O CORONEL E O LOBISOMEM
‘Sou de muito inventismo, um danado em fazer
render uma parolagem — um fio de cabelo vira corda no meu
traçado.
(Cel. Ponciano de Azeredo Furtado, p.l56)’
I – O Autor e a Obra
Jornalista, contista, romancista, imortalizado pela ABL
Depois de trabalhar no interior, formou-se em Direito,
no RJ
Exerceu atividades de jornalista na revista “O
Cruzeiro” e na rádio Roquete-Pinto.
O coronel e o lobisomem, publicado em 1964
Em sua obra, ambientada no interior fluminense,
encontramos tipos pitorescos, casos engraçadíssimos e,
sobretudo, uma linguagem bastante inventiva, lúdica, trazendo
“nova vida ao regionalismo brasileiro”, como assinala
RacheI de Queiroz acrescentando que a renovação do
idioma é admirável nesse escritor que “vira e
revira a língua, arrevesa as palavras, bota-lhes rabo e
chifre de sufixos e prefixos(...) tudo gostoso, nascido de parto
natural.
Sistema de domínio político, exercido,
principalmente, na zona rural, o coronelismo perdurou até as
primeiras décadas do século XX, entrando em decadência
depois da Revolução de 1930.
O romance tem como subtítulo, “Deixados
do oficial superior da Guarda Nacional, Ponciano de Azeredo
Furtado, natural da praça de Campos dos Goitacazes.”
Como se vê, criador e criatura nasceram no mesmo lugar
fluminense.
A Guarda Nacional, criada na época do Império,
em 1831, foi uma corporação paramilitar que defendia a
constituição e a liberdade. Caiu em desuso com a
República e, em 1922, ela foi absorvida pelo exército.
Nomeados pela administração imperial, os
coronéis eram, geralmente, fa- zendeiros e pessoas da classe
dirigente do país.
O mandonismo dos coronéis era exercido sobre
sua gente, seus afilhados, buscando preservar a política
situacionista. (o governo é o chefe dos coronéis).
A estrutura do coronelismo tem origem na parentela,
isto é, um grande grupo de pessoas interligadas por laços
de parentescos.
A primeira parte do título do romance de José
Cândido de Carvalho, portanto, remete para uma realidade
social concreta, racional, histórica.
O termo “coronel” indicia um quadro
rural provinciano, regido por uma estrutura patriarcal conservadora.
O drama do protagonista é “o de ser um
líder inofensivo, cujo poder há muito se dissolveu”
A segunda parte do título, “lobisomem’
remete para o mundo mítico, para o folclore, para as
crendices e superstições.
O título do romance oferece dois quadros, mas
que não se situam de forma estanque, uma vez que o coronel
transitará pelos dois pólos, conforme as palavras de
José Hildebrando Dacanal;
“dilacerado pela atração dos opostos
é um coronel decadente que, num tempo que não é
mais o seu, se debate entre a atração de um agrupamento
semi-urbanizado e a vida do mundo perdido do interior, mundo este
ainda estruturado em bases mítico-sacrais, no qual o lobisomem
e a sereia são aceitos como seres naturais, reais, que
integram o acontecer normal da existência.”
O nome do personagem, Ponciano, é o mesmo
de um santo da igreja católica, um papa martirizado em 235.
Etimologicamente, o nome deriva de Pôncio, “pontius”,
que significa “o quinto (filho)”; é possível
relacionar, também, esse nome a “pontos”, que
significa “mar”. Na narrativa, na idéia de
grandeza, de poder e na luta contra o mal (principalmente no
desfecho), vemos a adequação do nome ao personagem.
Quanto ao sobrenome, o primeiro deles indica o espaço
vegetal, tão marcante nas andanças do coronel:
“Azeredo” relaciona-se à mata de
azereiros, uma espécie de bordo.
O outro sobrenome liga-se às safadezas, mentiras
e pabulagens de Ponciano, pois Furtado liga-se ao não
legítimo, ao que foi roubado furtivamente, ao que é
oculto e encoberto.
É importante sublinhar o nome do protagonista,
pois ele é, sobretudo, a sua própria linguagem.
Os aumentativos, as hipérboles, as construções
enfáticas ditas pelo coronel vêm preencher o grande
vazio de sua decadência econômica, pois esse personagem
“representa uma estrutura agrária sem saída na
sua organização arcaica”, conforme aponta M.
Cavalcanti Proença, no prefácio do livro.
O coronel caracteriza-se pela empáfia, pelo
orgulho, pela soberba, impondo num ambiente caracterizado pela
subserviência diante do nome e do dinheiro.
É curioso notar que as iniciais do nome do
coronel formam o termo PAF, muito próximo de “pafo”,
que significa empáfia, além de remeter para o jogo de
cartas, “o pife-pafe”.
Se o coronel “pifa” ao perder suas terras e
poder, no contexto em que a obra foi publicada, quem “pifava”
era a democracia, pois um dado que não pode ser desprezado é
o fato de este romance ter vindo à luz exatamente num ano em
que se inauguravam trevas ditatoriais, ano do golpe militar de 1964.
O romance é estruturado em 13 longos capítulos,
com as ações se encadeando de forma linear.
Tal estruturação parece ser arbitrária,
pois não há solução de continuidade
entre o fim de um capítulo e o início do próximo;
Os episódios não estão nitidamente
delimitados ou destacados uns dos outros. Assim, como a ação
flui continuadamente,
O foco narrativo é feito na primeira pessoa pelo
coronel Ponciano. Ocorre, ao longo do relato, uma espécie de
desdobramento do personagem-narrador que sai de si mesmo e se
contempla, na terceira pessoa, como se fosse um outro:
“Em verdade, o coronel não deliberava mais
Achei tudo isso uma falta de respeito que ofendia meu brio militar.
Um coronel de patente não podia acabar assim em banho-maria
sem mostrar a força das armas.”
