FOCUS LOGO HIST�RIA 2

Revista "Rock" - 1975 - Brasil



Focus pertence a uma ra�a diferente, contempor�nea,de m�sicos. Para in�cio de conversa, s�o europeus do continente, um povo mais inclinado a consumir (e com certa parcim�nia) do que a fazer rock. Um grupo de rock europeu - holand�s, mais especificamente - h� alguns anos atr�s, seria considerado uma curiosidade, ave rara. Nunca um candidato s�rio �s listas de "melhores" ou �s paradas de "mais vendidos". No entanto, o Focus ocupa os dois lugares com assiduidade e naturalidade.

A ra�a nova de rockers como o Focus costuma ter uma forja comum temperando seus esp�ritos: o conservat�rio de m�sica. E � l�, justamente, que vamos encontrar nosso primeiro personagem, Thijs Van Leer, 19 anos em 1969, colando grau com distin��o em piano, arranjo e teoria. Thijs era um m�sico aplicado e com interesses m�ltiplos: al�m do curso no Conservat�rio Real de Amsterdam ele estudou Hist�ria de Arte na Universidade de Amsterdam, �rg�o e m�sica renascentista com o maestro Anthony Van Der Horst, dirigiu uma banda de jazz com colegas de col�gio. E, al�m de tudo isso, era um f� exaltado do Traffic, especialmente de Stevie Winwood.
FOCUS em 1974
Foi com a id�ia vaga de fazer "um Traffic holand�s" que Thijs se uniu aos amigos Martin Dresden, baixista, e Hans Cleuver, baterista. Seu primeiro emprego n�o teve muito a ver com o Traffic: foram chamados a integrar a banda do musical Hair, vers�o holandesa. Mas isso lhes trouxe bons contatos, um convite para um teste e, afinal, a grava��o de um LP: a Europa estava ansiosa por produzir rock pr�prio, aut�nomo, que pudesse fazer frente ao heavy-metal ingl�s, a grande onda do momento.

Durante a grava��o deste primeiro disco - In And Out of Focus - houve dois fatos interessantes, Primeiro, Thijs descobriu que n�o s� sabia cantar como conseguia fazer o yodel, vocaliza��o ondulante e complicada, t�pica da m�sica dos Alpes. Segundo, seu amigo Jan Akkerman, 24 anos, guitarrista, violonista e tocador de ala�de formado pelo Liceu Musical de Amsterdam, uniu-se ao grupo.
Como costuma acontecer, o sucesso n�o veio. N�o na escala que o rec�m-batizado Focus ("era um nome internacional, sint�tico") e sua gravadora esperavam. Os curtidores holandeses garantiram as boas vendas do avulso "House fo The King" - bem uma amostra do futuro som-Focus - mas a invas�o de Londres e Nova York n�o se consumou.

Um tanto desiludido, Akkerman abandonou o grupo e foi se unir ao seu antigo colega de conjuntinho de baile, o baterista Pierre Van Der Linden, para formarem um novo grupo junto corn o baixista Cyril Havermans. E ent�o o improv�vel aconteceu: Thijs Van Leer decidiu que esse grupo era melhor do que o seu. E se mudou para a companhia de Akkerman & Cia., levando consigo o nome Focus.
O lan�amento de Moving Waves, �lbum do novo Focus, comprovou o acerto de sua escolha. Com o terreno consideravelmente preparado por grupos como o Yes, o Emerson Lake & Palmer e o King Crimson, o som do Focus, intrincado, mel�dico, quase erudito, se tornou a sensa��o de Londres. Os cr�ticos acolheram Eruption, a suite-rock sobre o mito de Orfeu que ocupa todo um lado de Waves, como "uma obra-prima fundamental do rock contempor�neo". Os elementos estavam todos no lugar, e o catalizador tinha sido Van Der Linden, m�sico 90% erudito, ex-integrante da Orquestra de �pera de Amsterdam.

1972 � o ano da grande virada para o Focus. Excursionam pela Gr�-Bretanha, colecionando elogios e casas lotadas: "Eles nem deviam gravar em est�dios, pois s�o absolutamente perfeitos num palco", diz o jornal Melody Maker. O avulso Sylvia, tirado do �lbum duplo Focus 3, chega ao 1� lugar na parada inglesa e, surpresa das surpresas, na Am�rica tamb�m. Foi um ano de mudan�as: o contido Cyril Havermans deixa o grupo por uma carreira individual. Em seu lugar vem outro agente de transforma��es, o gorducho Bert Ruiter, 26 anos, autodidata, nenhuma base cl�ssica mas muito rock e pop, m�sica de dan�a.

