Lembranças
Não sentia vontade de falar ou olhar para ninguém, nunca pensaria que voltaria a ficar desse jeito. Seus olhos estavam cerrados, sua boca estava seca, seus cabelos cor de sangue estavam esparramados pelo travesseiro e seus braços estavam abertos ocupando toda cama.
- Ele está muito pálido! - Comentou Shibushi com Yuy.
- É!
Os dois estavam na porta do quarto olhando para o ruivo, que mais se parecia com um morto por causa do seu rosto pálido e de seus poucos movimentos. O que era mais incrível foi que Yuy e Shibushi começaram a conversar depois que Ryori entrou em choque, Ruk havia carregado o ruivo para o seu quarto, depois veio um médico examiná-lo, mas para o alivio de todos Ryori estava bem.
- Vamos... É melhor deixá-lo sozinho! - Shibushi põe a mão no ombro de Yuy o chamando.
- Hum... - Yuy deu uma última olhada para o ruivo antes de sair fechando a porta do quarto.
Uma lágrima solitária escorre pela face fria e pálida de Ryori, seus olhos se abriram para visualizar o teto branco a sua frente, parecia que mais nada fazia sentido, que tudo havia perdido a lógica. Sentia um nó na sua garganta, queria chorar, mas não conseguia, não sabia porque, talvez fosse vergonha, mas Ryori estava sozinho no quarto, por que haveria de ter vergonha?
Seu coração batia lentamente, seu sangue parecia mais frio que antes, suas pernas e braços estavam dormentes, não queria se mexer, não queria se levantar e enfrentar nada. No estado atual até uma pequena formiguinha derrubaria Ryori do seu cavalo.
- Mãe... Pai.. Nien... - Um choro mudo estalou-se no quarto.
Yuy e Shibushi estavam na sala, Ruk estava ao em pé olhando para janela. Yuy olhava discretamente para Shibushi e este fazia o mesmo.
- Como ele é bonito, é claro que o Ryori não iria se contentar com um garotinho como eu...- Yuy pensava tristemente.
- O que o Nako viu nesse pau seco? Eu não posso acreditar! - Shibushi pensava.
- Vocês não vão conversar? - Ruk pergunta de repente.
- Hum? - Os dois indagaram.
- Eu acho que precisam conversar! - Dizendo isso Ruk sai da sala, mas não se afastou muito.
Yuy encarou Shibushi com um medo que pôde ser percebido pelo loiro, o moreno ficou mexendo nos seus dedos nervosamente, Shibushi apenas sorriu com seu nervosismo.
- Bom, acho que precisamos mesmo! - Diz o loiro.
- É... - Concorda olhando para o chão.
- Eu não vou lhe fazer mal, nem vou me levantar daqui, não se preocupe... Será apenas um diálogo e nada mais, prometo! - Diz Shibushi para o alívio de Yuy.
- Claro... - Finalmente encarou o loiro sentindo suas faces se queimarem de vergonha por sua infantilidade.
- Eu lhe dou os parabéns, Yuy!
- Não diga isso Shibushi, Ryori gosta muito de você... - Yuy se assustou quando deu conta que estava consolando o seu maior rival.
Shibushi sorriu, nessa simples frase ele percebeu o porquê Ryori gostava tanto do moreno, como uma simples frase podia mostrar tanto de alguém?
- Agora sei porque ele o escolheu... - Diz desanimado.
- Sabe? - Estranhou.
- Seu jeito... Seu interior, o que você é aqui. - Shibushi fala batendo a mão no seu coração.
- Hum... Por que está me dizendo isso?
- Estou dizendo o que eu acho, o que eu vi!
- Não se sinta menos importante para Ryori... Ele gosta de você, mas não é como você quer! - Finalmente Yuy começou a conversar seriamente, deixando a pose de menininho ingênuo para uma que ele pudesse dialogar com aquela criatura triste que estava sentada no chão da sala.
- Hum... É verdade, ele não me ama mais... Bem, eu nem sei se me amou um dia! - Diz abaixando o olhar.
- Olha shibushi... Eu não sei se ele te amou, mas sei que Ryori se importa muito com você... Ele até tem muito ciúmes de você... Eu percebi isso! - Diz tristemente.
- Esse ryori... Fica fazendo a gente sofrer com seu jeito quieto! - Diz rindo, mas um sorriso triste, um sorriso que não ilumina a face triste de Shibushi.
- Não... Ele tem o direito de escolher com quem ficar! – Diz, defendendo o ruivo.
- Tem... Tem razão, estou vendo que você é bem maturo! Sabe... Eu sempre te odiei!
- Isso não é uma surpresa para mim, pois eu também te odiei muito! Mas já passou, mas isso não quer dizer que eu goste de ver você com o Ryori! - Diz a última frase com determinação.
- Egoísta... Eu fico feliz de ver o Ryori feliz mesmo que seja com outra pessoa sem ser eu... Ryori já sofreu muito, ele precisa sorrir um pouco, ele precisa de alguém que o tire desse mundo escuro e eu achei você certo para isso!
Yuy calou-se envergonhado, nunca havia pensado desse jeito, agora via o que o Ryori gostava no Shibushi. Era esse pensamento amoroso para com o ruivo que fazia Ryori amar Shibushi também, sabia que o ruivo sentia algo por Shibushi, mas não ia falar isso, pois o loiro poderia se sentir motivado a ir atrás de seu namorado novamente.
Os azuis de Yuy se fecharam e seus lábios sorriram, a conversa estava melhor do que podia imaginar, nem em seus sonhos imaginou-se conversando com o loiro tão pacificamente.
- Espero que o faça sorrir! - Diz Shibushi se levantando.
- Sim! - Yuy se levanta também com um sorriso maior no rosto, afinal, Shibushi não era aquele bicho de sete cabeças que pensava que era.
O loiro sai da sala deixando Yuy sozinho, ele vai caminhando com passos lentos e triste para fora da casa indo até um grande jardim de flores, lá tinha dois grandes balanços brancos, Shibushi se senta em um deles, fica balançando lentamente. Não pensava em nada, não conseguia fazer isso, seu peito doía, quando via Ryori se controlava para não abraçá-lo e dizer que o amava, lutou para não pular no pescoço de Yuy, lutou contra seus próprios sentimentos durante toda sua vida, agora ele estava balançando sem rumo algum, com o coração despedaçado. Sangrava por dentro, seu choro era um dos mais dolorosos, pois não tinha ninguém na vida, só Ryori e agora teria que se afastar dele para tentar tirá-lo da cabeça, mas não sabia se teria força suficiente para fazer uma coisa assim. Shibushi se assustou com um movimento ao seu lado, o balanço antes vazio agora estava preenchido por Ruk que balançava no mesmo ritmo que ele.
- Eu ouvi o que você disse...
- Sempre se metendo, não? - Diz o loiro meio irritado.
