v Deus também é negro...
Trago no sangue uma África.
O reboar de tambores, a ponta afiada de lanças,
os riscos coloridos realçando a pele e, na boca,
o gosto atávico dos frutos do Jardim do Éden.

Na alma, as cicatrizes abertas de tantos açoites,
o grito imperial dos caçadores de gente,
os filhos apartados de seus pais e os maridos de suas mulheres,
o balanço agônico da travessia do Atlântico e,
nos porões, a morte ceifando corpos engolidos pelo mar
e triturados pelos dentes afiados dos peixes.

Sou escravo e, no entanto,
senhor de mim mesmo,
pois não há ferrolho que me tranque a consciência
nem moralismo que me faça encarar o corpo com os olhos da vergonha.
Faço do sexo festa, do carinho, liturgia, do amor, bonança,
multiplicando a raça na esperança de quem fertiliza sementes.
Dou ao senhor novos braços que haverão de derrubá-lo de seu trono.
Sou liberto e, no fundo das matas, recrio um espaço de liberdade,
defendendo com espírito guerreiro o meu reduto de paz.
No quilombo, volto à África, resgato a força mistérica do meu idioma,
celebro reisados e congadas,
o canto livre ecoando no coro da passarada,
as águas da cachoeira expurgando-me de todo temor,
as árvores em sentinela cobertas de mil olhos vigilantes.

Cidadão brasileiro, ainda luto por alforria,
empenhado em abolir preconceitos e discriminações,
trabalho escravo e tortura,
grilhões forjados na inconsciência e inconsistência
dos que insistem em fazer da diferença divergência
e ignoram que
Deus é também negro.