Resumo de Obra Literária


O CORONEL E O LOBISOMEM


Sou de muito inventismo, um danado em fazer render uma parolagem — um fio de cabelo vira corda no meu traçado.

(Cel. Ponciano de Azeredo Furtado, p.l56)’

I – O Autor e a Obra

dilacerado pela atração dos opostos é um coronel decadente que, num tempo que não é mais o seu, se debate entre a atração de um agrupamento semi-urbanizado e a vida do mundo perdido do interior, mundo este ainda estruturado em bases mítico-sacrais, no qual o lobisomem e a sereia são aceitos como seres naturais, reais, que integram o acontecer normal da existência.”

Em verdade, o coronel não deliberava mais Achei tudo isso uma falta de respeito que ofendia meu brio militar. Um coronel de patente não podia acabar assim em banho-maria sem mostrar a força das armas.”




II – A Linguagem e o Estilo

Talqualmente um dois de paus, fiquei no meio da estação enquanto o trem puxava Juca Azeredo para o seu engenho de cachaça

Nem de pessoalmente tratava da miudeza.”

Pratrasmente de dez anos, meu patrão. Pratrasmente disso.”

Nem representa a terça metade, amigo Bezerra. Menasmente que isso.”

Toda essa grandeza, esse mão-abertismo, não era ponto sem nó.”

.,.o primo Baltasar saltava mais desinfeliz que perereca em pata de boi. Era pessoa desnascida para labuta de curral e essa verdade pulava em rosto.”

Sim senhor! Mulherista como Ponciano nem no estrangeiro tem igual”

Reclamei dele, mostrei o que a gente andava desganhando”

-Esta serve por ter tudo de donzela a olho nu e aquela não serve por aparentar ser despossuída do seu etecétera e tal de nascença. “

Debochei do seu conselheirismo, do seu intrometimento.”

Só que não sou homem de ser chamado e descomparecer.”

Como o sereno pudesse trazer desbenefício ao meu resto de maleita...”

Os urubus esperavam o resultado da guerra, cada qual mais pescoçoso que outro...”

recriminação de fazer um frade de pedra verter lágrima.”

luarão de cegar coruja”

berro que varou a cumeeira de telha-vã e foi bater nos metais do alambique”

Livre do freio, no adentrar do mato a arrogância do malcriado ganhou barriga

O febrão, já conhecedor do meu gênio atravessado, adiantou a chegada.”

Lagartixou por uma cerca de bambu, mas tão sem força que logo caiu na espingarda de Vermelhinho. Antão Pereira, com dedo de gato, salvou os restos de vida do galo de Caetano de Meio, quando meu raçudo já atiçava fogo no canhão.”

Acordei tarde, já o dia crescido e amamentado.”

E essa contentagem andou de braço dado comigo bem um par de semanas.”



Fiquei cativado dela, enquanto a dona de casa (...) corria na caça do leque esquecido nos confins do quarto. Digo que não saí da Rua dos Frades de olho abanando. Foi Dona Esmeraldina sumir no corredor e eu firmar jurisprudência num certo estofado da menina Cerqueira. De cima dos meus dois metros, eu levava todas as vantagens. Era deixar escorrer a vista pela folga das rendas e disso tirar proveito. Como jacaré velho, choquei as partes expostas, a ponto da moça, tomada de encabulamento, retirar da brasa de Poncíano o naco infestado.’

(Castrão) Não perdia vez de chamar a minha atenção e a do doutor para os rabos-de-saia que passavam:

-Que pedaço, Seu Ponciano! E a mulher do Cardoso. Veja os comprovantes da retaguarda, seu doutor.”

O que mais Salatiel apreciava era a companhia do pessoal do palco e lá numa ocasião teve ele o desplante de trazer ao meu camarote uma cômica de nome Zizi, que mostrava perna de fora na ribalta, um palmo acima do joelho, em verdade um roliço de muito proveito e serventia, Estando D. Esmeraldina presente, armei cara de réu condenado, de sujeito severão, talqualmente mostrava nas procissões, nos meus dias de pau de andor. Mas por dentro, com alegria de bode velho em pasto de cabrita nova, bem que apreciei o todo vistoso da menina Zizi e no particular os recheios de que era portadora, tanto nas partes nobres como no andar de baixo, onde apresentava instrumental de muita ostentação, do libertino botar em redoma e deixar em casa de comércio para ser visto e apreciado a tanto por cabeça”


