estava bêbado, que ficava jogando na cara que não trabalhava, que não dormia mais em casa.
- Eu não sei – disse, sinceramente. Não sabia o que fazer.
- Perdoa-me por ter te trancado? – indagou.
- Sim – disse baixinho.
- Assim como me perdoa por ter matado seu pai – disse – não perdoa. Você diz que sim, mas seu coração não. Não pode enganar-se a si mesmo, se você não me perdoar Yuy, nunca poderemos ser felizes – disse.
- Foi conversar com Shibushi – comentou Yuy – por isso está assim.
O ruivo arregalou os olhos, mostrando sua surpresa, assustando-se com a facilidade de Yuy lê-lo daquele jeito.
- Ele sugeriu que você conversasse comigo sobre isso para não ter problemas no futuro. Que loiro intrometido. Não me diga que ele tentou te agarrar também – disse.
- Não fale assim dele – disse baixinho, irritando-se.
- Hum, está irritado? Vejamos, o que vocês fizeram? Dormiram juntos? Beijaram-se? Quem sabe tomaram um banho de banheira juntinho! – sugeria várias situações com um sorriso amargo no rosto.
- Como você é infantil – comentou.
- Sim, Shibushi disse isso também, certo? Em cinco anos você não fala que eu sou infantil, aí passa um tempo na casa daquele safado e vem com um novo vocabulário! Vejamos, ele sugeriu que você viesse jogar na minha cara as mensagens de Rebeca! Ou melhor, ele deve mandado você ler correndo as minhas mensagens, invadindo minha privacidade!
Um tapa foi desferido na cara de Yuy, fazendo o garoto calar a boca. O ruivo ficou irritado com todo aquele discurso que não levava a lugar algum, ele se afastou e caminhou até a porta e antes de sair disse:
- Na verdade ele pediu para eu não ler as mensagens, para não invadir sua privacidade. E, além disso, pediu para que eu conversasse com você, pois nos amamos e temos que ficar juntos. Acho que deveria saber. E sim, eu o beijei, mas fui recusado.
Yuy tocou na sua face e ficou quieto, pensando nas palavras do ruivo. No entanto não podia negar que não sentia ciúmes do loiro e sabia que os dois eram muito próximos e por mais que tentasse nunca ia conseguir fazer nada parecido com que Shibushi fazia.
- “Você não tinha o direito de ir beijá-lo, Ryori” – pensou – “acho que você poderia decidir de quem gosta mais, pois eu não posso mais viver com alguém que não me veja como seu mundo, assim como eu o vejo como meu mundo”.
OoO
Shibushi estava deitado no chão da sala, o loiro não havia ido para a faculdade. Estava abalado psicologicamente.
- “O que ele está pensando? Sempre que brigar com Yuy pode vim aqui me beijar, me seduzir para depois voltar para aquela criança? E os meus sentimentos?” – pensava – “Acho que meu destino é ficar sozinho”.
As pálpebras de Shibushi fecharam-se, lembrando-se do dia fatídico que ele e Ruk se separaram.
- Flash Back –
Os ventos fortes daquela tarde se jogavam violentamente contra a casa de tijolos. As janelas abertas estavam batendo a cada segundo e um ar frio e úmido invadia o quarto. Um raio cortou o céu, iluminado aquela tarde escura.
Shibushi estava sentado na poltrona do quarto, assistindo a um programa de televisão. Ele levantou-se ao ouvir o som da garagem abrindo-se, caminhou até a janela vendo o carro de Ruk.
Nos minutos seguintes Ruk entrou no quarto, indo até o loiro, dando-lhe um beijo no rosto, cumprimentando-o.
- Como foi lá? – indagou Shibushi.
- Estava conversando com Xyen, e finalmente descobri uma coisa sobre mim – disse.
- O que você descobriu? – indagou, curioso.
Os olhos acinzentados de Ruk estavam com um brilho diferente. Ele virou-se de costas, sentando-se na cama, retirando suas botas para depois se deitar na cama.
- Não posso te contar – disse.
- Por que? – indagou, exasperado, sentando-se ao seu lado, colocando sua mão no peito do moreno.
- Acho melhor você não saber – disse – acho melhor não ficarmos mais juntos.
- Como assim não ficarmos mais juntos?!
Shibushi arregalou os olhos, indignado com o que ouvia, mas sabia que tinha alguma coisa importante e precisava saber.
- Diga logo, não confia em mim?
- Não – disse – acho melhor eu ir.
- Não pode ir! – disse, empurrando o peito de Ruk para trás.
- Não pode me impedir – disse o moreno, segurando o pulso de Shibushi.
- Mas posso ao menos tentar – disse, entristecido – ao menos, me dê um motivo.
- Você sempre precisa de motivos – comentou, com um sorriso no rosto – vamos lhe dar um motivo então. Digamos que eu não te amo mais – disse tranqüilamente, sem dificuldade.
- Claro que você me ama – disse Shibushi.
- Convencido – disse – não amo mais. Agora posso ir embora sem que você me impeça.
- Eu não vou aceitar esse motivo. Agora diga o que você e Xyen descobriram?
Ruk não disse mais nada, ele sentou-se na cama e depois empurrou o loiro delicadamente para trás para depois jogá-lo contra o colchão, mas sem violência. O moreno foi até seu armário pegando um casaco, depois foi até uma escrivaninha pegar alguns papéis, sua carteira e a chave do seu carro que estava jogada numa mesinha.
- Adeus – disse logo em seguida, sumindo do quarto numa velocidade desumana.
- Final do flash back –
O loiro abriu os olhos, fazendo algumas lágrimas tristes e solitárias correrem por sua face. Ele começou a tremer e soluçar, não conseguindo conter seu choro.
- “No final não foi uma briga, aliás, nem brigávamos. Tudo isso por causa da sua curiosidade de como foi criado” – pensou.
De repente Shibushi teve uma idéia, ele correu até seu quarto vestindo uma calça jeans preta, uma camisa da mesma cor, colocou um par de óculos escuros e um boné preto. Ele foi até uma gaveta que estava trancada, ele a abriu e pegou uma arma que era de Ruk e saiu de casa.
- “Nada melhor do que ir até aquele lugar...” – pensou, lembrando-se de um laboratório que Ruk havia descoberto dois anos atrás.
Shibushi passou horas dirigindo até que finalmente resolveu parar o carro e conferir o mapa que havia pegado na agenda de Ruk. Ele viu que estava indo no caminho certo, mas não estava confiante. O loiro pegou seu celular e ligou para Ryori.
- Quem fala? – indagou Ryori, quando atendeu o celular.
- Sou eu, Nako.
- Ah, Shibushi. Diga.
- Eu estou indo a um lugar, vou passar as coordenadas no seu e-mail caso eu não apareça mais. Só isso. Até – disse, encerrando a ligação, pois sabia que Ryori ia enchê-lo de perguntas.
Shibushi enviou o mapa para o e-mail do ruivo com todas as informações que ele precisasse e voltou a dirigir, ignorando o toque do seu celular. Era Ryori que tentava ligar para ele.
Uma alta montanha de rochas ergue-se no horizonte, Shibushi resolveu estacionar seu carro no meio de algumas grandes rochas. Ele saiu do carro, arrumando sua arma, observando o lugar que estava.
O loiro começou a caminhar até que chegou numa grande cerca onde tinha uma placa avisando que era propriedade particular e que era proibida a entrada. O loiro ignorou a placa e pulou o portal sem dificuldade alguma, continuando seu percurso.
No chão seco e rochoso havia muito lixo, latas de refrigerante, placas de metal. Entretanto, quanto mais avançava, mais diferenciado ficava o lixo. Agora encontrava pedaços de seringas quebradas, vidro e alguns materiais cirúrgicos. O loiro encontrou outra cerca, onde havia outra placa com as mesmas instruções.
Shibushi passou por um buraco que havia na grade, sem dificuldades, pois era magro. O loiro avistou ao longe um galpão de metal que estava abandonado. Ele foi se aproximando, observando alguns urubus que estavam em cima de uns postes, encarando-o.
- “Que sinistro” – pensou, olhando o ambiente ao seu redor.
Uma lanterna foi retirada da mochila de Shibushi, ele começou a iluminar o lugar, tentando encontrar alguma coisa que se relacionasse ao seu querido namorado.
Uma sensação estranha invadia o corpo de Shibushi, seus instintos pediam para que se afastasse dali, mas estava muito perto do lugar que tanto queria para ir embora. Tinha que descobrir o que fizera Ruk se afastar.
Um estrondo chamou a atenção de Shibushi, ele virou para trás, vendo que algumas latas que estavam empilhadas caíram no chão, fazendo um líquido esverdeado escorrer, caindo no solo. O loiro deu alguns passos para trás, para não se aproximar daquele líquido misterioso. A luz que provinha da lanterna de Shibushi tentou encontrar alguma coisa que havia causado aquela bagunça.
O loiro ouviu um som estranho vindo de trás de uma das grandes latas, ele foi se aproximando lentamente, pegando sua arma. E quando se aproximou ele avistou um felino preto que estava encarando-o. Shibushi ficou olhando para o pequeno animal, sentindo-se aliviado.
- “Só um gato” – pensou, respirando fundo.
Shibushi virou suas costas para aquele felino, voltando a caminhar na direção do galpão. No entanto, o gato começou a caminhar na sua direção e a cada segundo a forma do gato ia se alterando, a cada passo ele ficava maior e sua feição obscura.
O loiro sentiu um cheiro forte e virou-se para trás, encontrando o gato se transformando em alguma coisa indefinida. Ele estava ficando grande, maior que Shibushi. O loiro deixou sua lanterna cair no chão e deu alguns passos para trás.
- O que... É isso? – indagou, gaguejando.
A forma do gato havia sumido dando lugar para um homem que agora olhava friamente para Shibushi. O homem era mais alto e com músculos, ele tinha uma pele branca com algumas marcas estranhas tatuadas em seus braços e peito. Seus cabelos eram negros como a cor do felino e caíam por todo seu rosto, permitindo que apenas um olho fosse visto, exibindo um dourado tenebroso para Shibushi.
O homem abriu a boca, passando sua língua por entre os lábios, exibindo seus dentes finos e afiados. Parecia mais com um felino agora do que antes.
Shibushi pensou em correr, mas estava paralisado pelo medo. Suas pálpebras fecharam-se por um instante, permitindo que aquele selvagem mutante sumisse. O loiro olhou ao redor, tentando encontrá-lo, mas não obteve sucesso.
- Eu preciso sair daqui, mas não consigo me mover – disse baixinho, tentando incentivar-se a si mesmo.
O loiro deu um passo em direção a grade, a fim de tentar sair daquele lugar. Ele ouviu um barulho vindo do galpão o que fez voltar a olhar o lugar.
- “Mas, o que será que era aquilo? Ele não me atacou, será que é um amigo? Ou quem sabe é igual ao Ruk!” – pensou.
Shibushi olhou para a grade e depois para o galpão, decidindo ir até o galpão descobrir o que estava acontecendo naquele castelo dos horrores. O loiro caminhou lentamente até o galpão, quando chegou, mirou sua lanterna em todos os cantos e apontou sua arma para frente, caso algo ou alguém lhe atacasse.
O loiro viu um interruptor num canto e foi até ele, acendendo a luz que iluminou o lugar, mas ela começou a piscar a cada segundo, mostrando que não ia ficar muito tempo ali. Shibushi começou a caminhar, pisando em pedaços de vidro, seringas, copos e materiais cirúrgicos.
Uma sombra correu pelas paredes, chamando a atenção de Shibushi. O loiro olhou para o lado vendo que havia mais dois gatos ao seu lado, mas desta vez eles eram de outra cor. Um era branco e o outro amarelo.
O loiro viu que mais um gato preto juntou-se aos outros dois, talvez fosse o mesmo gato que antes. Shibushi não conseguia parar de olhá-los, até que o gato preto correu até uma porta de metal, chamando a atenção de Shibushi. O loiro foi caminhando até lá, mas a todo instante olhava para trás, vendo que os outros dois gatos não se moviam.
Havia uma porta de metal muito velha impedindo a passagem de Shibushi. O loiro guardou sua arma e tentou movê-la, entretanto não conseguiu afastá-la. Ele olhou ao redor procurando alguma ferramenta que lhe ajudasse. Quando seus olhos correram pelo galpão, percebeu que os três gatos não estavam mais ali.
Um frio correu pela espinha de Shibushi, ele estava com medo e aquela visão anterior não o deixava se concentrar. Os olhos de Shibushi visualizaram uma barra de metal, ele caminhou até lá, com o revólver nas mãos, observando cada canto. Com as mãos trêmulas ele pegou a barra de metal e correu até a porta, colocou a barra num vão e tentou puxá-la para trás, ouvindo a porta tremer.
Após muito esforço e suor, Shibushi conseguiu abrir alguns centímetros, permitindo que seu corpo passasse. Ele apontou a lanterna no vão escuro, não enxergando absolutamente nada. Então ouviu um miado, olhou para trás e viu os três gatos lhe olhando, com grande olhos dourados.
- O que vocês querem me mostrar? – indagou Shibushi, achando melhor se comunicar com aqueles felinos ao invés de temê-los.
O gato preto passou pelas pernas de Shibushi e adentrou no lugar, os outros dois gatos fizeram o mesmo. O loiro passou pelo vão da porta, entrando naquela sala. Ele procurou um interruptor e o achou, acendendo uma luz amarelada e muito fraca.
- O que era aqui? – indagou, olhando o lugar com atenção.
Havia muitas máquinas estranhas e muitas jaulas de metal que estavam arrebentadas. Shibushi se aproximou de uma grande tela de computador. Ele analisou o equipamento e acabou ligando a máquina.
Shibushi ouvia o aparelho ligando, e voltou a examinar o lugar, ele abaixou-se encontrando uma corrente de metal. Quando a puxou, uma gaiola caiu no chão, Shibushi aproximou-se dela, colocando a mão no nariz ao sentir um cheiro podre.
Os olhos do loiro arregalaram-se ao ver pedaços de ossos escondidos atrás da gaiola e nesse instante o monitor do computador central foi ligado e Shibushi viu que havia um homem, de longos cabelos brancos, usando um sobretudo branco. Parecia um médico. Ele estava ajustando a câmera e começando a falar.
- “Experimento 56-Z”
Shibushi foi se aproximando vendo o doutor filmando o laboratório. Vendo como era grande, iluminado e espaçoso. O loiro viu que as gaiolas estavam cheias de gatos e que havia algumas crianças presas em outras gaiolas. O loiro colocou a lanterna em cima de uma mesa e sentou-se num banco de madeira para assistir aquela fita.
- “Hoje vamos tentar colocar o DNA de um gato no corpo humano. Essa é a nossa 6056° tentativa da série Z, vamos aos testes” – disse o doutor, pegando uma criança, jogando-a numa incubadora de vidro e o gato numa outra.
Shibushi notou que o tempo no vídeo mudou e que havia passado 72 horas. E o doutor estava com outra aparência.
- “Vamos ao teste 85-Z” – disse, repetindo o mesmo processo.
Após duas horas assistindo a fita, Shibushi estava ficando entediado, pois era tudo muito parecido, até que finalmente a rotina do doutor foi mudada.
- “Hora de nos livrar dos corpos” – disse o doutor, apontando para um buraco onde havia centenas de corpos de gatos e garotos, alguns estavam inteiros, outros estavam despedaçados, outro estavam com mutações. Shibushi ficou horrorizado, ele olhou para os lados, encontrando-se sozinho, apenas havia três gatos ali o observando.
- Vocês querem me mostrar o que aconteceu com vocês – comentou Shibushi.
A fita voltou a mostrar a rotina do doutor. Após meia hora de fita, Shibushi notou uma mudança na fisionomia do doutor, ele parecia feliz e dizia que quatro experimentos estavam indo muito bem.
A filmagem mostrou quatro gatos deitados em gaiolas diferentes. Eles eram os gatos que estavam ao seu lado nesse momento. O loiro viu que tinha um gato bege que parecia mais agitado que os demais.
- “Os felinos b foram clonados de tigres e modificados geneticamentes para terem essa forma. Depois foram misturados ao DNA humano. Esses humanos, desde o momento que estavam no útero da mãe tinha uma alimentação específica, além disso, as mães tomavam fortes medicamentos. Foram utilizadas centenas de milhares de crianças que foram vendidas pelos seus pais” – disse o doutor, mostrando entusiasmo – “Após todos os teste, finalmente tivemos bons resultados. Esses mutantes da série felinos b estão prontos para serem usados”.
- Usados no que? – indagou Shibushi, curioso.
- “Senhor Raizen, depois de anos de pesquisa. Além de criarmos humanos poderosos, como os experimentos da série 1 AZ, agora temos mutantes. Logo iremos iniciar a lavagem cerebral e eles estarão prontos para serem utilizados” – disse o doutor, enquanto filmava os felinos.
- Série de humanos poderosos, esse seriam Ruk, Xyen, Atsu, Shell e suka? – indagou Shibushi – com certeza deve ser eles. Será que aqui tem a fita que mostra como eles foram criados?
O computador desligou de repente, Shibushi levantou-se, vendo que os três gatos estavam caminhando pelo laboratório. O loiro caminhou pelo lugar, buscando encontrar outras informações. Um dos gatos chamou sua atenção, batendo sua pata contra uma parede. Shibushi se aproximou, tocando na parede fria, vendo que ela era oca. Ele deu uma batida e uma pequena portinha abriu-se, revelando uma caixa de metal.
O loiro pegou a caixa e viu que ela estava fechada. Ele olhou para os lados, vendo que a luz do lugar logo ia se apagar e não queria ficar naquela sala medonha, onde havia uma energia negativa sobrenatural. Ele saiu da sala, voltando para o galpão com os três gatos no seu encalço.
Shibushi saiu do galpão rapidamente, sendo seguido pelos gatos. Quando ele chegou até seu carro, o loiro olhou para os três felinos com atenção.
- “Não são gatos. Eles têm traços de tigres, seriam filhotes de tigres. Olhando bem, são bem maiores que gatos normais” – pensou.
Shibushi sentou-se no banco do seu carro e os gatos pularam, ficando no banco de trás, o loiro suspirou e achou melhor levá-los daquele lugar. Shibushi saiu rapidamente dali, sem notar que havia um gato olhando-o do alto de uma grande rocha. Ele era bebe e diferente dos outros, seu olhar era agressivo.
O olhar atencioso de Shibushi na direção acabou acabando, ele não conseguia parar de pensar naquele laboratório. Quando ele finalmente chegou em casa, encontrou o carro de Ryori estacionado na frente da sua casa.
Shibushi saiu do carro e entrou na sua casa, sendo seguido pelos três gatos. Quando entrou, encontrou Ryori sentado no sofá da sua sala, olhando seu celular.
- Onde você se enfiou? Você me liga e fala que vai para algum lugar e depois some – gritou o ruivo, levantando-se e indo até ele.
- Eu mandei um e-mail! – disse.
- Eu não recebi nada – gritou.
- Eu mandei, acho que digitei errado – disse, sem entender – Nako, eu fui até o laboratório onde faziam experiências com humanos.
Ryori arregalou os olhos, e agora notou as roupas escuras e os óculos escuros que Shibushi usava. O ruivo arrancou o boné que Shibushi usava e jogou no chão, irritado.
- Por que não me levou com você? – indagou Ryori.
- Eu descobri que faziam experiências com animais e humanos – disse.
- Isso eu já sabia – disse Ryori.
- Já?! Por que nunca me contou? – indagou indignado.
- Contar o que? Ruk não ia querer que você soubesse. Se ele não te contou eu não ia fazê-lo – disse.
- Sabia sobre os gatos?
- Felinos da série B, não são gatos – disse, secamente – nunca mais vá lá sozinho!
- Esses felinos? – indagou Shibushi, apontando para os três gatos que estavam andando pela casa.
Ryori arregalou os olhos ao ver aqueles pares de olhos dourados. O ruivo retirou duas armas que estavam na sua cintura e abriu os braços, mirando nos gatos que corriam em disparada pela sala. Shibushi tentou impedir o ruivo, mas ele foi mais rápido, atingindo a cabeça dos felinos, derrubando-os no chão.
- Eram quantos? – indagou Ryori.
- Por que você fez isso? – gritou Shibushi.
- ERAM QUANTOS? – gritou mais alto, fazendo Shibushi se calar.
- Três – disse baixinho.
Ryori viu que havia atingido dois gatos, ele olhou para trás e viu que tinha um gato preto atrás dele. O ruivo virou-se rapidamente e começou a atirar, destruindo metade da sala do loiro, mas conseguiu dar três tiros no gato que se contorcia no chão, Ryori se aproximou e deu um tiro na sua cabeça, fazendo o sangue do felino espirrar pelo chão.
- Você é louco de ir sozinho lá e ainda trás esses bichos para sua casa?
- Eles são vítimas! – gritou Shibushi.
- Não tinha mais nenhum? – indagou.
- Não que eu saiba!
- Ah, pelos céus, com certeza tinha mais gatos. Eles não são amistosos, Shibushi – disse Ryori – eles ficam na nossa forma quando vão atacar!
- Eu sei, um deles ficou na forma humana, mas depois voltou ao normal. Eles queria que eu...
- Queriam que você fosse no laboratório ver a fita de como eles foram feitos, para sentir dó deles e os trazerem para sua casa? – indagou, interrompendo o loiro.
- Isso – disse Shibushi, achando muito estranho Ryori saber de todos os detalhes – como sabe?
- Oras, Ruk me contou sobre eles. Eles foram criados para serem soldados, mas não obedeciam mais as ordens superiores e começaram a matar. Eles foram mortos, alguns se esconderam, mas eles não saem do laboratório, pois sabem que serão descobertos.
- Então por que eles me seguiram? Eles querem ajuda, Nako!
- Não, eles querem alimentar-se de você – disse.
- Não me morderam – comentou Shibushi – e nem você.
O ruivo abaixou suas armas, olhando com atenção a sala. O ruivo sabia com o que estava lidando e tinha receio que outros felinos pudessem ter seguido Shibushi.
- O que você viu na fita?
- Quatro gatos – disse, irritado.
- Ok, você não acha estranho entrar no laboratório secreto, com tudo funcionando e ver uma fita que fala especificamente sobre os mesmos gatos que estavam com você?
- O que tem? – indagou Shibushi, sentindo-se inseguro.
- Você acha que eles não pensam? Eles viram você se aproximando, desde o momento que você me mandou o e-mail, eles devem ter interceptado, depois o levaram até lá, agora o mistério é saber como você ainda está vivo! – disse.
- Eu não sei – disse baixinho, baixando a cabeça.
- Hei, espera. Você disse que eram quatro gatos na fita?
- Sim, por que?
- Cadê o outro gato? – indagou – quantos gatos você trouxe?
- Três, eu só vi três – disse – acho que o outro morreu.
- Não, eu acho que não – comentou – ele deve estar escondido.
- Ah, o que eles iam fazer? Devorar-me? – indagou, provocante.
- Sim, quando o sol nascesse eles iam tomar a forma de gente e comer você literalmente se é isso que quer saber. Com certeza eles marcaram você com alguma coisa – disse – mijaram em você?
- Não – disse, contrariado.
- Passaram o corpo no seu?
- Er... O gato preto passou – disse, lembrando-se que o gato preto passou no meio das suas pernas.
- Por que ele te marcaria sendo que você está ao lado dele?
- Sei lá, Nako. Pára com essas perguntas ridículas e me conta logo – disse irritado.
- Porque tem outros gatos, idiota. E seu cheiro está naquele galpão e o cheiro deles está em você. Com certeza têm outros.
Shibushi sentou-se numa poltrona que ficava na sala e olhou para os gatos mortos, vendo que seus olhos estavam arregalados e tinha um brilho apagado. O loiro ficou pensativo, pensando em tudo que viu.
- Ruk também é uma experiência com animal?
- Não, ele não é – disse – por que?
- Ele partiu após descobrir algo com Xyen. Eu menti para você – comentou.
- O que ele descobriu? – indagou, curioso.
- Não faço a mínima idéia. Ele não me contou. Ajude-me, Nako. Eu estou perdido – disse, baixando a cabeça.
Ryori aproximou-se do loiro, abaixando-se ao seu lado, tocando no seu rosto. Ele viu fios de lágrimas correndo por seu rosto.
- Ruk deve ter ido resolver alguns problemas do seu passado, mas acho que logo voltará – disse – existe muita coisa suja que nem mesmo eu sei. Dê um tempo a ele. Ele já sumiu uma vez por esse motivo e voltou.
- Mas ele não ficou tanto tempo afastado – comentou.
- Ficou sim, mas você não lembra. Eu vou tentar achá-lo para você – disse.
- Obrigado, Nako – disse, aliviado.
- E você vai dormir na minha casa hoje, não vou deixá-lo aqui depois do que você aprontou.
- Ninguém sabe desse horror de experiências?
- Não, só o governo e uma polícia especializada. Eles não vão divulgar essas coisas, pois seria um escândalo e a população ficaria com medo – disse.
- Isso é injusto – comentou, secando algumas lágrimas.
- Muitas coisas são. Mas Pratania ainda é um continente decente, diferentemente dos outros onde fazem experiências aos montes e não tem nenhuma fiscalização do governo – comentou – existem coisas que são feitas que nem eu mesmo tenho coragem de ver.
- Muitas coisas? – indagou Shibushi.
- Milhares, Shibushi.
O ruivo levou Shibushi até seu quarto, olhando atenciosamente todos os cômodos. Ele instruiu o loiro de fazer uma mala, enquanto ele ligava para um dos seus capangas.
- Um dos meus homens vai te levar até minha casa, a chave está com o porteiro e eu já lhe dei instruções. Quando chegar tranque tudo e não abra a porta para ninguém, nem para mim, pois eu tenho chave – disse.
- E por que você não vai me levar? – indagou sem entender.
- Porque tenho coisas a fazer – disse.
Os dois saíram da casa. Ryori ficou esperando seu empregado, até que viu um homem numa Van preta. Shibushi aproximou-se e sentou-se no carro, encarando um jovem rapaz bem descolado e cheio de tatuagens, era um dos homens de confiança de Ryori.
- Leve-o direto para lá – o ruivo ordenou.
- Pode deixar comigo, Nako – disse o homem, pisando no acelerador, saindo dali.