- Achei legal... Mas eu creio que você queria fazer o Ryori sorrir, não é? Queria que você fosse Yuy, você deve ter muita inveja daquele garoto!
- Você é maldoso, tem uma língua muito afiada... O que eu fiz para você? Por que não me deixa em paz!? - O encarou com uma fúria no olhar.
- Só digo a verdade! - Sorriu para o loiro.
Shibushi só podia ver um dos olhos de Ruk, já que aquela franja escura cobria toda sua face direita. Shibushi não sabia o motivo de Ruk pegar tanto no seu pé, mas não ia mais ficar tolerando isso.
- Fique sozinho com as suas verdades então! - Dizendo isso Shibushi para de se balançar, quando ia se levantar Ruk pula do balanço e fica na sua frente o impedindo.
Shibushi ficou indignado com a ousadia de Ruk, agora ele estava passando dos limites, o que ele queria afinal.
- Está certo, me diga o que quiser, quando terminar eu irei embora... O que mais quer dizer? Que eu sou um puto, invejoso, ruim, idiota, trouxa... Que mais? Vamos continue! - Diz Shibushi irritado.
- Não quero lhe falar isso! - Ruk inclina-se para frente se segurando nos braços do balanço ficando bem próximo a Shibushi, que se afastou um pouco para trás.
- Não... Então vejamos... Quer transar comigo? Usar o meu corpo? - Pergunta sem nenhum pudor.
- Também não quero isso! - Diz sem desviar seu olhar do de Shibushi.
- Não? Ahhh então que seria? Quer me matar então?
- Não!
- Vejamos, não quer o meu corpo, não quer me xingar, não que me matar... O que quer então?
- Um beijo seu... - Diz se aproximando mais do loiro.
- O que? Um beijo... Você me atazana desse jeito por causa de um beijo? - Pergunta indignado.
Ruk faz um sim com a cabeça, Shibushi estava se sentindo incomodado com aquele olhar sobre ele, parecia que ele lia toda sua mente, que ele entrava no seu corpo com aquele olhar tão penetrante.
Uma das mãos que segurava o balanço toca o rosto de Shibushi com delicadeza mostrando que Ruk não era apenas um soldado de mãos grossas, mas que sabia ser gentil quando quisesse, Shibushi afastou seu rosto dele, mas Ruk não recuou.
- Um beijo não é como sexo... Um beijo é mais íntimo... E eu não quero só o seu corpo, eu quero você por inteiro... Como da primeira vez que te vi! - Diz roubando um beijo de Shibushi.
As mãos de Ruk seguraram o rosto do loiro que começou a resistir ao beijo, mas só no começo, o beijo era tão quente, tão carinho que Shibushi começou a aceitá-lo abrindo mais a boca para que aquele língua quente explorasse seu interior com mais facilidade.
Ruk sorriu internamente, deu um passo para frente ficando mais próximo ao loiro, ficou encantado com a maciez dos seus lábios, com o perfume da sua pele e com o calor da sua boca. Era uma criatura realmente incrível, agora sabia porque Nako havia escolhido-o, sabia porque todos que o viam falavam que ele era tão lindo.
Lembrou-se do dia em que vira Shibushi pela primeira vez, já havia ouvido falar dele, mas sempre pensou que a sua beleza era apenas história que seus amigos contavam, arrependeu-se amargamente ao ver que tudo que eles diziam era verdade.
[Flash Back]
Ruk estava avaliando um mapa do território de Ryori junto de Yan, Joe e Kim. Estava distraído com seu trabalho, quando seus colegas começaram a falar.
- Ele vai vir aqui hoje! - Diz Yan sorrindo.
- Como é bonito... Nako tem sorte, muita sorte! - Kim diz.
- Vocês com suas histórias! - Diz Ruk, fazendo um não com a cabeça.
- Diz isso porque nunca o viu... - Comenta Joe, que era o mais serio dos três.
- Até você... Tá bom... Vou vê-lo, mas se for mentira vocês vão me pagar por me fazerem perder o meu tempo! - Ruk sai da sala indo até o escritório onde Nako e Nereida estavam trabalhando.
No escritório Nako reclamava alguma coisa com Nereida.
- Tenho que ir para essa escola... Quem ia imaginar, eu na escola! - Ryori diz olhando para o relógio.
- Shibushi também vai para escola e eu também sou obrigada a ir! - Diz Nereida desanimada.
- O bom é que vendemos muito naquela escola, parece que os adolescentes adoram correr perigo! - Diz Nako pegando seu material, que era aapenas um fichário com folhas brancas.
- E o chato é que você já sabe tudo o que eles estão passando! - Diz a garota.
- Mas quem disse que eu faço... Eu mando aqueles CDF’s da sala fazerem! Shibushi vai a escola porque ele gosta. Ah como ele consegue?
- E por que você vai para escola Nako? - Nereida pergunta.
- Isso não é da sua conta! - Diz friamente.
- Tudo bem! - Nereida se cala.
- Com licença! - Ruk entra no escritório.
- Fez o que mandei? - Ryori pergunta.
- Sim senhor. Aqui está! - Ruk lhe entrega o mapa.
Ryori analisa o mapa com as mãos e depois diz:
- Muito bom... - Ryori ia continuar a falar, mas cala-se ao ver Shibushi entrando no escritório.
- Vamos? - O loiro diz olhando para o relógio.
- Hum... Vamos! - Ryori entrega o mapa para Nereida e sai do escritório com Shibushi.
Ruk estava com a boca aberta, o perfume de Shibushi estava impregnado nas suas roupas, a sua voz estava em seu ouvido e sua beleza estava na sua mente. Ele virou-se para ver o casal indo embora, viu como os passos de Shibushi eram lentos e leves, parecia um anjo voando.
- Cuidado para não babar! - Diz Nereida dando um tapa nas suas costas.
- Hum? - Se fez de desentendido.
Nereida riu com o seu constrangimento, ele pega a sua bolsa e sai do escritório dando um aviso a Ruk.
- Cuidado, Nako é muitoooo ciumento! - Sai dando uma piscada para ele.
- Idiota! - Diz quando a garota sai da sala.
[Fim do Flash Back]
Naquele dia, Ruk ficou pensando no loiro, é claro que ele não se apaixonou e nem nada, mas ficou encantado com sua beleza. Nunca havia tido a oportunidade de falar com o loiro, mas sempre quis saber como ele era. Agora que o conheceu, viu como ele era especial, que ele não era um ser só de beleza exterior...
- Como da primeira vez? - Shibushi perguntou após o beijo.
- Uhum!
- Então você já ficava me olhando? - Irritou-se um pouco.
- Não!
- Não?
- Eu achava você muito bonito, mas eu não sentia nada por você, só comecei a sentir quando eu te conheci!
Shibushi sorriu finalmente, havia gostado de alguma coisa que Ruk lhe falara.