A época é indeterminada, mas supõe-se
ser nos primeiros anos da República Velha, num período
de transformações sociais, em que o progresso começa
a afetar as estruturas sociais do mundo agrário-pastoril.
O romance, de cunho pitoresco, fantástico, gira
em torno do personagem central, que faz uma espécie de
autobiografia.
Não há, no enredo, uma intriga central:
da infância à velhice (mais ou menos 60 e poucos anos),
transcorrem várias peripécias e uma multiplicidade de
personagens.
II – A Linguagem e o Estilo
A linguagem “ponciânica” a principal
arma do coronel, a sua manifestação de poder,
compensatória de declínio social, amoroso, econômico
e histórico.
Homem de extremos, linguagem de extremos: se os
aumentativos vêm corroborar surtos de cólera, as cobras
no covil do peito, os dois metros de altura, a voz grossa e a barba
espessa, os diminutivos — principalmente no episódio
envolvendo o galo Pé de Pil — vêm retratar uma
alma de criança, um meninão ingênuo, acometido
por lágrimas fáceis, chorando até em dramalhões
de circo.
A linguagem reflete a dimensão épica
(heróica, aventureira, grandiosa) e a dimensão lírica
(muitas descrições poéticas, muita musicalidade
nas frases, muitas páginas de subjetividade).
A narrativa é permeada por muitas cenas de
humor, o que dá à obra um caráter pitoresco,
cômico: Ponciano é herói pícaro, da
dinastia do Leonardo das Memórias de um sargento de milícias;
é errante, solitário, parente de Macunaíma, de
D. Quixote, de Carlitos e do Grande Mentecapto, de Fernando Sabino.
É preciso salientar que essa linguagem não
é mera transcrição regionalista: é
trabalho de gabinete, é estilização e criação
e invenção do autor. Há intensa exploração
da oralidade, da linguagem coloquial, dos ditos populares, que dão
ao discurso de Ponciano um certo caráter pomposo
Vejamos alguns exemplos pitorescos do uso do advérbio:
“Talqualmente um dois de paus, fiquei no meio da
estação enquanto o trem puxava Juca Azeredo para o seu
engenho de cachaça
Além do advérbio criado para substituir
os pronomes, nota-se o símile de estrato popular (dois de
paus: ficar feito bobo) e a forma original de expressar que o primo
partia para o seu engenho, em que o agente (Juca) se torna paciente.
“Nem de pessoalmente tratava da miudeza.”
“Pratrasmente de dez anos, meu patrão.
Pratrasmente disso.”
Nem representa a terça metade, amigo Bezerra.
Menasmente que isso.”
O próprio autor, num depoimento, confessa: “Não
inventei palavras, como fez Guimarães Rosa. Apenas deturpei
as palavras, eu as torci.”
Vejamos alguns exemplos de vocábulos “torcidos”
enriquecidos por prefixos ou sufixos:
“Toda essa grandeza, esse mão-abertismo,
não era ponto sem nó.”
“.,.o primo Baltasar saltava mais desinfeliz que
perereca em pata de boi. Era pessoa desnascida para labuta de curral
e essa verdade pulava em rosto.”
“Sim senhor! Mulherista como Ponciano nem no
estrangeiro tem igual”
“Reclamei dele, mostrei o que a gente andava
desganhando”
“-Esta serve por ter tudo de donzela a olho nu e
aquela não serve por aparentar ser despossuída do seu
etecétera e tal de nascença. “
“Debochei do seu conselheirismo, do seu
intrometimento.”
“Só que não sou homem de ser chamado
e descomparecer.”
“Como o sereno pudesse trazer desbenefício
ao meu resto de maleita...”
“Os urubus esperavam o resultado da guerra, cada
qual mais pescoçoso que outro...”
Como o protagonista é “desabusado de
boca”, a sua linguagem é exagerada, hiperbólica,
como alguns exemplos revelam:
recriminação de fazer um frade de pedra
verter lágrima.”
“luarão de cegar coruja”
“berro que varou a cumeeira de telha-vã e
foi bater nos metais do alambique”
“Livre do freio, no adentrar do mato a arrogância
do malcriado ganhou barriga
“O febrão, já conhecedor do meu
gênio atravessado, adiantou a chegada.”
“Lagartixou por uma cerca de bambu, mas tão
sem força que logo caiu na espingarda de Vermelhinho. Antão
Pereira, com dedo de gato, salvou os restos de vida do galo de
Caetano de Meio, quando meu raçudo já atiçava
fogo no canhão.”
“Acordei tarde, já o dia crescido e
amamentado.”
“E essa contentagem andou de braço dado
comigo bem um par de semanas.”
cavalo ser chamado de “navegação”
os óculos chamados de “cangalhas do
nariz”;
a cólera do coronel é sempre designada
como “cobras”, “canínanas”;
as partes do corpo feminino s chamadas de “guarnições’,
“repartições”, “rodapé dos
torneados do mocotó”
“Fiquei cativado dela, enquanto a dona de casa
(...) corria na caça do leque esquecido nos confins do quarto.
Digo que não saí da Rua dos Frades de olho abanando.
Foi Dona Esmeraldina sumir no corredor e eu firmar jurisprudência
num certo estofado da menina Cerqueira. De cima dos meus dois metros,
eu levava todas as vantagens. Era deixar escorrer a vista pela folga
das rendas e disso tirar proveito. Como jacaré velho, choquei
as partes expostas, a ponto da moça, tomada de encabulamento,
retirar da brasa de Poncíano o naco infestado.’
A metonímia é amplamente explorada no
romance, colaborando para a intensa presença das perífrases,
isto é, a expressão, por mais de uma palavra, de uma
idéia contida em um só termo.
Assim, “casa de moças desencaminhadas”
é perífrase de “prostíbulo” ou
“bordel”;
“casamento” é substitído por
“compromisso de altar, véu e flor de laranjeira”
ou a “pedir costela” ou ‘tornar estado”.