Ryori respirou bem fundo e depois voltou para a cada de Shibushi, ficando sentado na cadeira da sala, olhando para o ambiente ao seu redor com muita atenção. Ele ficou horas naquela posição, segurando suas duas armas com firmeza.
O silêncio era arrasador, Ryori controlava sua respiração para que não o atrapalhasse, até que finalmente viu uma sombra passar pela parede da cozinha. O ruivo continuou sentado até que notou um par de olhos dourados perto do teto.
- Finalmente chegou – comentou Ryori, exibindo um olhar tão assassino quanto o do gato.
O gato da cor bege estava andando pelo teto, ficando de cabeça para baixo. Ele abriu a boca, exibindo seus caninos afiados, deixando um hálito de carne podre invadir a sala.
- “E depois ele fica bravo comigo por matar inocentes gatinhos” – pensou Ryori ao sentir o cheiro que vinha do estômago do gato.
Ryori notou que o inocente gatinho estava mudando sua forma, mas ele não era idiota a ponto de esperar que ele mudasse para uma forma onde ficaria com os cinco sentido aguçado. Ele tratou de atirar no gato que tentou se esquivar, mas acabou caindo morto no chão. Ryori tratou de dar um tiro a mais na sua cabeça, para certificar-se que aquele monstro havia morrido.
- “Será que tem mais?” – pensou – “essa pragas se multiplicam. Nunca vou esquecer a última vez que vieram atrás de mim”.
O ruivo voltou a se sentar na cadeira e ficou o resto da madrugada naquela sala, sem dormir, tentando ver se encontrava outro felino. Felizmente nenhum felino apareceu, tranqüilizando o ruivo.
Na manhã do mesmo dia, Ryori deixou o apartamento pedindo para algumas pessoas irem limpá-lo. Depois ligou para alguns contatos e avisou sobre o laboratório, Ryori estava com a caixa de metal nas mãos, vendo que não havia nada dentro.
O ruivo estava indo para casa, mas antes passou na clínica vendo que Yuy estava dormindo e não mostrava sinais que acordaria tão cedo.
Quando chegou no seu apartamento, sentiu um cheiro forte de café. Ele caminhou até a cozinha, deixando seu casaco em cima do sofá. Ryori encostou-se no batente da porta, encontrando Shibushi lavando a louça.
- Essa casa estava um nojo – comentou com um sorriso no rosto.
- Nossa. Você limpou tudo? – indagou, surpreso.
- Não conseguia dormir, então dei um jeito na bagunça e acabei limpando aquela varanda também. Mandei suas roupas e as de Yuy para a lavanderia, pedi para alguém dos seus contatos fazer compras no mercado e contratei uma empregada da minha confiança para vim aqui no final de semana – disse.
- Deu um jeito em tudo – disse, olhando para o forno, sentindo um cheiro gostoso – o que tem ali?
- Pão assado e um bolo – disse – e o doutor Micare ligou dizendo que Yuy vai receber alta hoje. Acho melhor trazê-lo para casa. Eu já troquei os lençóis e as fronhas, acho que ele tem que ficar num ambiente limpo. Estou fazendo alguns chás e colocando na geladeira, eu acho que medicina alternativa ajuda muito!
O ruivo nem estava dando muita atenção ao que Shibushi falava, pois seu estômago estava começando a roncar ao sentir aquele cheiro maravilhoso. Entretanto reconhecia o que Shibushi fazia e agradecia.
Ryori sentou-se na cadeira, encostando a cabeça na mesa. Ele estava cansado, mas também fazia muito tempo que não comia algo decente. Ele ficou olhando para Shibushi como se fosse um cão sem dono.
- E como foi lá? – indagou Ryori, colocando uma sacola de pães em cima da mesa.
- Apareceu mais um daqueles monstros – disse – eu sabia que ia vim mais um, eles sempre agem assim. E não tinha nada na caixa, eles só fazem mistérios. Houve um problema na lavagem cerebral deles, pelo que eu soube. Eles ficaram com a mentalidade de uma criança de oito anos, mais instintos felinos e pouco humanos. Não se sabe como vão agir – disse – mas já cuidei do laboratório, vão explodi-lo hoje mesmo.
- Explodir?
- Sim, cansei de ficar cuidado dos restos dos outros. Vou acabar com os doze laboratórios abandonados, vou fechar os quatro que ainda estão em ativa, apagar os dados e matar os cientistas. Aliás, já dei minhas ordens. – disse – e também pedi para rastrearem Xyen, suka e Ruk, logo saberemos sobre eles.
- Está fazendo a limpeza mesmo – comentou.
- Eu fiquei muito acomodado, nunca pensei que aqueles laboratórios iam me incomodar, mas estou vendo que vacilei. Irei mandar uma carta ao prefeito para construir alguma coisa cultural nas áreas que vou limpar.
- Nako, você está pensando nas pessoas? Céus, isso é uma surpresa. Estou feliz com isso – disse animado.
- E quando fica pronto esse bolo? – indagou.
- Daqui uns vinte minutos, vá tomar um banho e logo poderá comê-lo.
- Eu vou mesmo – disse, saindo da cozinha, mas antes de uma olhada no loiro, admirando-o em silêncio.
Shibushi ficou cuidando das coisas, arrumando as compras nos armários e dando um jeito na cozinha. Alguns chás medicinais foram preparados e outros que não podiam deixar guardados, Shibushi escreveu a receita num caderno e deixou em cima do balcão de inox, para caso Ryori queria preparar para Yuy.
Vinte minutos mais tarde Ryori saiu do banho, usando apenas um short preto, ele foi correndo até a cozinha ao sentir o cheiro do bolo. Ele viu que era um bolo de cenoura com calda de chocolate, e um pão caseiro. Ele empurrou o loiro para um lado e cortou um pedaço enorme de bolo, pegou um pouco de pão, queijo e leite e sentou-se.
Shibushi sentou-se ao lado de Ryori, vendo-o comer como se fosse um macaco, ele não tinha modo e colocava tudo para dentro.
- Nako, por que não come primeiro o bolo – sugeriu.
O ruivo começou a comer o bolo primeiro, deixando o pão e o leite de lado. Depois que comeu o bolo, ouviu o loiro sugerir que tomasse alguns goles de leite e mordesse o pão calmamente.
Minutos mais tarde o celular de Ryori tocou, fazendo o ruivo parar de comer para atender. Ele disse algumas coisas e depois desligou.
- Informações sobre o Ruk? – indagou Shibushi.
- Não – disse, voltando a comer – o que você vai fazer de almoço?
- Não sei, eu acho melhor você ir buscar Yuy – disse.
- Eu já vou, fica aqui cuidado dele. Eu preciso resolver alguns assuntos.
- Eu? Do Yuy? Ele não vai gostar – disse.
- Ele te adora – disse, exibindo um sorriso.
- Ele sabe que você ficou na minha casa?
- Sim, e disse que te beijei – comentou, dando uma mordida no pão.
- Como assim ele sabe? – indagou exasperado – você disse que eu não fiz nada, não é? Agora aquela criança vai ficar me maltratando.
- Ele não vai – disse, voltando a atender seu celular, pelo jeito ia ter um dia cheio – eu vou buscá-lo daqui duas horas, vou deixas instruções ao doutor Micare para não deixá-lo sair. Vou dormir um pouco, me acorda daqui duas horas – disse, saindo da cozinha.
O loiro ficou sozinho na cozinha, incomodado com a situação. Com certeza não ia ser bem tratado por Yuy. Ele suspirou e começou a comer seu bolo, aliás, o restante do seu bolo, pois Ryori comeu mais da metade.
- “Ruk, onde você está?” – pensou, entristecido.
Duas horas passaram-se, Ryori acordou sozinho e saiu do quarto vestindo uma calça jeans clara, um par de botas e uma camiseta preta. Ele pegou seu casaco que estava em cima do sofá da sala. Suas armas foram colocadas na cintura e depois colocou duas facas escondidas na sua bota.
- Vai para guerra? – indagou Shibushi, que estava deitado no sofá, lendo uma revista.
- Eu irei trazer Yuy, cuide bem dele – disse, saindo do apartamento.
- Estou super ansioso – disse baixinho para si mesmo.
Trinta minutos depois Yuy apareceu no apartamento acompanhado de uma enfermeira de longos cabelos ruivos. Shibushi encarou o moreno que apenas o olhou com fúria.
- O que faz aqui? – indagou Yuy.
- Nako, não te contou que eu estava aqui?
- Não, ele nem falou comigo – disse – eu vou embora daqui!
- E vai me deixar sozinho com ele? – indagou Shibushi, provocante.
- E você não tem namorado? – indagou, sentando-se no sofá da frente, encarando o loiro.
- Ele me deixou – disse, com um semblante entristecido.
- Ah, e por que? – indagou Yuy, deixando sua arrogância de lado.
- Yuy, eu não fui atrás de Nako. Só estou aqui, pois Nako não quer me ver sozinho naquela casa enquanto procura Ruk para mim. Não aconteceu nada entre nós nesses últimos anos. Você sabe disso – disse – pára de arranjar motivo para brigas. Que coisa chata. E pare para pensar se perdoa Nako pela morte do seu pai de uma vez.
- Ah, isso não é da sua conta.
- É sim, eu sempre tenho que ficar ouvindo tudo o que acontece entre vocês dois. Nako é ciumento, egoísta, metido, briguento, mau humorado, irritado, mas você decidiu ficar com ele. Acho melhor pensar se é isso o que você quer, ou então vão brigar sempre – disse sem pausas, colocando tudo o que pensava para fora.
- E o que você sente por ele? – indagou Yuy, cruzando os braços.
- Amor fraternal, amizade e às vezes desejo sexual – revelou – mas não o amo, e não quero ficar com ele. Eu amo Ruk e só a ele. Acho que deveria saber isso, mas você não quer saber a verdade, você quer imaginar que eu quero ficar com Nako e vice-versa, para sempre ter uma desculpa que não é amado como quer, uma desculpa para ficar jogando na cara de Nako quando brigam para que ele fique amuado e lhe de razão. Isso é manipulação Yuy! – concluiu, alterando seu tom de voz.
- Eu... Eu não o manipulo! – disse, contrariado – eu só me sinto inseguro quando Ryori some, pois ele sempre está com você quando está triste. Ele nunca me procura!
- Eu sou amigo dele, tem coisas que ele me conta para desabafar. Agora tem coisas Yuy, que ele diz apenas para você, porque te ama e quer ficar com você. Todos temos que desabafar com alguém – disse.
- Agora eu sou o monstro – disse Yuy, rindo baixinho.
- Esse é o problema, ficar procurando quem é o culpado. Não existe isso, você fica jogando a culpa em você ou em Ryori. O passado se foi, apenas as lembranças o revivem. Não é para deixar de pensar no passado, mas tente não ficar remoendo-o sempre.
Yuy ficou em silêncio, ele concordava com Shibushi em algumas coisas, mas o motivo de ter se separado de Ryori foi pelo fato do ruivo parar de lhe dar atenção, parar de dormir em casa e acabar com sua chance de arranjar um emprego decente.
- Ryori cansa depois de um tempo – comentou.
- Eu não tiro sua razão – disse – você é a única pessoa que pode ficar com ele, acho que esse negócio de almas gêmeas existe. E vocês se encontraram.
Yuy sorriu contente com o comentário do loiro e viu que a situação não ia correr bem caso pensasse em culpar Ryori por seus pesadelos. E também sabia que precisava deixar de ser menos revoltado e agradá-lo.
- Acho que vou acabar trabalhando com Ryori – comentou – vou pedir um emprego para ele.
Shibushi arregalou os olhos e depois fez um “não” com a cabeça.
- Mais um líder para o tráfico. Que família – comentou.
- Até parece, não consigo agir como Ryori – comentou.
Os dois ficaram conversando o resto da noite. Yuy tossiu um pouco e ficou meio febril, mas Shibushi cuidou direitinho do garoto e depois começou a fazer um jantar. Para Yuy ele estava fazendo uma sopa de abóbora e para ele, estava fazendo macarronada, pois era fácil e rápido.
- Eu vou comprar um frango na padaria – comentou – eu já venho, Yuy.
- Eu vou com você – disse.
- Não, você não pode tomar friagem – disse – e se Nako voltar, vai ficar furioso comigo.
Yuy cruzou os braços, contrariado, ele não agüentava mais ficar preso em lugares. Ficou preso na varanda, na clínica e agora estava preso na sua própria casa.
O moreno jogou-se na cadeira da cozinha, arrumando seu roupão de algodão, fechando-o e dando um laço. Ele ficou olhando para a cozinha que estava limpa, vendo que apenas Shibushi para fazer aquilo.
- “Talvez eu devesse arrumar as coisas por aqui, eu estou tratando esse lugar como uma casa temporária e nunca limpo nada. Eu sinto como se não pertencesse a esse lugar, mas no final, é para cá que eu sempre volto” – pensou.
Ele levantou-se pegou o caderno de receitas que estava em cima do balcão. Ele começou a ler as receitas de Shibushi.
- “Acho que eu preciso ocupar mais meu tempo” – pensou – “talvez fazer uma faculdade. Afinal, eu sempre disse para o meu pai que seria alguma coisa”.
Yuy ficou olhando para o nada, ele foi até a sala com o caderno de receitas na mão, jogando-se no sofá. Ele olhou para a varanda da sala vendo um gato branco, com algumas manchas pretas do lado de fora.
- Um gato! – assustou-se – deve ser do Shibushi! Que maldade deixá-lo lá fora.
O moreno começou a caminhar até a janela da varanda, mas antes que abrisse a porta o telefone tocou. Ele caminhou até o aparelho, atendendo-o.
- Alô! Quem fala?
- Yuy? Sou eu Atsu. Graças a Deus você atendeu. Como você está?
- Ah, eu fiquei doente. Estou bem agora – disse.
- O que aconteceu?
- Eu... Er... Fiquei com pneumonia – disse, suando frio.
- Mas já está bem?
- Sim, não se preocupe. Sábado nos falamos, pois eu vou dar uma passada aí no barzinho para te visitar.
- Ah, que bom. Eu vou desligar, pois minha mãe está me enchendo o saco. Até mais!
- Até!
Yuy desligou o aparelho e achou melhor ligar para Rebeca também. Ele discou o número, mas ninguém atendeu.
- “Deve estar na faculdade” – pensou – “afinal, ainda é cedo. Ou então ela está no serviço. Não sei”.
O moreno foi até seu aparelho celular que estava em cima da mesa da sala e enviou uma mensagem para a garota, dizendo que estava tudo bem e contando o que aconteceu, apenas omitindo que ficou preso durante dois dias na varanda da sala.
Yuy ouviu um barulho vindo da varanda, ele se aproximou vendo marcas de unhas do gato.
- Nossa que gatinho bravo, olha as marcas que ele deixou – falou consigo mesmo, vendo que o gato havia marcado aquele vidro que era muito resistente.
Um par de olhos dourados estava encarando Yuy, o gato abriu sua boca exibindo seus caninos afiados. Yuy fez a menção de abrir a porta, mas um toque no seu celular lhe chamou a atenção. Ele foi até o aparelho, vendo que era uma mensagem de Rebeca.
“Graças ao que é sagrado você está bem. Eu vou te visitar quando sair do serviço. Fique em casa”.
- “Eu acho melhor você não vim aqui, Ryori vai ficar irritado” - pensou, respondendo a mensagem, dizendo que ia visitá-la no final de semana.
O moreno ficou olhando para o seu aparelho celular e voltou à atenção para o gato que agora estava em cima da grade da varanda. Yuy ficou abobado com o equilíbrio do gato. Ele foi se aproximando do vidro, vendo que havia uma etiqueta na pata traseira do gato.
- Acho que você já tem dono. Afinal, por que Shibushi ia ter um gato se já tem o Nero, apesar dele estar num spa para cachorros nesses dias? – falou consigo mesmo.
Yuy levantou a tranca da janela e começou a abrir a janela, mas ele fechou-a rapidamente, assustando-se com a velocidade do gato, que desceu e correu na sua direção.
- Hum, que estranho – comentou-se, sentando-se no chão, colocando a mão no vidro.
O moreno ficou olhando com atenção para o gato e achou estranho a sua forma. Ele tinha um focinho maior e quadrado e seus olhos eram grande demais para pertencerem a um gato comum. Yuy estreitou o olhar tentando ler o que estava escrito na etiqueta da pata.
- Oitenta... e seis, Z! hum, acho que é isso. Tem mais alguma coisa, vejamos, Raí... Raiz... Não, zen... raí...Zen. Raizen?
Yuy ficou em silêncio tentando entender o que significava aquelas informações.
- Ah, você chama-se Raizen então! Que nome de mau gosto, com certeza esse gato não é do Shibushi. Ele nunca daria esse nome – sorriu.
Yuy virou-se ao ouvir o som da porta se abrindo, ele sorriu para Shibushi que entrou carregando uma sacola de compras. No final ele havia comprado mais coisas do que disse. O moreno levantou-se, indo ajudá-lo.
- Obrigado – agradeceu Shibushi, observando que Yuy estava ficando cada vez mais forte e que estava mais alto que ele.
Shibushi olhou para o lado vendo um par de olhos dourados lhe encararem do lado de fora da sala. O loiro soltou um grito, chamando a atenção de Yuy que correu até a sala.
- Yuy, como ele apareceu ali?
- Eu não sei. Eu ia deixá-lo entrar, mas achei melhor não. Esse gato é muito estranho – disse.
- Isso não é um gato! – gritou – tranca tudo Yuy, tranca.
- Mas por que?
- TRANCA!
O moreno saiu correndo, procurando saber se tinha alguma janela aberta, mas apenas a janelinha do banheiro estava aberta. Quando Yuy foi fechar, ele percebeu que havia outro par de olhos dourados lhe encarando atrás do vidro. Tinha um gato marrom pendurado na janela. Yuy assustou-se e a fechou, travando-a.
Quando apareceu na sala, viu que Shibushi estava no telefone.
- Eles estão aqui, Nako – disse.
- Tranquem tudo. Eu já estou indo para aí.
Shibushi desligou o aparelho e encarou Yuy que parecia estar assustado. O loiro sentou-se no sofá, sentindo sua respiração se acalmar. Yuy fez o mesmo.
- O que são esses gatos? Tinha um no banheiro.
- TEM UM NO BANHEIRO?
- Não, calma. Está pendurado na janela – disse – como ele conseguiu subir ali? Digo, não tem nenhum apoio na parede, só se ele for o gato-aranha.
- Vou te contar... – disse Shibushi, começando a contar toda a história, que Yuy ouvia de boca aberta.
Depois de contar tudo o que aconteceu, Yuy começou a ficar com medo, desejando que Ryori chegasse logo e desse um fim nesses gatos.
Os dois estavam tentando almoçar, quando ouviram duas batidas na porta. Yuy correu até lá, mas antes de abrir ele olhou para a câmera vendo que não havia ninguém no corredor. Então ele interfonou para o porteiro, mas ninguém atendeu, apenas ouviu um ruído.
- Não abre – disse Shibushi – Nako tem chave e se precisar ele liga no celular.
- Essa porta é a prova de balas, mas será que é a prova de gatos-aranha?
- Não sei, Nako os matou rapidinho. Acho que eles só são nocivos a pessoas como nós. Não são tão poderosos – comentou.
Yuy ficou olhando para a câmera até que viu um gato preto passando pelo corredor, somando aos outros dois esse era o terceiro gato. O moreno pegou seu celular e ligou para o ruivo.
- Shibushi?
- Não.
- Yuy... como você está? – indagou o ruivo.
- Não vem para cá.
- Depois discutimos, não saia daí – disse o ruivo, mostrando-se preocupado.
- Tem três gatos-aranha aqui. Tem um no corredor e acho que talvez tenha outro no elevador. Não venha para cá sozinho – disse.
- Gatos-aranha?
- É, os nomeei com esse nome.
- Está preocupado comigo?
- Eu... – Yuy pensou um pouco antes de falar – claro que eu estou.
O moreno sentou-se no chão da sala, encostando-se a porta. Shibushi sorriu e saiu da sala, indo fazer qualquer coisa na cozinha.
- Como está se sentindo?
- Estou com medo do gato-aranha.
- Não, estou falando da sua saúde.
- Melhor, só estou com um pouco de dor de cabeça e febril. Mas Ryori, não venha sozinho.
- Eu não irei se isso te preocupa. Vou chamar dois homens meu.
- Prometa que não virá sozinho.
- Eu já disse que não irei. Vou ter que desligar agora.
- Ta...
Os dois ficaram em silêncio, até Yuy ouvir um sussurro baixinho do ruivo: “te amo”.
O moreno engatinhou até o sofá da sala e ficou olhando atentamente para o gato que estava deitado na varanda. Ele nem notou que havia dois gatos naquele momento, mas quando deu conta chamou Shibushi.
- Eu acho que sei o que está acontecendo – disse Shibushi – Ryori quis dar a “limpa” na cidade. Ele explodiu os laboratórios e se livrou dos cientistas. Esses gatos viviam no laboratório e não tem para onde ir.
- Entendi, mas por que estão aqui?
- Estão seguindo o meu cheiro. Lembra do que te falei? Acho que seguiram Nako também, quem sabe. Nako disse que eles são inteligentes.
- Hum, estão eles podem estar nas casas de várias pessoas!
- Sim, isso é o mais perigoso.
Os dois se olharam e Yuy voltou a ligar para o ruivo.
- O que foi?
- Pode ter gatos em outras casas?
- Certamente que sim.
- E o que você vai fazer?
- Já comuniquei os responsáveis. A mídia vai divulgar que existem gatos doentes espalhados e que as pessoas devem se afastar e ligar para a polícia. Mas na verdade vão matá-los. Se ligarem a televisão vão ver as reportagens.
- Ah, ok. Tchau.
Yuy desligou o telefone e ligou a televisão, vendo em que todos os canais havia informações sobre os pobres gatos doentes que deveriam voltar para o laboratório para serem cuidados com atenção.
- Nenhuma reportagem dizendo sobre eles virarem homens? – indagou Shibushi.
- Acho que o governo não permitiria. Ia ter que mostrar que ele foi subornado por cientistas loucos e homens de poder. Nunca fariam isso – comentou.
- Tem razão.
- Quantos deles têm aqui? – indagou Yuy.
- Acho que uns cinco ou seis.
- Eles são muito feios?
- São e fede a carne podre.
- Por que fede carne podre? – indagou, sem entender.
- Abre a porta e deixa um deles abrir a boca para você ver. Aliás, encoste o nariz ali embaixo da porta que você vai sentir – disse.
- Sai fora. Eu não – disse, arrepiando-se só de pensar em ficar perto daquela criatura.
Os dois ficaram assistindo televisão, quando finalmente receberam um telefone de Ryori dizendo que ele estava subindo. Yuy desligou a televisão e foi até o quarto, pegando um revolver que Ryori guardava no armário.
- Você sabe usar isso? – indagou Shibushi.
- Ryori fez questão de me ensinar.
O moreno foi até a sala e deu um taco de metal para Shibushi segurar. Eles ficaram num canto da sala, olhando os dois gatos que estavam na varanda, percebendo que eles estavam mais agitados.
O som de tiros foi ouvido, os dois olharam para a porta que foi aberta, nela entrou Ryori, que chutou um gato morto fazendo-o deslizar pelo chão da sala. O ruivo apenas observou os dois e depois dirigiu seu olhar a varanda, olhando os três gatos que estavam ali, mostrando-se irritados.
O ruivo foi até a varanda abrindo-a, sendo atacado pelos gatos que pularam no seu pescoço. O outro correu na direção de Yuy que acabou dando um tiro no seu estômago, fazendo-o cair no chão. Ryori já havia matado os outros dois e tratou de dar um tiro na cabeça do gato que Yuy derrubou.
- Você disse que não ia vim sozinho – disse Yuy.
- E eu não vim. Tinha vários gatos lá embaixo – disse- o porteiro não resistiu.
- Não? Coitado! – comentou Yuy, entristecido. Ele ajoelhou-se no chão, sentindo-se arrasado com a notícia. Pois odiava ver gente inocente se machucando.
Shibushi ficou olhando para Yuy que estava ajoelhado no chão, mas sua visão logo se desviou para porta, quando encontrou a face suada de Ruk, seu querido namorado, que estava encostado no batente da porta, olhando-o.
Yuy olhou na direção de Shibushi e viu que Ruk estava no apartamento. O moreno sorriu de canto e depois olhou para Ryori que não tirava os olhos dele. O ruivo caminhou até Yuy, passando reto por Shibushi, levantando o moreno do chão com displicência e depois o arrastando para fora da sala.
O moreno olhou para trás por um instante vendo que apareceu mais um homem na sala, mas não conseguiu ver quem era direito, pois Ryori o arrastava pelo apartamento, olhando atentamente cada cômodo.
- Por que está me arrastando? – indagou Yuy.
- Porque pode ter mais felinos b aqui – disse.
- Os gatos-aranha? Mas o Ruk está na sala, eu vou ficar bem – disse, contrariado.
- Eu protejo você – disse, entrando no quarto e indo até a suíte, olhando com atenção todos os cantos. Ryori viu que havia marcas de unhas nos vidros – Tem um por aqui.
- Não tem não, era o que estava na varanda – disse.
- Você já o tinha visto?
- Ah, sim. Eu vim fechar a janela e ele estava aí me olhando.
- Que espertos...
- Eu achei eles bem burrinhos para falar a verdade – comentou – eles vão invadir a cidade sabendo que vão caçá-los. E nem são fortes, eu que sou um lerdo matei um.
Ryori encarou o moreno com atenção, ouvindo todo aquele falatório. De certa forma Yuy tinha razão, mas ele dizia isso porque nunca havia visto um na forma de um homem. Não era fácil matá-lo daquele jeito.
- Vou à sala – disse Yuy, afastando-se. Ele ainda sentia-se estranho perto de Ryori. Talvez estivesse com medo do ruivo.
Ryori o observou se afastar e finalmente baixou sua arma, respirando tranqüilamente. Ele sabia que era culpado por essa bagunça pelo fato de ter explodido os laboratórios espalhados pela cidade, mas se não fizesse isso, talvez a situação fosse irreversível no futuro.