- Mas eu não quero dormir com você... Não por enquanto, quero que saiba como eu sou também e o que eu digo não é para te magoar! Eu não quero entrar no lugar de Ryori, pode continuar a gostar dele, sei que é difícil esquecer alguém que você gosta! Mas... Eu quero que você também goste de mim e um dia você goste só de mim como eu gosto de você.
Dizendo isso os dois se beijam novamente, Shibushi estava meio inseguro, mas receber carinho e atenção era o que ele mais precisava nesse momento.
Yuy olhava para o teto, não sabia o que fazer, queria falar com Ryori, mas tinha que deixá-lo um pouco sozinho. Ao se lembrar de Mafuri, Yuy começa a chorar novamente.
Ryori acabara dormindo em seu quarto, ele havia mergulhado para suas mais antigas lembranças, voltando ao seu passado, revivendo a época que ainda podia dar um sorriso feliz e sincero para sua família.
Já era outro dia, um dia mais frio que os outros por causa da chuva que caíra nessa madrugada. Um vento forte e frio fazia as janelas abertas baterem com força contra a parede, as folhas das árvores voavam para todos os cantos, alguns animais se escondiam com medo daquele tempo.
Ryori acordou assustado, mas quando viu que estava no seu quarto se acalmou, olhou para os lados procurando algo que nem mesmo sabia que era, viu Yuy dormindo encolhido do frio ao seu lado. O ruivo pega uma coberta que estava dobrada nos pés da cama e cobre o moreno sem acordá-lo, Ryori vê que ainda eram 5:00 horas da madrugada.
Ele abraça o próprio corpo tentando conter o frio, o ruivo vai até o seu armário pegando uma blusa de manga comprida e um casaco preto, ele põe seus sapatos e sai do quarto tomando cuidado para não fazer barulho.
Andou pelo corredor lentamente... A casa estava dormindo, mas um barulho lhe chamou atenção, abriu uma porta e viu Shibushi dormindo em uma das camas. Ele sorriu, precisava conversar um pouco, Ryori foi entrando no quarto, mas deteve-se quando viu Ruk parado em pé olhando para a janela.
- Ruk? O que faz aqui? - Pergunta Ryori.
- Nako? - Assustou-se.
- O que faz aqui? - Perguntou mais irritado.
- Não se irrite senhor Nako!
- Não me irritar... O que faz no quarto de Shibushi? - Ryori se aproximou dele.
- O que o senhor acha?
- Que impertinente, o que você pensa que está fazendo, dê o fora daqui!
- Nako, o que você quer? Você quer que Shibushi goste de você para todo sempre enquanto você fica com Yuy? - Ruk perguntou.
Ryori foi tão rápido que Ruk nem percebeu quando ele fechou o punho e lhe deu um soco na cara, Ryori olhou-o com um ódio mortal, Ruk ficou calado, não era louco de enfrentar alguém como Ryori, mas se fosse necessário...
- Você não sabe nada! Cale-se! - Elevou um pouco a sua voz.
- Eu gosto dele, quero ficar com ele, porque você não aceita?
- Por que você não é bom para ele, você só vai querer usá-lo!
- Então quem é bom para ele? Só você? Vai fazer Shibushi amar você pela eternidade? Vai fazer ele sofrer mais ainda?
- Já chega... - Ryori troca seu olhar raivoso para um de assassino - Vá embora...
Ruk ficou sem saída a não ser obedecer, enfrentar Ryori daquele jeito era morte na certa, Ruk ia saindo do quarto com a cabeça baixa, se amaldiçoava por não ser tão forte como Ryori, para poder ficar com Shibushi.
- Eu vou com você!
Uma voz faz Ryori e Ruk olharam na direção da cama, Shibushi estava sentado na cama com os olhos vermelhos de sono.
- Você não sabe o que diz! - Ryori se aproximou do loiro.
- Você que não sabe, Nako! - Shibushi ia se levantar, mas Ryori impede pondo as mãos em seus ombros o empurrando para baixo.
- Acho que vocês têm que conversar! - Dizendo isso Ruk sai do quarto, mas como sempre não foi muito longe.
Ryori espera Ruk sair para começar a falar com Shibushi.
- Você sempre escolhe mal, sabe o que ele quer? Ele quer só o seu corpo! - Diz Ryori tocando em seu rosto.
- Como você?
Ryori calou-se imediatamente, ele engoliu as palavras que estavam na sua garganta com muita dificuldade, seus azuis se cruzaram com os de Shibushi, que agora pareciam mais tristes que antes.
- O... Que? - Só conseguiu perguntar isso.
- Você não me ama, mas mesmo assim impede que eu fique com outro, então, o que você realmente quer de mim, Ryori? - Shibushi estava queimando por dentro, na verdade ficou imensamente feliz por ver Nako com ciúmes, mas quando ouviu Ruk falando, ele começou a pensar mais sobre isso.
- Eu... Eu... - Ficou sem palavras, não tinha o que dizer. Tinha muito ciúme dele, mas amava Yuy, então o que queria com o loiro?
- Você quer que eu fique te amando pela eternidade até que eu morra de tristeza? - Perguntou agora com os olhos rasos d’água.
- Me... Me... Desculpe... Pensei muito em mim e não prestei atenção em você... Eu gosto muito de você, eu mesmo não entendo porque ainda sinto algo por você, mas eu sei que amo Yuy, por favor, me desculpe... - Ryori sentou-se na cama com um olhar cabisbaixo.
- Tudo bem, Nako... Tudo bem! - Shibushi o abraça.
Os dois ficam abraçados por um bom tempo até que Ryori finalmente diz algo.
- Estou muito... Mal....
- Eu sinto muito por isso Nako, me diga o que está sentindo! - Shibushi sorriu enquanto aninhava Ryori em seus braços.
- Eu... Me sinto culpado...
- Já imaginava isso, mas saiba que não tem culpa, isso aconteceu.
- Mas eu podia impedir!
- Se pudesse mesmo impedir, você já o teria feito, não acha?
Ryori calou-se pensando nas últimas palavras, seu interior estava mais calmo agora, adorava conversar com o loiro, ele era perfeito nesses casos.
- É claro... Mas eu queria que tudo acabasse, não agüento mais!
- Eu estava esperando o momento que você me diria isso, eu te disse uma vez que você ia querer fugir desse mundo. Eu sei como se sente, bem, mais ou menos.
- Quero afastar Yuy disso tudo também, não quero que nada aconteça a ele! Nada! Se não eu me mato! - Disse “eu me mato” com um tom mais alto e determinado.
- Não! Nunca mais repita isso, se você se matar estará matando tudo, seus pais, seu irmão, Okan, Yuy e a mim também, por favor, não diga mais isso! - Shibushi o abraça com mais força.
- Desculpe... Não tenho pensado direito esses dias... - Ryori se sentou na cama se afastando do abraço de Shibushi para encará-lo nos olhos.
- Eu sei, eu não lhe culpo... Mas não pense nisso, pense como você viverá daqui para frente.
- Eu já sei o que vou fazer...