III – O Personagem Protagonista


IV – O Enredo


Os anos da “pequenice” do coronel: órfão muito novo, foi criado pelo avô Simeão, que enxerga no neto “todo o sintoma do povo da política”, pois o menino era invencioneiro e linguarudo, “desabusado da boca”. Simeão deixa o menino aos cuidados de Sínhá Azeredo, velha solteirona. Ponciano cresce num lugar chamado Sossego, nos ermos, onde havia “algazarra de lobisomem’. A tia, beata, surpreende o menino em “delito de sem vergonherismo” com uma mulatinha (“pardavasquinha”). No Sobradinho, fazenda do avô, fica de castigo, “em galé de quarto escuro”. Vai estudar em Campos, morando na rua da Jaca, mas, em vez de estudos, prefere a vadiagem, as capetagens...Quando Poncíano faz 15 anos, sua tia adoece e morre: “num agosto de chuva foi embora na asa de um vento encanado”. O menino escuta a tosse da tia morta e chega a inquirir o fantasma. Começa daí a fama do futuro coronel, pois o acontecido, depressinha, “pulou o muro e a vizinhança ficou sabedora”. A velha Francisquinha, negra moradora do Mata-Cavalo, também posse de Simeâo, vem cuidar do menino. A reza forte da negra faz sumir a tosse e o fantasma da tia morta. Francisquinha tem que proteger as negrinhas que vão morar com ela na rua da Jaca, pois Ponciano já era “maluco por perna de moça.” Já na adolescência, Ponciano já era muito alto, recebendo do avô a patente de alferes. De gênio muito estourado, o menino só pensa em mulher, apaixonando-se por Branca dos Anjos, mocinha de tranças, moradora em Gargau. Apesar desse nome pura, o que atraía Ponciano era a “esmerada guarniçào traseira” da moça. Mas o pai da menina, protegendo sua “donzelice”, esconde-a no sertão distante. Num circo, Ponciano, por equívoco, é levado pelo povo a lutar contra um valentão que desafiava a cidade. Ele procura se esquivar dizendo que precisava de licença especial por ser militar (alferes), mas um velhinho, que era coronel, autoriza a luta. Num golpe de sorte, o alferes dá um rabo-de-arraia no valentão e vence a luta, elevado com triunfo. Mas o avô não gosta dessa fama de valente, queixando-se de “entre de padre não entre de cabeça” do neto...Dessa “guerra no circo’ o rapazinho ganha a patente de capitão.


CAPÍTULO 2,

Em sua juventude, Ponciano deixa crescer uma longa barba e passa o tempo na boemia, em serenatas. Afirma ser devoto de São Jorge, Santo Antonio e São José, mas freqüenta a casa de Dada Pereira, que era pensão de “moças desencaminhadas”. Com a morte do avô Simeão, que era coronel da Guarda Nacional, Ponciano herda a patente e as terras do velho. Começa a pensar em ‘tomar estado”, isto é, casar-se. Uma prima é recusada por ser magra demais, “um bambu vestido”. Muda-se, juntamente com Francisquinha, para a fazenda do Sobradinho. Como os vizinhos estavam avançando em sua propriedade, escreve a eles uma carta educada, orientada pelo advogado Pernambuco Nogueira. Seus empregados, Antão Pereira e Saturnino, acham que esse “proceder mimoso” não era compatível com os ladrôes de pasto. Nas brigas na justiça, o coronel triunfa. Vem ajudá-lo a dirigir as terras o mulato Juquinha Quintanilha, que fixa residência em Mata-Cavalo. Devido às demandas de Foro, o coronel vira um andarilho. E ameaçado de morte por Cicarino Dantas, que contratara o pistoleiro José Mateus. Apesar de dizer que não tinha medo, Ponciano passa a andar cercado de capangas armados...Um de seus acompanhantes é Sinhozinho Manco, que tinha “língua chorona e vista que só via defeitura”. O pistoleiro acaba sendo preso pelo delegado Totonho Borges. Ponciano acaba intercedendo por ele, dando-lhe dinheiro e ganhando sua amizade. Tudo acaba bem, pois, com a mediação do tabelião Pergentino de Araújo, Cicarino e Ponciano fazem as pazes. Cicarino é famoso por dormir com as mulatas de sua fazenda. Ponciano auxilia seu primo Juca Azeredo na compra do engenho de Paus Amarelos. No Sobradinho, um de seus auxiliares é o bêbado Janjão Caramujo.