O aparelho celular de Ryori tocou, o ruivo atendeu e logo passou algumas informações e ordens. Pediu para uma equipe de limpeza especial limpasse todos os rastros da experiência, sem contar outras experiências que foram realizadas e estavam inacabadas. Ryori ordenou que caçasse os outros cientistas e empregados nas experiências para informarem sobre outras possíveis experiências e laboratórios que estavam em Rondon.
Não era uma tarefa fácil e não seria corrigida de um dia para o outro, mas era Ryori que estava comandando tudo e não um homem do governo que era facilmente subornado, fazendo com que nada se cumprisse. O ruivo não podia ser comandado, subornado e nem derrotado no seu território e seus fiéis homens jamais iam desobedecer a uma ordem, e traidores não sobreviviam muito.
Ryori saiu do banheiro tranqüilamente, olhando para o ambiente ao redor, vendo como estava escuro. O ruivo aspirou o ar a sua volta, fazendo com que seus pêlos arrepiam-se ao sentir um cheiro de carne podre. Num movimento abrupto, o ruivo virou-se para o lado e fixou seu olhar num canto do quarto.
Um par de olhos dourados apareceu na escuridão do quarto, Ryori notou que a altura dos olhos estava na altura dos seus. Não havia dúvida, o felino estava na forma de um homem. Ele jamais piscava e o cheiro horrível de carne podre estava invadindo as narinas de Ryori. O ruivo fechou sua mão com força na arma, sentindo seu sangue ferver por um instante, para logo depois ficar totalmente gelado. Ryori se concentrava, se aquela criatura o atacasse seria seu fim.
A cortina do quarto abriu-se com o vendo, permitindo que a luz da tarde adentrasse no quarto, Ryori pode ver de relance a face animal daquele mutante. Sua boca estava vermelha, possivelmente havia matado alguém até chegar ao apartamento.
- “Nem todos os felinos b conseguem a forma de homem. Mas os que conseguem são fatais” – pensou – “esse deve ser muito evoluído. Estava no apartamento antes de eu chegar, com certeza. Por que será que não os atacou?”.
O clima estava tenso, Ryori sabia que se apontasse a arma para o felino, ele ia sumir e atacá-lo de forma feroz. Apenas tinha que esperar o momento certo para agir. O quarto ficou silêncioso, apenas as duas respirações ecoavam pelo quarto, uma mais rápida que a outra. Eram dois felinos que iam disputar a sobrevivência.
- “É agora...” – pensou Ryori, relaxando o músculo do seu braço, preparando-o para atirar para todos os lados.
O ruivo respirou mais fundo, preparando-se para agir e quando foi erguer sua arma, a porta do quarto se abriu fazendo o felino mover-se para o teto.
- Ora, ora, ora! Ryori!
Ryori olhou para o homem que havia entrado no quarto reconhecendo aquela face animada. O ruivo irritou-se com a intromissão, mas não teve tempo para dizer nada, pois quando viu, o par de olhos dourados estava acima da sua cabeça e antes que pudesse atirar, Ryori caiu no chão com aquela criatura em cima dele, prendendo seus braços e abrindo sua boca para mordê-lo.
O cheiro podre daquela criatura estava deixando Ryori desnorteado, mas não ficou assim por muito tempo. O felino foi arrancado de cima de Ryori, fazendo o ruivo sentar-se rapidamente, tossindo.
- Quebrou a unha, ruivo safado? – indagou Xyen, jogando a criatura contra a parede para depois acertá-la com um tiro preciso na cabeça.
Ryori levantou-se rapidamente encarando um sorriso divertido no rosto daquele homem tão egocêntrico. Os dois ficaram se olhando, Ryori notou que Xyen estava diferente, ele estava com os cabelos curtos, permitindo apenas que a franja ficasse maior, cobrindo metade dos seus olhos.
- Não precisava da sua ajuda – murmurou Ryori, apontando sua arma para o rapaz, que apenas pôs as mãos na cintura exibindo um sorriso ainda mais provocante.
- Parece que sua vida não anda muito boa – comentou – quase matou seu namorado, causa um problema desses na cidade. Você não acha que foi negligente demais? Não era necessário acabar com todos os focos de concentração de felinos b-zxae dessa maneira – completou, exibindo uma feição séria e fria.
O ruivo não esperou mais nenhum comentário, ele apertou o gatilho disparando na direção de Xyen que apenas desviou-se da bala e apareceu atrás do ruivo.
- Não consegue dialogar? – indagou, sussurrante.
- Não – disse, virando-se de costas velozmente desferindo um soco que pegou de raspão no rosto de Xyen.
- Ryori, creio que você seja diferente dos humanos. Por que é tão rápido, e sempre sabe o que fazer? – indagou – por acaso você não é uma aberração também?
O ruivo ficou em silêncio por muito tempo, deixando Xyen cada vez mais desconfiado. E de repente, não mais que de repente, os olhos azuis de Xyen criaram um brilho misterioso fazendo com que seu sorriso alargasse.
- Você continua gostoso, Ryori. Como aquele felino tinha bom gosto – disse, mostrando sua outra personalidade.
- Eu não caio nesse seu joguinho. Fale sério comigo – vociferou Ryori.
- Ah? Joguinho? Hum, eu disse a verdade meu Deus da beleza, apenas a verdade.
- Hum, o que quis dizer com aberração?
- Nada meu chocolate ao leite. Eu apenas acho ótima sua performance. Nossa, imagina você na cama! – exclamou, com um sorriso maior ainda.
Ryori estava pronto para atirar novamente naquele esquizofrênico, mas não teve tempo, pois a luz do quarto foi ascendida. Yuy adentrou no quarto e viu que Ryori apontava sua arma para Xyen.
- Ryori, o que você está fazendo? – indagou Yuy.
- Apenas eliminando a sujeira – disse.
- Ah, ele quis dizer tentando, Yuy. Pois se eu não chegasse a tempo, ele ia ser sujeirinha daquele bichinho lindo ali! – disse, apontando para o felino em forma de homem que estava morto no chão.
- Nossa! – exclamou Yuy, aproximando-se da fera, observando seus traços, entretanto Yuy logo ficou enjoado, pois aquela criatura fedia muito.
- Quando eu entrei, esse felino b estava tentando fazer a festa com o ruivinho, mas eu não o culpo – comentou – eu faria o mesmo!
- Obrigado Xyen, você é o melhor – disse Yuy, exibindo um sorriso de agradecimento.
- O que? – indagou Ryori, indignado com aquela situação – eu podia muito bem ter me virado sozinho!
- Ah, Ryori. Agradeça, não dói tanto – comentou Yuy, contrariado. Ainda estava saturado da prepotência de Ryori.
Xyen andou até Yuy, com os braços dobrados na cintura. Ele caminhava num passo meio dançante e sua cabeça pendia para um lado e para o outro. Ele tocou no ombro de Yuy e começou a balançá-lo, enquanto cantava uma melodia.
“E com o sabor da tequila que corre por meu sangue eu grito para você... cale sua língua com uma mordida de moral que eu lhe sussurro o segredo da pandora, la... la... la”.
Yuy ficou tentando decifrar de quem era aquela melodia, mas não conseguiu.
- De quem é essa música?
- Minha – disse Xyen, orgulhoso – eu estou montando uma banda de rock!
- Sério? – indagou, achando muito estranho.
- Sim, nós na fizemos uma primeira apresentação num barzinho – disse – você vai me ver um dia desses?
- Er... sim. Onde você toca? – indagou.
- Brincamasca – disse – estou vivendo lá agora.
- Por que tão longe? – indagou Yuy.
- Porque eu queria me afastar um pouco de Pratania, esse lugar me enjoa – comentou, parecendo triste.
O ruivo observava os dois conversando tranqüilamente, sentindo raiva de Yuy, de como ele sorria e conversava com Xyen. Observando Yuy desse modo, Ryori começou a sentir o charme com que Yuy falava, observando como ele articulava. E às vezes, Yuy mordia seu lábio inferior enquanto ouvia alguém falar, aquilo era muito sexy.
- E quanto ao suka, como ele está? – indagou Yuy, no espaço do falatório de Xyen.
- Nós não estamos mais juntos há um ano – disse, rapidamente.
- Não? Ah, sinto muito – lamentou, achando estranho.
- Eu não sirvo para ele – disse.
- Não diga isso Xyen! – disse Yuy, dando um tapa no seu ombro para depois apertá-lo, dando apoio moral.
- Ele achou alguém que o fizesse feliz. Eu nunca havia visto suka tão feliz como estava com seu novo namorado. Afinal, eu não soube respeitá-lo – disse.
- E você falou com ele? – indagou Yuy, puxando Xyen para sentar-se na cama.
Os dois sentaram na cama e começaram a conversar, Yuy foi notando que Xyen havia amadurecido nos seus pensamentos e viu que jamais poderia ficar com um homem sério e adulto como suka por muito tempo. Talvez tivesse sido melhor, mas de uma coisa Yuy pode ter certeza, Xyen parecia conformado.
- E você mudou o visual, ficou muito bom! – disse Yuy, tocando nos fios arroxeados de Xyen.
- Gostou? Eu achei que aquela cabeleira estava me deixando parecendo uma mulher – disse – e eu não gosto de ser feminino.
- Ah, o meu cabelo está bem comprido, será que eu deveria cortar? – indagou.
- Não Yuy, você tem traços bem masculinos. Seu rosto é quadrado e você está forte. O que anda fazendo?
- Academia – disse, ficando orgulhoso do elogio.
Ryori guardou sua arma e cruzou os braços observando os dois conversando. Ele notou que o cadáver do bicho estava próximo aos dois e o quarto estava cheio de sangue.
- “Depois eu que sou sanguinário” – pensou.
O ruivo saiu do quarto, não estava mais agüentando aquele falatório. Ele passou pelo corredor, mas de repente sentiu um frio correr por sua espinha. Afinal, ele havia deixado seu querido Yuy com o psicopata esquizofrênico do Xyen, ele voltou correndo para o quarto e arrancou Yuy dali, antes que Xyen pudesse fazer qualquer coisa.
Xyen abriu a boca para falar alguma coisa, mas não deu tempo, pois Ryori havia arrastado Yuy para longe dele. Com um longo suspiro, Xyen caminhou para fora do quarto, havia perdido sua presa.
Quando os três chegaram à sala, encontraram Shibushi sentado no sofá da sala e Ruk do outro lado do cômodo. Os três se olharam sentindo o clima tenso que estava entre o casal.
Xyen passou por Yuy e Ryori e caminhou até Shibushi, sendo acompanhado pelo olhar do loiro, que sentiu um frio na barriga ao ver aquele sorriso safado no rosto dele. Xyen sentou-se ao seu lado e passou seu braço direito, por seus ombros, exibindo suas tatuagens.
- Hei, vocês brigaram? – indagou Xyen, sussurrante. Mas todos podiam ouvir, pois um silêncio estrondoso instalou-se na sala.
Shibushi fez um “sim” com a cabeça e voltou a baixar seu olhar, mas logo ficou atento, pois recebeu um aperto nos ombros.
- Eu sei como é difícil você não ficar com a pessoa que ama, mas depois passa – disse baixinho – logo vai esquecê-lo, não se preocupe.
- Co... como assim? – indagou Shibushi, sem entender.
- Eu sofri o mesmo que você – comentou – mas logo passa.
- Ah! – Shibushi fez uma leve exclamação e voltou a olhar entristecido para o chão.
Parecia que um vulcão ia entrar em erupção a qualquer instante, e pensando em evitar isso, Yuy caminhou até Xyen arrancando-o do sofá literalmente, para depois puxar Shibushi e levá-lo para a cozinha. Ryori apenas observou a atitude do moreno e voltou seu olhar para os dois homens que agora se encaravam.
- Não precisava dizer isso a ele, Xyen – disse Ruk, com uma voz baixa.
- Claro que precisava.
- Quem disse que terminamos? – indagou.
- Não sei, parecia – disse – pode deixar que eu cuido dele para você.
Na cozinha, Yuy estava colocando um pouco de chá para esquentar. Shibushi estava sentado na mesa, balançando os pés e as mãos inquieto. Ora ele olhava para trás, tentando ver alguma coisa na sala, ora que soltava longos suspiros, ora olhava para Yuy.
- Quer me contar o que aconteceu? – indagou, ouvindo um som alto de coisas quebrando vindo da sala.
- Ah, o que está acontecendo lá? – indagou Shibushi, levantando-se.
- Fique aí, eu vou ver – disse Yuy, empurrando o loiro para trás, fazendo-o sentar-se novamente.
- “Esse Yuy está ficando igualzinho ao Ryori” – pensou, desabando seu corpo em cima da mesa.
Yuy correu até a sala vendo que havia mais cinco homens presentes. Todos olharam para o moreno o cumprimentando com muita atenção, afinal, Yuy era a donzela de Ryori.
- Eles vão limpar tudo – disse Ryori, antes que Yuy perguntasse.
Os homens eram rápidos, eles tinham equipamentos específicos para esse tipo de situação e alguns eram do governo. Yuy não ficou para ver a limpeza, ele correu para a cozinha e encontrou Shibushi servindo-se do chá que já estava quente.
- São homens da limpeza – disse Yuy. O moreno caminhou até o armário, pegando várias canecas e as enchendo de chá, ele colocou em uma bandeja e levou até a sala.
Chegando na sala, colocou em cima da mesa e depois saiu sem dizer mais nada, fazendo os oito homens que estavam ali o encararem e depois agradecerem pela gentileza.
Ryori apenas observou a atitude do seu namorado, achando incrível o modo que Yuy havia crescido. No passado, ele já ia reclamar que havia aquelas criaturas espalhadas pela sala, ia reclamar da presença de Shibushi o tempo todo, ia ficar perguntando descaradamente o que estava acontecendo entre Shibushi e Ruk, ia ficar num canto emburrado esperando que seus homens fossem embora e depois ia lhe encher de lições de morais.
Todos pegaram um pouco de chá, menos Ruk que parecia estar muito inquieto.
Na cozinha, Shibushi estava tomando seu chá em silêncio, Yuy pegou uma caneca para si e depois ficou olhando para o homem a sua frente, observando seus olhos tristes.
- O que houve? – indagou.
- Brigamos – disse.
- Por que?
- Porque ele sumiu e não me disse nada, e não me dá satisfações.
- Será que ele não quer te proteger? – indagou.
- Eu cansei de ouvir isso, Yuy. Te proteger, te proteger! Ninguém sabe o que é bom para os outros, ninguém sabe o que é bom para mim, apenas eu sei. Eu quero saber o que acontece na cabeça dele, mas ele não me deixa entrar, não compartilha seus sentimentos! – desabafou – qual relacionamento que os seus integrantes não compartilham seus sentimentos, Yuy?
O moreno ficou um tempo pensativo, ele não podia dizer nada, Shibushi tinha razão. Ruk sumia por um tempo, depois aparecia matando uns mutantes, para depois dizer que não havia acontecido nada. Devia ser uma relação insegura.
- Realmente não existe confiança – comentou – você sabe o que é o melhor para você, como disse.
- Eu sei, mas é fácil falar Yuy. Fácil seria falar que vou me separar, comprar uma outra casa, ter uma vida nova, depois arranjar outra pessoa e ser feliz para sempre. É isso o que tem nesses livros de auto-ajuda.
- Tem razão. Não é fácil – disse, sentando-se na cadeira da cozinha.
- O que eu faço? – indagou.
Nesse momento Yuy encarou aqueles olhos de uma maneira diferente, notou a tristeza que estava manchada naquela face angelical. Observando as feições de Shibushi entendeu porque ele era tão atraente, tão apaixonante. Na verdade Shibushi era profundo, apaixonado, envolvente, seus atos, suas palavras, seus pensamentos eram de uma complexidade atípica.
Um sorriso desenhou-se nos lábios de Yuy enquanto ele lia aquela criatura loira e sedutora que agora estava aos pedaços. No entanto, Yuy não se comoveu, pois sabia que apenas Shibushi era o responsável por essa situação, afinal, ele escolheu viver ao lado de homens misteriosos, assim como o próprio Yuy escolheu viver ao lado de Ryori. E nesse momento, observando os defeitos e tristezas do outro que Yuy percebeu que se não aceitasse a sua vida como ela era, ele jamais saberia o que é viver sem medo. tinha que aceitar viver com Ryori ou então viveria sempre na insegurança.
Talvez, sempre que você entrar em um romance, acompanhe o ritmo da batida, pois a dança não pára e as pessoas que dançam ao seu lado apenas ficam pisando em seus pés, portanto mover-se, agir e pensar sobre o que você está fazendo é essencial para não se isolar no meio da pista de dança, sentando-se no chão, cobrindo sua cabeça e permitindo que pisem e esbarrem em você. Afinal, você nem está vivo para eles.
Nessa situação estava Shibushi, um jovem rapaz sensível e apaixonado. Tentando dançar o ritmo que Ruk empunha, sendo que o loiro havia perdido o sentido de dançar, e estava sentado no meio da pista, deixando seus sentimentos te pisotearem sem misericórdia. Afinal, a música nunca pode parar.
- Acho que você tem que ver o tipo de pessoa que você está e acompanhar seu ritmo – comentou Yuy – eu penso nisso agora. Talvez não seja um ritmo apropriado para você.
- Ruk não teria o mesmo ritmo que eu? – indagou.
- Talvez sim, talvez não, apenas você pode saber, pois está acompanhando o ritmo dele ou tentando. Agora basta saber se ele acompanha o seu também – disse.
- Diga-me Yuy. Ryori acompanha seu ritmo?
- Sim, sempre. Eu que sempre reclamo e não quero acompanhar o dele.
- E o que eu faço quando Ruk não quer acompanhar meu ritmo?
Yuy exibiu um lindo sorriso e disse:
- Então, pare a música!
O loiro sorriu de canto, imaginando como ele pararia a música do seu romance para fazer Ruk perceber que não estava acompanhando o seu ritmo.
Ryori entrou na cozinha, caminhando até Yuy. Ele queria conversar com seu namorado sobre o que havia acontecido, mas não teve tempo e agora não era uma boa hora, pois tinha que levar em consideração os sentimentos do loiro também.
- Eu vou indo – disse o loiro.
- Para onde? – indagou Ryori e Yuy em uníssono.
- Para casa – disse – e tenho que pegar o Nero na veterinária hoje.
- Eu te levo – disse Ryori.
- Não precisa – disse Shibushi.
- Claro que precisa – disse Yuy desta vez, levantando-se – eu vou colocar uma blusa, pois estou com frio e vamos levá-lo.
- Frio? – indagou Ryori, vendo que Yuy já estava com uma blusa de moletom e estava muito quente o ambiente.
Yuy nem respondeu a pergunta saindo do quarto, o moreno não estava se sentindo muito bem. Mas quem ia ficar se preocupando com uma febre quando gatos mutantes invadem seu apartamento? O moreno trocou sua calça de moletom por uma calça jeans preta e colocou outro casaco, saindo do quarto ele já apareceu na cozinha.
- Vamos?
- Vão aonde? – quem indagou agora foi Xyen, que entrou na cozinha com sua caneca na mão.
- Levar Shibushi, quer ir também? – indagou Yuy.
- Claro que sim. Eu não quero ficar aqui – disse.
- E quanto ao Ruk? – indagou Yuy, encarando Shibushi.
- Que ele venha o que é prioritário para ele, eu estou cansado – disse, sentindo mais raiva do que tristeza no momento.
Os três saíram da cozinha vendo que Ruk não estava mais no apartamento, Shibushi sentiu uma pontada no coração, mas decidiu manter-ser firme ou sempre iam acontecer essas coisas. Ele já havia permitido que Ruk fizesse isso uma vez e agora havia permitido novamente. No entanto, agora teria conseqüências.
O Porsche preto de Ryori estava estacionado na frente do apartamento, havia algumas pessoas perto tentando ver se encontrava algum gato por aí. Eram apenas curiosos tentando aparecer na televisão. Havia alguns repórteres entrevistando os moradores do prédio.
Eles entraram no carro e Shibushi foi indicando o caminho até a veterinária que ficava no outro bairro, mas não era distante. Quando chegaram, Shibushi desceu do carro com Xyen e entraram no lugar.
Finalmente Ryori e Yuy estavam sozinhos, o ruivo olhou para Yuy que estava usando um par de óculos escuros, impedindo que Ryori soubesse para onde ele estava olhando.
- Yuy, eu... queria dizer que...
- Não diga nada – interrompeu Yuy.
- Mas nós temos que conversar sobre isso, você não pode...
- Eu posso tudo, estou doente, você tem que me agradar agora – disse, com um sorriso divertido no rosto – e depois conversamos. Pois logo eles chegam e vamos ficar com a conversa na metade.
O ruivo ficou em silêncio após essa chamada que recebeu, ele cruzou os braços e ficou olhando para sempre, impaciente. Ele estava querendo fazer, mas sabia que seria interrompido novamente.
- Yuy...
- Silêncio – pediu o moreno.
Ryori sentiu uma irritação momentânea, depois ele voltou a observar Yuy que estava começando a ficar com a face avermelhada. Ele tocou na face do moreno, fazendo com que Yuy se esquivasse.
- O que foi? – indagou Ryori.
- Nada, foi apenas um reflexo. Acho que tenho um trauma de você – revelou.
- Tem medo de mim? – indagou.
- Pela primeira vez em todos esses anos, eu vou responder que sim, eu tenho medo de você Ryori. Você sempre me perguntou se eu tinha medo de você, mas agora espero que esteja satisfeito – disse, olhando para o lado contrário do ruivo.
Era a primeira vez que Yuy havia dito isso e incomodou Ryori. O ruivo sempre achou estranho o moreno nunca lhe temer, nunca ter receio da sua presença e sempre falava o que pensava. No entanto, havia traumatizado seu querido Yuy.
- Eu não queria que sentisse medo – disse.
- Não pensou nisso enquanto me prendeu numa varanda – disse – mas eu não quero conversar agora.
O ruivo suspirou e aproximou-se de Yuy tocando no seu braço, sentindo que ele havia tremido com esse toque.
- Por favor – pediu Yuy, sentindo vontade de sair do carro.
- Não precisa ter medo de mim – disse.
- Não? – indagou, dando uma gargalhada histérica – não preciso mesmo?
- Não quero que tenha – disse entristecido.
- Pensei que esse fosse seu maior desejo desde que nos conhecemos. Sempre querendo me dobrar. Parabéns!
- Para quem não queria conversar, você está bem afiado – disse baixinho.
- Certo, vamos ficar em silêncio – disse, voltando a olhar para o lado contrário.
- Yuy, pelo menos tire esse casaco – pediu, puxando o casaco jeans para trás.
- Não, estou com frio – disse, puxando o casado e cruzando os braços em seguida.
- Você está doente! Tira isso logo, estou ficando irritado! – disse, alterando seu tom de voz.
Antes de Yuy reclamar, Ryori havia soltado seu cinto de segurança e estava retirando de qualquer jeito a jaqueta jeans e o agasalho de moletom, contra a vontade de Yuy.
- Pronto! Quer morrer? – indagou Ryori jogando a blusa no banco de trás.
Yuy abraçou seu próprio corpo, arrepiando-se todinho. Ele tremia e sentia sua cabeça rodar. Sua cabeça estava doendo, mas depois desses movimentos bruscos a sua cabeça havia piorado.
- Apenas a jaqueta jeans – pediu, olhando para trás.
O ruivo pegou a jaqueta jeans vendo que ela era forrada e depois olhou para o sol que estava quente, acabou desistindo e jogando a jaqueta no chão.
- Não – disse Ryori, irredutível.
Não teve tempo para brigarem, pois Shibushi saiu da veterinária lendo alguns documentos com atenção, Xyen veio logo atrás com Nero na coleira. Eles entraram no carro e Nero começou a fazer sua festa, lambendo a mão de Yuy e Ryori, depois pulou em Shibushi e em Xyen.
- O Segure – pediu Ryori, ligando o carro.
Xyen segurou Nero, abraçando sua gordura e acariciou sua cabeça, massageando suas orelhas, deixando cachorro mais calmo. Shibushi estava feliz de levar Nero para casa, pois estava sentindo-se solitário sem ele.
O Porsche atravessou as ruas numa velocidade espantosa. Yuy fechou sua janela e se encolheu no banco, sentindo que ia morrer de tanta dor e frio. Xyen e Shibushi se olharam de canto, mas não disseram nada. Quando o carro parou na frente da casa do loiro, eles desceram.
- Eu posso ficar com você? – indagou Xyen.
- Pode – disse, soltando Nero que correu pelo quintal, mijando em todos os cantos para remarcar seu território.
- Hoje eu vou faturar – disse Xyen para Yuy, num sussurro.
- Cuidado, Ruk vai voltar – disse Yuy.
- Você está bem? – indagou Xyen.
- Com febre – disse.
- Ah, por isso está sem blusa – comentou – mas é melhor para você. Vá para casa tomar um banho e dormir.
- Minha casa está fedendo a bicho morto e eu e Ryori não estamos muito bem – disse.
- Então fiquei aqui na casa do Shibushi. Vamos nomear o lugar como... “O cantinho dos excluídos” – disse, abrindo os braços e falando bem alto.
- Ele não vai ficar aqui – disse Ryori – vamos Yuy.
- Acho que não dá para fugir do problema, Xyen – comentou.
- Realmente. Mas melhor para mim, vou ficar com o loiro sozinho! – disse, vitorioso.
Ryori aproximou-se de Shibushi e disse:
- Qualquer coisa me ligue. Não faça nada sozinho.
- Obrigado, Nako.
- Até mais ver – disse Ryori e foi entrando no carro, olhando para Yuy.
- Não querem entrar por um instante? – indagou Shibushi educadamente.
- Não! – disse Ryori.
O moreno suspirou, ele se despediu dos dois com um aceno e adentrou no carro, colocando seu cinto de segurança e seus óculos escuros.
Yuy ficou observando os lugares por onde passava, o caminho não era para o apartamento o que entristeceu Yuy, pois o que ele mais queria era entrar embaixo das cobertas e ir dormir.
- Está com fome? – indagou Ryori.
- Eu estou cansado. Eu queria dormir.
- Não quer conversar? – indagou.
- Não, eu realmente sinto que vou desmaiar.
Ryori entrou numa esquina de repente, mudando sua rota, dirigindo-se para sua casa. Ele ligou seu aparelho celular e ligou para um dos seus homens perguntou se já havia limpado tudo. Felizmente o apartamento já estava limpo e sem cheiro.
