Dezembro de 2004
quarta-feira, 01 de dezembro de 2004
Aí negada! A segunda parte... ah, pra não esquer:
ACAICE E QUEM MAIS ESTIVER INTERESSADO: as respostas estão no post do dia 22/11
Quase todo o Olimpo estava lá, ouvindo a doce lira de Apolo, quando cheguei para mais uma visita. Entrei discretamente no salão e apossei de uma taça de néctar antes de buscar um lugar para sentar. Infelizmente, nossa rainha foi a primeira a perceber minha chegada, e se levantou do trono, irritada, exclamando: “tudo poderia ser perfeito, mas eu me recuso a estar no mesmo ambiente que a vagabunda!” – e saiu pisando duro, deixando todo mundo atônito, exceto o Apolo, que parou de tocar furioso.
- Ah, vai tarde!- Afrodite comentou bufando e veio ao meu encontro ao mesmo tempo em que Zeus me pediu desculpas e saiu correndo atrás da esposa.
- Ai Apolo, desculpa...- eu disse por minha vez.
- Tudo bem, mãezinha. Eu sei que você não teve culpa nenhuma...- Apolo colocou o instrumento de lado.
- A Hera que é não bate muito bem...- Atena completou e empurrou Afrodite de leve ao me abraçar. – Ela sempre te vê aqui e resolveu fazer ceninha agora que estava quase todo mundo reunido e o Hades não está por perto...
- Só sei que vai rolar um puta barraco...- Hermes se manifestou irreverente, como sempre. – Eu vou lá ver, alguém me acompanha?
- Hermes! É feio bisbilhotar a briga dos outros! – Atena deu-lhe um tapa na cabeça.
- Ah, vá menina! Aposto que está morrendo de curiosidade... – Hermes devolveu o tapa e levou um beliscão da irmã.
- Eu quero ver.- Anunciei rindo.
- MAMÃE!!!- Atena fez cara de espanto.
- Ai Atena, - Apolo se intrometendo- A mãezinha é a maior interassada no assunto, é justo que saiba o que dizem dela. E quanto a nós, temos que nos apressar antes que a doida da Hera convença o Zeus a proibir a entrada da nossa mãezinha aqui.- me abraçou.
- Ela não faria isso, faria?- Afrodite franziu o cenho.
- Faria.- Hermes respondeu e foi até o Dionísio.- Droga, ele está dormindo.
- Deixa ele aí. – Apolo deu de ombros.
- Tá certo. – Hermes deixou o irmão onde estava, depois elevou a voz: - Aê ninfaiada, nós vamos atrás do meu pai, falô? E eu gostaria que vocês não fossem junto, obrigado.
- E onde está o Ares? – perguntei ao grupinho que já me seguia para fora do salão.
- Na Terra. – Atena fez uma careta de desagrado. – tem trabalhado bastante...
- “O senhor da guerra não gosta de crianças...”- Apolo cantarolou.
- É, eu sei. – suspirei desanimada. – E a Ártemis, o Eroszinho, o Endimion...?
- Por aí. – Afrodite.- eles viriam pro sarau, mas sabe como são pontuais...
- E os Eros?
- Você quer dizer, o “grande”? – Hermes quis confirmar.- Se você não sabe dele, nos é que não vamos saber...
Eu ia responder qualquer coisa pro mal-criado, mas ouvi a voz estridente da Hera numa sala no fim do corredor. Depois a voz retumbante de Zeus, não menos exaltada.
- Achamos.- Informei ironicamente.
Todos nos dirigimos a “sala dos gritos”, mas paramos na porta. Zeus berrava:
- Dentre todas as deusas, ela tem todo o direito de ir e vir para qualquer canto dessa porra desse Olimpo e você não vai me convencer do contrario mesmo que use dez cintos de Afrodite!
- Claro, claro, ela tem mais direitos do que eu que sou esposa, que sempre vivi pra você!
- Não, Hera. Ela não tem mais direitos do que você, embora tenha criado meus filhos cujas mães você impossibilitou de fazê-lo, embora tenha me compreendido e ouvido minhas queixas sem nem mesmo ser minha esposa!