O conflito inevit�vel come�a a roer o grupo lentamente, durante a primeira excurs�o americana. "Bert tem uma energia muito grande, um estilo parecido com o de Jack Bruce, que � sua maior influ�ncia", diz Thijs. "Ele foi levando a gente pouco a pouco por um caminho mais simples, mais aberto, mais r�tmico, mais 2 por 4." O primeiro a se deixar contaminar foi Thijs. Depois, Akkerman. "Acho que foi no Texas, uma noite, que Jan veio me perguntar se ele podia se soltar, tocar coisas mais simples, mais... terra a terra... alegres. Eu fiquei contente porque vi que n�o era s� eu que estava achando o Focus complicado demais."

Quem n�o gostou foi Pierre. "O clima ficou p�ssimo entre Pierre e Bert. Bert queria solar, balan�ar, Pierre n�o deixava. Pierre queria fugas, flautas, n�o se conformava com o que ele chamava 'a nossa vulgaridade", diz Jan. Um �lbum ao vivo, gravado durante uma espetacular temporada no Rainbow de Londres deixa os f�s em compasso de espera, esconde um pouco a briga. "L� pelo fim de 73 eu estava convicto que o grupo ia acabar", diz Jan. "E, para dizer a verdade, n�o me importava muito, n�o. Eu j� estava cheio da m�quina rock de fazer sucessos."

De fato n�o deve ser f�cil, A gera��o europ�ia de onde veio o Focus repete, numa outra escala, evidentemente, o esquema brasileiro de rock. S�o m�sicos muito puros, que tocam por brincadeira ou prazer, que quase nunca t�m contato com uma estrutura ferozmente empresarial de m�sica. A ind�stria de m�sica, na Europa continental, est� voltada basicamente para a can��o, o pop, o easy music. Rock era, at� os anos 70, brincadeira de garotos, festas de dan�a. Nenhum esquema profissional - pubs, clubes, Cavern Clubs, Ealing Clubs - para absorver essa gera��o e acostum�-la com o lado mais duro da m�sica. Para completar tudo, fechando o esquema de desenraizamento, s�o m�sicos nutridos a cl�ssicos e conservat�rios, com uma vis�o l�mpida e quase inocente da cria��o musical. Arte pela arte. Showbiz � coisa de americano.

Da� o choque, inevit�vel. O desencanto. Mike Vernon, que acolheu e produziu o grupo em Londres desde 1972, conta que "eles eram muito desconfiados, viviam dizendo que n�o fariam concess�es, que n�o iam se vender. Estavam apavorados. Especialmente Jan."

Foi Vernon quem salvou o Focus da extin��o por des�nimo. "Ele chegou com uma lista de bateristas: Aynsley Dunbar,- Mitch Mitchell, Collin Allen", diz Thijs. "Os dois primeiros tinham compromissos, mas Colin estava totalmente desempregado. Ele veio, tocou, ficamos com ele."

Colin, ex-m�sico de John Mayall, ex-integrante do grupo Stone The Crows, era o sangue novo que o Focus precisava. "Eu admiro James Brown, seu senso de ritmo, toda a m�sica negra. M�sica negra faz voc� se mexer, dan�ar... Adoro m�sica brasileira, tamb�m." Tocando com ele num velho castelo holand�s alugado, o Focus produziu seu primeiro disco da nova fase "Hamburguer Concerto": mais ritmado, pesado, com bom humor.

E o ciclo se completa: o Focus se firma como um nome do primeiro time, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Mais uma longa viagem do rock, como sempre, retomando ao ponto de origem, � velha Am�rica. "Eu confesso que tinha medo desse papo todo de m�sica cl�ssica", diz Colin. "Mas agora eu vejo que era bobagem e preconceito. � poss�vel fazer uma m�sica muito ampla misturando tudo. Eles tocam blues muito bem. E, no fundo, � a m�sica que importa, n�o �?"

Ana Maria Bahiana - Revista "Rock" - 1975 - Brasil
Mat�ria gentilmente enviada por Jos� do Carmo Lopes


| Home |


Hosted by www.Geocities.ws

1