O carro foi estacionado no estacionamento do apartamento. Ryori saiu do carro e foi andando até o elevador, chamando-o. Ele olhou para o carro, vendo Yuy caminhar lentamente com a cabeça baixa. O ruivo caminhou até ele, passando seu braço por sua cintura, ajudando-o a andar.
Quando entraram no elevador, Yuy encostou-se na parede exibindo sua face pálida. Seus lábios estavam perdendo a cor e seu corpo estava esfriando cada vez mais rápido.
- Acho que... vou desmaiar – disse.
Ryori abraçou seu corpo e esperou até que sentisse o corpo de Yuy cair sobre seus braços. Ele o pegou no colo e saiu do elevador, o ruivo pegou sua arma e adentrou no apartamento, olhando tudo com atenção. Ele caminhou por cada cômodo e observou a casa, vendo todos os detalhes. Quando finalmente viu que estava seguro, ele colocou Yuy na cama do quarto.
O ruivo caminhou até a cozinha, abrindo a geladeira, procurando alguma coisa para seu amado. Felizmente Shibushi havia feito compras, ele viu que havia algumas sopas instantâneas no armário e logo tratou de fazer para Yuy. Enquanto a água fervia, Ryori voltou para o quarto, arrumando Yuy na cama.
- Ryori... – murmurou o moreno.
- Estou aqui – disse, tocando no rosto de Yuy, sentindo sua tremedeira – vou ligar para o doutor Micare.
O moreno não disse nada, Ryori retirou seu tênis e o colocou embaixo das cobertas, arrumando a cabeça de Yuy no travesseiro. Ryori pegou seu telefone e ligou para Micare.
- Doutor Micare?
- Ah, quem fala?
- Nako.
- Ah, senhor Nako, como está Yuy?
- Ele está febril e desmaiou.
- Hum, dê muita água para ele. Tem um remédio que eu entreguei para ele, chama-se: aveons. É específico para o caso dele, depois do uso não o use para gripe ou febre novamente.
- Mais alguma recomendação?
- Não o deixe esquentar, mantenha sua temperatura – disse.
- Certo.
- Até mais, senhor Nako.
- Até.
Ryori desligou o aparelho e voltou à cozinha, vendo que a água ainda não havia fervido. Ele abriu a geladeira e pegou um pouco de cebolinha e a picou, jogando na água quente. Ele abriu o pacote de sopa e jogou na panela, olhando aquela cor esverdeada.
Com uma colher de pau, a sopa foi mexida. Ryori levou a colher até a boca, experimentando aquela sopa, sentindo um gosto fraco de ervilha e muito sal.
- Isso só tem sal e corante verde – disse baixinho – porcaria. Mas por hora, é o melhor que tenho.
O ruivo abriu o armário de remédios, pegando uma bolsa de gel, ele a colocou no freezer, perto do gelo. Numa bandeja de metal, ricamente decorada, Ryori colocou uma cumbuca de barro, ele despejou a sopa no recipiente. Foi juntado um par de guardanapos e uma colher ao conjunto.
Entrando no quarto, Ryori colocou a bandeja na mesinha de metal que ficava ao lado da cama, ele arrumou Yuy na cama, fazendo o moreno sentar-se.
- Eu tentei comer alguma coisa com Shibushi, mas estava apreensivo – murmurou.
- Comeu sólido?
- Ele me fez um papinha de bebê – disse.
- Era bom? – indagou.
- Gostoso, era de abóbora. Ele cozinha bem.
Ryori colocou a bandeja no colo do moreno, com um sorriso animado no rosto. Enfim estava a sós com Yuy e este não estava lhe dando patadas. O moreno pegou a colher e começou a tomar a sopa, sentindo ela aquecer seu corpo.
Num movimento rápido Ryori tratou de retiras sua botas. Ele retirou sua camisa preta a jogando na cadeira, ficando apenas com sua calça jeans preta. Ryori foi até o banheiro, lavando seu rosto e sua nunca, ele se secou e soltou seus cabelos.
Yuy observava os movimentos do ruivo com atenção, ele olhou para a televisão que ficava suspendida no teto do quarto e olhou ao redor procurando o controle remoto. Entretanto ele estava distante.
- Ryori, me passa o controle, por favor – pediu.
O ruivo fez o que ele lhe pediu e Yuy ligou a televisão, colocando no canal de desenhos.
- Ainda gosta disso – Ryori riu.
- Distrai – comentou – relaxa e não agüento mais ver a reportagem dos gatos-aranha.
- Tem razão – concordou.
O ruivo saiu do quarto, indo até a cozinha, pegando a bolsa de gel que já estava fria. Ele voltou para o quarto e colocou a bolsa na cabeça de Yuy. O moreno soltou um palavrão e jogou a bolsa do outro lado do quarto.
- Você tem me obedecer Yuy – disse Ryori, irritado.
- Não tenho, não! – gritou – pega o remédio que o doutor Micare indicou.
- Ah, mandão! – resmungou, mas obedeceu, indo até a sala, procurando a mochila de Yuy. Quando encontrou o remédio, leu a bula e depois apareceu no quarto com um copo d’água na mão.
Yuy tomou o remédio com uma cara feia e depois se deitou na cama, cobrindo-se até o pescoço, voltando a assistir ao desenho. Não duraria muito, pois suas pálpebras estavam fechando-se e logo dormiria.
Minutos mais tarde, Ryori estava na cozinha fazendo um suco de mamão, beterraba e laranja. Ele preparou uma sopa mais elaborada feita de abóbora, mandioca e cenoura. Deixando-a líquida. E para ele, havia comido a macarronada que Shibushi havia feito no almoço. E obviamente acabou com o resto do bolo que o loiro havia feito.
A noite havia caído na cidade. Ryori havia trancado todas as portas e dado ordens mais severas ao seu grupo para acabar com aquelas criaturas o quanto antes. O céu estava escuro e as ruas perigosas, mas esse tempo de terror logo chegaria ao fim.
Outra bandeja foi preparada, desta vez havia uma sopa decente, uma vitamina, algumas frutas e outro copo com água para Yuy tomar seu remédio. O ruivo saiu da cozinha, caminhando até o quarto, encontrando o moreno esparramado na cama.
- “A bula disse que daria sono” – pensou, não se preocupando.
Ryori sentou-se na cama e deu um beijo nos lábios de Yuy, sentindo que sua temperatura não estava tão diferente da sua. Ele chamou Yuy delicadamente e rapidamente as pálpebras do moreno foram se abrindo, visualizando a face amorosa de Ryori.
O moreno afastou-se um pouco, temendo aquela face. Ainda tinha pesadelos com Ryori lhe trancando em todos os lugares. O ruivo respirou fundo ao ver que ainda tinha que conquista a confiança do seu amado.
- Sopa de novo não! – reclamou.
- Eu fiz uma sopa para você – disse.
- Você cozinhando?
- Sim, prove – disse, colocando a bandeja no colo de Yuy – primeiro tome a sopa e depois tome o remédio. Fiz uma vitamina e tem frutas aqui.
- Estou com fome. Queria comer carne – disse – obrigado, Ryori.
- De nada, espero que melhore logo – disse.
- Er... Ryori, você poderia pegar o meu celular?
- Para que? – indagou, intrigado.
- Preciso falar com meus amigos, eles devem estar preocupados.
- Com aquela garota? – indagou, começando a mudar o seu humor.
- Ah, sim – disse, colocando uma colher cheia de sopa na boca.
- Quero que se afaste dela – disse.
- Se afaste de Shibushi, então – retrucou.
O ruivo ficou um tempo em silêncio, ele levantou e foi até a sala procurar o celular de Yuy, quando voltou, encontrou Yuy assistindo a um programa de televisão qualquer. E notou que sua sopa estava quase na metade.
- Gostei da sopa – elogiou.
- Hum!
Ryori lhe entrega o aparelho celular, o moreno agradeceu e colocou o aparelho ao seu lado, voltando a assistir televisão.
- Não vai ligar?
- Eu não havia visto que horas eram – disse –já é tarde, amanhã eu ligo.
O ruivo suspirou, ele sentou-se numa poltrona luxuosa de couro branco que ficava num canto do quarto. Numa mão Ryori tinha um bolo de papéis, eram os documentos que ele solicitou para limpar Rondon dos laboratórios. Ele lia com atenção o documento, não deixando nenhum item escapar e quando tinha dúvidas, grifava para perguntar aos seus advogados depois.
Yuy devorou a sopa e depois voou para a vitamina de frutas. Ryori não havia feito um cardápio que combinava, mas o moreno não se importou, pois queria colocar tudo para “dentro” o quanto antes. Depois de tomar o suco, o moreno tomou um pouco do remédio, ingerindo quase todo o copo d’água em seguida para tirar aquele gosto terrível.
O moreno saiu da cama, gemendo baixinho, pois sua cabeça começou a latejar. Ele foi caminhando com a bandeja na mão sob o olhar atencioso de Ryori. O moreno atravessou a sala e quando chegou na cozinha se serviu mais de sopa. Ele sorriu ao ver que tinha bastante na panela. Com preguiça de voltar para o quarto, sentou-se à mesa da cozinha e começou a comer.
Minutos depois Ryori apareceu na cozinha, preocupado com a ausência do moreno.
- Por que está aqui no frio?
- Estava com preguiça de voltar.
- Yuy, nós precisamos conversar.
- Eu sei. Não tem como evitar – disse.
- Eu não quero evitar – complementou.
- Tudo bem, comece – disse Yuy.
- Por que eu? – indagou, inseguro.
- Porque você me trancou naquela maldita varanda! – disse, alterando seu tom de voz.
Ryori respirou fundo vendo que a conversa poderia sair fora do planejado. Ele buscou forças e começou a falar.
- Você me provocou muito Yuy, fiquei magoado com seus argumentos. Pelo fato de ficar se referindo ao seu pai como se eu o desprezasse.
- Ah, eu estava nervoso – confessou.
- Mas você sempre guardou esse sentimento, não dizemos isso porque estamos nervosos, dizemos o que pensamos Yuy. Eu não queria ter feito aquilo, foi um erro, foi um acidente, você viu! – disse, desesperando-se nas últimas frases.
- Sim, eu vi, eu vi. Apenas deixe-me pedir desculpas, eu queria magoá-lo, apenas isso – disse – você sempre está com esse sorriso idiota na cara, não me dá atenção e depois fica me empurrando para fazer as coisas. Então eu fiquei pensando como seria a minha vida se meu pai não tivesse morrido, aí eu descontei tudo em você.
- Sorriso idiota? – indagou, intrigado – você acha meu sorriso idiota?
- Ah Ryori, como você consegue filtrar bem o que eu digo – disse, cinicamente – sim, idiota. Eu fico com raiva de você.
- Por que?
- Porque não somos mais que nem antes, você mudou, eu mudei e acho que nossos mundos não estão mais se encontrando. É como eu disse para Shibushi, acho que você não acompanha meu ritmo ou eu não acompanho o seu!
- Isso quer dizer que não me ama mais?
- Eu não disse isso – disse baixinho – apenas disse que nosso relacionamento mudou. Ora Ryori, quantas vezes não dormi sozinho? Quantas vezes eu tive que jantar, almoçar e tomar café sozinho? E quando você esqueceu nosso aniversário, eu tive que jogar fora a comida que comprei para nós dois, pois você sumiu por uma semana inteira! Sem contar que você fica jogando na minha cara que eu sou uma criança, preciso trabalhar e crescer. E quando eu quero crescer você me afoga.
Ryori ouviu todo aquele discurso, sentindo todas as palavras como se fossem agulhas afiadas que adentravam na sua pele, atingindo seu frágil coração. Ele suspirou e ficou pensativo, amaldiçoando-se por ser tão desligado.
- Esse é meu jeito, eu não esqueço porque quero. Acha que eu faço de propósito? Eu tenho coisas a fazer – disse, após um momento de reflexão.
- Então essa conversa não tem sentido. Você diz que é seu jeito, eu concordo, voltamos a ficar como antes. A cada dia eu fico chateado... isso não é o que eu quero. O Ryori que eu conheci me colocava em primeiro lugar – revelou, entristecido.
- Meu trabalho toma meu tempo, mas acredite Yuy. Eu faço de tudo para voltar cedo para casa, todos os dias eu me arriscava com gangues rivais, mas agora nem os enfrento mais para não me machucar e ter que te deixar. Todos os dias meus pensamentos são voltados para você, na sua segurança, sempre peço para um dos meus homens passar por perto para ver se está tudo bem – disse.
- Isso é ótimo Ryori, mas não adianta saber, eu tenho que sentir isso. Tenho que sentir seu abraço, seu beijo, sua preocupação. Não posso apenas saber que você pensa em mim, isso não é suficiente.
- O que você quer que eu faça? – indagou, sem saída.
- Saia do tráfico de drogas – disse, rapidamente.
Ryori ficou em estado de choque, ele pensou na proposta, mas isso não podia se concretizar. Ele havia construído um império, era o rei daquela cidade e não poderia abandonar.
- Por que pede para eu largar meu sonho desse jeito? – indagou Ryori, chateado – é como se eu pedisse para você parar de amar seu pai – completou, chocando Yuy, que arregalou os olhos quando ouviu a última frase.
- Não tem comparação! – gritou o moreno.
- Não tem realmente. Mas é o que eu sou, eu sou tudo isso – disse, abrindo os braços – eu sou egoísta, metido, egocêntrico, briguento, mau humorado, violento, agressivo, sanguinário, medonho, ciumento! Tudo isso o que você falar, o que os outros falam, tudo isso... não diga que não sabia, Yuy.
- É claro que eu sabia, afinal conheci você com todos seus defeitos, sem máscara. Eu discordo de grande parte do que falou. Não quero que mude seu jeito, eu te amo como você é e sempre foi, eu apenas quero que nosso relacionamento seja duradouro. Eu não me sinto feliz – disse, deixando seus olhos encherem-se de lágrimas – eu me sinto sozinho.
- Eu vou tentar, prometo. Eu te amo.
- Eu sei, eu sei.
- Hum... o que gostaria de fazer daqui para frente? – indagou Ryori, com receio dos desenhos do moreno.
O moreno ficou um tempo em silêncio, ele baixou sua cabeça, permitindo que seus longos fios negros caíssem por seus ombros. Sua mente estava rodando a uma velocidade fenomenal, mas não podia pedir qualquer coisa, não podia ser egoísta também.
- Eu gostaria de morar numa casa, num bairro mais cheio. Eu queria ter dois cachorros. Gostaria de ter amigos jantando e almoçando em datas especiais – disse, com os olhos fechados, como se estivesse imaginando enquanto falasse – eu gostaria de ter uma empregada para limpar minha bagunça no final de semana, para não ouvir broncas suas. Eu gostaria de poder ter férias de vez em quando, viajar realmente, e não há negócios como sempre viajamos, apesar de ter sido legal. Eu gostaria que você me acompanhasse nisso.
- Ah, quanta coisa – disse Ryori, pensativo.
- E tem mais.
- Tem? – indagou assustado.
- Eu sempre me imagino num lugar colorido, eu quero uma casa decorada por nós dois e não por designer famosos. Esse apartamento não parece meu, não me sinto em casa. Se pudesse, eu plantava verduras no quintal, como na minha antiga casa. O cheiro da horta me lembra os melhores momentos da minha infância. E também, gostaria de colocar um retrato do meu pai na sala e que o nome dele não fosse mais um tabu e que de vez em quando, pudéssemos visitá-lo.
Yuy fez uma longa pausa, deixando algumas lágrimas correrem por seu rosto. Eram seus mais profundos sentimentos.
- E mais uma coisa.
- Mais?
- E eu gostaria que você nunca mais me trancasse em qualquer lugar – disse.
- Ah, nem precisa pedir – disse, desgostoso.
- Preciso sim, só de pensar que você me prenderia num porão me deixa louco!
- Vou procurar uma casa para nós agora. Mas eu não irei me mudar para um bairro muito pobre, Yuy. Classe média, onde tenha um metrô mais perto – disse – e você poderia tirar logo sua carta de motorista.
- Eu preciso de um emprego – disse- eu compro meu carro.
- Não precisa de emprego – retrucou – eu compro para você.
- Preciso sim. Eu não me esqueci o que você disse, e não venha me dizer foi na hora da raiva.
- Eu disse na hora da raiva – disse.
- Não disse, você pensa que eu tenho que crescer mesmo.
- Eu acho que você precisa crescer, mas não precisa mais trabalhar. Vá estudar, você cresce de outra maneira. Faça uma faculdade, sei lá.
- Faculdade... andei pensando nisso. Mas não tenho nada em mente.
- Faça algo relacionado com desenho, você gosta disso.
- Ah, desenho... vou pensar – disse, ficando pensativo.
O ruivo levantou-se, tocando no braço de Yuy, puxando-o para fora da cadeira. O moreno deixou-se ser levado por aquelas mãos fortes e seguras. Yuy encarou o par de olhos azuis de Ryori com atenção, sentindo um frio gelado passar por sua barriga, era a sensação que sempre sentia ao ver aquele olhar tão apaixonante e sedutor do seu amado ruivo.
- Posso dormir agora? – indagou Yuy, sentindo que sua cabeça ia desmoronar a qualquer instante.
- Claro.
O ruivo o puxou para o quarto, colocando Yuy na cama com todo o cuidado. Logo em seguida Ryori deitou-se ao seu lado, abraçando o corpo do menor, sentindo os seus músculos que estavam se formando aos poucos. Um beijo molhado marcou a curva do pescoço de Yuy, que começou a fechar seus olhos, sentindo uma moleza invadir seu corpo. Era o efeito do remédio.
Não demorou a Ryori sentir-se sozinho naquele quarto, ele fechou seus olhos também, sentindo o calor do corpo menor, permitindo-se dormir nos braços daquele que sempre estava nos seus sonhos.
“Há três tipos de pessoas que têm
sorte na vida: as que querem,
as que perseveram e as que sabem amar de verdade”.
Na manhã do dia seguinte, Yuy acordou bem disposto. Ele levantou-se com cuidado, tentando não acordar o ruivo que parecia estar bem cansado, pois o moreno havia se remexido muito antes de acordar, e ele ainda parecia estar dormindo. O moreno caminhou até o banheiro, ligando a ducha do chuveiro numa água morna, lavando seu corpo que ainda cheirava a hospital.
Quando saiu do banho foi até a pia de mármore do banheiro, passando a mão pelo vidro embaçado. Seus olhos miraram sua face com atenção, percebendo que estava com o rosto mais magro. Yuy escovou seus dentes e penteou seus cabelos, dividindo-os no meio. Uma toalha de algodão foi enrolada na sua cintura e saiu do banheiro.
No quarto, Ryori estava sentado na cama. Ele cumprimentou Yuy com um lindo sorriso no rosto ao ver que o moreno estava melhor que o dia anterior. Yuy foi até seu armário, pegando uma calça jeans clara e uma camiseta vermelha.
- Você parece melhor – Ryori comentou.
- Minha cabeça parou de doer finalmente – disse – e logo vou tomar o remédio de novo para não voltar a sentir dor.
- Bom menino – disse Ryori, levantando-se da cama, indo até Yuy, abraçando-o com carinho.
- Pensei que nunca mais viveria uma manhã como essa com você novamente – revelou, num sussurrou quase inaudível.
Yuy sorriu, abraçando o corpo do ruivo, sentindo que ele havia emagrecido também. Aliás, de uns tempos para cá, Ryori havia emagrecido pelo estresse do serviço.
- Vou te levar para tomar café na padaria – disse Ryori.
O ruivo foi até seu armário, pegando uma calça jeans preta e uma camiseta da mesma cor, ele pegou um par de tênis de cano longo da mesma cor e os vestiu. Seus cabelos ficaram soltos, e o ruivo apenas entrou no banheiro para fazer sua higiene.
Yuy ficou sentado na cama, bocejando a cada minuto, ele pegou seu remédio e o tomou, sentindo uma forte ânsia invadir seu corpo. Mas conseguiu resistir, depois que comeu um pedaço de banana. Quando Ryori saiu do banheiro, os dois saíram do apartamento, cumprimentando o novo porteiro.
- Ah, pobre Jun – comentou Yuy, lembrando-se do antigo porteiro.
- Hum.
Eles entraram no carro e sumiram de vista, perdendo-se no trânsito agitado de Rondon.
Na casa de Shibushi a situação era diferente, o loiro havia se trancado no quarto para impedir que Xyen o agarrasse durante seu sono. O loiro acordou com um longo bocejo e foi se arrastando até o banheiro, tomando um longo banho.
Saindo do banheiro vestiu uma calça de pano verde escuro e uma camisa de linho branco bem folgada. Seus cabelos foram presos num baixo rabo de cavalo e algumas gotículas do seu perfume favorito foram passadas por seu corpo.
Abriu a porta do seu quarto, encontrando Xyen sentado no corredor, encostado à parede, ficando de frente para a porta do quarto. Shibushi o cumprimentou com uma certa surpresa.
- Ah, olá loiro – disse, bocejando.
- Por que não dormiu na cama? – indagou.
- Fiquei preocupado. Tinha uns felinos rondando o bairro – disse, levantando-se.
- Tinha? Aqui em casa?
- Não, no bairro. Eu senti o cheiro, mas não se aproximara. O pessoal da limpeza passou rápido.
- O cheiro estava forte? – indagou, caminhando para a cozinha.
- Ah, para eu sim. Não sei se você sentiria. Lembre-se que eu sou especial – sorriu.
Shibushi caminhou até a cozinha, ele abriu as portas e janelas deixando o ar fresco e úmido da manhã adentrar em sua casa. Nero logo apareceu na cozinha com seu grande rabo abanando de um lado para o outro, ele estava com sua grande língua vermelha para fora e seus olhos suplicavam por carinho e atenção.
Xyen começou a acariciar o cachorro, rolando no chão da cozinha com Nero nos seus braços. Shibushi riu baixinho ao ver que Xyen parecia uma criança, depois foi até o armário pegando o saco de ração. Quando Nero ouviu o barulho do saco, passou por cima de Xyen e correu até seu dono. Depois de colocar a ração para Nero, Shibushi abriu sua geladeira pegando algumas frutas e água gelada. E começou a fazer o café da manhã.
O jovem soldado de cabelo arroxeado sentou-se à mesa, e ficou a observar os passos de Shibushi, encantando-se com suas manias e gestos. O loiro começou a cantarolar uma música, enquanto colocava as coisas para o café da manhã em cima da mesa.
- Hei, Xyen.
- Diga!
- Me responda uma pergunta, por favor – pediu, sentando-se à mesa com uma jarra de suco.
- Sobre Ruk?
- Sim. Por que ele foi embora?
- Problemas do passado dele. Acho que ele encontrou uma ficha que possivelmente fosse a família dele. Então foi procurar – disse.
- E por que ele teve que ir embora? – indagou.
Xyen encheu seu copo de suco e sorveu alguns goles, pensando no que ia dizer.
- Creio que não queria te envolver mais com o passado dele.
- Só por isso?
- Sim.
- Então ele não me ama – disse rapidamente.
- Hei, não seja tão duro – disse – ele gosta de você. Apenas é infantil.
- Não agüento mais pessoas que me trocam por qualquer coisa – comentou – sempre foi assim Xyen.
- Sempre? – indagou – desde quando nasceu?
- Sim, desde quando nasci. Com minha mãe, meus namorados, amigos... acho que eu tenho algo que afasta as pessoas – disse, entristecido.
- Talvez seja porque você é muito passível, fácil de fugir – comentou baixinho.
Shibushi ouviu com atenção o que Xyen havia lhe dito, notando que o rapaz estava bem sério, deixando de adquirir aquela personalidade atípica que aparecia de vez em quando.
- E isso justifica as pessoas se afastarem? É minha culpa agora? – indagou.
- Não é sua culpa e nem justifica. Mas você é passível e logo perdoa, portanto sempre estará fadado a isso. É um ciclo vicioso – disse – vou lhe dar um exemplo. Suka é passível e perdoa sempre. Eu sempre o traí e o destratei, ficamos juntos por muito tempo. até que ele finalmente perdeu a paciência.
- Você se aproveitava do jeito dele, não é? – indagou.
- Exatamente.
- Mas Ruk não me trai – disse – eu acho.
- Não, creio que não. Mas ele sempre terá um passado conturbado e sempre irá fugir quando puder. Depois voltará e cairá nos braços do seu anjo, como ele mesmo me disse.
- Ah, ele lhe disse isso? – indagou, bebendo seu suco.
- Sim, sempre disse – comentou – aliás, fico feliz de ver como ele está bem com você. Ruk costumava ser um pouco depressivo.
- Hum, agora ele que me deixa depressivo – sussurrou – quando ele volta?
- Não sei. Acho que não volta.
- COMO NÃO VOLTA?
- Não volta, oras. O que vocês conversaram naquele dia?
- Só disse que ele deveria colocar prioridade nas coisas e pesar qual é mais importante – disse.
- Ele acha mais importante o passado dele, então. Por isso não está mais aqui – disse friamente.
O coração de Shibushi ficou apertado, ele abaixou a cabeça e ficou pensativo. Não entendia como Ruk podia jogar fora três anos de relacionamento de um dia para o outro.
- “Logo ele aparece, pedindo desculpas. Eu perdôo e tudo volta ao normal” – pensou – “essa história não pode ter um final assim. Eu não agüento mais a rejeição”.
- Está chateado?
- Ah, eu vou me deitar – disse Shibushi, levantando-se em seguida.
Xyen o acompanhou com o olhar, sentindo os passos lentos de Shibushi até o seu quarto. Quando ouviu a porta batendo, deu um longo suspiro e voltou a beber seu suco.
- “Cometeu um erro ao pedir para Ruk colocar prioridades nas coisas e pesar qual era mais importante. Ruk sempre desejou entender seu passado. Acho que o loiro não entendeu isso” – pensou – “romance acabam. Isso é triste, mas acabam. Mas isso não quer dizer que não se possa começar de novo, com uma outra pessoa ou com a mesma, temos a vida inteira para tentarmos”.
O jovem levantou-se, abrindo os braços e soltando um longo bocejo. Ele passou os dedos por seu braço, tocando nas suas tatuagens e logo se afastou, entrando sem pedir licença no quarto de Shibushi.