- Ah, sim! Agora vai me jogar na cara tudo que eu não pude fazer, sem entender que ela só queria seduzir você e ficar com o trono!
Do lado de fora da sala:
- Calma mãezinha.- todos me disseram ao mesmo tempo.
Do lado de dentro:
- Trono, Hera? Não seja ridícula! Ela está pouco se lixando pra essa história de trono! Eu sou grato a ela por tudo que já fez por mim, como ser que tem sentimentos e não como rei. Hoje eu sei que fiz muito mal a ela, e me recuso a fazer mais esse! Por mim, por ela e pelos meus filhos.- pausa. Ouvimos só o choro da rainha. – E eu não quero ouvir esse pedido nunca mais, ouviu bem?
- Zeus... – ouvimos um baque no chão.- você me ama? Por favor, responda.
- Quais foram minhas ultimas resposta?
- Você mentia, eu sei... Responda agora...
- Não mais, Hera, não mais. – murmurou e tivemos que nos esforçar pra ouvir.
- “Não mais” vai me responder?
- A vida é difícil ao seu lado, mas sei que seria pior eu a abandonasse.
- Então você me ama.- concluiu.- E se ama, porque insiste em me fazer ver a cara da vagabunda?
- Você ouviu minha ultima palavra sobre o assunto, Níke não é vagabunda e eu não quero ouvir você se referindo a ela dessa forma! Assunto encerrado! Agora levanta daí e se recomponha! Não é digno de uma rainha ficar se arrastando pelo chão.
Todos nós nos assustamos quando Zeus abriu a porta e nos olhou entre irritado e amoroso. Depois suspirou e sorriu ao acariciar minha nuca. Ele ia se afastar, mas me lancei em seus braços, mantendo muito próximo por tempo suficiente para dizer “obrigada”.
- Não tem de que... é o mínimo que posso fazer.- disse quando eu o soltei. Depois se afastou de todos nós, quase como se estivesse fugindo (e provavelmente estava, da esposa...).
- Vamos lá meus amores.- dirigi a palavra aos meus companheiros de bisbilhotice. – Não precisamos fazer nada.
- Espere, Níke. – Hera chamou e veio ao meu encontro. – Não pense que a guerra já terminou. Você venceu uma batalha, mas é a mim que ele ama.
- O Zeus pode amar quem ele quiser, estou pouco me importando com isso! – dei de ombros.- Mas venho vencendo há tanto tempo... numa guerra que só existe na sua cabeça! Não seria tempo de me esquecer, de me deixar curtir meus filhos em paz, e de tentar reconquistar seu esposo?
- Reconquistar? Você está louca!
- Não Hera, é você que não entende que Zeus procuraria menos as outras se você não o cobrasse tanto... tenho certeza que a Hera com quem o Zeus casou não era esse poço de amargura que você é hoje...
- Você tem inveja do nosso amor...
- Sendo amada por Hades e pelo próprio Eros? – ri, não, gargalhei.- Não mesmo! E lembre-se: seu esposo não que você me chame disso aí que você já ia dizendo... Vamos meninos, eu ainda tenho que encontrar os demais...
Eu e os meus filhotes nos afastamos. Depois de alguns metros, Hermes brincou:
- Nossa, mãezinha! Você poderia ter sido mais modesta...
- Não resisti.
- Citar o Amor foi foda.- Atena me deu um beijo no rosto. – Sem contra-argumentação!
- Eu sei.
- Dá até pra entender porque ela odeia você tanto assim... – Apolo comentou. – Não dá pra competir com você!
- Até eu sei disso... – Afrodite deu palmadinhas no cinto. – Só não sei porque ela insiste.
- Por desespero talvez, ou por falta do que fazer, mais provavelmente. – opinei rindo.
- Voto no “falta do que fazer”. – Atena, Apolo e Hermes, também rindo.
- Ela seria mais feliz se deixasse todo mundo em paz...
- Eu sei, Afro. Mas não podemos fazer nada, ela é a rainha... e até o rei tem medo dela...
Todos nós rimos maldosamente.