CAPÍTULO 3

Uma onça pintada ameaça a região. João Ramalho, um marcador de gado, vasculha as terras em busca da onça. Diziam que era um animal enorme, que “dava carta e jogava de mão”. Como a onça teria sido vista nas terras do major Badejo dos Santos, Ponciano desculpa-se com uma certa “pragmática militar”, mostrando-se impossibilitado de resolver o caso.. Um ta de Dioguinho do Poço diz que onça “deitava fogo pela goela”. Ponciano visita o primo em Paus Amarelos, que sofria com um bicho no pé. Ponciano tira o berne: “o carnegão pulou como rolha dejinjibra em viagem de quatro braças.” O coronel ganha fama de grande curador. .Juquinha diz ao coronel que um caçador chamado Zuza Barbirata mataria a onça por duzentos mil réis. Numa noite de tempestade, Ponciano fica pondo medo nos outros, contando casos de assombração até o romper do fantástico, seu avô apa rece. Tenta chamar Quintanilha, mas a voz do coronel sai fraquinha. Ele se desculpa: “Não tenho feitio de contrariar meu íntimo e dentro desse propósito tratei de bater em retirada.” Ponciano crê que fora vítima de uma ilusão, pois viu o avô com esporas e, segundo o costume, “visagem anda sem pé e voa sem asa Cercado pelos empregados, inclusive por Tutu Militão, curador de veneno de cobra, o coronel sai para caçar capivara. O bicho não aparece e Ponciano, então, mata um bem-te-vi, que “desfazia da comitiva num palanque de aroeira”. Súbito, aparece a onça. Todos fogem, inclusive o coronel, que vai para o pântano. Depois, chega ao Sobradinho, ainda na frente dos outros, a quem acusa de covardia.. .A noite, tem um sonho erótico com Branca dos Anjos. A onça reaparece na fazenda; Ponciano, sempre se desculpando por causa de um juramento, não liquida o felino. Apesar disso, a fama do coronel viaja longe, enquanto ele caçoa de seus empregados covardes. A onça visitara a casa de Dioguinho do Poço, que sobe no telhado. Ponciano passa a chamá-lo de Dioguinho do Telhado. Zuza, o valentão caçador de onça, chega ao Sobradinho, com sua voz alta. Ele e o coronel disputam quem fala mais grosso...Os dois saem para caçar a onça e treinam a pontaria matando pequenos pássaros. Quando a onça aparece, os dois fogem de medo. Um caboclinho é que acaba matando a onça, mas o coronel, depois de afugentá-lo, fica com a fama, e, pisando sobre o felino morto, diz:

Conheceu, papuda!” Zuza nunca mais foi visto...