- Sabe?
- Primeiro eu vou acabar com aquele maldito, vou honrar tudo o que meu pai disse, depois eu vou dar um fim nos negócios que estou fazendo com os outros traficantes e depois eu quero viver num lugar calmo com yuy... - Disse com uma chama de esperança no olhar.
- Ótimo, muito bem, mas tome cuidado! Lembre-se que você carrega muitas vidas com você! - Disse sorrindo.
- Eu sei e são muito importantes para mim... - Ryori se aproxima de Shibushi lhe dando um beijo no rosto, depois se afasta - Você é muito bom, bom demais para alguém como eu, quero que seja feliz, mas tome cuidado com suas escolhas.
- Terei, mas tenho que arriscar às vezes!
- Se precisar, sempre, quando quiser, a qualquer hora... Eu estarei esperando por você. - Ryori sai da cama, fica olhando para Shibushi que tinha lágrimas nos olhos.
Ryori faz um aceno com a cabeça e caminha em direção a porta, ele sai do quarto encontrando Ruk encostado na parede do corredor com os braços cruzados, Ryori se aproxima dele lentamente, Ruk desfaz os braços cruzados pronto para se defender de mais um soco do seu chefe.
- Faça-o sorrir! - Ryori diz e vai embora.
Ruk o olhar com surpresa, mas no final acabou sorrindo. Ele não espera muito e entra no quarto onde Shibushi estava com os olhos cheios d’água.
- Tudo bem? - Ruk pergunta.
- Agora sim!
Ele se aproxima de Shibushi e o abraça ternamente.
Não sabia se havia agido certo, mas queria o melhor para Shibushi mesmo que para isso tivesse que se afastar dele. Ryori foi até seu escritório, sentou na sua escrivaninha pegando o seu laptop e se preparando para juntar todas as informações possíveis para achar Sirie.
Os ponteiros do relógio não pararam de andar, horas se passavam e Ryori não se desviou do seu trabalho, estava dando o máximo dele dessa vez, quando estava muito cansado e queria parar para descansar lembrava do seu pai, sendo assim ele continuava trabalhando. Tinha muitas informações agora. Sabia onde Sirie estava, havia conseguido uma imagem via satélite graças aquele espião que contratara, realmente, aquele rapaz havia caído do céu. Ryori podia ver a casa que Sirie estava, conhecia o lugar, era onde ele treinava com aquele homem quando garoto.
Ryori não pensou duas vezes, foi até seu quarto onde Yuy ainda estava dormindo, vestiu uma calça jeans preta, uma regata preta colada ao seu corpo, calçou botas pretas, amarrou algumas faixas pretas ao seu braço, pôs seu crucifixo, colocou seu sobretudo preto e para completar colocou um par de luvas de couro pretas, que deixavam seus dedos de fora. Foi até um dos seus armários que era trancado com chave, o abriu e pegou uma enorme katana, uma faca pequena e uma arma. Antes de sair do quarto ele vai até Yuy lhe dando um beijo em seus lábios adormecidos.
Ryori vai até a garagem pegar sua moto, montou nela e saiu rapidamente da garagem, antes de partir ele dá uma ultima olhada para trás, olha para a janela fechada do seu quarto onde estava o seu grande amor, agora teria de continuar para que pudesse dar um bom futuro para Yuy, para que pudesse viver em paz com seu grande amor teria que se arriscar, mas não se importava faria de tudo para dar uma boa vida para o seu amor, nem que para isso ele tenha que morrer.
Yuy estava preso a mais uns dos seus sonhos, cada sonho era mais intenso que os outros, e sempre sonhava com seu falecido pai, não que isso fosse ruim, mas a saudade ficava ainda maior. De repente dentro dos seus sonhos uma voz muito familiar, mas que Yuy não conseguiu distinguir, lhe avisa do perigo que seu amor estava correndo.
Yuy acorda de sobressalto, não entendia muito bem o que estava acontecendo, seu coração estava acelerado, pôs as mãos no seu peito tentando suportar a dor que sentia, mas era em vão, pois ela vinha de dentro, de um lugar onde ele não poderia tocar. Finalmente notou que estava sozinho no quarto, com isso ficou desesperado, algo estava errado e não sabia o que era.
Vai correndo até a janela fechada a abrindo num único puxão forte e violento, ao sair para varanda do quarto Yuy olha para os lados, viu que o dia estava normal apesar de frio, uma brisa fria bate em seu rosto. Frio... Detestava o frio, o frio lhe lembrava a morte, num estalo Yuy sai correndo para os corredores da casa.
Chamou o nome do ruivo, mas só o silêncio lhe respondeu, suas pernas moveram-se sozinhas para o quarto de Shibushi, entra sem aviso em seu quarto fazendo o loiro dar um pulo da cama.
- Você ficou louco?? - Shibushi pergunta assustado.
- O que foi? - Ruk se aparece debaixo dos lençóis.
- Hum?? - Yuy fica envergonhado, ele vira o rosto para o lado.
- O que você quer?? - Pergunta o loiro furioso.<
- O Ryori, você sabe onde ele está??
- Ué... Ele devia estar no seu quarto! - Diz shibushi já ficando preocupado.
- Não está! - Exasperou-se.
- Calma! Vamos encontrá-lo! - Ruk se levanta calçando sua bota.
Shibushi se levanta também, o loiro vai até o banheiro colocar uma roupa, vestiu-se com seus trajes brancos de sempre. Os três andaram separadamente pela casa a procura do ruivo, que não estava em parte alguma.
Um chamado de Ruk faz todos se reunirem no escritório, eles ficaram assustados com que descobriam, na mesa do escritório tinha o laptop do ruivo, por sorte Ryori o havia esquecido-o ligado por isso os três sabiam a localização do ruivo agora.
- Vila Runny? Eu sei mais ou menos onde fica. - Shibushi diz.
- Também sei e também sei onde fica essa mansão! - Diz.
- Onde!?!? - Yuy agarra o colarinho da blusa de Ruk desesperado.
- Calma, vamos para lá agora, mas primeiro vamos juntar alguns homens para irem conosco!
- Não temos tempo para isso!! - Diz Yuy o chacoalhando.
- Vamos nós dois na frente, eu sei mais ou menos onde fica! - Diz shibushi.
- Não! - Diz Ruk encarando o loiro.
- Sim!! Vamos Yuy! - Shibushi já ia sair do escritório, mas em um movimento rápido Ruk se liberta de Yuy e agarra o braço do loiro.
- É muito perigoso! - Diz puxando o loiro para perto de si.
- O que está dizendo... Nako sempre pensou em nós, eu não vou abandoná-lo agora!! - Gritou.
- Não vá, se for pode me esquecer!
Shibushi arregalou os olhos assustado, olhou para os olhos de Ruk que o olhavam com seriedade, respirou fundo e se livrou das mãos de Ruk. Shibushi fecha os seus olhos e faz um não com a cabeça para Ruk, depois se vira de costas e diz:
- Como quiser!
