HUMILDADE NO MATRIMÔNIO
Creio que a humildade foi inventada por Deus também para salvar os matrimônios. O matrimônio, entendido como o amor entre o homem e a mulher, nasce da humildade. Enamorar-se por uma outra pessoa - quando se trata de um verdadeiro amor - é o ato mais radical de humildade que se possa imaginar. Significa ir ao outro e dizer-lhe: "Eu não me basto, eu não sou suficiente a mim mesmo; necessito do seu ser." É como estender a mão e pedir de esmola a uma outra criatura um pouco do seu ser. Repito: é o ato de humildade mais radical.
Deus criou o homem carente, mendicante, inscreveu a humildade na sua própria carne, quando os criou homem e mulher, isto é, incompletos. Fê-los, desde os primórdios, dois seres em movimento, à procura um do outro, "insatisfeitos" cada um de si mesmo. Pôs assim a criatura humana como se estivesse em um plano inclinado em direção ao alto, não em direção ao baixo, porque a união tinha de elevá-lo do outro sexo ao Outro por excelência que é Deus mesmo.
Portanto, o matrimônio nasce da humildade e, se nasce da humildade da condição humana, não pode sobreviver senão na humildade. São Paulo dizia aos cônjuges cristãos: "Revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, toda vez que tiverdes queixa contra outrem."(Cl 3,12)
A humildade e o perdão são como o lubrificante que permite, dia a dia, remover qualquer princípio de ferrugem, derrubar as pequenas paredes da incompreensão e do ressentimento, antes que se tornem grandes muros que não possam mais ser derrubados.
Os esposos devem vigiar para que o outro pai, o falso, não instaure entre eles a lógica do despeito, da desforra... Não se deve dar ouvidos à voz que grita dentro: "Por que tenho de ser sempre eu a ceder, a humilhar-me?" Ceder não é perder, mas vencer, vencer o verdadeiro inimigo do amor que é o nosso egoísmo, o nosso "eu".
Raniero Cantalamessa