- O que quer? – indagou o loiro, contrariado.
- Carinho e atenção – disse.
Xyen retirou sua camiseta, jogando-a no chão, ficando apenas com um short de algodão preto. Ele sentou-se na cama de Shibushi, ignorando as perguntas do loiro e depois se deitou ao seu lado.
- Não ia dormir? – indagou Xyen.
- O que quer comigo?
- Nada. Não por hoje, eu te respeito – disse – pode dormir, eu vigio o seu sono.
Shibushi voltou a se deitar, sentindo tranqüilidade no que Xyen lhe falava.
- Não vai me agarrar?
- Vou fazer o possível – disse – sou um cavalheiro.
- “Então esse é o lado que poucos conhecem de Xyen. Realmente é muito agradável, agora posso entender o porquê de suka ter ficado tanto tempo com ele” – pensou.
As pálpebras de Shibushi foi se fechando, ele não queria dormir, não queria chorar ou então desabafar, mas queria ficar em silêncio para pensar no rumo que daria na sua vida. Não podia permitir ser essa pessoa passível e misericordiosa para todo o sempre.
- Posso cozinhar para você hoje, se me permitir.
- Não conhecia esse seu lado – disse Shibushi, rindo baixinho.
- Gostou?
- Poderia ser assim para sempre.
- Impossível – disse – preciso ser safado de vez em quando.
- Acho que tem razão. Não dá para ficar no mesmo ritmo para sempre.
- Ritmo? Ritmo de dança? – indagou, sem entender.
- Ah, Yuy estava falando sobre isso. O amor é igual uma dança, onde todos estamos num ritmo em comum.
- Yuy é uma graça, pena que Ryori irá acabar com ele – disse.
- Como assim acabar? – indagou, intrigado.
Xyen suspirou e disse:
- Yuy está diferente, tem uma educação parecida com a de Ryori, veste-se parecido, usa os cabelos do mesmo jeito. Logo ele irá ficar arrogante como Ryori, e por fim, acho que o ego dos dois irá atrapalhar.
- Ah, isso não é verdade – disse.
- É sim. Note como Yuy se comporta. Daqui a cinco anos estará completamente mudado. Isso é triste.
Shibushi não disse nada, afinal não concordava com a opinião de Xyen, apesar do rapaz falar aquilo com muita convicção, como se tivesse uma bola de cristal para consultar o futuro.
- Deixe-me descansar – pediu.
- Claro – disse, levantando-se rapidamente.
- Aonde vai? – indagou Shibushi.
- Sei que você me adorou ter na sua cama. Mas eu tenho que ir, vou me trocar e sumir num piscar de olhos – disse.
- Não precisa fazer isso – disse.
- Ah, eu gosto de saídas dramáticas – comentou – mas eu espero um convite para o natal. Ele está chegando, e eu não tenho com quem passar.
- Natal? Isso é daqui três meses – disse, sem entender nada.
- Mandarei meu endereço para seu e-mail, espero receber um convite! – disse, dando uma piscada para Shibushi, saindo do quarto.
O loiro correu até a sala, vendo que Xyen estava começando a arrumar sua cama e trocando suas roupas. Ele vestiu seu bom e velho jeans colorido e antes de sair correu até o loiro, dizendo:
- Só para não perder o costume... loiro gostoso!
Shibushi riu baixinho e num piscar de olhos encontrou-se sozinho na sala, ele ficou um tempo em silêncio, tentando assimilar tudo que o que estava acontecendo. Um latido do Nero o acordou, fazendo-o voltar à realidade.
O loiro foi até seu celular, discando o número de Ruk. Não ia conseguir ficar esperando que ele aparecesse um dia na sua vida para explicar o que havia acontecido. Ele queria Ruk agora, lhe explicando tudo e dizendo qual era sua prioridade.
- Alô.
- Sou eu, Ruk.
- Diga.
- Quero falar com você.
- Não tenho tempo.
- Não tem tempo para mim?
- Não.
- Onde você está?
- Não interessa.
- Ruk.
- Hum?
- Você me ama?
- Não.
- Ok.
Shibushi desligou o telefone, atacando-o na parede. Um ódio carregado de uma magoa profunda arrasava seu coração. Ele ajoelhou-se na sala, sentindo uma dor insuportável invadir seu peito, sua mente, suas pernas e por fim, suas colunas foram se quebrando, impossibilitando que continuasse em pé. Não agüentava mais nada, nem mesmo sua existência.
Qual era o sentido de ficar com alguém por tanto tempo? Qual era o sentido de fazer promessas? Era cruel conjugar a palavra amor enquanto não a empregava devidamente. Terrível é a sensação de rejeição, solidão. Insuportável é afastar-se dos amigos, das paqueras e empenhar-se em construir um relacionamento, para que no final, fique sozinho. Afinal, tudo foi afastado por você mesmo. De quem seria a culpa? Afinal, ninguém é obrigado a ficar com ninguém, seja por um tempo ou para sempre.
O loiro deitou-se no chão da sala, abraçando seu corpo, tentando impedir que explodisse de dentro para fora. Aos poucos sentiu uma loucura, que passou para solidão e passou para o vazio. Automaticamente pensou em tudo que havia feito do dia que começou a criar um relacionamento com Ruk.
- Eu mereço isso? – indagou baixinho.
Nero aproximou-se do seu dono com as orelhas baixas, aproximando-se de Shibushi, sentando-se ao seu lado. Ele não o tocou, apenas ficou ali, junto ao seu dono, dividindo sua dor.
- Acho que entendo o porquê de você ser o melhor amigo do homem – disse Shibushi, passando sua mão pela cabeça do cachorro.
O loiro levantou-se de súbito, caminhando até seu quarto. Ele abriu seu armário, colocando uma calça de pano preta e uma camisa cor de terra. Seus cabelos foram presos num baixo rabo de cavalo. Ele pegou sua carteira, a chave do seu carro. Antes de sair, abriu a porta do quintal dos fundos para Nero ficar e depositou um pacote de ração ali, caso não voltasse até o anoitecer.
Saiu com o carro, enfiando-se no centro de Rondon, um lugar que jamais havia voltado. Ele estacionou o carro numa rua qualquer, encarando algumas pessoas estranhas que sorriram ao vê-lo. Shibushi entrou numa casa, passando por um homem alto e gordo, que tinha a cara cheia de piercings.
- O que quer? – indagou o homem, com uma voz grave.
- Falar com o lobão – disse.
- Ah, pode entrar – disse, abrindo uma porta de madeira.
Shibushi adentrou no lugar pouco iluminado, vendo que havia algumas pessoas sentadas no chão conversando. Outras estavam bebendo num canto e algumas se drogavam explicitamente. O loiro passou por todos eles, aproximando-se do rapaz que estava no balcão do bar.
- Ora, ora! Quanto tempo! Shibushi, como está? – indagou o rapaz, que tinha curtos cabelos loiros e um par de olhos avermelhados. Ele usava uma camiseta preta, jeans e correntes nos braços, pescoço e na calça.
- Bem. Eu gostaria de comprar Ninfeto – disse.
- Hum, faz tempo que você não compra – disse – como está Nako?
- Ele está bem. Quanto custa? – indagou impaciente.
- Não tem valor para você – disse, dando um gole na sua vodka.
- Não quer me vender? – indagou, irritando-se.
- Quero, mas por outra coisa – disse, devorando o corpo de Shibushi com o olhar.
O loiro ficou indignado. A situação não era uma das melhores, mas ele mesmo que escolheu passar por isso. Existiam três pessoas na cidade que podiam lhe dar drogas: Ryori, lobão e Orion. Shibushi não tinha muita escolha, pois Ryori não ia lhe vender. Orion não era muito amigável e tinha atritos com o ruivo.
- Então compre com seu amante ou com orion – disse.
- Nako não me venderia e não sou louco de ir até orion – disse.
- Ah, ele é gente boa. Apenas Nako não se entendeu com ele – comentou, acendendo um cigarro, dando uma longa tragada.
- Quer transar comigo? – indagou Shibushi, contrariado.
- Você é tão direto. Adoro isso – disse – se todos fossem assim, meu negócio estaria imenso.
- Pensando em pegar o lugar de Nako? – indagou Shibushi.
- Ah, eu sempre quis. Mas aquele filho da puta tem muitos contatos, homens e carregamentos. E se eu o matasse, seria uma guerra nas ruas e certamente não pegaria o poder – disse, parecendo aborrecido.
- Bom, não estou a fim, lobão. Faremos negócio outro dia. Tudo bem? – disse Shibushi, olhando-o com atenção. Não podia falar isso e virar as costas e ir embora, não estava num território amigo e lobão, assim como Ryori, tinha um péssimo humor.
O homem voltou a dar uma longa tragada no seu cigarro. Depois que soltou a fumaça do seu peito, abriu um sorriso, exibindo seus dentes brancos e perfeitos. Ele levantou-se da cadeira do balcão, arrumando a arma que carregava no cós de sua calça e pegou a garrafa de vodka que estava ao seu lado.
- Vamos resolver isso logo – disse, caminhando até um corredor escuro.
Shibushi respirou fundo, sentindo que as coisas não estavam ocorrendo do jeito que ele queria. Entretanto, só de pensar no efeito que ninfeto fazia, Shibushi achou que valia a pena correr o risco. Aliás, não podia ir embora agora, seria um insulto e com certeza sairia de lá num caixão.
Eles caminhavam por um corredor escuro e estreito que cheirava a mofo. Lobão deixou seu cigarro na boca, enquanto abria uma porta de metal. Ele entrou e chamou Shibushi.
Os olhos de Shibushi observaram uma sala diferente do ambiente que estava. Era um quarto iluminado, com uma janela no teto que podia regular com um controle remoto. Havia um sofá de couro branco pegando metade do quarto, duas mesas de metal inox e um grande armário do mesmo material.
- Sente-se – pediu, colocando a garrafa numa mesa. Lobão abriu o armário, pegando um cilindro prateado.
- O que é isso? – indagou, ao sentar-ser no sofá.
- Ninfeto líquido, injetável. Ótimo, o melhor – disse – aliás, eu só vendo o melhor.
- Sempre fazendo propaganda – disse, Shibushi.
- Esse é o mais popular e é muito rápido. Mas acho que você precisa de algumas doses diárias para se acostumar – disse.
- E vai me vender às doses diárias? – indagou.
- Se você vier aqui todos os dias, eu te dou com o maior prazer – disse, com um sorriso sacana nos lábios.
O traficante aproximou-se de Shibushi, sentando-se do seu lado com uma seringa descartável e um fio de borracha. O loiro ficou receoso, mas não podia voltar mais atrás. Seu coração batia cada vez mais rápido, ansioso.
- Me dê seu braço – pediu, mas antes que Shibushi se movesse, seu braço foi puxado e o fio de borracha foi enrolado na parte superior.
Shibushi observava com atenção o que o traficante fazia. Quando ele colocou aquele líquido avermelhado no corpo da seringa, Shibushi fechou os olhos.
O rapaz sorriu, e empurrou o peito de Shibushi para trás, fazendo com que ele encostasse no sofá, para relaxar. Aos poucos foi inserindo a agulha no seu braço, e injetando delicadamente o líquido. Shibushi franziu o rosto ao sentir sua veia queimar, mas não produziu nenhum som.
Quando terminou, lobão jogou a seringa num cesto de lixo qualquer e foi até a mesa, pegando sua garrafa de vodka, sorvendo alguns goles. Ele ficou olhando para Shibushi que estava com os olhos fechados.
- Quanto seria isso, lobão? – indagou Shibushi.
- Já disse seu preço, já concordou. Já pego o pagamento – disse, secamente, não abrindo margem para nenhuma negociação posterior – e me chame pelo meu nome Crawford. Eu lhe dou permissão.
- Hum... – resmungou, deixando-se levar pela química.
Minutos passaram-se e Shibushi achou que seu corpo estava flutuando. Sua mente estava vagando por um mundo onde nada o preocupava, ele ouvia a voz distante de crawford, mas não lhe dava atenção. Ele sentiu-se ser puxado e jogado no sofá, mas não conseguiu raciocinar, ao abrir os olhos observou a bela face de crawford e antes que pudesse perguntar o que ele ia fazer, um beijo devorador fechou-se na sua boca.
Shibushi sentia-se estranho, seu corpo movia-se contra sua vontade. Sentiu frio quando suas roupas foram tiradas, mas não se importou de ficar nas mãos daquele traficante, pelo menos se sentia desejado e não queria criar sentimentos com mais ninguém.
“Viver é a coisa
mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”.
(Oscar Wilde)
Na padaria mais famosa de Rondon, Ryori e Yuy estavam terminando seu café. O casal estava há horas naquele lugar, conversando e recebendo o melhor serviço que poderiam, afinal, estar com Ryori era sinônimo de conforto.
Pela primeira vez depois de todo esse tumulto, Yuy ria com seu namorado, divertindo-se e voltando a amar ficar com Ryori. O ruivo estava contente com a alegria do moreno e fazia de tudo para que o dia continuasse perfeito.
No meio da conversa o telefone do ruivo toca, mas ele não deu atenção.
- Atende, Ryori. Pode ser importante – pediu Yuy.
- Hum... – Ryori olhou para o celular – é o KAtsu. Serviço com certeza.
- Atende logo – pediu.
O ruivo atendeu ao celular, contrariado.
- Nako, pode falar?
- É importante?
- Ah, talvez.
- Como assim talvez? – vociferou.
- Shibushi.
- O que tem ele? – indagou, mudando seu tom de voz e sua feição.
- Entrou no lobão.
- Ok. Cuide dele se precisar – disse, encerrando a ligação.
Yuy ficou olhando para Ryori, com atenção. O ruivo havia mudado sua expressão de brava para preocupada.
- O que foi? – indagou – algum problema?
- Acho que Ruk e Shibushi devem ter terminado – disse.
- Hum, seu homem ligou para isso? – indagou, dando uma forte entonação para a palavra “homem”, caçoando do ruivo.
- Ah, ele deve estar se drogando – disse.
- Shibushi?!
- Sim, ele fazia sempre. Mas tinha parado – comentou.
- E como o seu homem o viu entrando lá? – indagou.
- Porque eu os deixo na porta de outros traficantes, para observarem as coisas – disse.
- Nada passa por você, senhor Nako – disse, sorridente.
O ruivo não disse nada, estava começando a ficar preocupado. No entanto, tentou não aparentar, pois não queria estragar seu dia com Yuy. Os dois resolveram sair da padaria antes que eles perguntassem se eles iam querer almoçar lá também.
- Vai fazer o que agora? – indagou Yuy.
- Te levar para casa – disse.
- Não, eu vou visitar meus amigos. Deixe-me aqui – disse – pode ir indo resolver seus negócios.
Ryori irritou-se com o descaso do seu namorado. Estava tentando passar o dia com ele, e Yuy o ficava empurrando para o trabalho.
- Eu te levo. Vou para casa também – disse.
- Eu quero ver meus amigos – disse – por que não me leva até eles e faz um social?
- Aquela menina? – indagou, contrariado.
- Ah, é... pois é – disse sem jeito.
- Se não quiser ver uma bala na testa dela, diga para ela não o agarrar mais – disse.
- Que violência, Ryori – disse, dando um soco de leve em seu braço.
- Eu até que estou reagindo bem a isso. Deveria ter ido socá-la já – disse.
- Eu até que estou reagindo bem a isso. Deveria ter ido até Shibushi e o sacado já! – disse o moreno, com o mesmo tom de voz.
Os dois se olharam de canto e depois sorriram, deixando a irritação e o ciúme passar. Eles entraram no carro e foram direto para casa, Ryori ignorou qualquer tentativa de ser convencido a visitar os amigos do seu amado namorado.
Quando chegaram em casa, Yuy retirou seu tênis e o pegou com as mãos, dirigindo-se até o quarto. Estava com a barriga cheia e um pouco sonolento, quando chegou no quarto, retirou sua calça jeans e pegou um short preto de algodão. Ele retirou sua camiseta e ficou com o tronco desnudo.
- Vai tomar seu remédio? – indagou Ryori, entrando no quarto.
- Daqui uma hora – disse.
O ruivo retirou seu tênis e sua camiseta, ficando apenas com sua calça jeans. Yuy não ficou muito tempo no quarto, ele foi para sala, ligando o rádio, colocando um rock pesado. O vocal parecia um ruído de caminhão e os instrumentos pareciam estar sendo destruídos.
- Coisa horrível – gritou Ryori do quarto.
Yuy ignorou, ele deitou-se no sofá e ficou ouvindo o som, divertindo-se sozinho. Seus olhos estavam fechados, ele balançava a cabeça para um lado e para o outro e seus dedos faziam um solo de guitarra sempre que chegava no refrão.
O ruivo apareceu na sala baixando o volume daquele som que lhe dava arrepios. Ryori até gostava de rock, mas não dos atuais.
- Hei! – gritou Yuy.
- Não reclame. Isso me irrita – disse.
- Hum... – resmungou.
O ruivo sentou-se no sofá, puxando a cabeça de Yuy. O moreno abriu sendo olhos, exibindo seu belíssimo azul cobalto para Ryori, que suspirou e abaixou-se para beijá-lo.
Yuy sentou-se no sofá para conseguir beijar melhor seu ruivo, mas mesmo assim continuava torto e suas costas estavam viradas e seu pescoço começava a doer. Para resolver a situação, Ryori o puxou para que se sentasse em seu colo. No colo de Ryori podia ter mais visão e mobilidade, Yuy passava sua mão pelas costas do ruivo, deixando marcas na sua pele esbranquiçada.
A respiração de Ryori começou a ficar alterada com o passar dos segundos. Ele sentia um aperto no meio de suas pernas e Yuy o estava esmagando.
Com uma mão Ryori abriu o zíper da sua calça, desafogando seu membro. Yuy apenas olhou para baixo, vendo como Ryori ficou excitado tão rápido. Ele sorriu de canto e mordiscou o lóbulo da orelha de Ryori. O ruivo abriu a boca para buscar mais ar e num impulso, jogou Yuy no sofá, subindo em cima dele.
- Sentia falta disso? – indagou Ryori.
- Sim – sussurrou, ofegante.
- Vamos tirar o atraso então.
Os fios de cabelo da nunca do moreno foram fechados na mão de Ryori, ele puxou o moreno na sua direção, devorando sua boca, empurrando sua língua grosseiramente. Yuy soltou um gemido, pedindo por ar, mas não obteve o que queria, pois Ryori continuou com o beijo até que resolveu descer sua língua pela pele de Ryori, mordendo-o.
- Ryori!! Você está muito empolgado – disse, ofegante – pára de me morder assim!
O ruivo não respondeu, ele desceu sua língua pelo corpo de Yuy, lambendo seu peito. Suas mãos massagearam as coxas grossas de Yuy, apertando-as, para depois tentar arrancar aquele short preto, que não durou muito no lugar, pois logo estava estirado no chão da sala, como se fosse um pano de chão qualquer, juntamente com a cueca do moreno.
O membro de Yuy roçava contra o tecido jeans, machucando-o. Yuy desceu suas mãos até a calça de Ryori, puxando sua calça para trás, o ruivo o ajudou a retirar sua roupa. Quando as retirou, jogou-as no chão somando as outras duas peças.
Os dedos de Yuy deslizaram pelas costas de Ryori, tocando nas suas nádegas, apertando-as. Ele acariciou a região com atenção, dirigindo seus dedos para o meio das nádegas de Ryori, que parou de beijá-lo imediatamente.
- O que está fazendo? – indagou o ruivo.
- Me Deixe por uma vez – pediu.
- Não, nunca! – disse, irritado.
- Por favor – insistiu.
- Não. Não estrague tudo, Yuy – disse.
- Mas eu quero.
- Não vou te dar.
- Dá pra mim.
- Não!
Antes de Yuy insistir, Ryori o calou com um beijo forte. Ele foi abrindo as pernas de Yuy lentamente, visualizando a região que tanto o chamava atenção. Ryori inclinou-se e beijou a barriga do moreno, sentindo como estava ficando durinha com o passar do tempo, tinha que se lembrar de colocar Yuy novamente na academia.
A língua de Ryori passou pela virilha de Yuy para depois tocar no seu membro. O ruivo colocou o membro na boca, sentindo como estava duro e que à medida que o chupava o membro do moreno ia crescer, até que atingiu seu tamanho máximo.
Yuy jogou sua cabeça para trás, afundando-a no chão. Ele sentia o seu cheiro que invadia toda a sala. Suas mãos estavam tentando agarrar alguma coisa, mas o sofá de couro não era um tecido que podia ser pego facilmente. Alguns gemidos baixos saíam à medida que Ryori o chupava.
O ruivo parou com o que fazia, ouvindo Yuy resmungar algum palavrão. Ele sorriu, e virou o moreno de costas com um pouco de dificuldade, pois seu namorado não estava participativo nessa tarefa. O corpo de Ryori cobriu o de Yuy, eles ficaram parados por um instante naquela posição, apenas sentindo o calor do outro.
No entanto, Ryori voltou a se mexer. Não conseguia ficar controlado vendo o corpo desnudo de Yuy embaixo do seu, era um desperdício de tempo. Um braço forte e definido do ruivo fechou-se na cintura de Yuy, puxando para cima e na sua direção, colocando-o de quatro.
- Depois quero fazer isso com você – sussurrou Yuy.
- Só nos seus sonhos – disse o ruivo.
Com uma mão, Ryori afastou uma das nádegas, olhando atentamente para aquele buraco que tanto lhe chamava a atenção. Aos poucos foi colocando seu membro, sentindo como estava difícil a penetração.
- Isso é porque não fizemos a semana toda – disse Ryori – você tem que dar para mim todos os dias.
- Hum, que boa sugestão – disse, fechando os olhos em seguida, ao sentir a pressão que Ryori fazia contra seu corpo.
O cenho de Ryori estava franzido, ele estava com os olhos fechamos e movia seu corpo de encontro ao de Yuy aos poucos, tentando diminuir a dor do moreno. Ele começou a entrar e sair lentamente, fazendo a cabeça do seu membro pedir mais espaço cada vez que entrava, e aos poucos, entrou inteiro. Os dois ficaram parados, sentindo suas próprias respirações. Ryori inclinou-se para frente beijando as costas de Yuy, acariciando-as em seguida, como se estivesse pedindo permissão para começar a se mover.
Yuy moveu seu corpo para trás, pedindo para que Ryori começasse. O ruivo não esperou pedir duas vezes, ele começou a mover-se lentamente, retirava seu membro e depois o colocava devagar, observando a cena com atenção. Parecia que Ryori estava perdido em seus pensamentos, concentrado no que fazia.
No entanto, Yuy estava impaciente. Ele queria mais atrito e não entendia qual era o problema do seu namorado, ele olhou para trás vendo que Ryori olhava para baixo com atenção, como se fosse uma criança vendo alguma coisa.
O moreno engatinhou para frente, fazendo o membro de Ryori escapar. O ruivo acordou do seu transe ao ver que seu brinquedinho havia se afastado dele. Yuy sentou-se no sofá e o encarou sem entender, irritando-se.
- “Ele está pensando em outra coisa enquanto faz sexo comigo” – pensou Yuy – “mas que merda, Ryori”.
- Por que saiu? – indagou o ruivo.
- Nada – disse – perdi a vontade.
O ruivo arregalou os olhos, não entendendo o que havia acontecido. Quando Yuy se levantou, Ryori fez o mesmo, caminhando até ele, puxando-o com certa agressividade.
Yuy olhou nos olhos claros e límpidos de Ryori, vendo se buscava alguma resposta, mas não teve. Ao contrário disso, foi empurrado novamente para o sofá, caindo sentado.
- Vamos terminar – disse o ruivo.
Ryori o puxou e o virou novamente, fazendo Yuy ficar de joelhos no sofá com o corpo virado para o encosto do sofá. O ruivo ficou atrás de Yuy e o abraçou, e sem aviso o penetrou, empurrando a cintura de Yuy para baixo. O moreno gemeu alto ao sentir a investida mais agressiva de Ryori.
- Assim melhorou? – indagou Ryori, enquanto o penetrava rapidamente.
Yuy não disse nada, não ia deixar-se ser provocado e no momento queria tentar acalmar seu corpo que tremia e doía com as investidas. Os lábios secos de Yuy abriram-se buscando mais ar, sua cabeça ia para cima e para baixo, não conseguia parar os movimentos de Ryori, pois este era superior a ele.
- Ry...Ryori.
- Hum?
- De... devagar – pediu.
- Para... você sair de... novo? – indagou, dando uma estocada mais funda.
Yuy gritou, desabando, encostando sua cabeça no encosto do sofá. Sua respiração estava tão forte que não conseguiu conter os gemidos. Ryori continuava no seu ritmo alucinante, quando viu que Yuy estava quase desmoronando, sua mão foi até o membro do moreno, começando a massageá-lo.
O calor do corpo de Ryori, seu cheiro, seu hálito, suas atitudes estavam deixando Yuy cada vez mais louco. O moreno sentia uma onda de prazer correr por seu corpo, deixando-o num êxtase profundo.
Algumas gotas começaram a sair da cabeça do membro de Yuy. O ruivo continuava a masturbá-lo, sentindo que sua mão deslizava melhor com o sêmen que ia saindo. Aos poucos o volume de sêmen foi aumentando e Yuy gozou, gemendo algo, contraindo seu corpo.
Ryori levou a sua mão até seu nariz, aspirando o cheiro forte de Yuy. Depois voltou ao que estava fazendo, pois acabou se distraindo novamente. O lento vai-e-vem voltou, Ryori procurava seu próprio prazer. Ora entrava mais devagar, ora entrava com força, ora rápido, ora devagar. E ia se esfregando naquele corpo que tão desejava.
A boca de Ryori deslizou pelas costas de Yuy, beijando-o. Na aproximação do seu orgasmo, Ryori mordeu o ombro de Yuy, fazendo o moreno gritar ao mesmo tempo em que recebia o sêmen de Ryori dentro dele.
O ruivo saiu de dentro de Yuy e voltou a colocar seu membro novamente, fazendo um lento vai-e-vem para depois retirar seu membro de vez. Ele sentou-se no sofá e puxou o moreno deitando-o no seu colo.
Ambos ficaram em silêncio, esperando que seus corpos acalmassem. As batidas de seus corações estavam se acalmando aos poucos. Yuy fechou os olhos e apoiou sua cabeça no ombro de Ryori, sentindo as caricias de Ryori na sua cabeça.