Persephone
quinta-feira, 02 de dezembro de 2004
Espuma,
loucura:
amor...
Nem para mim mesmo consigo explicar...
Eros
segunda-feira, 06 de dezembro de 2004
Ah Grande Espírito! Como estar aqui se meus pensamentos estão no Tártaro, seguindo aquele deus de tão nobre aparência? Como posso, como posso? Desistir é tentador, ainda mais quando sei que depois da morte existe... Hades. Nada que me ofereçam nessa Terra supera o prazer de estar com ele.
Persephone
terça-feira, 07 de dezembro de 2004
Tudo que sinto é contentamento.
Em mim mesmo já me contento,
embora habitando tantos corações.
Mas, eu, encontro barreiras em
quase todos...
Muito me chamam, muito me louvam,
mas fecham a porta na minha cara.
Mas não sofro. Não sei sofrer.
“O Amor se basta em si”.
Não. Eu me basto no sorriso de uma criança.
E me realizo na tua alegria,
e mais ainda na tua existência.
Tu és meu contentamento.
Não sou o filho da Níke, muito pelo contrário.
Eros
quarta-feira, 08 de dezembro de 2004
Resuminho da semana: encontrei Hera pelos corredores do Olimpo, e ela veio com aquela história de agora sabe que a culpa (também) foi minha no caso do Zeus com a Europa... eu disse pra ela: “Ah, Hera, faz tanto tempo que o seu chifre já ficou velho e caiu, e quer saber de uma coisa? Vê se me erra!” Claro que tudo estaria bem se o bonito do Zeus não tivesse recitando por aí o “Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.” do Ricardo Reis/Pessoa... ô inferno de Dante! Desse jeito ele acaba com o casamento da Níkezinha aqui... O Hades percebeu que eu fiquei meio atarantada e veio tirar satisfação então tive que soltar os cachorros dizendo que daqui a pouco ele fica rabugento igual à Hera e perguntei se ele não queria me colocar uma coleira especificando “Níke pertence ao Hades”... pelo menos ele percebeu que eu não gosto de me sentir posse de ninguém, e por isso ele não deu peti por causa do post do Eros. O Hades é um bom menino! XD
Fora isso, estou beeem cansada... a vida na Terra é uma correria comparada ao Tártaro... só que com gente viva, nem sempre feliz, mas viva...
Acho que todo mundo deve ter alguma dúvida sobre a minha louca história, quase biografia não-autorizada dos deuses... quem tiver, tenho uma novidade: PERGUNTE PARA A NÍKE! Sim, o PERGUNTE PARA A NÍKE é para quem estiver confuso, sem saber como um mito se junta no outro, ou o que tem aqui que é diferente da mitologia (isto é, muita coisa, porque nossa história chegou bem deturpada aos ouvidos humanos...), etc, etc...
As primeiras respostas: Persephone Weasley: o Eros que posta aqui não é o meu filho, é o Eros da criação nascido do Caos. Ele é pai do Eroszinho (o da Psiquê), e o Eroszinho é aquele que na mitologia está como filho da Afrodite... que zona, né? Pois bem, nos mitos acabaram juntando os dois Eros em um... XD
Vivi: eu não me suicidaria, porque o Hades iria ficar bravo e o Eros decepcionado... não quero vê-los nem bravos nem decepcionados comigo...
Pois é... qualquer dúvida, PERGUNTE PARA A NÍKE!
(não vou responder questões tipo: qual a cor do leite ou do cavalo de Napoleão, etc...)