Yuy observava a cena sem entender muita coisa, mas percebeu a dor no olhar daquele soldado, mas não tinha que se intrometer, não era hora para isso, agora só queria encontrar o seu ruivo e protegê-lo.
- Vamos... Yuy! - Shibushi sai do escritório sem olhar para Ruk.
Yuy sai correndo atrás de Shibushi dando uma última olhada para Ruk, que parecia que iria desmontar a qualquer momento naquele carpete.
Um vulto preto a grande velocidade cortava as estradas com determinação, seu piloto só tinha uma coisa em mente, só um sentimento e muitas lembranças que faria de tudo para preservá-las. Seus olhos azuis estavam mais claros do que nunca, parecia que algo em seu interior havia se libertado, um sentimento de felicidade e ódio se misturavam em seu peito.
Seus olhos se estreitaram ainda mais quando viu uma enorme colina na sua frente, conhecia bem aquele lugar, fora ali que recebera o seu duro treinamento, era um lugar tão óbvio que Ryori nunca desconfiaria que Sirie se esconderia ali, no seu antigo lar.
Suas mãos se fecharam mais acelerando o seu veículo, queria chegar o quanto antes, finalmente estaria de frente com seu pior inimigo, será mesmo que estaria agindo certo? Dúvidas e medos invadiam sua mente, nunca pensou que tinha tanto medo, seus olhos estavam marejados d’água por um motivo implícito.
Percebeu que não tinha nenhuma resistência a sua entrada na mansão, pelo jeito o seu grande mestre o esperava, abriu um sorriso ao passar pelo enorme portal de ferro da mansão, olhou para aquelas estátuas de gárgulas que tanto o assustavam na sua infância, mas por algum motivo elas não o assustavam mais, seria porque amadurecera?
Corria perigo por entrar desse jeito na mansão, mas sabia que não ia ser morto daquele jeito, apesar de sirie mostrar para o ruivo que ele não o conhecia tão bem como pensava, Ryori sabia que Sirie não iria matá-lo daquele jeito sem antes travarem uma luta.
Pára sua moto na entrada da casa desce dela com passos lentos e cuidadosos, pega sua katana com firmeza dentre os dedos e segue para a porta de principal da casa. Quando ia abrir a porta à maçaneta se mexe sozinha, Ryori prepara sua katana para acabar com a vida de qualquer um que tentasse impedi-lo, mas se detém ao ver um empregado abrir a porta.
- O senhor Sirie estava esperando-o! - Diz o empregado fazendo uma reverência para Ryori.
- Onde ele está? - Pergunta com desconfiança.
- Siga-me, por favor! - Ao dizer isso, o empregado vai andando para o interior da casa.
Ryori sentiu uma sensação gostosa lhe invadir o peito, seus olhos sorriram para antiga casa que treinava, eram bons tempo, olhou para as paredes, os quadros, tudo... Tudo estava como era antes, nada fora do lugar. Olhou para um cômodo que estava com porta aberta, parou na sua frente abrindo a porta com cuidado, quando a porta se abriu por inteira revelando todo o cômodo as lembranças entraram na mente de Ryori relembrando-se de fatos que aconteceram naquele local.
Ficou um tempo parado só olhando para aquele cômodo vazio, mas logo foi interrompido pelo empregado que o chamou. Ryori continua seu percurso dando uma última olhada para o quarto vazio.
- Droga! Dirige mais rápido!! - Diz yuy irritado como o loiro.
- Não me enche o saco, estamos quase a 200 km/h!!
- Não é o bastante, não sabemos que hora Ryori saiu de casa... Temos que alcançá-lo rápido!
Shibushi olha meio contrariado para o moreno que estava ao seu lado, mas não reclamou, afinal os dois estavam preocupados com a mesma pessoa e queriam a mesma coisa. Pisa fundo no pedal do carro, indo na mais alta velocidade na direção de umas altas montanhas que ainda estavam longe de chegar.
Ryori estreitou seu olhar ao entrar num corredor que só tinha uma única saída, uma grande porta estava no final do corredor, reconhecia aquele lugar. Seu coração batia cada vez mais forte, estava com vontade de sair correndo na direção daquela porta e se encontrar o quanto antes com o seu destino, mas conteve-se.
O empregado abre a porta lentamente, um facho de luz vai aparecendo cegando a visão do ruivo, após estar inteiramente aberta o empregado fica encostado na parede pedindo para que o ruivo entra-se.
Ryori entra na sala, seus azuis logo procuraram pelo seu antigo mestre, sossegou-se quando o viu sentado numa grande poltrona azul que estava no meio da sala, lá estava Sirie com os cabelos amarrados a um rabo de cavalo, suas vestes eram negras e com uma taça de vinho nas mãos.
- Finalmente me encontrou... Ryori! - Diz Sirie, colocando a taça de vinho numa mesinha que estava ao seu lado, o rapaz se levanta e encara o ruivo.
- Faz tempo! - Surpreende-se com a paciência que estava tendo como Sirie, seria burrice atacá-lo desse jeito, também tinham muitas coisas a conversar.
- Você está muito bonito, estou vendo que se tornou um grande homem! - Disse sorridente.
- Hum!
- Eu fiz um bom trabalho! - Diz se virando de costas para Ryori, indo na direção de um quadro - Me siga! - Sirie mexeu na moldura do quarto e uma porta de secreta se abre.
Sirie entra na passagem e Ryori o segue com cautela, ao passar pelo corredor escuro os dois saem na antiga sala de treinamentos, o ruivo olha para os lados vendo que tudo estava no seu devido lugar.
- Eu não mexi em nada, está tudo como antes! - Diz Sirie se virando para Ryori.
- Verdade. - Concordou.
- Vejo que nós dois estamos de preto, isso é tão triste! - Diz Sirie.
- Estou preparado para o seu enterro e você para o seu caixão! - Diz abrindo um sorriso.
- Huuuu... Vejo que está com a língua afiada! - Riu.
- Nem imagina como!
Ryori pega sua katana com as duas mãos, ele mostra brilhante lâmina da sua espada ao tirá-la da sua bainha, ele põe sua bainha na sua cintura e com a mão direita segura sua katana na direção de Sirie o desafiando.
Sirie sorriu, com passos lentos ele vai até uma parede onde tinha as mais diversas armas que se podia imaginar, mas não estava interessado em nenhuma outra senão a sua katana. Ele a pega nas mãos a tirando rapidamente da bainha e a jogando no chão.
- Como nos velhos tempos! - Se aproximou deixando a ponta da espada raspar no chão fazendo um barulho irritante cortar o silêncio da sala.
Arrastou a espada no chão a forçando mais para baixo fazendo algumas faíscas de fogo surgem, os olhos de Ryori se estreitaram, separou ligeiramente suas pernas, sua mão se agarrou-se com mais afinco a katana.
- Não me assusta mais com essas faíscas! - Diz Ryori.