- Ryori...
- Hum?
- Eu... Te Amo– sussurrou.
Um sorriso desenhou-se nos lábios de Ryori. Ele afundou sua cabeça na curva do pescoço de Yuy e algumas lágrimas caíram por seus olhos. Yuy as sentiu quando escorreu por seus ombros, mas não disse nada. Abraçou Ryori com mais intensidade e não disse mais nada.
Alguns minutos se passaram. Ryori conseguiu fazer seu corpo parar de produzir lágrimas, ele deu um beijo na bochecha de Yuy e se afastou, caminhando até o quarto. O moreno ficou deitado no sofá, com as mãos atrás da cabeça, respirando tranqüilamente.
O moreno vestiu sua cueca e seu short preto. Ele caminhou até o seu celular e ficou pensando se ligava pare Rebeca. Afinal, havia sumido por muito tempo.
- “Acho que não seria justo com Ryori. Mas tenho que dar satisfação” – pensou.
Ele começou a discar o número e sentou-se no sofá, jogando seus cabelos suados para trás. Quando Rebeca atendeu ao telefone, Yuy a cumprimentou:
- Olá, Rebeca.
- Yuy! Como você está? Por que sumiu? Você está bem? Tente ligar para você.
- Ah, calma. Uma pergunta de cada vez – disse, com um sorriso nervoso. Olhando toda hora para o corredor, caso Ryori aparecesse.
- Onde estava? – indagou, com uma voz brava.
- Eu e Ryori brigamos, aí... – parou de falar, pensando se contava a verdade.
- E aí? Ele te machucou Yuy? Conta para mim. Podemos ir na polícia reclamar! – disse desesperada.
Yuy riu baixinho achando muito divertido imaginar a polícia prendendo Ryori. Afinal, muitos policiais eram subornados e recebiam salários fixos do tráfico de drogas.
- Não. Ele não me machucou. Estamos bem. Só queria avisar.
- Ah, eu não acredito em você.
- Eu tenho que desligar. Só queria agradecer.
- Não desligue. Vamos nos encontrar!
- Não – disse, desesperado.
- Eu vou até sua casa então!
- Não vai não.
- Vou, e com a polícia.
- Não. Não vai. Eu estou bem, pare de ser neurótica!
- Eu não sou neurótica. Vamos ver, ele foi o motivo por você ter sumido? Não minta!
- Er... sim. Mas já estamos bem.
- E se ele resolver te machucar de novo? O que vai fazer?
- Morrer – sussurrou.
- Eu vou passar aí!
- Não!
- Vou, tchau! – disse, encerrando a ligação.
Yuy ficou olhando para o seu celular, não acreditando no que Rebeca havia lhe dito. Um frio correu pela espinha de Yuy, ele não podia permitir que os dois se encontrassem. Rebeca latia e Ryori mordia, ia ser uma briga e ele seria o único que sairia perdendo.
- Vai ligar para alguém? – indagou Ryori, aparecendo na sala, com uma toalha em volta de seu pescoço. Ele estava usando apenas uma calça de moletom preta, e seus cabelos estavam úmidos. Havia acabado de sair de uma ducha.
- Já liguei – disse, meio receoso.
- Para quem? – indagou, caminhando até a cozinha.
O ruivo abriu a porta da geladeira vendo que havia uma caixa de cerveja long neck. Ryori sorriu e abriu uma com a mão, jogando a tampinha na pia. Yuy entrou na cozinha e encostou-se ao azulejo.
- Liguei para Rebeca – disse.
Ryori olhou de canto para Yuy, com um olhar de poucos amigos.
- Por que ligou? – indagou.
- Porque ela estava preocupada. Tive que dar satisfações – disse.
- Hum.
- E ela vai vim aqui – disse Yuy.
- O que? Aqui? – indagou, sentindo seu sangue ferver.
- Ah, ela acha que você me espancou e quer vim aqui com a polícia – disse, sentindo-se constrangido.
- O que você disse para ela?
- Nada. Ela que é desconfiada – disse – mas também, ela te conhece Ryori. Imaginou que você me fez algo. E você realmente fez.
- Vai ficar jogando na minha cara agora?
- Não, não vou – disse, sério – agora quero você calmo.
Ryori saiu da cozinha, esbarrando seu ombro no de Yuy. O ruivo sentou-se no sofá da sala e ligou a televisão.
- Eu vou falar com ela quando ela aparece. Tudo vai ficar bem – disse.
Ryori não disse nada, ele continuou a assistir a um filme qualquer, enquanto tomava sua cerveja.
A tarde estava chegando. O sol estava forte e o céu começava a ficar alaranjado. Os raios fortes atrapalhavam a visão de Ryori, pois a tela da televisão começava a brilhar. Ele levantou-se e fechou a cortina da varanda e voltou a se sentar.
Yuy estava na cozinha pensando no que poderia fazer nada comer no jantar. Ele olhava para um pacote de macarrão e para uma lata de molho. O moreno achou uma comida muito simples, mas era uma das favoritas de Ryori. Ele colocou a água numa panela e levou ao fogo, estava distraído com o que estava fazendo, tão distraído que não ouviu o interfone tocar.
Na sala, Ryori atendeu ao interfone, falando com o novo porteiro que parecia nervoso.
- Uma garota? – indagou Ryori.
- Sim, senhor Nako.
- Eu já vou descer – disse, encerrando a ligação.
Ryori saiu da sala sem dizer nada. Ele estava usando um chinelo preto e apenas uma calça de moletom. Quando chegou ao hall de entrada, encontrou uma garota de longos cabelos castanhos. Ela estava sentada no sofá e parecia impaciente.
O ruivo caminhou até ela, exibindo um olhar frio e assassino. Rebeca levantou-se com a aproximação do ruivo, antes que ela pudesse falar alguma coisa, Ryori fechou sua mão em seu pescoço, apertando-o sem dó.
- Melhor sumir – disse o ruivo, jogando-a na parede com violência.
- O que... que fez com Yuy? – indagou, levantando-se.
- Que inconveniente.
- O que fez? Diga ou eu vou chamar a polícia! – disse, olhando nos olhos de Ryori, desafiando-o.
A mão de Ryori fechou-se nos cabelos de Rebeca e ele a arrastou por todo o hall de entrada, fazendo o porteiro se esconder atrás de um pilar, com medo que Ryori o atacasse também. O ruivo abriu a porta do prédio e quando chegou na calçada, desferiu um soco no rosto da garota, que acabou se desequilibrando e caindo no chão.
- Tem uma semana para sair da minha cidade. Daqui uma semana irei pedir para alguns homens passarem na sua casa. Azar o seu se estiver lá. Ou na cidade – disse Ryori, virando-se de costas.
A garota ficou jogada no asfalto frio, sentindo seu rosto arder. Ela tocou na sua boca, vendo que havia perdido um dente com a violência, seus olhos foram se fechando aos poucos até perder sua consciência.
Ryori voltou para o apartamento, sentando-se no sofá da sala, tranqüilamente, voltando a assistir televisão.
- Ryori, onde estava? – indagou Yuy, aparecendo na sala.
- Desci para pegar uma informação – disse.
- Desceu? Hum... era importante. Sobre Shibushi?
- Ah, sim. Parece que ele voltou a se drogar realmente. Tenho que ir falar com ele – disse, secamente.
- Vai lá. Ele precisa de um amigo – disse, com um sorriso no rosto, voltando para cozinha.
O ruivo sorriu, desligando a televisão e indo até a cozinha. Ele sentou-se na cadeira de metal e ficou conversando sobre banalidade com Yuy, que sorria e fazia algumas piadas, enquanto cozinhava.
Num bairro próximo, o céu estava começando a ficar mais escuro. Shibushi estava encostado numa parede de pedra toda rabiscada e cheia de papéis colados de propagandas. Ele estava com os olhos vermelhos e sentia-se tonto.
- “Preciso ir para casa” – pensou.
Seu corpo moveu-se sem que percebesse, o loiro caminhou, tocando na parede para que ela lhe desse algum apoio. Quando chegou até seu carro, entrou e se trancou. Ele encostou sua cabeça no volante do carro e ficou parado.
Um toque no vidro chamou a atenção de Shibushi, ele olhou para o lado vendo um homem usando um par de óculos escuros. O loiro resolveu ignorá-lo.
- Shibushi, abra o vidro – disse o homem.
- Não – resmungou.
- Não deveria estar aqui – disse.
- E quem manda em mim? – indagou, irritado.
- Sou empregado de Nako. Abra – disse, mostrando-se impaciente.
- Dá um recado para ele, por mim?
- O que?
- Manda ele pro inferno! – disse, ligando seu carro e acelerando em seguida. Saindo rapidamente dali, quase arrastando o homem que estava encostado no seu vidro.
O homem ficou olhando para o carro que se afastava. Ele pegou o seu celular e ligou para o seu chefe.
Shibushi virava as esquinas como se a rua fosse mão única, ignorando os carros que se desviavam dele. Felizmente ele chegou em casa sem muitas conseqüências.
O loiro entrou na sua casa, ouvindo os latidos de Nero. Ele olhou para o lado, vendo que seu cachorro estava deitado nas almofadas, ele estranhou. Por mais drogado que estava, lembrava-se de ter colocado Nero no quintal de trás. O loiro caminhou até a cozinha, vendo que a porta estava aberta.
- Quem raios está aí? – indagou.
- Eu.
O loiro olhou para o lado vendo ninguém mais, ninguém menos que seu querido namorado Ruk. Ele estava encostado na parede, perto do rádio. Shibushi nem o havia visto quando entrou, por estar muito drogado.
- Ah, você... – disse, sem emoção.
Shibushi saiu da cozinha, caminhando até seu quarto, sendo seguido por Ruk. Quando Shibushi viu sua cama, sentiu uma vontade imensa de ir dormir, e não se segurou. Ele retirou suas sandálias e jogou-se na cama, abraçando um pássaro de pelúcia que Ryori havia lhe dado há muito tempo atrás.
- O que você fez, Shibushi? – indagou Ruk, sentando-se numa poltrona que ficava no quarto.
O loiro ouviu a voz de Ruk ao longe, não entendendo o que ele havia lhe perguntando. De repente, o loiro sentou-se e percebeu que não era uma alucinação, Ruk estava realmente ali.
- Ah, Ruk?
- Agora que me notou?
Shibushi forçou sua visão, vendo que Ruk estava com o cabelo molhado e usava um jeans e uma camiseta simples. O olhar de Shibushi se concentrou na sereia que ele tinha tatuado no braço.
- Achou mamãe e papai? – indagou, provocante.
- Sim – disse – estão mortos.
- Revirou seu passado?
- Sim, mas estou de volta – disse – e triste por te ver assim.
- Não ligue – disse, tossindo – sempre fui assim. Agora vá embora.
- Essa casa é minha também – disse – e eu quero ficar com você.
- Disse que não me amava.
- Disse para você me esquecer por esse tempo. Não queria te preocupar – disse, levantando-se da poltrona, sentando-se na beira da cama.
- Eu pensei muito. Melhor nos separarmos – disse.
- Conversamos amanhã – disse, acariciando o rosto do loiro, sentindo pena do seu estado.
Shibushi não disse nada, ele fechou os olhos e dormiu. Ruk deitou-se ao sue lado e acabou dormindo também.
A tarde passou num rápido suspiro e a noite se exibiu pela cidade. Os vento estavam mais fortes e uma fina garoa caía pela cidade. Ao longe no horizonte o céu estava um pouco mais claro, mostrando que uma tempestade havia pegado aquela região.
As pálpebras de Shibushi abriram-se lentamente quando ouviu um som forte de janela batendo. Ele olhou para seu relógio que ficava em cima da cômoda e viu que eram duas da manhã.
- Ruk? – assustou-se ao ver o homem dormindo ao seu lado.
O loiro sentou-se na cama, retirando o braço que pendia na sua cintura, observando a face séria do seu namorado. Num lapso, Shibushi agarrou o cabelo do ex-soldado, acordando-o abruptamente.
- Hei! – Ruk gritou, afastando-se.
- O que faz aqui, seu cretino? – gritou. Avançando em Ruk que segurou o loiro pelos pulsos.
- Calma, sou eu, Ruk!
- É com você mesmo que estou falando – gritou – por que voltou?
- Porque eu te amo!
- Não ama. Disse que não amava!
- Eu disse para você não se preocupar comigo!
- NÃO QUERO MAIS TE VER. SOME! – gritou.
- Você está muito alterado, eu vou sair do quarto – disse, soltando os pulsos de Shibushi com delicadeza e saindo da cama de ré, olhando a todo instante para o rosto avermelhado do loiro, vendo a raiva estampada na sua face.
O loiro saiu do quarto, indo atrás de Ruk. Ele olhou para um vaso que estava em cima de uma mesinha e sem pensar duas vezes atacou na direção de Ruk, acertando suas costas. O ex-soldado ficou indignado com aquela atitude, mas não fez nada. Ele pegou a chave do seu carro e saiu descalço de casa.
Shibushi foi até a porta para ter certeza que ele estava indo embora. Quando o viu entrando no carro, sentiu seu coração apertar, mas conteve-se, não podia ser mole como antes.
- E JOGUE AS CHAVES DESTA CASA FORA – gritou, entrando na casa novamente.
Quando fechou a porta, Shibushi encostou-se a ela e desabou, caindo no chão, abraçando seu próprio corpo enquanto chorava. Nero aproximou-se dele, sentando-se ao seu lado, encostando sua cabeça peluda no seu colo, ficando em silêncio.
- Eu mereço respeito. Não é, Nero? – indagou, olhando para o cachorro que levantou suas orelhas ao ouvir seu nome.
E naquela posição, Shibushi acabou pegando no sono novamente, ouvindo a chuva bater com violência contra a casa.
“Aja antes de
falar e, portanto, fale de acordo com os seus actos”.
(Confúcio)
A manhã começou acinzentada. O céu estava carregado de nuvens cinzas e uma chuva forte e estável estava caindo, o clima estava frio e os ventos corriam pelas ruas da cidade.
Shibushi acordou com o som da campainha seguida de duas batidas na porta. Ele nem olhou que era, sentado ele alcançou a fechadura e abriu a porta, olhando para um homem molhado e irritado.
- Que tipo de recado é aquele? – indagou Ryori, adentrando na casa. Sendo recebido calorosamente por Nero, que pulou em cima do ruivo, lambendo sua mão.
- Que recado? – indagou, sem entender.
- Ontem. O recado que você deu ao meu homem – disse, fechando a porta.
- Ah... recado? – indagou, forçando sua mente, mas não lembrava de muita coisa. Ele lembrava de um homem lhe enchendo o saco no carro, mas não se lembrava de ter dito alguma coisa.
Ryori revirou os olhos, achando melhor deixar isso de lado, afinal Shibushi estava muito drogado. O ruivo deu uma olhada para o apartamento, vendo um vaso quebrado no chão, ele afastou Nero e puxou Shibushi num impulso, fazendo o loiro ficar de pé.
- Voltou a se drogar? – indagou, o obvio, levando Shibushi para sentar-se no sofá.
- Ah... não quero falar sobre isso – resmungou.
- Comprou do lobão? – indagou – por que não veio até mim?
- Me venderia? – indagou, com um sorriso esperançoso.
- Não, mas te ajudaria a tentar não entrar nesse mundo – disse.
- Um traficante convencendo um cliente de que drogas não prestam – riu baixinho – hilário Nako, hilário!
O ruivo fechou a cara, ele levantou-se, puxando Shibushi pelo cabelo. Shibushi gritava para ser solto ao mesmo temp que socava e chutava Ryori, o que não surtiu efeito algum. O ruivo o arrastou até o banheiro, ligando o chuveiro e atacando Shibushi embaixo da água morna.
- Acorda – disse Ryori, erguendo a cabeça de Shibushi, para que a água caísse por seu rosto.
O loiro abriu a boca para respirar, ele tentou se afastar, mas não conseguiu, Ryori havia enrolado seu cabelo na sua mão.
- Eu não consigo respirar – resmungou.
- Não vai conseguir respirar mais que isso se voltar a colocar essas merdas no seu corpo – gritou – lembra de como é ter um ataque? Lembra?
- Lembro, lembro – disse, ofegante – agora me solta!
Ryori o soltou, jogando-o no azulejo do banheiro. Shibushi foi escorregando até chegar no chão.
- Tudo isso por causa de um homem? Você tem que parar de ir se drogar todas as vezes que de decepciona – gritou.
- Não foi com você – gritou em seguida, fazendo algumas lágrimas caírem por seu rosto.
O ruivo ficou em silêncio, ele dava razão ao loiro, sabia que não entendia qual era o seu sentimento, mas não podia permitir que ele se destruísse. O coração de Ryori tinha duas pessoas e não abria mão de nenhuma das duas.
As mesmas mãos que jogaram Shibushi naquele lugar o puxaram de volta. Ryori desligou o chuveiro e arrastou Shibushi até seu quarto.
- Arrume-se. Troque de roupa – disse.
O loiro obedeceu, não tinha muita força de vontade. Ele abriu seu armário, pegando uma calça de sarja preta e uma camiseta de manga comprida listrada de preto e vermelho. Ele se trocou na frente de Ryori, que notou algumas marcas vermelhas por seu corpo.
- O que são essas marcas? – indagou, aproximando-se do loiro, que colocava sua cueca.
- Que marcas? – indagou, olhando para onde Ryori olhava, vendo que seus braços, pernas e barriga estavam cheias de marcas vermelhas.
- Essas marcas – disse, apontando para sua barriga e costas.
- Hum, já sei – disse o loiro – preciso de uma toalha.
- Do que são? – indagou Ryori, pegando uma toalha no banheiro, jogando na direção do loiro, que a pegou, começando a secar-se. Quando terminou de secar seu corpo, olhou para Ryori que estava ansioso por uma resposta.
- Dormi com alguém – disse, colocando sua calça.
- Você o que? – indagou, ficando indignado.
- Transei, dormi, que seja – disse, vestindo a camiseta.
- Com quem?
- Não te interessa, Nako – resmungou.
- Quem foi?
- Não lembro.
- Ah, lembra sim – disse, avançando no loiro, fechando suas mãos em seus braços.
- Lobão. Feliz agora?
- Por que?
- Porque quis. Céus. Ninguém me forçou – disse, abaixando a cabeça. Estava começando a ficar constrangido.
- E Ruk?
- Ele veio aqui ontem, mas o expulsei.
- Por que fez isso? Não o ama?
- Porque cansei de ser um brinquedinho. Quando ele me quer ele vem correndo, quando não quer, diz que não me ama e manda eu ir tomar conta da minha vida – desabafou.
- Ele disse que não te amava?
- Sim. Acredita, Nako? Fiquei tão acabado.
O loiro afastou-se das mãos de Ryori, sentando-se na sua cama. Exibindo um olhar triste para o ruivo.
- O que vai fazer? Não vai negar que não gosta dele – indagou, sentando-se na poltrona que ficava no quarto.
- Vou conversar com ele outra hora. Hoje não deu. Eu estava muito irritado – disse.
- Prometa-me que não irá mais se drogar – pediu.
- Vou tentar – disse, não se mostrando esperançoso – e você e Yuy?
- Estamos bem – disse – ontem me livrei daquela garota. Eu acho.
- Como assim, Nako? – indagou, ficando surpreso.
- Ela foi a nossa casa ontem querendo tirar Yuy de mim e me prender – disse, dando uma risada divertida – mandei sair da cidade.
- E se ela não sair? Yuy sabe disso?
- Ele não sabe. Se ela não sair será apenas um cadáver a mais – disse, secamente.
- Se Yuy souber, ele vai brigar com você – disse.
- Passei instruções para ela cortar sua relação com Yuy, hoje. Acho que ela deve ter entendido – disse – espero que ela não vacile, senão...
- Senão?
- Não terá uma morte muito agradável – disse, exibindo um olhar sádico.
Shibushi não disse nada, esse era o jeito de Ryori lidar com seus problemas. Se algo não lhe agradava ele mandava apagar e desse jeito ele tocava sua vida sem aparentar ter nenhum problema.
- Vou falar com Ruk, hoje – disse.
- Sim. E não quero você passeando pelo baixo Dominó – disse, referindo-se onde lobão e seu bando ficavam.
- Sim – disse – até mais.
Ryori levantou-se e saiu do quarto sem dizer mais nada. Ele estava para sair da casa, mas antes resolveu fazer um agrado para Nero que o olhava com uma cara de coitado. Quando o agradou, saiu da casa.
Shibushi pegou seu celular e ligou para Ruk.
- Alô?
- Sou eu. Quero falar com você – disse Shibushi.
- Quando? – indagou Ruk, com uma voz séria.
- Agora, vem aqui – disse.
- Estou indo.
Shibushi encerrou a ligação. Ele levantou-se, pegando sua roupa molhada e indo até o quintal dos fundos, jogando-a no tanque que estava cheio de roupas sujas. Ele tratou de colocar sabão na máquina e colocá-la para funcionar.
Quando saiu do quintal, a campainha tocou.
- Que rápido. Nem deu dez minutos – disse consigo mesmo.
O loiro abriu a porta dando de cara com um par de olhos acinzentados. Ruk adentrou no apartamento, vendo que ele estava do mesmo jeito de quando saiu, ele caminhou até as almofadas e sentou-se, cruzando os braços. Shibushi sentou-se em outra almofada e começou a falar:
- Vamos terminar com isso.
- Sim. Hoje você foi um animal comigo – disse, secamente.
- E vou ser se entrar nessa casa sem bater novamente – disse – não estamos mais juntos. Pode pegar suas coisas e ir procurar um lugar para morar.
- O que? – indagou, desesperado – por que fazer essa burrada? Nos amamos!
- Ah, podemos ficar juntos – disse, tranqüilamente.
- Então o que está me dizendo.
- Não quero nada sério com você. Você na sua casa e eu na minha, nos encontramos às vezes e não temos compromisso – disse, secamente, tentando não desabar.
- Acha que eu vou aceitar isso? – disse, irritado.
- Eu não dei escolha – disse – há não ser que não queira mais ficar comigo sob nenhuma hipótese.
Ruk sentiu seu coração parar uma batida. Ele não estava conhecendo aquele homem a sua frente. Onde estava o amável e compreensivo Shibushi? Ele deu algumas piscadas e tentou assimilar tudo o que ouvia.
- Quer ficar comigo? Como esse pessoal faz? – indagou.
- Que bom que entendeu – disse – Ruk, eu gosto muito de você. Eu te amo, mas não posso permitir que me destrua. Quase me destruí ontem.
- Perdão. Por favor, me perdoa! – pediu, suplicante.
- Não. Mas vou perdoar com o tempo. Agora pegue suas coisas e quando quiser me ver, avise para eu ver se tenho tempo para você.
Ruk levantou-se da almofada, indo até Shibushi, colocando sua mão na sua face, sentindo a maciez da sua pele. Ele inclinou-se beijou seus lábios, mas logo foi afastado pelas mãos de Shibushi.
- Eu não quero sair da sua vida – disse.
- Eu também não queria que saísse, mas você saiu. Vai ter que me conquistar novamente.
- Quer dizer que você ficará com outras pessoas? – indagou.
- Sim, se eu tiver vontade.
- Não vou suportar.
- Não? Então saiba que já dormi com um ontem! – disse.
Aquelas palavras foram como facadas para Ruk que ficou sem reação. Ele fechou os olhos e não disse nada.
- Ruk.
- Hum?
- Eu vou sair, almoçar fora. Retire suas coisas até eu chegar. E eu irei vender essa casa – disse – se quiser falar comigo, tem o meu número. E quero te pedir um favor.
- Diga – disse, sentindo que desabaria caso Shibushi falasse mais alguma coisa.
- Já tem um lugar onde ficar?
- Estou num hotel. Por que?
- Só por curiosidade – disse, levantando-se – vou sair. Até!
Shibushi pegou sua carteira, vestiu um tênis de pano que estava jogado pela sala e saiu rapidamente. Caso ficasse ali por mais tempo ia pedir perdão para Ruk e voltar a ser aquela pessoa mole e compreensiva de antes, sempre abrindo margem para ser magoado.
Ruk ficou desolado, ele olhou para a casa com atenção lembrando-se dos bons momentos que havia passado ali. Então resolveu agir, indo até o quarto, pegando suas coisas e jogando numa mala.
- “Eu entendo seus sentimentos. Eu errei com você. Mas irei consertar, pois te amo” – pensou – “eu te amo. E nunca mais te magoarei”.
Duas semanas havia passado desde então. A época da chuva havia passado, dando espaço para dias quentes e noites frias, um clima perfeito para os namorados.
Yuy estava no seu apartamento, jogado no colchão do seu quarto. Seu corpo estava desnudo e Ryori estava em cima dele, beijando-o. Eles haviam acabado de fazer sexo e agora se acariciavam.
- Eu estou triste Ryori – disse Yuy, entre um beijo.
- O que houve? – indagou o ruivo, preocupando-se.
- Rebeca me falou um monte de besteiras. Ela foi tão egoísta. E depois sumiu – disse – eu fiquei tão chateado. Ela disse que queria apenas ficar comigo uma vez para provar que podia me conquistar.
- Ah, viu como ela não prestava? – indagou Ryori, dando uma risada divertida.
- Não ria. Eu fiquei realmente triste – disse.
- Desculpe-me – pediu, deixando apenas um sorriso estampado no seu rosto. Mal Yuy sabia que Ryori havia obrigado a garota a fazer isso.
O ruivo saiu de cima do seu namorado e sentou-se na cama. Ele pegou um cigarro do seu maço e o acendeu.
- Cheiro horrível – reclamou.
- Quer?
- Não, tira isso daqui.
- Hum, onde ele for eu vou também – disse.
- Então o deixe aqui. Chantagista! – disse, emburrado – e quanto ao Shibushi. Ele se resolveu com Ruk? – indagou em seguida.
- Eles estão “ficando” – disse – sem compromisso algum.
- Que regressão! – exclamou o moreno – Ruk deve estar sofrendo.
- Sim, mas a culpa foi toda dele. Vamos ver se ele toma jeito – disse.
- Tomará, senão vou ter que voltar a odiar aquele cara – disse.
Ryori deu uma tragada no seu cigarro e olhou para o moreno sem entender.
