CARTA
DE MARA
Pedro
era urna criança muito esperada e amada desde a confirmação da gravidez (era o
nosso primeiro filho). No sexto mês de gravidez fiz uma ultra-sonografia e foi
constatado que o meu filho sofria de anencefalia e que morreria logo após o
nascimento.
O médico
prontamente quis retirar o meu filho através de uma cesariana para a
interrupção da gravidez. Apesar da nossa grande tristeza, ficamos um pouco até
indignados por não conseguirmos entender como se pode querer privar alguém, que
mesmo muito doente e sem esperanças, de receber o carinho e o amor que não tem
medida e é totalmente incondicional, que é o amor da mãe pelo seu filho, sendo
este saudável ou doente, sem mãos ou com mãos ou mesmo sem um órgão vital.
Nas
noites que se seguiram lembro-me que chorei muito, mas vendo a minha barriga
mexer eu conversava com meu filho e o sentia vivo dentro de mim. Passei, tenho
certeza, muito amor e carinho para o Pedro. Eu e o meu marido, a partir daí,
passamos a nos preparar para o seu nascimento, que foi na hora em que ele
deveria vir. Foi triste por um lado, mas maravilhoso por outro. O meu filho não
foi jogado fora numa lata de lixo como um objeto que saiu da fábrica com
defeito. Foi registrado e enterrado como um cidadão, que foi de fato. Pedro
Couto dos Santos Monteiro viveu 4 dias rodeados por mim e pelo meu marido, o vi
fazer xixi, evacuar, chorar, "balbuciar" e morreu segurando em uma
das mãos o meu dedo e na outra mão o dedo do pai.
Dei para
meu filho o melhor que eu tinha para lhe dar, o direito de nascer e de se
sentir muito amado, mesmo não sendo o filho fisicamente perfeito que todo pai e
toda mãe esperam ter.
Niterói,
06 de junho de 2000
Mara
Couto dos Santos Monteiro