Persephone
terça-feira, 14 de dezembro de 2004
Pessoas, deuses, semideuses, vampiros, musas, elfos e toda sorte de seres inteligentes (pelo menos teoricamente), agora eu, Níke, respondo:
Lestat, é o seguinte: o universo é composto de vários mundos paralelos ligados diretamente ao nosso, e os deuses, que antes eram cultuados, continuam cumprindo seus deveres e, como os humanos, tiveram mudanças durante os séculos... não na essência, é claro, mas o modo de viver em alguns casos. A era mitologia dos deuses é conhecida pelos humanos e, em geral descrita nos livros de mitologia... mas como quem conta um conto aumenta um ponto, quase todas as histórias chegaram deturpadas aos tempos atuais, e com inúmeras versões, enquanto outras histórias se perderam no tempo ou não chegaram a ser conhecidas pelos humanos. É sobre essas histórias que escrevo. Assim, o que este blog não serve como referencial para o estudo de Mitologia, pois o que escrevo não é a mitologia, mas os fatos (desse tempo e do mitológico) segundo as minhas lembranças. – ver o Aviso do perfil! ;D
Cris: antologia é quando se junta vários textos em uma coletânea. Para registrar depois eu te explico melhor via e-mail. Isso mesmo, os mitos mudaram tanto devido a tradição oral da qual pertenciam, mas pode-se notar comparando com outras mitologias que fazem parte de um imaginário comum.
Henrique e Mingau: Não era uma poesia erótica. Espuma e Loucura são os dois possíveis significados para o nome AFRODITE. E Afrodite é a deusa do Amor (duh!!! Que novidade!), assim como o Eros... Era só uma espécie de trocadilho semântico! :P
Hades: ô Ruivo, ciúmes do Zeus não pega nada... Você sabe que entre um ruivo e outro eu sempre vou preferir você! Se acalma ou vou começar chamar você de Aidôneus, e eu sei que você odeia esse seu outro nome... ;*
ACAICE: Suas respostas continuam no dia 22 de novembro... (só pra não dizer que eu não respondi!)
DÚVIDAS?PERGUNTE PARA A NÍKE!
Persephone
quarta-feira, 15 de dezembro de 2004
Eu sei que o que fiz não foi certo, mas era o único modo de realizar meu maior desejo. Fui desleal e traiçoeiro como meu irmão fora para comigo... mas aquele que trai não era o meu irmão e sim o méis correto dos deuses. Mesmo assim, não me arrependo e sei que se ela não quisesse não teria aceitado meu ato inescrupuloso.
Estou me referindo ao meu casamento, o atual e que, certamente, será eterno. Como todos sabem, antes desse, tive um casamento fracassado com a Core, que nunca considerei como esposa, mas também nunca a culpei por isso. Níke sempre esteve no meio da farsa e eu bem sabia que não conseguiria esquecê-la. Entretanto, Níke é teimosa e me torturou durante séculos me fazendo manter a promessa de que não devolveria a Core, e eu cumpri o prometido até o momento em que a própria Níke me desobrigou de manter a farsa. Confesso que isso eu também armei.
Tudo começou quando Níke resolveu viver entre o os humanos, com as mesmas dificuldades de um humano comum. Já de início vi a oportunidade que eu esperava há tempos: ela esqueceria de tudo (eu mesmo, junto com o Hermes a levei para beber do rio Letes) e se eu me aproximasse dela enquanto as lembranças como divindade estivessem escondidas no fundo de sua memória, ela seria mais influenciável pela minha vontade. E não perdi tempo.
Observei de longe cada etapa de sua infância na forma humana e quando achei que ela já tivesse um discernimento maior para aceitar a verdade, enviei um de meus servos para um primeiro contato. Não deu certo, pois ela já estava contaminada pelo pensamento maniqueísta judaico-cristão de seu novo mundo, e foi então que Eros entrou na vida humana de Níke e, temendo que algo de ruim acontecesse, contou toda a verdade e a introduziu novamente no mundo olimpiano. Agora Níke tinha duas vidas: com o corpo material era só uma menina, ao adormecer se desprendia e voltava para o Olimpo, consciente de quem era.
No entanto não foi possível que lembrasse de tudo, e com certo esforço consegui me reaproximar dela. Níke, criança na Terra, era mais impaciente, e por mais que ela amasse a Core, acabou se irritando com o modo que a filha de Deméter a tratava e rompendo com qualquer código de moralidade que tivera antes de viver entre os humanos: primeiro se tornou minha amante (mas também o era de Eros, sem mencionar que freqüentemente cedia aos assédios de Zeus), depois me liberou da promessa.