Na caracterização das personagens, as
tranças remetem ao primeiro amor de Ponciano, Branca dos
Anjos; o “dente de ouro” associa-se à Juquinha
Quintanilha; o curador Tutu Militão
está sempre ligado aos anéis; os agasalhos ligam-se ao
asmático João Fonseca; o jornalista Portela é o
homem das folhas ou o magricela; Fontainha é o engomadinho e
subalterno; Juju Bezerra é o homem das poções
(farmácia) e das autoridades, que tratava bem “pé
descalço ou pé com espora de prata”, isto é,
pobres e ricos. Mulher é ligada à saia ou rabo-de-saia
ou a pedaço de perna. O sexo relaciona-se à cama,
travesseiro, lençóis, “préstimos embaixo
do cobertor”..
Uma das vigas da expressividade e de poder sedutor da
narrativa encontra-se, justamente, nas descrições
eróticas: Ponciano quer se ver como um D. Juan, mas é,
acima de tudo, um espectador passivo da sexualidade (como seu hábito
de ficar na primeira fila do Moulin Rouge), toda sua virilidade
repousa no seu voyeurismo, que se estende a outras personagens e a
nós, leitores, tantas vezes também hipócritas
como o coronel:
“(Castrão) Não perdia vez de chamar
a minha atenção e a do doutor para os rabos-de-saia que
passavam:
-Que pedaço, Seu Ponciano! E a mulher do Cardoso.
Veja os comprovantes da retaguarda, seu doutor.”
“O que mais Salatiel apreciava era a companhia do
pessoal do palco e lá numa ocasião teve ele o desplante
de trazer ao meu camarote uma cômica de nome Zizi, que mostrava
perna de fora na ribalta, um palmo acima do joelho, em verdade um
roliço de muito proveito e serventia, Estando D. Esmeraldina
presente, armei cara de réu condenado, de sujeito severão,
talqualmente mostrava nas procissões, nos meus dias de pau de
andor. Mas por dentro, com alegria de bode velho em pasto de cabrita
nova, bem que apreciei o todo vistoso da menina Zizi e no particular
os recheios de que era portadora, tanto nas partes nobres como no
andar de baixo, onde apresentava instrumental de muita ostentação,
do libertino botar em redoma e deixar em casa de comércio para
ser visto e apreciado a tanto por cabeça”
III – O Personagem Protagonista
O protagonista é um representante típico
de seu meio social, cultural, econômico.
Sua trajetória prende-se à história
de ascensão e decadências ligada aos ciclos econômicos
da pecuária e do açúcar.
Os espaços percorridos pelo protagonista indicam
claramente um mundo primitivo, de economia primária
(Sobradinho) e um mundo semicapitalista, de comércio de
açúcar (Campos).
Mas, como estuda Hildebrando Dacanal, esses mundos não
devem ser vistos simplesmente como estruturas sócio-econômicas:
são culturas diversas, duas concepções de mundo
— a racional e a mítica.
No universo rural, assombrações,
lobisomem, sereia, ururau, onça que solta fogo pela goela são
seres verossímeis.
Até o tempo é diferente: no Sobradinho, o
tempo não passa; na cidade, o “mês tem mil pés,
corre ligeiro, de parelha com o vento”.
O titulo da obra indica o mundo real e o mundo mágico:
Ponciano transita por esses mundos, esvaziando-se como figura social
e crescendo como figura mítica, um novo São Jorge
contra o dragão de todas as maldades.
O fantástico da obra não são
apenas as visagens, os seres sobrenaturais, mas o próprio
coronel e seus paradoxos: sua valentia e covardia; sua modéstia
e empáfia; seu donjuanismo e timidez; seu egoísmo e
generosidade; sua astúcia e sua tolice; suas verdades e
mentiras; seu ridículo e sua respeitabilidade. Ponciano,
espécie de D. Quixote, mas com o físico mais
avantajado, é também um grande ator: sua vida é
uma representação; sua fala, um permanente teatro.
Como observa Claudemar Alves Fernandes, “quando
um sujeito cria um papel no qual ele próprio acredita, fica
convencido de que a impressão de realidade é
verdadeira. Assim, torna-se sua própria platéia.”
IV
– O Enredo
Os anos da “pequenice” do coronel: órfão
muito novo, foi criado pelo avô Simeão, que enxerga no
neto “todo o sintoma do povo da política”, pois o
menino era invencioneiro e linguarudo, “desabusado da boca”.
Simeão deixa o menino aos cuidados de Sínhá
Azeredo, velha solteirona. Ponciano cresce num lugar chamado Sossego,
nos ermos, onde havia “algazarra de lobisomem’. A tia,
beata, surpreende o menino em “delito de sem vergonherismo”
com uma mulatinha (“pardavasquinha”). No Sobradinho,
fazenda do avô, fica de castigo, “em galé de
quarto escuro”. Vai estudar em Campos, morando na rua da Jaca,
mas, em vez de estudos, prefere a vadiagem, as capetagens...Quando
Poncíano faz 15 anos, sua tia adoece e morre: “num
agosto de chuva foi embora na asa de um vento encanado”. O
menino escuta a tosse da tia morta e chega a inquirir o fantasma.
Começa daí a fama do futuro coronel, pois o acontecido,
depressinha, “pulou o muro e a vizinhança ficou
sabedora”. A velha Francisquinha, negra moradora do
Mata-Cavalo, também posse de Simeâo, vem cuidar do
menino. A reza forte da negra faz sumir a tosse e o fantasma da tia
morta. Francisquinha tem que proteger as negrinhas que vão
morar com ela na rua da Jaca, pois Ponciano já era “maluco
por perna de moça.” Já na adolescência,
Ponciano já era muito alto, recebendo do avô a patente
de alferes. De gênio muito estourado, o menino só pensa
em mulher, apaixonando-se por Branca dos Anjos, mocinha de tranças,
moradora em Gargau. Apesar desse nome pura, o que atraía
Ponciano era a “esmerada guarniçào traseira”
da moça. Mas o pai da menina, protegendo sua “donzelice”,
esconde-a no sertão distante. Num circo, Ponciano, por
equívoco, é levado pelo povo a lutar contra um valentão
que desafiava a cidade. Ele procura se esquivar dizendo que precisava
de licença especial por ser militar (alferes), mas um
velhinho, que era coronel, autoriza a luta. Num golpe de sorte, o
alferes dá um rabo-de-arraia no valentão e vence a
luta, elevado com triunfo. Mas o avô não gosta dessa
fama de valente, queixando-se de “entre
de padre não entre de cabeça” do
neto...Dessa “guerra no circo’ o rapazinho ganha a
patente de capitão.