- Não? Bom, pelo menos não é mais aquele garoto medroso! - Riu se aproximando cada vez mais rápido de Ryori ainda com a lâmina da espada raspando no chão fazendo mais faíscas surgirem.
Aquele som do metal raspando a superfície áspera do chão era ensurdecedor, mas Ryori não prestava mais atenção nisso, sabia que isso era uma estratégia para distraí-lo, mas não era mais aquele garotinho inexperiente, agora era um homem e ia mostrar para o seu mestre o quanto havia evoluído.
Seus músculos ficaram tensos, sua respiração estava acelerada, sentiu uma gota de suor escorrer pela sua face, Sirie finalmente ergue a sua espada se posicionando para o ataque. Os dois encaravam-se em silêncio. Estavam tão próximos que se tornava impossível imaginá-los escapando ilesos dessa aproximação. Em seguida, a ponta das suas espadas tinham-se imobilizado no ar, frente a frente, interpondo uma distância mínima.
Sirie ergueu um pouco sua espada, essa foi à brecha que Ryori tanto esperava, num movimento rápido atacou Sirie, mas este protege seu pescoço de ser arrancado fora com a sua própria espada fazendo um som forte das lâminas ecoarem por todo salão. Ficaram parados por uma fração de segundos apenas se encarando, para depois desencadearem em sucessivos golpes contra o outro.
A defesa de Ryori era quase perfeita e o seu contra-ataque era um pouco lento comparado ao de Sirie, os dois tinham seu ponto alto e baixo, mas algo que se podia dizer era que ambos tinham muita força e determinação. Num golpe mal posicionado de Ryori faz Sirie ver uma brecha em sua defesa, sendo assim o anfitrião o ataca rapidamente fazendo Ryori soltar um gruído de dor.
O ruivo se afasta um pouco de Sirie, olhando para o seu braço esquerdo que estava ferido, mas não teve tempo para ver o seu estado, pois seu ex-mestre partira para cima dele com golpes fortes e rápidos, usando as duas mãos para dobrar a força dos golpes. Ryori se defendia só com uma mão, estava sendo difícil, estava fazendo um esforço descomunal para tentar se defender daquela fera que o atacava com tanto ferocidade.
- Não mudou nada Ryori... Continua sendo aquele garoto fraco! - Riu avançando mais no ruivo. Fraco! Você é um fraco Ryori Nako, assim como seu irmão, como sua mãe, como seu pai, seu sangue está sujo, você é impuro demais para poder encostar um dedo em mim! - Riu parando um pouco com os ataques para poder olhar melhor para o seu aluno, que estava com as pernas meio dobradas pelo cansaço. - Olhe para mim, Ryori!! - Gritou.
Ryori obedece prontamente, olhando com atenção para aqueles olhos brilhantes e escuros, reconheceu aquele brilho doentio por sangue, sentiu medo, seu interior todo tremeu de medo, ouviu o som da sua espada pela tremedeira da sua mão. Viu a expressão vitoriosa de Sirie, um sorriso de escárnio iluminava toda a face daquele assassino.
Piscou algumas vezes vendo a imagem embaçada de Sirie a sua frente, seus olhos estavam cansados, podia se entregar agora a ele, assim poderia ter uma morte mais fácil, esse pensamento fraco e covarde lhe invadiu a mente com força total fechando as portas de todas as saídas que podia ter para mudar o desfecho daquele duelo, que ao seu parecer já tinha um vencedor.
Sentiu um cheiro estranho lhe invadir o nariz, olhou para o lado e viu que uma das janelas daquele imenso salão estava aberta, notou que esse suave cheiro vinha de um jardim de flores, as cores vivas das flores mostraram a Ryori como a vida era bonita e como a dele estava escura e por um fio.
- Nem pense em fugir! Covarde!!!! - Diz Sirie, olhando para o mesmo lugar para onde Ryori estava olhando.
Sirie foi andando lentamente na direção de Ryori, que estava paralisado olhando para as flores, logo um monte de lembranças lhe veio à mente, vários acontecimentos foram lembrados naquela fração de segundos.
Lembrou-se de sua mãe do seu lindo sorriso, lembrou de como ela o beijava antes de ir dormir, era como se não existisse o amanhã para ela, pois ela sempre o amava como se cada dia fosse o último. O doce perfume de rosas que ela possuía nunca havia desaparecido da sua mente, assim como o seu rosto que nunca seria esquecido.
Lembrou-se de seu irmão e de como brigavam, mas não era só briga, brincavam muito também, para os dois bastavam apenas um simples cruzar de olhar para que se entendessem, um respeitava o outro e se amavam e amavam viver ao lado dos seus pais. Eram definitivamente felizes.
Lembrou-se do seu pai e de como ele viera a sofrer em todos esse anos, lembrou-se de como seu pai o abraçava, de como sorria para ele, lembrou-se de todas as brincadeiras que fazia junto dele. Mas também se lembrou de como ele havia sido forte, lembrou-se de como tinha um bom pai, de como era sortudo naquele tempo, lembrou-se mais uma vez do seu olhar carinhoso, lembrou-se mais uma vez do seu silêncio ensurdecedor do seu pai que lhe gritava palavras de afeto, mas como era idiota demais nunca as ouvira, fôra obrigado a ouvi-las quando seu pai estava sendo morto, naquele momento sentiu todos os sentimentos daquele coração.
Lembrou-se de Yuy, sua única lembrança viva, a única pessoa que amou involuntariamente, a única pessoa que nunca se importou se ele era uma pessoa popular, perigosa, importante ou poderosa, ele era a prova de que ainda tinham pessoas boas nesse mundo, lembrou-se de como o conhecera, de como foi sortudo naquele dia. Os lábios quentes e macios do moreno lhe vinham à mente com força.
Lembrou-se de Shibushi, de como aquele rapaz havia apoiado-o e sempre o amado da forma mais verdadeira que existia, lembrou-se dos seus tristes olhos azuis, de suas palavras doces e das suas atenções exageradas, era outra prova que no mundo existia amor.
E por fim lembrou-se da sua vida, lembrou-se de como havia ignorado essas pessoas e de como colocou todas elas em perigo. Seu peito se encheu de tristeza ao ver toda sua vida passar nessa fração de segundos, daria tudo para mudar isso, queria que o tempo voltasse agora, daria sua vida para que isso acontecesse, mas isso não ia acontecer, isso não era um conto de fadas, isso era a vida real e nada que fizesse agora iria mudar o passado. Mas também não podia desistir tão fácil da sua vida, pois ela não era mais sua, sua vida pertencia a seus pais, seu irmão, a Shibushi e a Yuy, ele não tinha o direito de morrer nem que quisesse.
Voltou a realidade erguendo seus sofridos olhos azuis para a lâmina assassina de Sirie que vinha com fúria na sua direção, algo dentro do ruivo pareceu despertar, seus olhos se abriram quando a lâmina veio na sua direção, com um pensamento voltado totalmente à vida, Ryori se afasta com velocidade do golpe, mas não foi rápido o suficiente para deixar um pequeno corte na sua testa.