Livre do compromisso antes assumido, nada me impedia de devolver a Core para mãe e foi o que fiz. No entanto, já era tarde: Níke estava de casamento marcado com o Eros.
Nesse momento não posso continuar o relato, pois estou realmente ocupado. Assim que eu tiver uma folga termino. A Níke pediu para continuarem mandando as dúvidas e aqueles que já a questionaram sobre alguma coisa podem ler as respostas em seu último post.
Hades
sexta-feira, 17 de dezembro de 2004
Estou injuriado, injuriadíssimo! Quando as calunias não são contra mim, são contra meu pai. Chega! Pelo menos em algum lugar temos espaço para nos defender e contar a verdade mesmo que não seja aceita como oficial. Não importa. Agradeço a Níke, minha melhor amiga e agora minha madrasta (aêêêê, não é que conseguiu?!) pela oportunidade de defender meu pai/seu esposo dessas calunias nascidas da língua ferina dos servos e aproveitadas pela Core.
Vou falar de quando a Core chegou no Tártaro:
Estávamos, eu e meu pai, andando pelo reino, conferindo se tudo estava em ordem, quando ouvimos o choro de uma garota. Corremos para ver, afinal era incomum que alguém caísse no nosso reino sem ter morrido... E lá estava ela, chorando baixo antes de nos avistar e bem alto depois.
- Calma criança.- disse meu pai. - Não vamos machuca-la.
- Tá tá tá doendo! – ela gaguejou com as lagrimas lavando seu rosto.
- O quê? – ele perguntou paciente e ela apontou para o tornozelo. – Pobrezinha. Vou leva-la para o meu palácio e cuidar do ferimento, pois é mais perto daqui.
- EU QUERO A MINHA MÃE!- ela estava chorando muito alto, como se estivéssemos espancando-a.
- Mas, menina, seu ferimento é grave, ou você quer ficar como o Hefestos?
- NÃO!- chorou.- NÃO QUERO!
- Então?
- Tá. – Mas continuou chorando como se ao invés de ter quebrado o tornozelo ela tivesse amputado o pé.
- Lúcifer! – meu pai me chamou (naquela época ainda não me chamavam assim, mas eu gosto desse nome, não do outro! ò_ó)- Por favor, avise o pai ou a mãe dela ou a Níke, que a menina está comigo e que é preciso que alguém a busque.
- Claro meu pai. –respondi e me afastei enquanto meu pai se dirigia ao palácio.
Vi varias ninfas correndo para longe de mim quando atravessei a passagem para fora do Tártaro. Deduzi que eram companheiras de Core e tentei chamá-las, mas elas se afastaram ainda mais.
Pouco adiante encontrei Zeus (muito suspeito! .) rodeado de outras ninfas, tomado (me pareceu) de intensa alegria.
- Senhor, sua filha Core caiu no reino de meu pai, está machucada e por isso ele pediu que o senhor fosse busca-la.
- Ah, claro... – ele sorriu de maneira estranha.- pode voltar para o Mundo Escuro, jovem, vou avisar a Deméter e iremos juntos busca-la. – E para as ninfas: - Vamos minhas belas...
Obedeci ao meu tio e voltei para a casa. Quando cheguei, ainda havia choro e gritos (juro que desejei que Core fosse muda... ò_ó) Entrei no aposento de onde vinha os gritos e estranhei as expressões assustadas dos servos.
- Quieta!- a voz de meu pai retumbou nos meus ouvidos. – Ou será que terei que amarra-la? Veja, já unhou todo o meu braço!
Meu pai tentava colocar o osso no lugar e atar o tornozelo, mas a menina chorava tanto quanto se a torturasse.
- Filho traga-me uma corda e um tecido.- disse com a paciência esgotada, e eu saí correndo para buscar o que pediu.
Voltei e ela ainda chorava. Ajudei o meu pai a marra-la e a amordaça-la e ele finalmente pôde colocar o osso no lugar e atar. Depois nós a desamarramos e eu quase pedi ao meu pai que a mantesse amordaçada.
- ISSO É UM INSULTO! MINHA MÃE VAI SABER DISSO E A NÍKE VAI RETALHAR VOCÊ COM A SUA ESPADA!- continuava histérica.