CAPÍTULO 2,
Em sua juventude, Ponciano deixa crescer uma longa barba
e passa o tempo na boemia, em serenatas. Afirma ser devoto de São
Jorge, Santo Antonio e São José, mas freqüenta a
casa de Dada Pereira, que era pensão de “moças
desencaminhadas”. Com a morte do avô Simeão, que
era coronel da Guarda Nacional, Ponciano herda a patente e as terras
do velho. Começa a pensar em ‘tomar estado”, isto
é, casar-se. Uma prima é recusada por ser magra demais,
“um bambu vestido”. Muda-se, juntamente com
Francisquinha, para a fazenda do Sobradinho. Como os vizinhos estavam
avançando em sua propriedade, escreve a eles uma carta
educada, orientada pelo advogado Pernambuco Nogueira. Seus
empregados, Antão Pereira e Saturnino, acham que esse
“proceder mimoso” não era compatível com os
ladrôes de pasto. Nas brigas na justiça, o coronel
triunfa. Vem ajudá-lo a dirigir as terras o mulato Juquinha
Quintanilha, que fixa residência em Mata-Cavalo. Devido às
demandas de Foro, o coronel vira um andarilho. E ameaçado de
morte por Cicarino Dantas, que contratara o pistoleiro José
Mateus. Apesar de dizer que não tinha medo, Ponciano passa a
andar cercado de capangas armados...Um de seus acompanhantes é
Sinhozinho Manco, que tinha “língua chorona e vista que
só via defeitura”. O pistoleiro acaba sendo preso pelo
delegado Totonho Borges. Ponciano acaba intercedendo por ele,
dando-lhe dinheiro e ganhando sua amizade. Tudo acaba bem, pois, com
a mediação do tabelião Pergentino de Araújo,
Cicarino e Ponciano fazem as pazes. Cicarino é famoso por
dormir com as mulatas de sua fazenda. Ponciano auxilia seu primo Juca
Azeredo na compra do engenho de Paus Amarelos. No Sobradinho, um de
seus auxiliares é o bêbado Janjão Caramujo.
CAPÍTULO 3
Uma onça pintada ameaça a região.
João Ramalho, um marcador de gado, vasculha as terras em busca
da onça. Diziam que era um animal enorme, que “dava
carta e jogava de mão”. Como a onça teria sido
vista nas terras do major Badejo dos Santos, Ponciano desculpa-se com
uma certa “pragmática militar”, mostrando-se
impossibilitado de resolver o caso.. Um ta de Dioguinho do Poço
diz que onça “deitava fogo pela goela”. Ponciano
visita o primo em Paus Amarelos, que sofria com um bicho no pé.
Ponciano tira o berne: “o carnegão pulou como rolha
dejinjibra em viagem de quatro braças.” O coronel ganha
fama de grande curador. .Juquinha diz ao coronel que um caçador
chamado Zuza Barbirata mataria a onça por duzentos mil réis.
Numa noite de tempestade, Ponciano fica pondo medo nos outros,
contando casos de assombração até o romper do
fantástico, seu avô apa rece. Tenta chamar Quintanilha,
mas a voz do coronel sai fraquinha. Ele se desculpa: “Não
tenho feitio de contrariar meu íntimo e dentro desse propósito
tratei de bater em retirada.” Ponciano crê que fora
vítima de uma ilusão, pois viu o avô com
esporas e, segundo o costume, “visagem anda sem pé e voa
sem asa Cercado pelos empregados, inclusive por Tutu Militão,
curador de veneno de cobra, o coronel sai para caçar capivara.
O bicho não aparece e Ponciano, então, mata um
bem-te-vi, que “desfazia da comitiva num palanque de aroeira”.
Súbito, aparece a onça. Todos fogem, inclusive o
coronel, que vai para o pântano. Depois, chega ao Sobradinho,
ainda na frente dos outros, a quem acusa de covardia.. .A noite, tem
um sonho erótico com Branca dos Anjos. A onça reaparece
na fazenda; Ponciano, sempre se desculpando por causa de um
juramento, não liquida o felino. Apesar disso, a fama do
coronel viaja longe, enquanto ele caçoa de seus empregados
covardes. A onça visitara a casa de Dioguinho do Poço,
que sobe no telhado. Ponciano passa a chamá-lo de Dioguinho do
Telhado. Zuza, o valentão caçador de onça, chega
ao Sobradinho, com sua voz alta. Ele e o coronel disputam quem fala
mais grosso...Os dois saem para caçar a onça e treinam
a pontaria matando pequenos pássaros. Quando a onça
aparece, os dois fogem de medo. Um caboclinho é que acaba
matando a onça, mas o coronel, depois de afugentá-lo,
fica com a fama, e, pisando sobre o felino morto, diz:
Conheceu, papuda!” Zuza nunca mais foi visto...
CAPÍTULO 4
A pele da onça está espichada na sala do
Sobradinho. A fama do coronel corre e ele deixa “correr o
marfim”, isto é, mostra-se indiferente a isso. Ele pensa
vagamente em casamento, mas quem se casa é Juquinha e D.