- O que quer dizer? Pensei que tivessem ficado amiguinhos – comentou.
- Amiguinhos? Acho que nunca seremos – disse – mas eu fiquei sensível por ele. Apenas isso. Agora tenho que vigiá-lo para que não venha se coçar em você. E você Ryori, se deixar ele te tocar, eu juro que eu te tranco para sempre numa gaiola! – completou, dando um soco na sua própria mão.
Ryori apenas o olhou de canto, com um sorriso divertido no rosto. Ele soltou uma leve risada e depois voltou a fumar seu cigarro, sem deixar de observar os músculos de Yuy.
- Hei, quando vai voltar para a academia?
- Amanhã mesmo – disse Yuy – Por que a pergunta? – indagou em seguida.
- Nada. Curiosidade – murmurou.
- Eu vou procurar emprego amanhã – comentou.
- Não vai não – disse Ryori, irritando-se.
- Vou sim.
- Não vai! Não quero. Você não vai. Não vamos brigar novamente, se você arranjar um emprego eu faço o seu patrão te demitir no primeiro dia! – disse, mostrando-se irredutível.
Yuy suspirou, ele olhou para seus pés e depois olhou para o teto do apartamento. Achou melhor deixar esse assunto para outra hora, pois esse mês estava muito conturbado.
- E o gato-aranha? – indagou, mudando de assunto.
- Foram varridos. Alguns foram para outra cidade, pedi para que fossem atrás.
- E os laboratórios?
- Retirei 14 do mapa, o último está difícil de conseguir. Tem muita burocracia – comentou.
- Burocracia? Você preocupado com burocracia? – riu alto – eu nunca pensei que ia ouvir isso na minha vida.
- Eu tenho aliados, acho bom manter as relações – murmurou, voltando saborear seu cigarro.
- Certo. Pede para um dos seus homens explodir, assim seria um ato de vandalismo! Não iam desconfiar de você!
- Ah, claro. Ninguém desconfiaria – disse de modo cínico.
- Estou brincando – disse Yuy, dando uma leve mordida no braço de Ryori, deixando as marcas de seu dente.
- Yuy... eu vi uma casa. Queria te mostrar hoje – disse.
O moreno parou com as mordidas e deu toda sua atenção ao ruivo, e de repente um sorriso maravilhoso desenhou-se na face do moreno. Ryori abriu a boca, perdendo-se naquele encanto, mas voltou a realidade ao sentir seu cigarro lhe queimar os dedos.
- Vou me trocar – disse.
Yuy levantou-se num pulo exibindo suas nádegas brancas, ele foi até seu armário, colocando uma cueca, um jeans velho e rasgado e uma camiseta vermelha. Ele já calçou um par de tênis cano alto que ficou por fora da calça e correu até o banheiro.
- Que pressa! – comentou Ryori, apagando seu cigarro no cinzeiro.
O ruivo levantou-se e caminhou até seu armário, colocando um jeans preto e uma camiseta da mesma cor. Ele calçou um par de botas de couro preta que chegavam até o meio de suas canelas, onde havia três grandes fivelas de prata para ajustar a bota. Ele prendeu seus cabelos num baixo rabo de cabelo deixando sua franja cair por seus olhos.
Yuy saiu do banheiro e puxou Ryori pela mão, arrastando-o para fora do quarto, literalmente. Chegando na sala, ele pegou a chave do carro e suas carteiras.
- Calma, Yuy – pediu Ryori, vendo que seu maço de cigarros foi deixado para trás.
- Ah, deixe a nicotina!
- Eu sou viciado – reclamou, tentando voltar ao apartamento, mas Yuy o puxava.
- Ela mata!
- Todo mundo morre, Yuy – disse.
- Ela causa impotência! – gritou.
Ryori parou de tentar voltar ao apartamento e encarou Yuy por um tempo. O ruivo fechou a porta do apartamento e entrou no elevador.
- “Acho que isso o preocupou” – pensou Yuy.
- “Pegou meu ponto fraco. Pirralho” – pensou Ryori.
Os dois saíram do prédio em alta velocidade. Yuy não estava se importando com a velocidade do veículo desta vez. Apenas queria ver a casa.
O bairro nobre foi deixado de lado para um de classe média. Yuy observou que havia metrô perto, um terminal de ônibus, trem para o interior. Havia um bom comércio nas redondezas e muitas casas. Ryori adentrou numa rua arborizada, onde havia casas feias e bonitas. Mas todas as casas eram grandes.
O carro parou na frente de uma casa velha, com a pintura caindo aos pedaços. O terreno era enorme e o mato estava tomando conta do lugar. E o melhor de tudo era que as casas vizinhas não eram muito perto uma da outra, assim não teria problema com barulho.
- Temos derrubar e construir outra – disse Ryori.
- Amei – disse o moreno, saindo do carro.
Yuy correu até o portou de metal, ele tocou na parede, fechando os olhos e lembrando-se da vida que levava com seu pai no interior. Então ele olhou para Ryori que estava encostado no capô do carro e disse:
- Gostei dela!
- Então, ela é sua – disse Ryori.
Um lindo sorriso foi dado a Ryori em troca. O ruivo acabou sorrindo também. Era um novo começo e queria que fosse do jeito de Yuy, pois Ryori não tinha jeito para essas coisas.
Ryori pegou seu celular e começou a se comunicar com a imobiliária. Queria aquela casa o quanto antes e não aceitava recusas. Felizmente, a casa era tão cara e velha que ninguém havia se interessado.
- Vamos, Yuy!
O moreno caminhou até o carro, sem tirar os olhos da casa. Estava distraído e feliz com a novidade, acabou não vendo a pedra no meio do caminho e caiu no chão. Ryori olhou para o lado procurando Yuy, ele saiu do carro e encontrou o moreno estatelado no chão.
- Ah, mas é um desastrado – disse, rindo alto.
Yuy foi se levantando, sentindo suas mãos arderem. Ele olhou as palmas de sua mão, vendo que estavam vermelhas e havia feito um corte na mão direita.
- Isso dói! – resmungou – pára de rir!
- Ok – continuou rindo.
O moreno se arrastou até o carro, sentando-se no banco. Ryori aproximou e o beijou na boca. Depois saíram daquele lugar. Ryori tinha que passar na imobiliária, contratar um arquiteto, buscar mão de obra e materiais.
- Quanto tempo demora para construir? – indagou Yuy, esquecendo-se do tombo.
- Depende. Depois que conversarmos com o arquiteto. Se quiser podemos ir lá agora.
- Conhece algum arquiteto?
- Sim, vários.
- Então vamos.
- Antes temos que ir a imobiliária, depois pegamos a planta do terreno. Temos que levar o arquiteto ao local também. Vai levar o dia inteiro – comentou, dando um longo suspiro.
- Ótimo, ótimo! Vamos levar o dia inteiro também.
Ryori começou a passear pelo bairro para ver se Yuy realmente gostou do lugar, mas pelo visto não havia aparecido nenhum problema, tirando o fato que algumas ruas abaixo existia uma grande casa de prostituição.
- Tem muitos motéis aqui – comentou.
- Sim. Quando quiser ir a um. Diga – disse, dando um sorriso sacana.
O Porsche preto passou por um grande motel que tinha um coração de vidro acima do telhado. A parede era pintada de vermelho vivo e parecia ser bem chique pela sua aparência. O casal não deu muita bola para o lugar, estavam mais interessados e arrumar uma casa decente.
Nesse hotel, entretanto, havia um casal que estava começando a se divertirem. Eram Ruk e Shibushi, os dois resolveram marcar um encontro sem compromisso. Era o segundo da semana, o primeiro encontro foi num bar, onde apenas conversaram e Shibushi acabou indo para casa com o barman, e nesse segundo, Ruk conseguiu tirá-lo de casa e levá-lo a um motel.
- Lugar bonito – disse Shibushi, indo até a suíte.
O quarto era grande ricamente decorado. Havia um espelho no teto do quarto, o chão tinha um carpete vermelho e as parede eram pintadas de branco. Havia uma grande janela onde uma grosa cortina rosa cheia de corações impedia que a luz adentrasse. Havia uma televisão de plasma, ar condicionado e luzes de várias cores.
A suíte agradou bastante a Shibushi. Havia uma grande banheira em forma de coração, uma pia e uma privada, tudo feito de mármore escuro. Um aroma de rosas estava espalhado pelo lugar devido as flores dos vasos e ao incenso.
Ruk estava nervoso, ele olhou a decoração e não deu muita atenção, na verdade queria agradar Shibushi e tentar acabar com essa história de “ficar” para voltarem a ter um compromisso sério. No encontro anterior quase teve um infarto ao ver Shibushi saindo com o barman e dançando com outras pessoas. O ex-soldado estava usando um jeans escuro e uma camisa azul. Ele já havia retirado seu par de tênis e agora olhava para Shibushi.
O loiro queria se jogar na banheira. Não estava desinteressado por Ruk, pelo contrário, não queria mostrar que estava adorando saber que ia dormir com o amor de sua vida. Tinha que torturá-lo para ter respeito e ser valorizado.
Shibushi usava uma calça de pano mais justa, da cor preta e uma camisa de linho aberta no seu peito. Seus cabelos estavam presos numa trança mal feita.
- Que banheira – comentou em voz alta.
- Ah, verdade – disse.
O loiro encheu a banheira com água quente para limpar qualquer coisa que tenha ali. Ele ficou esperando, sentindo o vapor lhe sufocar. O loiro saiu daquela sauna e foi até o quarto, retirando sua camiseta sem dificuldade alguma. Ele a colocou em cima da mesa de mármore com cuidado para não amassar.
Ruk já havia retirado toda sua roupa, menos sua cueca. Shibushi o olhou de canto, sentindo um frio na barriga, mas não mostrou entusiasmo. Ele retirou suas sandálias e voltou à banheira, vendo que estava quase cheia, e quando encheu. Retirou toda a água e voltou a encher com água quente e fria, mas arranjar uma temperatura ideal.
Os pés de Ruk batiam impacientemente no chão. Ele havia se sentado na cama e com um controle remoto ajustava a cor e a intensidade da luz. Ele deixou uma luz azulada bem clara, pois queria olhar bem para o loiro. Com o outro controle remoto ajustou o ar condicionado que estava muito quente.
- Coloque música – pediu Shibushi.
O moreno foi até o som, procurando uma rádio interessante. E essa foi à deixa para Shibushi ficar paquerando-o sem que ele o visse, mas logo se afastou, pois se continuasse a olhar Ruk daquele jeito, seu corpo ia mover-se contra sua vontade e agarrá-lo.
A banheira estava quase cheia, Shibushi fechou as torneiras de prata e retirou sua calça e sua cueca, as jogando em cima da tampa da privada. Ele entrou na banheira, sentindo seus músculos relaxarem ao ter contato com a água quente.
Ruk ouviu um barulho de água e correu até o banheiro, decepcionado ao ver que Shibushi já havia tirado sua roupa e entrado na banheira. Ele retirou sua cueca e entrou também se aproximando do loiro, puxando-o pelo braço. Ruk fez com que Shibushi ficasse deitado no meio de suas pernas, com a cabeça encostada em seu ombro.
- Gostou daqui? – indagou Ruk.
- Sim. Vou vim aqui mais vezes – comentou.
- Você? – indagou, enciumado.
- Sim, eu.
Uma mão desligou pelo peito de Shibushi indo até sua barriga, acariciando-a. Ruk começou a beijar a curva do seu pescoço, sentindo aquele cheiro de ervas que Shibushi tinha. Seus pêlos foram se arrepiando pela expectativa. Não via a hora de possuir aquele corpo novamente.
- Eu estou com fome – comentou Shibushi, fazendo Ruk parar de beijá-lo.
- Eu tenho fome de você – disse o moreno, mordendo seu ombro.
- Não deixe marcas. E estou falando sério – disse – vamos comer algo antes.
- Agora? – indagou, exasperado.
- Sim, agora. Por que? Não quer?
- Se você quiser – disse – pede o que quiser, eu pago.
O loiro sorriu de canto, voltando a apoiar a cabeça no ombro de Ruk, permitindo que o moreno lhe beijasse. Mas não ficou ali muito tempo ou então Ruk ia lhe agarrar. Conhecia os limites do seu ex-namorado, afinal, viveram anos juntos.
Ele levantou-se, sendo olhado por Ruk que sentiu seu membro endurecer. Shibushi abriu um pacote retirando um roupão vermelho de dentro, vestindo-o em seguida. Ele foi até a mesa de mármore onde havia um cardápio.
Ruk apareceu enrolado numa toalha de algodão preta. Ele encostou-se no batente da porta do banheiro e ficou olhando para Shibushi.
- Está de sacanagem comigo, não é? Não veio fazer nada comigo, aqui – comentou, com um olhar chateado.
- Ruk. Você alugou esse quarto por doze horas, apenas passaram-se trinta minutos – disse, olhando num relógio que ficava pendurado no alto da parede – eu preciso comer. Você falou que me levaria para jantar.
- Ah, tudo bem – disse, caminhando até ele, abraçando-o pelas costas – que vai querer?
- Não tem muita opção. Quero esse número dez – disse.
- Você pediu isso por causa das frutas na sala, não? – indagou.
- Acertou – disse – e você vai querer algo?
- O mesmo que o seu – disse. Na verdade, não queria comer nada, mas se não pedisse algo, ia ficar vendo Shibushi comer enquanto não fazia nada. E essa era uma boa oportunidade de conversar com ele.
- Então pede – disse, dando o cardápio para Ruk.
O loiro caminhou até a cama, jogando-se nela, sentindo o colchão que era de água. Ele sorriu e ficou se mexendo, achando gosto o barulho que ele fazia. Ruk ficou babando no corpo do moreno, enquanto discava para a recepção.
- Chega daqui trinta minutos – disse.
O moreno caminhou até a cama jogando seu corpo em cima do de Shibushi, começando a beijar a sua boca. O loiro acompanhou o beijo, sentindo o membro de Ruk nas suas coxas.
Uma mão fechou-se no pulso direito do loiro que foi puxado para trás, sendo colocado no alto de sua cabeça, a mesma coisa aconteceu ao outro pulso. Shibushi adorava ser preso com certa violência e Ruk sabia disso. Esse era seu trunfo perante qualquer amante do loiro, ele sabia de tudo que ele gostava não gostava.
Jamais levaria Shibushi num motel com menos de cinco estrelas. Nunca recusaria que ele comesse algo antes e nem o impediria de entrar na banheira antes de fazer qualquer coisa. Sabia o que ele fazia, pois Shibushi era verdadeiro nas suas ações, não permitindo fazer coisas diferentes em cada situação. Ruk até havia levado um CD de música clássica caso Shibushi sentisse vontade de ouvir.
- Trouxe CD de música, se quiser escolher depois – disse Ruk, entre o beijo.
- Hum. Melhor que esse pop romântico que quinta. Deixa-me ver – pediu.
Ruk saiu de cima dele e lhe deu uma caixinha de CD que ficava no seu carro. Lá havia músicas de seu gosto e principalmente os cds favoritos de Shibushi.
- Eu quero ouvir esse – disse, pegando um CD vermelho.
- Você manda – disse, indo até o som.
- “Estou adorando isso” – pensou Shibushi – “poderia viver assim para sempre”.
O som do violino entrou harmonioso. Ruk fechou os olhos, sentindo saudades daquelas músicas que seu amado tanto apreciava e que no final acabou apreciando também. Ele começou a balançar seu corpo no ritmo lento da música, caminhou até o loiro e o puxou pelas mãos.
- Dança comigo.
Shibushi sorriu e aceitou o convite, colocando suas mãos na cintura de Ruk e encostando sua cabeça na curva do seu pescoço. Os dois começaram a se mover lentamente, de modo distraído, apenas sentiam o calor de um e do outro. O tempo foi passando e a refeição finalmente havia chegado para a alegria de Shibushi.
Ruk foi pegar o carrinho e o colocou no canto do quarto. Ele começou a arrumar a mesa e colocou tudo em cima dela, ajeitando com cuidado.
Shibushi começou a comer tudo lentamente, saboreando o gosto do salmão grelhado e dos legumes. Seus olhos já estavam mirando a sobremesa de frutas, mas resolveu ir com calma. Ruk acompanhava o ritmo de Shibushi. Seu coração havia se acalmado e estava amando passar aquele momento com loiro.
Quando finalmente terminaram de comer, Shibushi foi até o banheiro com uma pasta de dente nas mãos e começou a passá-lo por entre os dentes e depois fez um bochecho. Ruk correu até ele e fez o mesmo, usando a pasta do loiro. Quando terminaram, o cheiro do peixe foi-se embora e agora estavam com um hálito fresco.
Ruk não agüentou mais esperar, ele agarrou a cintura do loiro e o jogou contra a parede, prendendo os pulsos de Shibushi no alto da cabeça e começou a descer seus lábios calorosos por seu peito, beijando um dos seus mamilos, mordendo, chupando, lambendo.
Shibushi abriu a boca para buscar ar. Ruk estava faminto e não ia conseguir pará-lo, pois ele mesmo não tinha nenhum motivo ou argumentação para isso. O loiro fechou os olhos e quando os abriu, sentiu seu corpo bater contra o colchão d’água. Seus lábios abriram-se para falar alguma coisa, mas sua boca foi cala por um beijo dominante.
Mãos vorazes desciam pelas costas de Ruk, sentindo seus músculos e cada toque carregava uma expressão diferente, uma emoção única. As mãos de Ruk trataram de arrancar aquele roupão vermelho. Quando o fez, jogou-o para trás junto com a toalha que estava preta na sua cintura.
Marcas vermelhas de unhas e dedos tatuavam as costas de Ruk. O ex-soldado estava adorando ser desejado daquela forma, mas só de pensar que outra pessoa podia ser desejada daquele jeito por Shibushi o deixava enlouquecido de ódio e ciúme. Entretanto não ia pensar nisso agora, pois tinha que se concentrar em agradar e em agradar-se.
Os lábios de Ruk desciam pela pele de Shibushi, sentindo um gosto adocicado. Shibushi diferentemente de qualquer um, não tinha um gosto salgado e sem graça, mas sim um gosto adocicado, como se passasse mel por seu dorso.
Um rastro de saliva foi deixado, mostrando o caminho que Ruk havia feito. Quando ele chegou na barriga do loiro, deu algumas mordiscadas e desceu sua cabeça, chegando ao baixo ventre, sentindo o seu cheiro forte. Começou a lamber sua virilha, sentindo a maciez daquela região. E sem delongas, abocanhou o membro de Shibushi, sentindo-o crescer na sua boca à medida que o sugava.
O loiro levou seu braço direito até a altura dos seus olhos, tampando parte de sua face. Ele abriu mais seus lábios para buscar ar e aos poucos sentia um prazer invadir-lhe numa proporção que apenas Ruk poderia proporcionar.
Gemidos loucos de prazer invadiram os ouvidos de Ruk. O moreno sorriu vitorioso e continuou com seu trabalho até que sentiu sua boca encher-se com o sêmen do loiro. Ele o engoliu e depois limpou sua boca com o lençol para ir beijar a face avermelhada do loiro.
- Eu te amo – sussurrou, mordiscando o lóbulo da orelha do loiro.
Shibushi não disse nada. Seu corpo tremia levemente e queria aproveitar aquele momento, mas adorou ouvir aquelas palavras. Ruk magoou-se por não ouvir uma resposta, mas era paciente, um dia Shibushi ia lhe retribuir.
- Como você quer ficar? – indagou Ruk, sussurrante.
A mente de Shibushi começou a rodar. No momento queria ser jogado na parede, na cama, no chão, na banheira e ser possuído até não conseguir mais se manter em pé. Mas manteve sua compostura, fingindo estar pensando.
- O que gostaria? – indagou em resposta.
Um sorriso safado desenhou-se no rosto de Ruk. Ele ficou excitado em saber que poderia sugerir algo. Ele sentou-se na beira da cama e puxou Shibushi.
- Senta no meu colo. De frente para mim – pediu.
Shibushi sentiu um frio na espinha, ele olhou para baixo vendo o membro ereto e pulsante de Ruk. E com certeza seria penetrado por inteiro naquela posição.
- Vem – pediu Ruk, carinhosamente.
As mãos fortes do ex-soldado foram colocadas na cintura de Shibushi, guiando-o para sentar-se no seu membro. Shibushi apoiou-se nos ombros do moreno. A mão esquerda de Ruk segurou seu próprio membro e a sua outra mão que estava na cintura de Shibushi começou a puxá-lo para baixo.
Aos poucos o membro de Ruk foi adentrando na carne de Shibushi. O loiro fechou os olhos com força, sentindo uma pontada forte. Ele subia e descia até que finalmente sentou no colo de Ruk, abraçando-o. O moreno tratou de pegar as pernas de Shibushi e colocá-las atrás de suas costas, fazendo com que Shibushi perdesse todo seu apoio, onde apenas Ruk controlaria tudo.
Shibushi não conseguia se mover, ao menos que se erguer seu corpo empurrando os ombros de Ruk para trás, mas teria que usar de muita força e poderia cair para trás.
Um beijo carinhoso foi depositado na face avermelhada do loiro. Ruk colocou suas mãos na cintura do loiro e começou a erguê-lo e descê-lo lentamente, movimentando seu quadril para cima e para baixo. Os movimentos ficaram mais rápidos à medida que Shibushi ia se acostumando.
Seus corpos balançavam-se num ritmo alucinante. As mãos de Shibushi agarravam-se as costas suadas do moreno. E quanto a Ruk, este enlouquecia a cada movimento. E nesse ritmo voraz, Ruk acabou gozando no interior do loiro. Quando parou de se mover, Shibushi abraçou o moreno e lhe deu um beijo nos lábios, para depois desabar nos seus braços.
Ruk levantou-se com Shibushi no seu colo, retirando o membro que estava no seu interior. Ele caminhou até o banheiro e viu que a água já estava fria. Ele colocou puxou a válvula para abrir o ralo e logo encheu a banheira de novo. Shibushi estava abraçado ao corpo de Ruk. Apenas um homem com uma força sobrenatural conseguia segurá-lo com uma única mão, sem tremer e sem mostrar sinal de cansaço.
Quando a banheira estava com água pela metade, Ruk entrou nele com Shibushi nos seus braços. O loiro relaxou ao sentir aquela água quente, ele foi até a torneira abrindo um pouco mais da água fria, antes que fritasse ali e depois voltou a relaxar, ficando do lado oposto do soldado.
- “Não posso dar brechas” – pensou, fingindo ignorar Ruk.
- Vai fazer o que amanhã? – indagou Ruk, após uma tosse forçada.
- Sábado... vejamos. Vou terminar uma pintura e depois sairei a tarde – disse.
- Ah. Aonde vai? – indagou.
- Num clube – disse – um colega da faculdade me convidou.
- Ah, vai com o pessoal da faculdade? – indagou, sentindo ciúme.
- Não sei – disse. Afinal, tinha que deixar Ruk curioso.
- Você está saindo com esse rapaz?
- Não sei ainda – disse, com um sorriso no rosto – quem sabe do futuro, não é?
Ruk fechou a cara, ele não disse mais nada. Jogou-se para trás, afundando na banheira. Shibushi respirou fundo, ele viu que Ruk estava demorando muito para voltar à superfície, mas sabia que ele era excepcional. Cansado de ficar ali sozinho e com medo de entregar-se à paixão, Shibushi sai da banheira, fazendo Ruk voltar à superfície com um olhar assustado.
- O que foi? – indagou com uma voz ofegante, engatinhando até a margem.
- Tenho que ir – disse.
- Para onde?
- Tenho um compromisso – disse.
Shibushi pegou uma toalha que estava fechada no plástico e começou a se secar. Ele parecia apressado, Ruk ficou observando-o com atenção, sentindo vontade de prendê-lo naquele quarto de motel para sempre. O moreno saiu da água e começou a se secar também.
Havia um secador de cabelos pendurado na parede. Shibushi o pegou e começou a secar seus cabelos, sentindo aquele ar morno correr por sua face e suas mechas. Ruk estava se trocando, queria pelo menos sair junto com o loiro.
Quando terminou de se secar, Shibushi colocou suas roupas e penteou seus cabelos para trás com seus próprios dedos. Shibushi esperou Ruk retirar o CD do som e guardar. Quando estavam prontos para sair, Ruk puxou Shibushi pelo braço e lhe deu o último beijo. O loiro retribuiu, mas logo o encerrou, abrindo a porta do quarto.
Os dois foram até a recepção. Ruk pagou tudo e Shibushi já começou a sair do lugar, vendo que o céu estava escuro. Ele caminhou pela calçada e depois entrou novamente no hotel, observando Ruk pagar a conta. Ele começou a caminhar até o estacionamento do lugar, com passos lentos, esperando que Ruk o alcançasse logo.
- Quer ir a outro lugar? – indagou Ruk, alcançando-o com passos rápidos.
- Para casa – disse.
- Não quer beber alguma coisa?
- Não, obrigado. Estou sem vontade.
- Conheci um lugar que servem sorvete com pedaços de frutas – disse.
Shibushi sorriu e disse:
- Outro dia.
Ruk deu um sorriso amarelo e continuou a andar em silêncio até o seu carro que estava na vaga mais distante. Os dois entraram no carro e saíram dali lentamente. O moreno dirigia mais devagar que qualquer um naquela cidade, queria ficar o máximo de tempo possível com Shibushi.
- Quer dar uma volta?
- Não, quero ir logo para casa – disse.
Ruk deixou Shibushi em frente a sua casa depois de pegar todo o trânsito que podia e todas as ruas mais interditadas. Shibushi apenas ria por dentro, estava adorando ser amado daquele jeito.
- “Talvez eu fique mal acostumado” – pensou.
- Está entregue – disse Ruk.
Shibushi saiu do carro, ele olhou para o moreno e disse:
- Adorei. Até mais ver.
- Até, eu te ligo – disse.
O loiro sorriu e caminhou até sua porta, abrindo-a e entrando, sem olhar para trás. Ele deu uma espiada pelo olho mágico da porta quando entrou, vendo que Ruk estava ali ainda. O loiro suspirou e então saiu cantarolando pela casa, como um adolescente apaixonado.
- “É nessa sintonia que eu quero ficar para sempre” – pensou – “espero que você consiga ligar nela, Ruk”.