CAPÍTULO 4

A pele da onça está espichada na sala do Sobradinho. A fama do coronel corre e ele deixa “correr o marfim”, isto é, mostra-se indiferente a isso. Ele pensa vagamente em casamento, mas quem se casa é Juquinha e D. Alvarina. Depois de algum tempo, eles perdem o filho, cujo padrinho era o coronel. Ponciano tem problemas com a bexiga, uma antiga doença, que pegara nos seus “antigamentes de libertinagem”. Sua barba começa a embranquecer, ele se acha parecido com lobisomem. Também está muito barrigudo, parecido com um tal de Pedro Pita, “que não via o birro desde muitos anos atrás.” Ponciano e Juju Bezerra, autoridade jurídica e dono de farmácia, conversavam safadezas e freqüentavam o cabaré (Moulin Rouge). Os dois eram muito parecidos nesse assunto de rabo-de-saia, “irmão da mesma roupa”, como diz o coronel. Juju acha que Ponciano não deveria se casar, mas, sim, arrumar uma amante, “teúda e manteúda”. O coronel não quer manchar sua reputação junto à irmandade religiosa a que se diz filiado, e também para não desagradar a seu padre confessor, Malaquias de Azevedo. Em Mata-Cavalo, conhece uma prima de D. Alvarina, Isabel Pimenta, professora muito jeitosinha. O coronel se apaixona: “Se eu caísse nessas benfeitorias e recurvados nunca mais ninguém ia ter notícia do coronel Ponciano de Azeredo Furtado. Nunca mais!” Isabel tinha olhos de água e gostava muito de ler. Ponciano vai sempre a Mata-Cavalo, mas é por demais tímido, não consegue seduzir a professora. Faz perguntas bobas sobre mordida de cobra e visão de boitatá. Isabel não acredita nas “invencionices do povo bronco dos ermos.” Ponciano diz que já tinha visto lobisomem e confessa não saber conversar “rasgando seda”, pois assunto para ele era “patifarias de cama e travesseiro”. Um dia resolve fazer o pedido de casamento: vai todo perfumado e fardado, mas Isabel fica de consultar sua família, em Caju. Ponciano leva-a até a cidade, para ela tomar o trem. Deseja corresponder-se com Isabel, por isso procura papel de carta em Santo Amaro, vilarejo próximo ao Sobradinho. Encontra-se com Tutu Militão, que se queixa da decadência do seu serviço de curar mordida de cobra, afinal, as farmácias vendem soro anti-ofídico. Ponciano não concorda, fala que Tutu ganha bem, mas, no fundo, fica profundamente abatido. Tutu traz a carta contendo a resposta do pedido de casamento. O coronel, ansioso, acende seu charuto Flor de Ouro, mas se decepciona, pois a moça repele seu pedido, pois tinha compromisso com um primo. Ponciano sente que tem cobras dentro do peito, tamanha é a sua raiva. Dorme mal, tem pesadelos com lesmas, sapos, lacraias, minhocões, tem a impressão de ver um anjo lutando contra um capeta. Depois de dois dias de chuva, sai para ver o trabalho das lavadeiras e nota uma delas, uma sarará, chamada Nazaré, que usava a roupa muito apertada. Falso moralista, o coronel chama a atenção de Francisquinha, que era madrinha da sarará. Juju Bezerra, quando conhece Nazaré, comenta que ela é “montaria para muita sela”. O coronel, combalido desde o fora de Isabel, cai de cama, com maleita. Fica mais de dois meses adoentado. Como Juju o visitava sempre e ficava de olho em Nazaré, Ponciano manda a moça para mata para ajudar D. Alvarina. Ponciano recebe muitas visitas, inclusive do padre Malaquias, que batiza os pagãos da fazenda. Em sua doença, o coronel xinga mais de quarenta nomes cabeludos, tem delírios com mulheres e com guerras. Muda-se para a rua Jaca e é medicado por Coelho dos Santos e tem a companhia de D. Alvarina. Recebe a visita do advogado Pernambuco Nogueira e de sua esposa, D. Esmeraldina. Ponciano sente-se atraído por ela. Quando mira no espelho, ele vê que tem os olhos de fogo e “meia dúzia de bodes por dentro.”

CAPÍTULO 5

Para restabelecer sua saúde, Ponciano passa uma quinzena em Paus Amarelos, engenho do primo Juca. Engorda a ponto de “destroncar balança”. Sente falta de mulheres: a única que tem ali é casada com o mestre de alambique Tude Gomes. Um dia é procurado por um sujeitinho mirrado, major Serapião Lorena, que falava rápido. O major diz que em suas terras havia um ururau, jacaré-do-papo-amarelo. Soltava fogo pela goela. Ponciano está distraído, pensando em D. Esmeraldina. Lorena leva Ponciano à sua fazenda. Um maluco, chamado Norato, diz que o jacaré não respeita militar. Ponciano faz bravatas, desafiando o ururau. Ouve-se um barulho forte, e Ponciano corre de medo, escondendo-se atrás de uns balaios. Pensava que era o bicho, mas era um corisco (raio). Arranja uma desculpa para justificar sua fuga. Numa noite de lua, sai para caçar capivara com Serapi Lorena. Numa atmosfera lírica, de sonho, ele vai pensando em Branca dos Anjos, e seu cavalo o leva para longe, em direção do mar. Ouve um chamado vindo do mato, seu nome murmurado com doçura. Encontra-se com uma sereia. Ela propõe casamento. Ponciano diz que não abusou da parte de cima da sereia, como muita gente espalhou. Diz que estava “em tarefa militar”. O coronel mente para a sereia, diz que tinha uma amante, que era “o capeta de saia’ Muito triste, a sereia volta para o mar. O coronel fica com um cacho de seus cabelos louros.

