MISSÃO NOS ESTÁDIOS

 

Banquinhos, faixa e uma bolsa preta na mão. Ela escuta a buzina do carro - a carona chegou. Apressa o passo e abre o portão do convento. Chegou a hora do jogo. Alegre e sorridente, a enfermeira e irmã da congregação das Missionárias Franciscanas Capuchinhas, Zeferina Maria Aguiar, de 75 anos, não quer perder de vista a torcida do tricolor (como é chamado o Fortaleza). É o campeonato Brasileiro 2003. Fortaleza enfrenta Criciúma no Estádio Presidente Vargas (PV), na capital cearense. O jogo está marcado para as 4 da tarde, mas irmã Zeferina chega à 1 para pedir esmolas na entrada do estádio.

 

O Posto de Saúde Santa Rosa de Viterbo, que funciona de forma precária para atender um grande contingente de pobres e carentes de Messejana, a 20 quilômetros de Fortaleza, é o motivo que leva a religiosa abandonar as estruturas do convento para pedir esmolas. Ela precisa arrecadar 200 reais. Ela tem uma dívida a pagar a dois operários da construção de uma pequena sala para curativos e tem que arranjar dinheiro para garantir o "Sopão dos Pobres", distribuído todas às terças-feiras. A religiosa diz que Deus dá tudo no dia certo, na hora certa. "Não precisa nem mais, nem menos. Mas a conta certa", argumenta.

 

A idéia de pedir esmola no estádio surgiu no dia 9 de junho de 1999, depois que o Posto Santa Rosa foi assaltado. Zeferina ficou realmente desesperada. Chegou a pensar que não tinha mais nada a fazer, senão fechar o posto de saúde. Mas a voz da consciência falava mais alto: "Você tem que lutar e recuperar tudo o que foi perdido", conta.

 

Milagre ou não, o curioso é que Zeferina arrecadou dos torcedores 199 reais entre moedas e cédulas de um e dois reais. A medida certa. O necessário para aquele dia.

 

Em nome dos pobres - Mãos à obra. Feito com um a carcaça de geladeira e madeira, o carrinho de mão empurrado pela irmã desfila pelas ruas da cidade. Foi de um vizinho a idéia de pedir esmola na porta do estádio. Não pensou duas vezes. Pediu permissão à superiora geral da congregação e, com a licença concedida, não deu outra: Zeferina ficou famosa na cidade inteira.

 

Nem a imprensa nacional ficou de fora. No ano passado, a Seleção jogou no Estádio Castelão. E lá estava a irmã a pedir esmola. A TV Globo exibiu no programa Fantástico a freira como pedinte, gritando: Ronaldinho! Ronaldinho!

 

O porteiro do Estádio Presidente Vargas, Aluísio José, acostumou com a presença da irmã e diz que a missão dela é aproveitar do esporte para perceber o coração bom e generoso das pessoas. "Uns colaboram, outros não. Mas ela sempre descola alguma coisa para ajudar os mais pobres."

 

Um torcedor fiel do Fortaleza, Enóles Maciel, exibe a camisa do tricolor e diz orgulhoso que desde quando conheceu a irmã, reserva 1 real para ela. Religiosamente. "A gente contribui para ajudar a comunidade. Isso não faz falta ao nosso bolso", afirma.

 

Mas nem sempre há boa acolhida ou generosidade para com o trabalho de Zeferina. Ela procura seguir os passos de São Francisco de Assis, que se tornou pobre e pedinte, mantendo a alegria ao ser insultada. Uns gritam que ela vá pedir ao presidente ou que vá rezar. Outros a ignoram. "Uma moça disse para mim: não vou ajudar porque não sou cristã", diz a irmã. Mas isso não a intimida. A faixa continua levantada: "Em nome da pobreza estou pedindo uma ajuda para o Posto de Saúde administrado pelas Irmãs Franciscanas".

 

A recompensa vem de outros que reconhecem sua missão, como o aposentado Valfredo Arraz. Quando a vê, abraça, pede a benção e faz sua contribuição. "Há 4 anos trago minha colaboração para a bolsa da irmãzinha", conta. Quem também testemunha de perto o trabalho caridoso da irmã é o analista do Tribunal de Contas da União, Paulo Avelino Barbosa Silva, um dos colaboradores do posto de saúde. Ele soube de Zeferina através do jornal. "Achei seu trabalho sério e bonito. Minha contribuição é com sacas de arroz e de açúcar para a produção dos xaropes."

 

Segundo Paulo Avelino Barbosa Silva, o trabalho da irmã significa uma oportunidade para quem quer contribuir com organizações de confiança que atuam junto aos pobres. O posto já conseguiu parcerias bastante significativas, como a da Unimed de Fortaleza que, no início deste ano, abraçou a campanha Solidariedade - um Santo Remédio. O resultado foi a aquisição de mais de 8.500 caixas de medicamentos.

 

Atender pacientes que vem com receitas médicas, aplicar injeções, fazer curativos e pequenas cirurgias (uma vez por semana) são as principais atividades do cotidiano da enfermeira religiosa que atualmente mora na casa geriátrica conhecida como Fraternidade Frei João Pedro junto com 19 outras irmãs idosas e enfermas.

 

Núbia Maria da Silva.

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