- Sua mãe vai me agradecer por não ter deixado que ficasse manca e a Níke nunca retalharia seu amante.- novamente paciente, meu pai respondeu e a menina calou a boca soluçando.
- Eu ia mesmo ficar coxa?- perguntou depois de alguns minutos.
- Iria.
- Mas dói tanto...
- Eu sei, mas o osso se partiu em dois e agora vai doer um pouco até que volte a ser um, entendeu?
- Sim.
- Agora você vai quietinha aí até sua mãe ou seu pai chegar.
Mas não chegou nem pai, nem mãe, nem ninguém e ela só sabia chorar. Chorava porque os pais não vinham, chorava porque não queria comer (meu pai teve que quase a obrigar a comer, daí nasceu a balela de que as sementes de romã a prenderiam no Tártaro), chorava quando meu pai ameaçava sair do aposento, chorava quando as servas iam lhe dar banho... e é claro, cada vez que meu pai tinha que examinar o maldito tornozelo era um escândalo.
- Não! Não, por favor!- ela gritava. Ou pedia:- Se você ficar um pouquinho mais comigo eu deixo, eu fico sempre tão sozinha...
E meu pai, complacente, não entendia porque ninguém fora buscar a menina ainda e nem porque ela insistia tanto que ele ficasse junto dela.
- Ganhei uma filha que caiu do céu para fazer do Mundo Inferior um inferno!- ele brincava.
Tudo isso durou mais ou menos um mês. Meu pai estava bastante irritado porque a menina exigia sua companhia e ela não podia encontrar sua amante, e eu cansado porque arquei com todos os compromissos do reino sozinho. Mas então chegáramos três: Zeus, o pai que eu fui avisar; Deméter, a mãe histérica que não foi avisada; Níke, “a tia da creche” que não vira Core se afastar para buscar asfódelos quando esta estava sob sua responsabilidade.
Deméter gritou, esperneou, se descabelou. O Zeus ficou calado, neutro. A Níke estava em estado de choque. Isso tudo porque ouviram os maldosos relatos dos servos.
Nisso, o tornozelo já estava quase bom. E a Deméter quis levar a filha embora, mas...
- Eu não vou!- Core anunciou enfaticamente sem nem mesmo desmentir as histórias de estupros contadas pelos servos. – devo ser compensada pelos danos sofridos e isso só será feito com o casamento.
- E como pai, eu exijo o casamento.- Zeus se manifestou.
- Mas que danos?- meu pai estava desconsolado.- ela quebrou o tornozelo e eu cuidei do ferimento, só isso. Não houve danos.
Deméter em fúria narrou o que os servos contaram. Níke escondeu o rosto nem choro desesperado.
- Níke, - meu pai ajoelhou a seus pés e ela olhou para mim - você acredita em mim, não é?
- Eu...- ela esperou que confirmasse que meu pai dizia a verdade – eu sei que não seria capaz de disso, mas... – Deméter continuou dando showzinho enquanto Níke falava com meu pai.- Acho que é melhor casar com a garota.
- Mas como se é você quem eu amo?
- Simples, você tem que provar sua honra. A Deméter não vai acreditar no que você diz, e é mais fácil para qualquer um acreditar no que é mais ignóbil e revoltante. É a versão dos servos que vai ficar na história.
Meu pai chorou consciente de que Níke dizia a mais pura verdade.
- Está certo.- Meu pai disse finalmente.- Vou casar com Core, mas que saibam que tenho minha consciência limpa.
- EU SEI QUE VOCÊ FEZ ISSO PARA TÊ-LA COMO ESPOSA! COMO VOCÊ ERRA E AINDA RECEBE RECOMPENSA? ELA VAI COMIGO!- Deméter ergueu o dedo no ar, numa cena ridícula.
- Não vou, mamãe! Posso até passar algum tempo com a senhora, mas agora meu lugar é aqui. – Core bateu o pé bom no chão e se apoiou no pai para não cair.