Alvarina. Depois de algum tempo, eles perdem o filho, cujo padrinho
era o coronel. Ponciano tem problemas com a bexiga, uma antiga
doença, que pegara nos seus “antigamentes de
libertinagem”. Sua barba começa a embranquecer, ele se
acha parecido com lobisomem. Também está muito
barrigudo, parecido com um tal de Pedro Pita, “que não
via o birro desde muitos anos atrás.” Ponciano e Juju
Bezerra, autoridade jurídica e dono de farmácia,
conversavam safadezas e freqüentavam o cabaré (Moulin
Rouge). Os dois eram muito parecidos nesse assunto de rabo-de-saia,
“irmão da mesma roupa”, como diz o coronel. Juju
acha que Ponciano não deveria se casar, mas, sim, arrumar uma
amante, “teúda e manteúda”. O coronel não
quer manchar sua reputação junto à irmandade
religiosa a que se diz filiado, e também para não
desagradar a seu padre confessor, Malaquias de Azevedo. Em
Mata-Cavalo, conhece uma prima de D. Alvarina, Isabel Pimenta,
professora muito jeitosinha. O coronel se apaixona: “Se eu
caísse nessas benfeitorias e recurvados nunca mais ninguém
ia ter notícia do coronel Ponciano de Azeredo Furtado. Nunca
mais!” Isabel tinha olhos de água e gostava muito de
ler. Ponciano vai sempre a Mata-Cavalo, mas é por demais
tímido, não consegue seduzir a professora. Faz
perguntas bobas sobre mordida de cobra e visão de boitatá.
Isabel não acredita nas “invencionices do povo bronco
dos ermos.” Ponciano diz que já tinha visto lobisomem e
confessa não saber conversar “rasgando seda”, pois
assunto para ele era “patifarias de cama e travesseiro”.
Um dia resolve fazer o pedido de casamento: vai todo perfumado e
fardado, mas Isabel fica de consultar sua família, em Caju.
Ponciano leva-a até a cidade, para ela tomar o trem. Deseja
corresponder-se com Isabel, por isso procura papel de carta em Santo
Amaro, vilarejo próximo ao Sobradinho. Encontra-se com Tutu
Militão, que se queixa da decadência do seu serviço
de curar mordida de cobra, afinal, as farmácias vendem soro
anti-ofídico. Ponciano não concorda, fala que Tutu
ganha bem, mas, no fundo, fica profundamente abatido. Tutu traz a
carta contendo a resposta do pedido de casamento. O coronel, ansioso,
acende seu charuto Flor de Ouro, mas se decepciona, pois a moça
repele seu pedido, pois tinha compromisso com um primo. Ponciano
sente que tem cobras dentro do peito, tamanha é a sua raiva.
Dorme mal, tem pesadelos com lesmas, sapos, lacraias, minhocões,
tem a impressão de ver um anjo lutando contra um capeta.
Depois de dois dias de chuva, sai para ver o trabalho das lavadeiras
e nota uma delas, uma sarará, chamada Nazaré, que usava
a roupa muito apertada. Falso moralista, o coronel chama a atenção
de Francisquinha, que era madrinha da sarará. Juju Bezerra,
quando conhece Nazaré, comenta que ela é “montaria
para muita sela”. O coronel, combalido desde o fora de Isabel,
cai de cama, com maleita. Fica mais de dois meses adoentado. Como
Juju o visitava sempre e ficava de olho em Nazaré, Ponciano
manda a moça para mata para ajudar D. Alvarina. Ponciano
recebe muitas visitas, inclusive do padre Malaquias, que batiza os
pagãos da fazenda. Em sua doença, o coronel xinga mais
de quarenta nomes cabeludos, tem delírios com mulheres e com
guerras. Muda-se para a rua Jaca e é medicado por Coelho dos
Santos e tem a companhia de D. Alvarina. Recebe a visita do advogado
Pernambuco Nogueira e de sua esposa, D. Esmeraldina. Ponciano
sente-se atraído por ela. Quando mira no espelho, ele vê
que tem os olhos de fogo e “meia dúzia de bodes por
dentro.”
CAPÍTULO 5
Para restabelecer sua saúde, Ponciano passa uma
quinzena em Paus Amarelos, engenho do primo Juca. Engorda a ponto de
“destroncar balança”. Sente falta de mulheres: a
única que tem ali é casada com o mestre de alambique
Tude Gomes. Um dia é procurado por um sujeitinho mirrado,
major Serapião Lorena, que falava rápido. O major diz
que em suas terras havia um ururau, jacaré-do-papo-amarelo.
Soltava fogo pela goela. Ponciano está distraído,
pensando em D. Esmeraldina. Lorena leva Ponciano à sua
fazenda. Um maluco, chamado Norato, diz que o jacaré não
respeita militar. Ponciano faz bravatas, desafiando o ururau. Ouve-se
um barulho forte, e Ponciano corre de medo, escondendo-se atrás
de uns balaios. Pensava que era o bicho, mas era um corisco (raio).
Arranja uma desculpa para justificar sua fuga. Numa noite de lua, sai
para caçar capivara com Serapi Lorena. Numa atmosfera lírica,
de sonho, ele vai pensando em Branca dos Anjos, e seu cavalo o leva
para longe, em direção do mar. Ouve um chamado vindo do
mato, seu nome murmurado com doçura. Encontra-se com uma
sereia. Ela propõe casamento. Ponciano diz que não
abusou da parte de cima da sereia, como muita gente espalhou. Diz que
estava “em tarefa militar”. O coronel mente para a
sereia, diz que tinha uma amante, que era “o capeta de saia’
Muito triste, a sereia volta para o mar. O coronel fica com um cacho
de seus cabelos louros.
CAPÍTULO 6
O coronel diz que não gosta de fazer alardes, mas
“um vento linguarudo” levou para todos os lugares o seu
encontro com a mulher encantada. Em Campos, para resolver questões
na justiça, Ponciano fica no Hotel das Famílias e tem a
companhia de Pergentino de Araújo, que era apaixonado por uma
mulher casada, D. Estefânia, mulher de Totonho Monteiro. O
advogado Pernambuco Nogueira tem um caso extra-conjugal, que o deixa
de “rim moído”. Ponciano está cada vez mais
apaixonado por D. Esmeraldina, que se lhe figura como “princesona
das carochinhas”. Em visita ao casal, D. Esmeraldina, amuada
com esposo, dá muita atenção ao coronel. Ele
admira essa mulher com “cintura de louva-a-deus e um alisador
de sofá de vistosas almofadas”. Enquanto Nogueira
cochila, a mulher mostra o quarto de hóspedes para Ponciano.