CAPÍTULO 6

O coronel diz que não gosta de fazer alardes, mas “um vento linguarudo” levou para todos os lugares o seu encontro com a mulher encantada. Em Campos, para resolver questões na justiça, Ponciano fica no Hotel das Famílias e tem a companhia de Pergentino de Araújo, que era apaixonado por uma mulher casada, D. Estefânia, mulher de Totonho Monteiro. O advogado Pernambuco Nogueira tem um caso extra-conjugal, que o deixa de “rim moído”. Ponciano está cada vez mais apaixonado por D. Esmeraldina, que se lhe figura como “princesona das carochinhas”. Em visita ao casal, D. Esmeraldina, amuada com esposo, dá muita atenção ao coronel. Ele admira essa mulher com “cintura de louva-a-deus e um alisador de sofá de vistosas almofadas”. Enquanto Nogueira cochila, a mulher mostra o quarto de hóspedes para Ponciano. Ele pensa em safadezas, mas não se encoraja em tomar iniciativa... Ao voltar para a fazenda, recebe uma prenda de Serapião Lorena, uma galinha de briga. Seus empregados não dão valor à ave: “-Não vale o milho que vai comer.” Mas Ponciano sente firmeza na galinha, que mata um outro galo, bem maior. Saturnino Barba de Gato põe no galo o nome de Vermelhinho Pé de Pilão. O galo vai ser treinado em Poço Gordo, para ter “esporão de faca, asa de gavião e coice de mula”. Com seis meses de treinamento, o galo, dizem, vale mais do que quatro bois de canga...Ganha a fama o galo mestiço do Sobradinho. Ponciano manda levantar uma casinha para a ave, mas o galo prefere o galho de limão-galego, de onde “dava ordens ao raiar do dia’. Até patente de capitão o galo recebe. O major Badejo dos Santos tinha um galo feroz, chamado Machadinho, que é vencido por Pé de Pilão, Tutu Militão traz recado do Dr. Caetano Meio, que desafia o galo capitãozinho. Juju Bezerra comenta com Ponciano que, em Ponta Grossa dos Fidalgos, fazenda de Caetano Meio, tinha uma moça muito bonita chamada D. Bebé. Um negro muito educado, Nicanor do Espírito Santo, traz carta de Meio, convidando para a disputa. O coronel responde, evitando botar a língua para fora, “como pede a minha natureza em tais circunstâncias.” Interessado em D. Bebé, Ponciano dá até um cavalinho de presente a Caetano Meio. No dia da disputa, o galo viaja no melhor cavalo. Ponciano vai vistoso: “a bem dizer, eu cheirava à inauguração”. Grande comitiva vai até Ponta Grossa. D. Bebé, com caxumba, não aparece para o coronel, que se contenta vendo as “platibandas” de D.Antônia, irmã de Caetano. O galo adversário, de pescoço pelado, tinha fama de furar os olhos de sua vítima. Depois do banquete, começa a rinha. O pescoço pelado quase estraçalha o Pé de Pilão. Sinhozinho Manco, chegando atrasado, ainda acredita na vitória do Vermelhinho, apostando nele. No intervalo da luta, Ponciano fala nos ouvidos do galinho, que deveria honrar a pa- tente. Vermelhinho acaba vencendo, para a alegria do coronel e de sua comtiva, principalmente de Sinhozinho.

CAPÍTULO 7

Dioguinho do Poço, sempre trazendo notícias, fala de um lobisomem que aparecera no Pilar. Ponciano demonstra ter conhecimento das raças desse bicho. D. Bebé, fugindo do assédio do coronel, depois que sara da caxumba, parte para Macaé. A atenção do coronel volta-se para a irmã de Caetano, mas ela é pedida por um marchante de gado. Despeitado, Ponciano diz que não nascera para casamento. Tutu Militão adoece e se interna na Santa Casa. Ponciano fica sabendo que Jordão Tibiriçá, um meganha, cobrador de impostos, fizera desfeita a Tutu. Ponciano se arma e leva sua comitiva para brigar com Tibiriçá, que estava ausente da cidade. Padre Malaquias intervém. Ponciano procura aproximar Juju Bezerra de padre Malaquias, que criticava o comportamento luxurioso do farmacêutico. A desavença entre Tibiriçá e Ponciano acaba, sobrando a raiva do coronel para um vendedor de passarinhos, que servira de leva-e-traz para os rixentos.