Do lado de fora, Ruk olhava para a casa com atenção. Ele ouviu alguns latidos do Nero, seu querido cachorro que agora estava com Shibushi. Ele sorriu de canto e ligou o carro, saindo dali.
- “Espero estar com você novamente. Sinto que não vai demorar. E vou mostrar o respeito e amor que tenho por você. Prometo não me afastar mais” – pensou, com um sorriso otimista.
Dois meses haviam se passado desde então. O natal estava próximo de acontecer, faltava apenas um mês para isso. A cidade estava um caos desde o começo da semana. Os shoppings estavam lotados, os comerciantes pareciam cansados, mas o dinheiro não parava de entrar nos caixas e a falta de produtos tornou-se um problema.
Uma neve fina caía pelas ruas, causando alguns problemas nas vias expressas. Algumas ruas não foram devidamente limpadas pela prefeitura e o trânsito havia piorado, como se isso fosse possível.
Ryori e Yuy haviam se mudado para a nova casa que foi praticamente feita com os gostos de Yuy. Ryori acabou adorando no final e concordou que ficou mais aconchegante. O ruivo tratou de comprar os terrenos vizinhos para que não tivesse ninguém por perto.
A casa tinha dois andares, não possuía muitos quartos. Apenas três quartos, sendo que o principal era maior. Tinha uma espaçosa sala, com sofás fofos e as paredes foram pintadas de cor de palha e amarelo, deixando um ambiente de cores quentes, que combinaram com os móveis de madeira.
Somente a cozinha tinha a mesma estrutura que a anterior, sendo feita de material inox. Ryori não havia aberto mão dessa tecnologia e beleza. E para a alegria de Yuy, no fundo da casa havia um grande quintal onde ele começou a plantar algumas verduras.
Nesse exato momento Yuy estava olhando com atenção a terra, vendo que não ia sair muita coisa dali por causa da neve. Ele suspirou entristecido olhando os pobres pés de alface destruídos. O moreno estava tremendo de frio, logo entrou na sua casa, ligando o ar condicionado.
- “Onde Ryori foi”? - pensou, sentando-se num sofá vermelho e pegando um livro que estava lendo.
As horas passaram-se e Ryori adentrou na casa, fechando a porta rapidamente. O frio estava aterrorizante lá fora, ele retirou seu casaco e o pendurou num gancho na parede.
- Onde foi? – gritou Yuy da sala.
Ryori tossiu levemente e então arrumou o embrulho que carregava nos braços. Ele queria esperar até natal para dar esse presente a Yuy, mas não seria possível pelo fato de terem outros compradores a fim de dar o mesmo “produto”. O ruivo retirou suas botas, ficando apenas de meia.
Quando entrou na sala, o ruivo sorriu de canto imaginando a cara de Yuy quando abrisse o embrulho. O moreno não demorou ao ver uma grande caixa de madeira nas mãos de Ryori com um grande laço vermelho.
- Fui buscar isso para você – disse, olhando para a caixa.
Yuy pulou do sofá e correu até Ryori, com um sorriso lindo no rosto. Ele estava curioso, suas mãos correram até a caixa, mas Ryori deu um passo para trás, dizendo:
- Cuidado. Isso é frágil. Muito frágil.
O moreno respirou, acalmando sua ansiedade e pegou a caixa com cuidado, virando-a de ponta cabeça, ouvindo um barulho e depois um choro.
- Ah, não vire desse jeito – reclamou Ryori.
Yuy sentou-se no chão e abriu caixa, vendo que havia dois grandes furos na parte anterior, quando finalmente retirou o embrulho, viu um lindo filhote de cachorro preto. Os olhos de Yuy brilharam, ele olhou para Ryori e agradeceu, abrindo a portinha de metal, retirando um filhote de cachorro que tremia de medo e de frio. O moreno o colocou em seu colo e começou a acariciá-lo.
Ryori sentou-se no chão também e ficou olhando para o filhote que tentava sair do colo de Yuy. O ruivo passou a mão em sua cabecinha com cuidado.
- É um filhote de labrador. Não tinha mais o amarelo, e esse parecia ser o mais agitado da família – disse.
- Ele é lindo, Ryori – disse, derretendo-se por aquela bolinha de pêlo.
- Como vamos chamá-lo? – indagou Ryori.
- Não sei. Você tem alguma sugestão?
Ryori ficou um pouco pensativo e disse:
- Eu tinha um cachorro na minha infância. Gostava muito de brincar com ele. Chamava-se: fogo.
Yuy riu alto e disse:
- Imagina se esse cachorro faz jus ao nome e nos inferniza?
- Tem razão. Meu cachorro era muito agitado – disse.
- O que você acha de... espera aí. Eu nem vi o sexo – disse de repente, olhando para as partes baixas do cachorro, vendo que era fêmea.
- É fêmea, Yuy. Ainda não viu – disse.
- Hum... eu gostaria de chamá-la de Mon – disse – o que você acha?
- Bonitinho – disse Ryori.
Yuy aproximou-se, dando um beijo nos seus lábios e depois voltou sua atenção para a cachorra que começava a cheirar o chão. Ela logo se abaixou e fez xixi no meio da sala.
- Hum, já começou – comentou Yuy.
- Eu comprei ração para filhote e uma caminha – disse.
- Pensou em tudo, hein!
- O vendedor que me empurrou – disse, a contra gosto – eu só ia comprá-la, mas saí de lá com coleira, cama, ração, remédio, xampu, papinha, ossinho, brinquedos.
- Coitado de você, Ryori – riu alto.
Os dois ficaram conversando, enquanto paqueravam a única fêmea que poderia adentrar em seus corações.
- Vou querer fazer o natal aqui em casa – disse, Yuy – chame Shibushi e o Ruk.
- Hum, hum.
- Nunca fizemos nada assim antes – comentou – estou empolgado.
- Quem vai cozinhar? – indagou Ryori.
- Contratamos alguém. Agora temos que pensar no menu.
- Pense e depois me fale. Vou procurar alguém – disse, levantando-se.
- Aonde vai?
- Dormir. Eu estou cansado – disse, saindo da sala.
Yuy achou estranho Ryori estar cansado, mas nada comentou. Ele voltou dar sua atenção para aquela bolinha de pêlo que arrastava sua enorme barriga pelo chão da sala. Depois de ficar horas brincando com Mon, Yuy pegou as coisas do carro e preparou um cantinho para Mon ficar.
Perto da lavanderia havia um quarto desabitada. Yuy colocou uma placa de madeira na entrada da porta para que ela não saísse dali. Depois forrou o chão com jornal, colocou água e comida e a caminha de pelúcia que Ryori havia comprado.
- Fique aí lindinha – disse Ryori.
Mon começou a chorar quando se encontrou sozinha, mas Yuy achou melhor sair correndo dali, antes que se derretesse novamente e a pegasse no colo.
Yuy entrou no quarto, vendo que Ryori estava realmente dormindo. Ele retirou sua camiseta, jogando-a na poltrona que havia no quarto e depois caminhou até a janela do quarto, fechando sua cortina. Yuy enfiou-se embaixo das cobertas, abraçando o corpo de Ryori.
- Que horas são? – indagou Ryori.
- Oito horas ainda, dorme – disse.
- Não. Vou levantar – disse – já dormi o suficiente.
Yuy abraçou com força as costas de Ryori, impedindo-o de se levantar, o ruivo fez força, mas não conseguiu se soltar.
- Hei, o que acha de eu pegar você, hoje? – indagou Yuy.
- O que?!
- Deixa Ryori – pediu, passando sua mão pelas nádegas do ruivo.
- Nunca, tire sua mão daí agora – disse, alterando seu tom de voz.
- Não seja tímido Ryori – disse – você vai gostar!
- Não! – gritou, tirando a mão de Yuy dali.
- Eu quero, e você me deve – disse.
- Devo pelo o quê?
- Você disse que faria qualquer coisa para que eu não relembrasse aqueles dias terríveis que fiquei preso na varanda – disse, baixinho – eu quero você. Você me deve Ryori, não volte a atrás.
- Eu faria qualquer coisa, menos isso!
- Está mentindo para mim – disse – eu ainda estou tomando remédio por causa daquilo. Você me deve Ryori. Eu quero! E não aceito não como resposta! – disse, mostrando-se irredutível.
O ruivo sentiu um desespero correr por seu corpo, ele se remexeu na cama, mas foi puxado para trás pelos braços fortes de Yuy. O moreno subiu em cima de Ryori, sentando na sua barriga. Ele segurou os pulsos de Ryori e os levou até o alto de sua cabeça com certa dificuldade.
- Não – disse Ryori.
- Uma vez – disse.
- Não. Sai de cima de mim. Se quiser eu como você agora, mas sai de cima – gritou.
- Pare de ficar histérico – disse, dando uma longa risada em seguida – você vai me dar e pronto. Você prometeu, e eu quero meu presente de natal.
- Eu já dei – disse.
- Não, a Mon foi um presente extra. Eu já havia pedido ela lembra? Disse que queria um cachorro. Agora esse é o meu presente por ter ficado dois longos e tortuosos dias jogado ao relento.
- Yuy, pára com isso – pediu.
O moreno soltou os pulsos de Ryori, fazendo o ruivo sentir um alívio. Yuy saiu de cima dele e saiu do quarto sem dizer nada. Ryori suspirou e fechou os olhos, para tranqüilizar seus pensamentos.
- Pronto – disse Yuy, aparecendo no quarto com um par de algemar de aço.
- Não! – disse Ryori, sentando-se na cama.
- Você vai gostar – disse.
- Você gosta, eu não.
- Já experimentou? – indagou.
- Não! E não vou.
Ryori levantou-se e cruzou os braços. Yuy aproximou-se dele como quem não quer nada e com um golpe rápido ele empurrou Ryori que caiu deitado na cama, ele subiu em cima do ruivo e conseguiu prender seu pulso direto a cabeceira da cama, e em outro movimento rápido prendeu o outro braço.
- Pronto – disse, com um sorriso vitorioso.
- Quando eu me soltar Yuy. Você vai desejar ter ficado preso naquela varanda – vociferou.
- Ta, ta. Agora fica quietinho – disse, arrancando as calças do ruivo que fez de tudo para impedi-lo.
Ryori xingava e reclamava a todo o instante. Ele forçava seus braços, fazendo-os ficarem roxos pela agressão. Yuy viu que aquelas algemas não durariam muito, então foi até sua mochila e pegou mais dois pares de algemas e prendeu Ryori para ter certeza que ele não se soltaria tão fácil.
Numa mochila, Yuy retirou um vidro de vaselina, que deixou Ryori desesperado. O moreno retirou sua própria calça e depois retirou a cueca e as meias de Ryori, deixando-o nu na cama.
- Yuy, falando sério. Isso não é agradável – disse.
- Você fala isso agora. Logo estará gritando de prazer. E Ryori, você me deve.
- Eu não disse que faria isso – gritou.
- Você não disse o que faria e não faria. Eu não tenho nada por escrito – disse, com um sorriso sacana – e eu deveria pedir mais coisas Ryori, pois você judiou muito de mim!
- Eu já lhe dei essa casa – disse.
- Nada mais que sua obrigação – disse – não quer viver feliz comigo? Eu quero viver num lugar maravilhoso com você, Ryori. Porque eu te amo.
- Se me ama, me solta – pediu.
- Eu te amo, te desejo e quero isso há muito tempo – disse, apontando para as nádegas de Ryori.
Ryori fechou os olhos, não querendo nem ver o que ia acontecer. Não tinha como odiar Yuy, pois o amava e sabia que não seria judiado, mas só de pensar que seria possuído lhe deixava louco. A força do ruivo entortava as grades de ferro da cabeceira da cama. Yuy viu que tinha que fazer uma reforma no futuro, mas agora estava mais concentrado naquele corpo estirado na cama.
O moreno subiu na cama, completamente nu, sentando-se na barriga de Ryori. Ele inclinou-se para frente e começou a beijar seu pescoço, causando arrepios no corpo do ruivo. Ryori estava gostando das carícias e tinha a ilusão que Yuy pudesse desistir daquela loucura.
Yuy desligou sua língua por todo o corpo de Ryori, lambendo cada pedacinho daquele corpo, dando muito carinho e atenção. Sempre beijava seus lábios e o abraça, sempre tomando cuidado para não passar perto das mãos de Ryori, pois com certeza o ruivo o prenderia.
Ficaram beijando-se por um longo tempo até que Yuy resolveu masturbar Ryori com sua boca, sugando seu membro lentamente, torturando-o. A cada segundo olhava para Ryori, vendo a expressão prazerosa em seu rosto, aquilo o excitava.
Não podia negar que estava otimista quanto aquilo. Seu coração estava batendo muito forte pela expectativa. Era a primeira vez que ia ser ativo numa relação, queria sair-se bem e não queria machucar seu querido ruivo. Afinal, Ryori poderia ficar traumatizado.
- Yuy me solta – pediu Ryori, entre um gemido – eu vou pegar você e te fazer gritar – disse em seguida.
- Depois você faz isso, meu amor – disse, cinicamente – agora é sua vez!
Yuy pegou o vidro que estava em cima da cama e o abriu, passando vaselina na sua mão. Ryori observava tudo com apreensão, quando ele viu que Yuy realmente ia tocá-lo, fechou as pernas. Mas o moreno riu e as separou com certa facilidade, os seus dias de academia lhe renderam bons frutos.
- Relaxa, senão vai doer – disse – experiência própria.
- Não faça isso.
- Eu vou fazer, você sabe disso. Eu sei disso. Pare com esse drama. Ou você relaxa, ou vai doer – disse, tranqüilamente.
Ryori resmungou um monte de palavrões e ameaças de morte e tortura para Yuy, mas ele não ligou. O moreno colocou-se no meio das pernas de Ryori, para que ele não conseguisse mais fechar e lentamente passou seu dedo pelas nádegas de Ryori, abrindo mais a perna do ruivo e tocando na sua entrada.
As pálpebras de Ryori fecharam-se com força ao sentir aquele toque tão íntimo. Ele sentiu o dedo de Yuy invadir-lhe lentamente. Uma dor aguda o atingiu, fazendo um choque correr por seu corpo. Entretanto, para sorte de Ryori, Yuy fazia tudo lentamente, com muita atenção e carinho.
Os braços de Ryori estavam tão vermelhos que parecia sangue líquido escorrendo, de tanto que ele forçava para fugir dali.
- Yuy, pense quando eu sair daqui. Não vai sobrar muito de você – disse.
- Hum, você me deve. Não vai me machucar de novo ou eu sumo para sempre da sua vida – disse, seriamente, deixando Ryori surpreso. O ruivo não conseguiu dizer mais nada.
Depois de muito tentar, Yuy conseguiu colocar um dedo dentro de Ryori. O ruivo gritou com a penetração, perdendo toda sua classe, sentindo-se humilhado com aquilo, apesar de estar fazendo com seu querido Yuy.
O moreno sorriu animado, vendo que Ryori havia relaxado finalmente. Agora era hora de somar outro dedo. Yuy passou mais vaselina e com a mesma delicadeza foi introduzindo o segundo dedo. Ryori havia desistido de argumentar e seu corpo começou a tremer perante aquilo.
- Ryori...
- Hum?
- Eu queria tanto que você me deixasse fazer isso – disse.
- Eu não quero – disse.
- Eu queria te soltar – revelou.
- Isso, Yuy. Me solta que eu brinco com você também.
- Não foi convincente – disse – prometa-me que vai me deixar fazer se eu te soltar.
- Não – disse – se você me soltar, eu vou acabar com você.
- Hum! E eu vou embora.
- Não vai, não.
- Juro pelo meu pai que eu vou, Ryori – disse, com um olhar frio.
O ruivo sentiu um frio correr por sua espinha. Yuy não jurava em vão e muito menos citando o nome do seu pai, o ruivo fechou os olhos, pensando se realmente tinha motivos para deixar Yuy fazer o que quiser com seu corpo.
- Me solta – pediu Ryori.
- Não vai fugir e vai me deixar fazer o que quiser?
O ruivo ficou em silêncio. Era muito humilhante aceitar aquilo, pelo menos estava sendo forçado. Mas ao ver aquele olhar de Yuy, Ryori sentiu que deveria tomar uma atitude.
- Pode me soltar – disse, fechando os olhos, sendo vencido.
- Vai deixar eu fazer o que quiser? – indagou, levando sua mão até a chave das algemas.
- Sim – disse num baixo sussurro.
O moreno sorriu de canto e soltou todas as algemas, olhando para Ryori, esperando alguma reação. Mas Ryori ficou na mesma posição, sem mover um músculo sequer.
- Acaba logo com isso – pediu o ruivo, virando a cabeça para o lado contrário de Yuy.
O moreno não gostou daquela disposição, mas não poderia pedir para Ryori rir e se divertir. Sabia que era humilhante para ele. E sem delongas, voltou ao que estava fazendo, sentindo o corpo de Ryori fechar-se cada vez que o tocava.
Aos poucos conseguiu colocar o segundo dedo e achou que era hora para fazer algo mais verdadeiro.
- Fica de quatro – pediu Yuy.
- O que?
- De quatro!
- Não, isso não – disse, irredutível.
Yuy fechou a cara, estava começando a ficar impaciente com aquela criança. Ele aproximou-se dos lábios de Ryori e lhe deu um beijo, sentindo seu corpo ser abraçado.
- De quatro – sussurrou no ouvido de Ryori.
- Por que quer me humilhar? – indagou o ruivo.
- Eu não quero isso. Você que está sentindo isso. Ryori, somos namorados há muito tempo, isso é tão normal – disse – você acha que eu gosto de ficar todas às vezes de quatro para você? Saiba que eu não gosto!
- Por que não me disse?
- Porque estou dizendo agora. E eu quero isso. Agora vire-se – disse, com uma voz autoritária.
Ryori foi virando-se a contra gosto. Ele queria que tudo aquilo terminasse o quanto antes e também seria sua primeira e última vez fazendo aquilo. Quando finalmente deitou de barriga para baixo, Yuy fechou seu braço na cintura de Ryori e o puxou para cima, fazendo-o ficar de joelhos na cama.
A face de Ryori estava da cor de seus cabelos, ele não conseguia olhar para Yuy. O moreno começou a massagear seu próprio membro e depois passou vaselina nele para ajudar na penetração. Quando tocou na entrada de Ryori, senti o corpo do ruivo tremer.
- Calma – pediu Yuy.
O moreno começou a introduzir seu membro lentamente, vendo como era difícil a entrar, mas não teve pressa. Tinha todo o tempo do mundo e amava Ryori demais para machucá-lo. O ruivo por sua vez mordia seu lábio inferior para não gritar de dor, aquilo parecia doer mais que uma facada.
Aos poucos o membro de Yuy foi entrando, fazendo o moreno delirar de prazer. Estava vitorioso e queria mover-se logo, e o fez, indo para frente e para trás num lento vai-e-vem ouvindo gemidos de dor de Ryori. Yuy sabia que doía a primeira vez, então fechou sua mão no membro do moreno, começando a massageá-lo, enquanto o penetrava lentamente.
Ao longo dos movimentos Ryori sentiu uma pontada de prazer correr por seu corpo, a sensação era estranha, diferente. Sentia os braços fortes de Yuy o envolverem e o que era doloroso estava se tornando cada vez mais prazeroso. O toque que Yuy lhe fazia no seu pênis estava levando-o a loucura.
Os lábios de Ryori abriram-se num longo gemido quando Yuy apertou a cabeça do seu membro. O moreno pegou o braço de Ryori e levou a mão do ruivo ao seu próprio membro para que ele mesmo se desse prazer. O ruivo começou masturbar-se, não querendo deixar seu membro ereto sem cuidados.
Com um sorriso satisfeito no rosto, Yuy acelerou as investidas, balançando o corpo de Ryori para frente e para trás, amando ouvir aqueles gemidos roucos. Poderia fazer isso todos os dias se Ryori permitisse, pois desejava fazer isso em todas as posições que Ryori já havia feito com ele.
- Está gostando? – indagou Yuy, ofegante.
Ryori não respondeu, ele ficou mais vermelho. Não ia admitir que estava gostando. Mas seu corpo dizia o contrário, seu corpo se abriu para Yuy, permitindo que ele fizesse o que bem entendesse com ele. Não conseguia controlar seus gemidos e já havia gozado há muito tempo, agora sentia prazer de ser possuído daquele jeito tão voraz. Queria mais contato, mais pressão, mas não tinha coragem de pedir.
Yuy por sua vez fazia tudo lentamente, amando sentir seu membro ser esmagado por aquele corpo que tanto desejou em silêncio. Ele começou a acelerar os movimentos vendo que Ryori gemia mais alto, até que resolveu parar de repente, retirando seu membro.
O ruivo foi virado para frente, ficando de barriga para cima. Ele resmungou alguma coisa, mas Yuy o ignorou colocando as pernas de Ryori em cima dos seus ombros e voltou a penetrá-lo, vendo a expressão dolorosa e prazerosa no rosto de Ryori.
Agora não podia mais esconder seus sentimentos, Ryori fechou suas mãos no lençol e voltou a gemer baixinho. Yuy entrava com mais força, dando fortes trancos em Ryori, empurrando-o para trás, fazendo sua cabeça bater na cabeceira da cama. Ryori levou suas mãos até a cabeceira da cama, segurando-se para parar de ser empurrado para trás.
Um sorriso satisfeito desenhou-se na face de Yuy ao ver que Ryori estava todo entregue a ele. O ruivo jogou sua cabeça para trás e fechou os olhos. Estava num prazer sublime. Yuy sentiu vontade de provocá-lo, mas não o fez. Seria um erro e Ryori certamente se fecharia.
O corpo de Yuy começou a tremer com mais força, ele jogou sua cabeça para trás e gemeu mais alto, dando uma estocada mais funda, gozando no interior de Ryori. Mas ele não retirou seu membro que ainda estava duro, e continuou a movimentar-se para frente e para trás, até sentir que estava amolecendo.
O corpo de Yuy caiu sobre o de Ryori, procurando a boca do ruivo e quando a acho, lhe arrancou um beijo devorador. Os dois ficaram abraçados por um tempo, até que Ryori se recuperou daquela loucura, voltando a sua consciência.
- Yuy.
- Hum?
- Eu vou pegar você – disse.
- Disse que não ia me machucar – resmungou, ofegante.
- Não irei, só deixarei você desmaiado de tanto sexo que vou fazer com você – disse – daqui a pouco.
- Hum. Quero dormir.
- Não – disse, meio ofegante – daqui a pouco Yuy, você vai gritar tanto, que vão chamar a polícia.
- Sendo de prazer, tudo bem – disse – você estava lindo. Ryori. Vou amar fazer isso mais vezes.
- Não terá mais vezes – disse, contrariado.
- Você gostou, vai! Não mente. Você gemeu bem gostoso – disse, rindo baixinho.
O ruivo ficou vermelho e depois voltou ao seu tom de pele. Ele inverteu as posições e puxou a cabeça de Yuy, para que ficasse deitada no seu peito.
- Yuy, não conte isso a ninguém – pediu.
- Hum. Vou ligar agora para o Shibushi – disse.
- Sério. Prometa-me.
- Claro. Isso é só entre nós dois. Se quiser de novo, é só ficar de quatro que eu faço o serviço – disse.
- Ria enquanto pode – disse, normalizando sua respiração.
Yuy sentiu um frio correr por sua espinha. Pelo jeito ficariam fazendo sexo até a madrugada, mas o que tanto desejou aconteceu. Finalmente conseguiu domar aquele cavalo selvagem.
E nesse ritmo os dias foram passando. As brigas estavam presentes no relacionamento, mas havia muito amor para impedir que algo posterior acontecesse. O laço foi ficando cada vez mais forte e a medida do tempo à confiança foi aumentando, tornando-os verdadeiros cúmplices, amigos de longa data e sem deixarem de ser apaixonados. O principal era a paixão que nunca cessava, não havia água que apagasse o fogo de seus corações e nem pensamentos negativos o suficiente para que estragassem aquele vínculo amoroso.
Não importa de que mundo a pessoa seja, desde que seja verdadeira e traga suas heranças, permitindo que todos usufruam o aprendizado dos seus ensinamentos anteriores. Ninguém nasce completo e nem morre completo, a vida é uma grande peça mal ensaiada onde podemos fazer várias apresentações e nelas choramos, cantamos, dançamos, nos divertimos, aprendemos e por fim, o grande número encerra-se com uma longa cortina vermelha.
O julgamento premeditado sempre foi e será algo que existirá aos olhos de qualquer pessoa, sendo de mundos iguais ou diferentes. Não interessa como foi sua criação ou suas mudanças. E nesses julgamentos as pessoas acabam por escolher o certo e o errado dentro de seus critérios. Lançar-se a guerra ou a um amor doentio, cheio de intrigas e aventuras cabe apenas a um coração escolher, sem interferência de demais.
E com esse pensamento, Yuy ergue seu olhar para o céu e olha otimista para seu futuro ao lado de uma pessoa que jamais pensou se misturar em toda sua vida. Havia feito seu julgamento e queria permanecer acorrentado aos braços de Ryori pelo resto da sua vida, até a cortina do grande show se fechar. Se ele fosse ganhar aplausos ou vaias, não se importava, apenas queria dançar, cantar, sorrir e por fim amar.
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“Todos os homens buscam a felicidade. E não há exceção. Independentemente dos diversos meios que empregam, o fim é o mesmo. O que leva um homem a lançar-se à guerra e outros a evitá-la é o mesmo desejo, embora revestido de visões diferentes. O desejo só dá o último passo com este fim. É isto que motiva as ações de todos os homens, mesmo dos que tiram a própria vida”. (Blaise Pascal)
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Obrigada pelo apoio de todos. Durante esses três longos anos eu pensei em continuar a estória e espero que tenham se divertido como eu me diverti escrevendo. Comentários são bem-vindos. Meu e-mail: gotasdegeloarrobahotmail.com ; Ou comentem pelo site mesmo.
E já estou pensando no que escrever em Mundos 4. Aguardem.
A estória está aqui provisoriamente, porque não tenho nenhum site para publicar. Se alguém indicar algum site, eu agradeço.
LINK DO SITE:
http://br.geocities.com/mundos_yaoi/
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Plágio é crime. Mundos e seus personagens pertencem a Leona-EBM.