Ele pensa em safadezas, mas não se encoraja em tomar
iniciativa... Ao voltar para a fazenda, recebe uma prenda de Serapião
Lorena, uma galinha de briga. Seus empregados não dão
valor à ave: “-Não vale o milho que vai comer.”
Mas Ponciano sente firmeza na galinha, que mata um outro galo, bem
maior. Saturnino Barba de Gato põe no galo o nome de
Vermelhinho Pé de Pilão. O galo vai ser treinado em
Poço Gordo, para ter “esporão de faca, asa de
gavião e coice de mula”. Com seis meses de treinamento,
o galo, dizem, vale mais do que quatro bois de canga...Ganha a fama o
galo mestiço do Sobradinho. Ponciano manda levantar uma
casinha para a ave, mas o galo prefere o galho de limão-galego,
de onde “dava ordens ao raiar do dia’. Até patente
de capitão o galo recebe. O major Badejo dos Santos tinha um
galo feroz, chamado Machadinho, que é vencido por Pé de
Pilão, Tutu Militão traz recado do Dr. Caetano Meio,
que desafia o galo capitãozinho. Juju Bezerra comenta com
Ponciano que, em Ponta Grossa dos Fidalgos, fazenda de Caetano Meio,
tinha uma moça muito bonita chamada D. Bebé. Um negro
muito educado, Nicanor do Espírito Santo, traz carta de Meio,
convidando para a disputa. O coronel responde, evitando botar a
língua para fora, “como pede a minha natureza em tais
circunstâncias.” Interessado em D. Bebé, Ponciano
dá até um cavalinho de presente a Caetano Meio. No dia
da disputa, o galo viaja no melhor cavalo. Ponciano vai vistoso: “a
bem dizer, eu cheirava à inauguração”.
Grande comitiva vai até Ponta Grossa. D. Bebé, com
caxumba, não aparece para o coronel, que se contenta vendo as
“platibandas” de D.Antônia, irmã de Caetano.
O galo adversário, de pescoço pelado, tinha fama de
furar os olhos de sua vítima. Depois do banquete, começa
a rinha. O pescoço pelado quase estraçalha o Pé
de Pilão. Sinhozinho Manco, chegando atrasado, ainda acredita
na vitória do Vermelhinho, apostando nele. No intervalo da
luta, Ponciano fala nos ouvidos do galinho, que deveria honrar a pa-
tente. Vermelhinho acaba vencendo, para a alegria do coronel e de sua
comtiva, principalmente de Sinhozinho.
CAPÍTULO 7
Dioguinho do Poço, sempre trazendo notícias,
fala de um lobisomem que aparecera no Pilar. Ponciano demonstra ter
conhecimento das raças desse bicho. D. Bebé, fugindo do
assédio do coronel, depois que sara da caxumba, parte para
Macaé. A atenção do coronel volta-se para a irmã
de Caetano, mas ela é pedida por um marchante de gado.
Despeitado, Ponciano diz que não nascera para casamento. Tutu
Militão adoece e se interna na Santa Casa. Ponciano fica
sabendo que Jordão Tibiriçá, um meganha,
cobrador de impostos, fizera desfeita a Tutu. Ponciano se arma e leva
sua comitiva para brigar com Tibiriçá, que estava
ausente da cidade. Padre Malaquias intervém. Ponciano procura
aproximar Juju Bezerra de padre Malaquias, que criticava o
comportamento luxurioso do farmacêutico. A desavença
entre Tibiriçá e Ponciano acaba, sobrando a raiva do
coronel para um vendedor de passarinhos, que servira de leva-e-traz
para os rixentos.
CAPÍTULO 8
Ponciano, ao encontrar-se com o negro Nicanor põe
nele medo de lobisomem. Nicanor conta que Juca, primo de Ponciano,
iria se casar com gente da família de Pires de Meio. Ponciano
fica com raiva de seu primo. A noite, uma cobra surucucu ronda o
galinheiro provocando a raiva no galo Pé de Pilão. O
empregado João Ramalho foge com a filha do sacristão.
Uma comitiva vem solicitar ao coronel ajuda para liquidar com o
lobisomem. Ponciano conta vantagens, no que é criticado por
Sinhozinho. Vestido com sua farda, Ponciano vai a um lugar chamado
Colégio, para um batizado. No caminho, sua mula empaca.
Aparece o lobisomem em sua frente. Sua desculpa é que o
compromisso com o batizado o impede de enfrentar o monstro. Com medo
do lobisomem, a mula foge e o coronel trepa numa figueira. Depois de
muita correria, ao sentir o focinho do bicho em suas “partes
subalternas”, o coronel cobre o lobisomem de safanões.
Depois da surra, em linguagem cerimoniosa, “sois-isso,
sois-aquilo”, o coronel escuta a vozinha do lobisomem implorar:
Tenha pena de mim, Coronel Ponciano de Azeredo Furtado.
Sou um lobisomem amedrontado, corrido de cachorro, mordido de cobra.
Na lua que vem, tiro meu tempo de penitência, estou empregando
a palavra com o povo do governo.”(p.181)
Ainda nesse capítulo, há a morte de Juju
Bezerra, fato que muita infelicidade trouxe ao coronel. O enterro
fora bastante concorrido, até discursos foram feitos. Ponciano
diz que não pode rebater o discurso, pois a patente não
lhe permitiria tal coisa.