CAPÍTULO 8

Ponciano, ao encontrar-se com o negro Nicanor põe nele medo de lobisomem. Nicanor conta que Juca, primo de Ponciano, iria se casar com gente da família de Pires de Meio. Ponciano fica com raiva de seu primo. A noite, uma cobra surucucu ronda o galinheiro provocando a raiva no galo Pé de Pilão. O empregado João Ramalho foge com a filha do sacristão. Uma comitiva vem solicitar ao coronel ajuda para liquidar com o lobisomem. Ponciano conta vantagens, no que é criticado por Sinhozinho. Vestido com sua farda, Ponciano vai a um lugar chamado Colégio, para um batizado. No caminho, sua mula empaca. Aparece o lobisomem em sua frente. Sua desculpa é que o compromisso com o batizado o impede de enfrentar o monstro. Com medo do lobisomem, a mula foge e o coronel trepa numa figueira. Depois de muita correria, ao sentir o focinho do bicho em suas “partes subalternas”, o coronel cobre o lobisomem de safanões. Depois da surra, em linguagem cerimoniosa, “sois-isso, sois-aquilo”, o coronel escuta a vozinha do lobisomem implorar:

Tenha pena de mim, Coronel Ponciano de Azeredo Furtado. Sou um lobisomem amedrontado, corrido de cachorro, mordido de cobra. Na lua que vem, tiro meu tempo de penitência, estou empregando a palavra com o povo do governo.”(p.181)

Ainda nesse capítulo, há a morte de Juju Bezerra, fato que muita infelicidade trouxe ao coronel. O enterro fora bastante concorrido, até discursos foram feitos. Ponciano diz que não pode rebater o discurso, pois a patente não lhe permitiria tal coisa.

CAPÍTULO 9

O coronel muda-se para Campos, ficando no Hotel das Famílias. Freqüenta a casa da rua dos Frades, onde mora o casal Pernambuco Nogueira e D. Esmeraldina. Com intenção de agradar à mulher, empresta dinheiro ao advogado. Ganha fama de demandista. Passa a usar roupas vistosas. Torna-se sócio de João Fonseca, um tipo asmátíco, no comércio de compra e venda de açúcar. Fonseca é casado com D. Celeste, mora na rua do Gás e gosta muito de passarinhos. Fonseca não apreciava a companhia de Nogueira. O gerente do banco Hipotecário fala mal do advogado, o que faz o coronel, sempre interessado em D. Esmeraldina, transferir sua conta para o banco da Província, cujo gerente era o hipócrita Selatiel Castro, o Castrão. Artur Fontainha, um engomadinho que não gostava de Fonseca, passa a trabalhar para o coronel. A sociedade com Fonseca se desmancha, pois Ponciano é muito mais ambicioso do que o pobre asmático. O coronel monta um escritório na praça da Quitanda, num prédio chamado Livro Verde, O coronel, na casa de D. Esmeraldina, conhece o seresteiro Peixotinho do Cartório, que canta uma falando em beija-flor, que é ironizado por Ponciano:

O cantorista tirava da goela modinha sem leito, coisa em que ele fazia as partes de um beija-flor maluco do juízo por uma estrela do céu. Achei tudo isso um descabimento, uma falta de respeito. Era só o que faltava! Um escrivão de cartório, oficial juramentado, figurando bobagem, abusando das avezinhas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Era só o que faltava!” (p.204)