- NÃO ADIANTA FUGIR, RYORI!!! - Sirie finalmente se irritou mostrando a sua face demoníaca para quem quisesse ver.
Ryori olhou com atenção para o próximo ataque de Sirie, vendo como era igual ao outro, mas desta vez não deixaria ser atingido novamente, então ele move seu braço direito soltando um grito de dor pelo corte que se abrira ainda mais, ele vai na direção de Sirie com a espada um pouco abaixo do seus ombros na posição horizontal afim de fatiá-lo ao meio.
Sirie vê seu movimento, mas já era tarde demais para se afastar ou mudar a posição da sua espada, maldiçoou-se por ter subestimado o seu antigo aluno, nessa fração de segundos pensou em toda as coisas que o levaram até ali, mas logo acabou, pois não tinha muitas lembranças, então voltou rapidamente para a realidade vendo a espada de Ryori estraçalhar o seu braço esquerdo num único golpe.
Gritando de dor Sirie deixa sua espada cair no chão, ele se ajoelha aos pés de Ryori, que estava a olhá-lo com um ódio mortal. Sirie agarrava-se ao que sobrou do seu braço tentando inutilmente diminuir a dor que sentia.
- Perdeu Sirie, maldito... Você tirou muitas coisas de mim, mas você não pode tirar a minha vida, porque... Porque ela não me pertence!! - Dizendo isso, Ryori ergue a sua espada no alto da sua cabeça pronto para partir aquele ser ajoelhado no chão em dois.
*
- É AQUI!!! - Yuy pula do carro antes de Shibushi estacioná-lo ao lado da moto de Ryori. O moreno sai correndo na direção da casa com uma pistola na mão, sabia que iria encontrar alguns guardas, mas não estava nem aí para isso, iria matar qualquer um que entrasse no seu caminho.
Correu por todos os cômodos da mansão vendo que ela estava vazia, até que Yuy vê um empregado sentado numa cadeira lendo um jornal tranqüilamente, Yuy se aproxima sorrateiramente do homem colocando a arma na sua cabeça.
- O... Que?? - O empregado se assusta, mas não se mexe com medo que Yuy atire.
- ONDE ESTÁ RYORI???? - Perguntou sem paciência.
- Eu... Eu não sei do que está falando! - Diz tremendo de medo.
- DIGA!!!!!!!!!!!!!!!! - Puxou o gatilho da arma assustando o empregado, mas não o suficiente para ele falar.
Yuy estava concentrado no empregado, por isso nem viu um dos capangas de Sirie aparecer atrás dele com uma arma, era ninguém mais que Yan.
Um tiro é ouvido na sala, o empregado ficou muito assustado, mas não se moveu já que a arma de Yuy ainda estava apontada para sua cabeça. O moreno virou-se para trás assustado vendo um homem caído no chão, que já estava vermelho pelo sangue derramado.
- Era para você me esperar! - Diz Shibushi que estava com um revolver na mão.
- Vo...Vo você ma... Matou um homem! - Diz Yuy assustado.
- Eu te salvei! Agora vamos achar Nako! - Shibushi pede com a mão para que Yuy se afaste do empregado, esse obedece sem tirar os olhos do homem morto no chão. - Onde está Nako? - Perguntou para o empregado.
- Não sei! - Disse.
Shibushi deu um tiro bem próximo ao pé do empregado mostrando que ele não estava para brincadeiras, o empregado o olha assustado, agora não estava mais se importando se ia ou não trair Sirie, ele apenas queria se salvar.
- Por... Por favor não me mate, ele está no escritório!
- Onde é fica? - Pergunta Yuy.
- Vão indo reto por aqui, depois vai ter dois corredores, virem a esquerda e darão num corredor que só tem um porta!
- Bela explicação, mas você vai conosco! - Dizendo isso, Shibushi pega o homem pelos cabelos fazendo ele se levantar e mostrar o caminho.
Os três corriam na direção apontada pelo empregado, logo chegaram ao escritório que estava vazio sem ninguém.
- CADÊ ELE??? - Shibushi dá um soco no empregado.
- E... E ... Eu não sei, ele devia estar aqui!! Eu juro!!! - Disse quase chorando de medo.
- MENTIROSO! ONDE ESTÁ NAKO? - Pergunta o loiro novamente.
- Tem... Tem o sistema de câmeras, assim você poderá achá-lo com mais facilidade! - Diz o homem.
- Onde fica isso?
- Venha comigo!
- Vamos Yuy! - Shibushi chama o moreno que estava olhando para o nada no escritório.
- Vai indo na frente! - Diz sentindo que não devia sair dali.
- Não temos tempo para perder! - Diz o loiro.
- Vai indo na frente, vai logo!! - Disse mais alto dessa vez.
Shibushi resolve deixar o moreno, afinal não tinha tempo para infantilidades no momento, agora o ruivo poderia estar em grande perigo, por isso não tinha motivo para dar atenção para Yuy.
Quando viu o loiro saindo do escritório Yuy olhou para todo o escritório com atenção, ele ficou procurando algum vestígio de Ryori, mas não achou nada.
- O que está acontecendo aqui? - Ele ouve um som forte vindo de trás de uma das paredes, ele se aproxima de uma delas encostando o ouvido para ouvir algo - Tem alguém no outro lado dessa parede!!! - Disse nervoso.
Olhou para os lados nervoso procurando alguma porta, mas não achou, ele foi andando para trás até que se encostou a um quadro assim que encostou a moldura se mexeu revelando um botão.
- Então é isso... - Disse apertando o botão sem hesitação.
Um das paredes de move revelando uma passagem secreta, Yuy pensa em chamar Shibushi, mas seu coração o impulsionava a entrar correndo naquele corredor escuro, teve medo, mas mesmo assim foi na direção daquela escuridão.
Após sair daquela escuridão se deparou com um grande salão feito de metal, notou que no lugar tinha muitas armas, deu uns passos à frente e uma cena muito forte o chocou, Yuy viu Ryori, o seu Ryori caído no chão com uma expressão de dor no rosto.
*
- Bastardo! - Diz Ryori gemendo de dor, segurando fortemente o seu ombro onde uma bala havia adentrado.
- Nunca confie no seu inimigo! Eu já lhe ensinei essa lição, mas acho que você faltou na aula! - Sirie puxa os cabelos vermelhos de Ryori para cima, para poder visualizar melhor o seu belo rosto.
- Você não tem honra! - Disse num gemido.
- Hummm... Que engraçado, eu não tenho honra e vou continuar a tocar minha vida, enquanto você que tem honra vai morrer como o idiota do seu pai!! - Riu.
Ryori estreitou seu olhar, fuzilou Sirie com os olhos por ter tocado no nome do seu pai, olhou para ele de forma assassina, sabia que era o fim, que aquelas seriam suas últimas palavras.