CAPÍTULO 9
O coronel muda-se para Campos, ficando no Hotel das
Famílias. Freqüenta a casa da rua dos Frades, onde mora o
casal Pernambuco Nogueira e D. Esmeraldina. Com intenção
de agradar à mulher, empresta dinheiro ao advogado. Ganha fama
de demandista. Passa a usar roupas vistosas. Torna-se sócio de
João Fonseca, um tipo asmátíco, no comércio
de compra e venda de açúcar. Fonseca é casado
com D. Celeste, mora na rua do Gás e gosta muito de
passarinhos. Fonseca não apreciava a companhia de Nogueira. O
gerente do banco Hipotecário fala mal do advogado, o que faz o
coronel, sempre interessado em D. Esmeraldina, transferir sua conta
para o banco da Província, cujo gerente era o hipócrita
Selatiel Castro, o Castrão. Artur Fontainha, um engomadinho
que não gostava de Fonseca, passa a trabalhar para o coronel.
A sociedade com Fonseca se desmancha, pois Ponciano é muito
mais ambicioso do que o pobre asmático. O coronel monta um
escritório na praça da Quitanda, num prédio
chamado Livro Verde, O coronel, na casa de D. Esmeraldina, conhece o
seresteiro Peixotinho do Cartório, que canta uma falando em
beija-flor, que é ironizado por Ponciano:
“O cantorista tirava da goela modinha sem leito,
coisa em que ele fazia as partes de um beija-flor maluco do juízo
por uma estrela do céu. Achei tudo isso um descabimento, uma
falta de respeito. Era só o que faltava! Um escrivão de
cartório, oficial juramentado, figurando bobagem, abusando das
avezinhas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Era só o que faltava!”
(p.204)
CAPÍTULO lO
Ponciano faz sucesso no comércio. Deixa a
administração de suas terras por conta de Juquinha
Quintanilha. Continua os ajantarados na rua dos Frades. Recebe visita
de Sinhozinho, que se antipatiza com Fontainha. No Hotel das
Famílias, Sinhozinho é tratado de major
Carneiro...Depois de duas semanas, o velho vai embora, deixando
Ponciano triste. Este, em seu aniversário, é
homenageado pelo casal Nogueira. Selatiel de Castro ronda D.
Esmeraldina, “toda desajeitada, arrumando o cabelo, como saída
de um par de abraços, de um plantão de
segura-embaixo-e-aperta-em-cima”. Ponciano recebe abotoaduras
de presente. Finge interessar-se por Mocinha Cerqueira para
dissimular os ciúmes que sente por D. Esmeraldina. Depois dos
discursos em sua homenagem, Ponciano vai com Mocinha até o
jardim, Uma perereca assusta a moça, que “recua seus
atrasados bem rente das íntimidades” do coronel, nota
que Mocinha é uma falsa magra...Vem do Sobradinho uma notícia
ruim: sumira o galo Vermelhinho. Um tal de Quirino, aguardenteiro,
relata que vira, num areal, uma cobra enorme, “trouxa de
rodelas”, brigando com o galinho. Pé de Pilão e a
surucucu brigam pelo mar afora, deixando Quirino como que
hipnotizado. Os homens do Sobradinho vão até esse areal
e só encontram peças avulsas da rixa: escamas e a marca
do galo. Juquinha adoece e, por recomendação médica,
deixa o serviço pesado de Mata-Cavalo, e muda-se para o Capão,
próximo da cidade, onde vai mexer com comércio. D.
Esmeraldina sugere o nome de Baltasar da Cunha, seu primo engenheiro,
para tomar conta das terras do coronel. Apesar de Ponciano achar esse
primo desnascido para labuta de curral”, acaba por contratá-lo.
Baltasar, em nome de melhoramentos na fazenda, começa a gastar
muito dinheiro. O coronel só tem olhos para a “dama da
rua dos Frades”, cuja beleza “esvaziava o seu saco de
zanga’. Ela deseja passar uns dias em Mata-Cavalo, o que faz o
coronel liberar cada vez mais verba para Baltasar. Como Nogueira vai
se candidatar a deputado, Ponciano lhe empresta muito dinheiro, bem
como presenteia D. Esmeraldina com um anel caro. Ponciano muda-se
para o Hotel dos Estrangeiros, depois de uma briga entre Fontainha e
Totonho Monteiro, proprietário do Hotel das Famílias. A
arrumadeira Titinha tinha um corpo vistoso, “um andar de
cobra”. Quem se assusta com a linguagem saliente de Ponciano é
o sisudo Gastão Palhares, “um sujeito todo forrado de
ipissilones e nove-horas”. Quem vem tomar mais dinheiro de
Ponciano é o jornalista Nonô Portela, que escreve notas
elogiosas ao coronel. Uma caxumba deixa o coronel por duas semanas
acamado. Fontainha fica cada vez mais parecido com Baltasar da Cunha,
permanecendo mais tempo na cidade do que na fazenda, torrando o
dinheiro de Ponciano. Um dia, Pergentino de Araújo conta para
Ponciano que flagrara
D. Esmeraldina com Selatiel Castro. Os Nogueiras rompem
com Pergentino, contando para Ponciano uma outra versão do
caso, sugerindo que Pergentino estava ficando maluco. Quintanilha vem
comentar com o coronel que o povo dos currais estava falando do
comportamento galante de Ponciano, cada vez mais garboso. Ponciano
rasga dinheiro na frente de Juquinha, afirmando que tinha poder
econômico. Nicanor do Espírito Santo, o negro educado,
pede a sarará Nazaré em casamento.