CAPÍTULO lO

Ponciano faz sucesso no comércio. Deixa a administração de suas terras por conta de Juquinha Quintanilha. Continua os ajantarados na rua dos Frades. Recebe visita de Sinhozinho, que se antipatiza com Fontainha. No Hotel das Famílias, Sinhozinho é tratado de major Carneiro...Depois de duas semanas, o velho vai embora, deixando Ponciano triste. Este, em seu aniversário, é homenageado pelo casal Nogueira. Selatiel de Castro ronda D. Esmeraldina, “toda desajeitada, arrumando o cabelo, como saída de um par de abraços, de um plantão de segura-embaixo-e-aperta-em-cima”. Ponciano recebe abotoaduras de presente. Finge interessar-se por Mocinha Cerqueira para dissimular os ciúmes que sente por D. Esmeraldina. Depois dos discursos em sua homenagem, Ponciano vai com Mocinha até o jardim, Uma perereca assusta a moça, que “recua seus atrasados bem rente das íntimidades” do coronel, nota que Mocinha é uma falsa magra...Vem do Sobradinho uma notícia ruim: sumira o galo Vermelhinho. Um tal de Quirino, aguardenteiro, relata que vira, num areal, uma cobra enorme, “trouxa de rodelas”, brigando com o galinho. Pé de Pilão e a surucucu brigam pelo mar afora, deixando Quirino como que hipnotizado. Os homens do Sobradinho vão até esse areal e só encontram peças avulsas da rixa: escamas e a marca do galo. Juquinha adoece e, por recomendação médica, deixa o serviço pesado de Mata-Cavalo, e muda-se para o Capão, próximo da cidade, onde vai mexer com comércio. D. Esmeraldina sugere o nome de Baltasar da Cunha, seu primo engenheiro, para tomar conta das terras do coronel. Apesar de Ponciano achar esse primo desnascido para labuta de curral”, acaba por contratá-lo. Baltasar, em nome de melhoramentos na fazenda, começa a gastar muito dinheiro. O coronel só tem olhos para a “dama da rua dos Frades”, cuja beleza “esvaziava o seu saco de zanga’. Ela deseja passar uns dias em Mata-Cavalo, o que faz o coronel liberar cada vez mais verba para Baltasar. Como Nogueira vai se candidatar a deputado, Ponciano lhe empresta muito dinheiro, bem como presenteia D. Esmeraldina com um anel caro. Ponciano muda-se para o Hotel dos Estrangeiros, depois de uma briga entre Fontainha e Totonho Monteiro, proprietário do Hotel das Famílias. A arrumadeira Titinha tinha um corpo vistoso, “um andar de cobra”. Quem se assusta com a linguagem saliente de Ponciano é o sisudo Gastão Palhares, “um sujeito todo forrado de ipissilones e nove-horas”. Quem vem tomar mais dinheiro de Ponciano é o jornalista Nonô Portela, que escreve notas elogiosas ao coronel. Uma caxumba deixa o coronel por duas semanas acamado. Fontainha fica cada vez mais parecido com Baltasar da Cunha, permanecendo mais tempo na cidade do que na fazenda, torrando o dinheiro de Ponciano. Um dia, Pergentino de Araújo conta para Ponciano que flagrara

D. Esmeraldina com Selatiel Castro. Os Nogueiras rompem com Pergentino, contando para Ponciano uma outra versão do caso, sugerindo que Pergentino estava ficando maluco. Quintanilha vem comentar com o coronel que o povo dos currais estava falando do comportamento galante de Ponciano, cada vez mais garboso. Ponciano rasga dinheiro na frente de Juquinha, afirmando que tinha poder econômico. Nicanor do Espírito Santo, o negro educado, pede a sarará Nazaré em casamento.

CAPÍTULO 11

Mão-abertíssimo”, o coronel dá mais dinheiro a Pernambuco Nogueira, que acaba perdendo as eleições. Ponciano escuta ofensas de Baltasar da Cunha, mas não reage. Vai pedir satisfação a Fontainha, que defende o primo de D. Esmeraldina, mostrando o dedo em riste para o dono do Sobradinho. Nogueira adverte Ponciano de que Baltasar poderia entrar na justiça contra ele. Ponciano pensa em romper com os Nogueira, mas D. Esmeraldina faz novo convite para ele visitá-los, na rua dos Frades. Quando Ponciano chega à casa dos Nogueira, fica sabendo que eles viajaram. Cai numa grande melancolia. Titinha faz uma mandinga para curá-lo. Seus seios acabam tocando o rosto do coronel e eles acabam fazendo sexo. E a única vez, em todo o livro, que o coronel finalmente age concretamente como um garanhão...Sorte no sexo, azar no dinheiro: os negócios começam a piorar. Uma enchente devasta o Sobradinho. Apesar dos conselhos de Fonseca, Ponciano faz péssima compra de açúcar. Deve mais de quatrocentos contos ao banco. O novo gerente, Seabra, ameaça o coronel, que acaba por vender as terras de Mata-Cavalo. Depois que liquida a dívida, dá uma surra em Seabra, cujo traseiro “firmou jurisprudência no duro da calçada”.