- Que vida? Você tem uma por acaso? Você por acaso tem alguém que o espera chegar em casa? Tem alguém que chora por você? Tem Sirie? Você tem? - Deu um sorriso cínico.
- BASTARDO!! - Sirie o olha com ódio, agora havia passado do seu limite, ele ergue a sua arma a colocando na testa de Ryori. - E VOCÊ TEM? SOMOS IGUAIS, RYORI!!!
- Não... Não mais! - Diz fechando os olhos, visualizando a imagem de Yuy sorrindo para ele.
Sirie se enfurece, aperta o gatinho e um som aterrorizante corta o silêncio daquela sala.
Um corpo frio e sem vida cai no chão, um ser cheio de vida e planos perde totalmente o brilho do seu olhar, seu rosto cai pálido no frio chão daquela sala e ninguém vem lhe socorrer e nem poderia. O piso branco é manchado pelo sangue vermelho da mesma cor que os cabelos Ryori, da mesma cor de uma rosa e da mesma cor dos olhos de Yuy que chorava sem parar.
Um sentimento forte se instala no peito de Yuy, ele joga o objeto das suas mãos no chão e vai correndo na direção do seu amado, ele fica mudo não acreditando no que aconteceu, finalmente tudo aquilo havia terminado, de uma forma triste, mas havia terminado.
Lágrimas e mais lágrimas caíam pelos olhos de Yuy, ele vai se aproximando de Ryori, que estava ajoelhado no chão olhando sem acreditar que Sirie estava caído morto na sua frente com os olhos virados e o um pedaço do seu crânio estourado. Depois ele olha para o seu assassino que era seu próprio namorado, nem acreditou no que viu, se culpou por fazer Yuy sujar suas mãos daquele jeito.
- Ryori! - Diz finalmente se jogando nos braços do seu amado.
Os dois se abraçam e Ryori olha para Yuy pensando em como a sua vida não pertencia só a ele, olhou para os seus olhos mais uma vez...
Há uma pessoa que com o olhar
me toca
E mesmo quando tento fugir
Entrelaçada nos teus braços me encontro.
E tento não dizer que ele é meu mundo,
Mas o faço inevitavelmente, me engolfo num profundo oceano de imagens.
Congelo teu reflexo em minha mente.
Tento pousar meus olhos em outra direção
E quando me perco, encontro-me voltado num beijo...
E como sempre, meu anjo
Resgata-me dos meus medos,
E me leva para o mundo dos sonhos.
Mas não era um sonho, era real e finalmente podia fechar os olhos e descansar. Yuy se assusta um pouco ao ver Ryori cair dormente em seus braços, mas lhe sorri depois acariciando seus cabelos.
Um forte estrondo tira Yuy do seu sossego, ele olha para trás e vê Ruk e Shibushi junto de alguns homens de Ryori.
- Ryori! - Shibushi vê o ruivo caído nos braços de Yuy, ia até ele, mas sente a mão de Ruk no seu ombro.
Shibushi encara Ruk aceitando a sua derrota, então o loiro cruzou os seus braços e ficou olhando aquela cena com um olhar triste. Ruk o abraçou por trás cobrindo seus ombros com seus longos e fortes braços, mostrando para o loiro que ele teria alguém para ficar e que não precisava se preocupar.
*
A mansão de Sirie tinha pouquíssimos guardas, ao que parece o chefão havia mandado todos os seus guardas para uma enorme fazenda, por isso que os homens de Ryori não tiveram dificuldade de acabar com os outros guardas que se encontravam ali. O ruivo foi levado para o hospital depois de tudo e é claro que Yuy não saiu do seu lado por um segundo sequer.
Uma semana havia se passado, a rebelião que Sirie havia formado havia acabado com a sua morte. Cada soldado que estava ao seu lado para derrubar o governo havia ido embora para os seus lares. Os políticos respiraram mais aliviados, sendo assim voltaram as suas antigas funções.
A gangue que Ryori juntara para combater Sirie havia se dispersado cada um foi para um canto a mando do próprio Ryori, que disse que não queria mais homens trabalhando para ele, sendo assim ele deixou tudo o que ele construiu aos ventos.
*
- Para onde iremos agora? - Yuy pergunta para o ruivo.
- Para onde quer ir? - Lhe sorri.
Os dois caminhavam pelo parque tranqüilamente, o dia não estava muito bonito, mas o vento fresco que batia em seus rostos era gratificante. O ombro de Ryori estava todo enfaixado e seus braços estavam imobilizados por uma faixa que estava presa ao seu pescoço.
Yuy estava com um sorriso bobo no rosto, estava tão feliz que nem conseguia esconder, parecia que seus olhos estavam mais brilhantes que nunca e seu sorriso mais alegre, Ryori também se encontrava no mesmo estado, mas sua personalidade não era tão aberta quanto à de Yuy para ficar sorrindo que nem um bobo para tudo.
- Que tal Dermeiouw? - Perguntou Ryori meio pensativo.
- Greee! Frio demais! - Fez uma careta.
- Brincamasca? - Ryori supôs.
- Longe demais!
- Que tal... Deixe-me ver... Hum... Greentow? - Sorriu.
- Greentow!!! É!!! - Yuy riu animado.
- Está decidido então! - Diz Ryori o olhando com um sorriso no olhar.
*
O casal estava parado na frente de dois túmulos, haviam colocado os túmulos dos seus pais lado a lado. Ryori olhava com os olhos cheios d’água para o túmulo do seu pai, retira uma foto do seu casaco e a coloca em cima da sepultura, sabia que ia acabar voando e se perdendo nos setes ventos, mas era essa sua intenção.
- Por que está se desfazendo disso? - Perguntou Yuy olhando para a foto que Ryori pôs em cima do túmulo.
Era aquela foto que Nadesico e Mafuri estavam abraçados e nas suas frente estavam os rostos sorridentes de Ryori e Nien.
- Por que eu quero criar novas lembranças... E para isso eu preciso descartar o velho, não que eu vá esquecê-los, pois isso nunca vai acontecer, pois tudo o que eu sou é graças a todos eles, mas mesmo assim eu quero fazer algo meu, quero criar lembranças boas para mim... - Ryori olha carinhosamente para Yuy e o beija.
Os dois sorriem um para o outro, depois disso deixam flores nos túmulos dos seus pais e saem no cemitério abraçados.
*
Viam de longe a grande Rondon ficar pequena, os grandes prédios logo ficaram do tamanho de algumas formiguinhas. Abraçados num dos corredores de um enorme navio estavam Yuy e Ryori.
O ruivo estava com o queixo encostado na cabeça do moreno, seus cabelos soltos voavam livremente ao vento, seus olhos tinham um brilho diferente, um brilho de esperança e amor, agora eles iram trilhar o seu próprio caminho.
Fim
Agora temos "Mundos 2" ^-^