CAPÍTULO 11
“Mão-abertíssimo”, o coronel
dá mais dinheiro a Pernambuco Nogueira, que acaba perdendo as
eleições. Ponciano escuta ofensas de Baltasar da Cunha,
mas não reage. Vai pedir satisfação a Fontainha,
que defende o primo de D. Esmeraldina, mostrando o dedo em riste para
o dono do Sobradinho. Nogueira adverte Ponciano de que Baltasar
poderia entrar na justiça contra ele. Ponciano pensa em romper
com os Nogueira, mas D. Esmeraldina faz novo convite para ele
visitá-los, na rua dos Frades. Quando Ponciano chega à
casa dos Nogueira, fica sabendo que eles viajaram. Cai numa grande
melancolia. Titinha faz uma mandinga para curá-lo. Seus seios
acabam tocando o rosto do coronel e eles acabam fazendo sexo. E a
única vez, em todo o livro, que o coronel finalmente age
concretamente como um garanhão...Sorte no sexo, azar no
dinheiro: os negócios começam a piorar. Uma enchente
devasta o Sobradinho. Apesar dos conselhos de Fonseca, Ponciano faz
péssima compra de açúcar. Deve mais de
quatrocentos contos ao banco. O novo gerente, Seabra, ameaça o
coronel, que acaba por vender as terras de Mata-Cavalo. Depois que
liquida a dívida, dá uma surra em Seabra, cujo traseiro
“firmou jurisprudência no duro da calçada”.
CAPÍTULO 12
A crise econômica faz com que Juventino Ferreira,
um comerciante, se mate. Ponciano não quer dar o braço
a torcer, achando-se ainda poderoso, crescido na desgraça. Mas
é obrigado a vender a casa da rua da Jaca. Saturnino deixa o
Sobradinho e vai mexer com venda em Poço Gordo. Padre
Malaquias vai para o sertão. Retoma amizade com o primo Juca,
que promete pôr o nome de Ponciano em seu futuro filho. No
Livro Verde, o coronel recebe a visita de Portela e Fontainha. Eles
vêm comunicar que Baltasar da Cunha irá na Justiça
contra ele. Depois de uma fala macia, Ponciano sacode os dois escada
abaixo. Vai ao escritório de Pernambuco Nogueira e é
mal recebido. Sente, no “covil do peito”, as caninanas da
raiva. Pernambuco falava com o advogado de Baltasar da Cunha, Macedo
Costa. Este advogado é ofendido por Ponciano, que o chama de
“doutor de bosta e filhote de lobisomem”. Xinga também
Nogueira, mandando “limpar o rabo” com o recibo do
empréstimo pago ao banco. Fecha seu escritório e
contrata o rábula Serafim Carqueja para a demanda contra
Baltasar da Cunha. Vence a causa. Mas, em compensação,
perde um amigo: morre João Fonseca. Vende o relógio e a
corrente de ouro para dar um enterro de luxo ao ex-sócio.
Ganha da viúva D. Celeste um sabiá-laranjeira. Fica
emocionado, chora: “Ponciano vazava por dentro”.
CAPÍTULO 13
Padilha, o dono do Hotel dos Estrangeiros, quer que o
coronel deixe seus aposentos. Titinha, que levava jeito de ser
prostituta, acusava-o de ser ele o responsável por ela ter
perdido sua virgindade. Carqueja vem amaciar o problema, e o coronel
acaba se mudando para a casa de Quintanilha, o dinheiro vai
diminuindo, mas “quanto mais a pecúnia minguava, mais (o
coronel) arranjava grandeza”. Fala em comprar usina, em viajar
para o estrangeiro...Um dia, ao passar diante de um salão de
barbeiro, nota que Baltasar da Cunha estava debochando dele. Compra
um gurungumba (espécie de chicote) e dá uma surra no
barbeiro e no engenheiro. Os jornais anunciam que Pernambuco
Nogueira, agora do lado do governo, arrumou um bom cargo em Niterói.
Ao ver passar D. Esmeraldina, o despeitado coronel diz sua última
palavra a respeito dela: “Vaca!” Depois dos péssimos
negócios na rua do Rosário, Ponciano freqüenta o
belchior da rua Formosa, vendendo seus anéis, para pagar as
taxas contra o Sobradinho. Depois de três anos de ausência,
vai voltar para a fazenda, de bolso vazio, mas “enricado de
muitas e boas experiências”. Compra passagem até
para seu sabiá-laranjeira. Ao passar de trem pelas ruínas
do engenho do Visconde, começa um “destampatório”
com sua fala grossa: na carcaça do engenho já antevia o
estado de seu Sobradinho...Quando deixa a estação e
entra pelo sert escuta o canto agoureiro do pássaro
peito-ferido. Sua casa estava abandonada; aos poucos, vê a
chegada do cachaceiro Janjão Caramujo, do gago Antão
Pereira e de Tutu Militão, que só de falar em Jordão
Tibiriçá, dá início a um processo de
delírio do coronel: este começa a disparar ofensas
contra Jord Tibiriçá e contra o governo. Enlouquecido,
vê meirinhos (cobradores de impostos) por toda parte. Ao tentar
subir, pulando de dois em dois, os degraus do paiol, sente forte
agulhada no peito e cai num “sono de paina” Vê-se
em terras de Badejo dos Santos e tem seu último pensamento
erótico em relação à sobrinha do major,
“portadora de uma guarnição de pernas de fina
nascença, além de bem municiada na sua repartição
dos fundos, coisa de ser vista até de longe, tal a grandeza
dos avultados dela. “(p300) Beirando seu sessenta anos, o
coronel está no além, pois vê passar o falecido
Felisberto, que morrera há muito tempo, picado por uma cobra.
Felisberto está de asas, com “patente de anjo”, na
linguagem do coronel. Ponciano, montado na mulinha de S Jorge, parte
para lutar contra o capeta, “sujeitão de pé de
cabra”. Um menino-anjo, que Ponciano conhecera há muito
tempo, que morrera comendo terra, anuncia: “Lá vai o
Coronel Ponciano de Azeredo Furtado em sua mulinha de desencantar
lobisomem. Vai para a guerra do Demônio, que o coronel não
tem medo de nada.”(p.303). De novo jovem, com a barba negra dos
tempos em que lutou contra o valentão no circo, Ponciano vai
travar a luta contra o demo. Do mar vinha um belo canto:
“Devia ser o canto da madrugada que subia”.
(p304)
Rua
Juvenal Portugal, 385 Anta/RJ