CAPÍTULO 12

A crise econômica faz com que Juventino Ferreira, um comerciante, se mate. Ponciano não quer dar o braço a torcer, achando-se ainda poderoso, crescido na desgraça. Mas é obrigado a vender a casa da rua da Jaca. Saturnino deixa o Sobradinho e vai mexer com venda em Poço Gordo. Padre Malaquias vai para o sertão. Retoma amizade com o primo Juca, que promete pôr o nome de Ponciano em seu futuro filho. No Livro Verde, o coronel recebe a visita de Portela e Fontainha. Eles vêm comunicar que Baltasar da Cunha irá na Justiça contra ele. Depois de uma fala macia, Ponciano sacode os dois escada abaixo. Vai ao escritório de Pernambuco Nogueira e é mal recebido. Sente, no “covil do peito”, as caninanas da raiva. Pernambuco falava com o advogado de Baltasar da Cunha, Macedo Costa. Este advogado é ofendido por Ponciano, que o chama de “doutor de bosta e filhote de lobisomem”. Xinga também Nogueira, mandando “limpar o rabo” com o recibo do empréstimo pago ao banco. Fecha seu escritório e contrata o rábula Serafim Carqueja para a demanda contra Baltasar da Cunha. Vence a causa. Mas, em compensação, perde um amigo: morre João Fonseca. Vende o relógio e a corrente de ouro para dar um enterro de luxo ao ex-sócio. Ganha da viúva D. Celeste um sabiá-laranjeira. Fica emocionado, chora: “Ponciano vazava por dentro”.

CAPÍTULO 13

Padilha, o dono do Hotel dos Estrangeiros, quer que o coronel deixe seus aposentos. Titinha, que levava jeito de ser prostituta, acusava-o de ser ele o responsável por ela ter perdido sua virgindade. Carqueja vem amaciar o problema, e o coronel acaba se mudando para a casa de Quintanilha, o dinheiro vai diminuindo, mas “quanto mais a pecúnia minguava, mais (o coronel) arranjava grandeza”. Fala em comprar usina, em viajar para o estrangeiro...Um dia, ao passar diante de um salão de barbeiro, nota que Baltasar da Cunha estava debochando dele. Compra um gurungumba (espécie de chicote) e dá uma surra no barbeiro e no engenheiro. Os jornais anunciam que Pernambuco Nogueira, agora do lado do governo, arrumou um bom cargo em Niterói. Ao ver passar D. Esmeraldina, o despeitado coronel diz sua última palavra a respeito dela: “Vaca!” Depois dos péssimos negócios na rua do Rosário, Ponciano freqüenta o belchior da rua Formosa, vendendo seus anéis, para pagar as taxas contra o Sobradinho. Depois de três anos de ausência, vai voltar para a fazenda, de bolso vazio, mas “enricado de muitas e boas experiências”. Compra passagem até para seu sabiá-laranjeira. Ao passar de trem pelas ruínas do engenho do Visconde, começa um “destampatório” com sua fala grossa: na carcaça do engenho já antevia o estado de seu Sobradinho...Quando deixa a estação e entra pelo sert escuta o canto agoureiro do pássaro peito-ferido. Sua casa estava abandonada; aos poucos, vê a chegada do cachaceiro Janjão Caramujo, do gago Antão Pereira e de Tutu Militão, que só de falar em Jordão Tibiriçá, dá início a um processo de delírio do coronel: este começa a disparar ofensas contra Jord Tibiriçá e contra o governo. Enlouquecido, vê meirinhos (cobradores de impostos) por toda parte. Ao tentar subir, pulando de dois em dois, os degraus do paiol, sente forte agulhada no peito e cai num “sono de paina” Vê-se em terras de Badejo dos Santos e tem seu último pensamento erótico em relação à sobrinha do major, “portadora de uma guarnição de pernas de fina nascença, além de bem municiada na sua repartição dos fundos, coisa de ser vista até de longe, tal a grandeza dos avultados dela. “(p300) Beirando seu sessenta anos, o coronel está no além, pois vê passar o falecido Felisberto, que morrera há muito tempo, picado por uma cobra. Felisberto está de asas, com “patente de anjo”, na linguagem do coronel. Ponciano, montado na mulinha de S Jorge, parte para lutar contra o capeta, “sujeitão de pé de cabra”. Um menino-anjo, que Ponciano conhecera há muito tempo, que morrera comendo terra, anuncia: “Lá vai o Coronel Ponciano de Azeredo Furtado em sua mulinha de desencantar lobisomem. Vai para a guerra do Demônio, que o coronel não tem medo de nada.”(p.303). De novo jovem, com a barba negra dos tempos em que lutou contra o valentão no circo, Ponciano vai travar a luta contra o demo. Do mar vinha um belo canto:

Devia ser o canto da madrugada que subia”. (p304)




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