Níke se afastou de meu pai e veio para perto de mim. Eu a abracei, tentando ser solidário com a sua dor. Zeus, que depois da exigência se manteve calado, guiou a filha até meu pai e disse sorrindo:
- Receba minha filha e minha benção, irmão.- seu sorriso foi ainda maior quando meu pai amparou a menina ainda manca.- Meio ano com ame, meio ano com os esposo. Cerimônia amanha mesmo. – e se voltando pra Níke:
- E você que achava que Hades era o melhor dos três irmãos, que decepção...
- Meu pai É o melhor dos três irmãos! – Eu respondi por ela, indignado.- Ou pensa que não percebo que está feliz de mais com essa história? Qual é o seu objetivo com isso tudo? Ò_ó
- Ver a minha filhinha feliz, é claro.- Zeus respondeu secamente.- E então Deméter, satisfeita?
- Não. Vamos filhinha, há tempo de desistir.
- Não mamãe. Quero ficar com ele, eternamente.
Abracei a Níke com mais força e enxuguei suas lágrimas, evitando que ela visse o beijo que Core roubara de meu resignado pai.
Lúcifer
segunda-feira, 20 de dezembro de 2004
Pessoas, deuses, semideuses, gatos, vampiros, musas, elfos e toda sorte de seres inteligentes (pelo menos teoricamente), preparem-se para histórias da festa do ano... em breve! Gente, podem dar as boas vindas para os novos narradores da minha Morte e vida: Lúcifer, meu enteado e melhor amigo que contou como o Hades teve que casar com a Core e porque que o coitado ficou com a fama de raptor; o próprio Hades que eu amo muito e vai continuar com a "lavação de roupa suja em público", como escreveu o Mingal (gente é fim de ano e o movimento no Tártaro costuma aumentar muito, e ele não disse pra quando vai continuar...); e o Eros. Esses caras são os fulanos que melhor me conhecem e que eu tenho total confiança.
- Olá Sophia. – eu a abracei por trás e lhe dei um beijo na face. Não sei porque, de todos o s meus filhos, ela era única que eu não me sentia intima o suficiente para dar um selinho como cumprimento.
- Olá mamãe.- ela respondeu com sua frieza indiferente habitual (e não é um pleonasmo!).
- Será que poderíamos conversar? – Sentei ao seu lado, apoiei meus cotovelos na mesa e cabeça nas mãos. – Quero dizer, você não está muito ocupada agora?
- Pode-se dizer que estou na “pausa do café”... Pode falar, sou toda ouvidos.
- Bom, filha, eu... eu não sei como começar... é um assunto tão pessoal, mas me sinto tão intimamente ligada... como mãe.
- Não sei onde você quer chegar. – Sophia é sempre tão pratica que beira a grosseria.
- Bom, minha filha, eu sei que tipo de relacionamento você tem com dois dos seus irmãos...
- Eu sei que você sabe, e daí?- bebeu o ultimo gole de néctar e deixou a taça na mesa.
- E daí que... Sophia, você tem certeza do que está fazendo? Quero dizer, você tem certeza que é isso que você quer pra você?
- Não tenho tempo pra passear por aí e convenhamos que aqui não são muitas as opções... ou quem sabe eu deva ir atrás de seus antigos amantes...
- Não estou questionando o seu grau de ocupabilidade, nem estou condenando o fato de você estar envolvida com seus irmãos, mas eu também não sei em que condições tudo isso está acontecendo... Se todo mundo concorda... eu só não queria ver nenhum dos meus filhos magoados...
- Magoados? Talvez você nunca tenha parado pra pensar em quantos homens você magoou, ou quem sabe, em quantas relações manteve ao mesmo tempo...
- Sophia! Eu sou sua mãe, não me veja como uma inimiga!
- É difícil para mim, ouvir você falar de mágoa, sendo que eu passei a minha vida inteira vendo meu pai sofrer por sua causa! Meu pai esperou pela sua boa vontade de liberá-lo daquela promessa ridícula durante milênios. Esperou que chegasse a vez dele, segurando o choro cada vez que você mudava de amante ou que ele a via em algum lugar acompanhada da sua paixão de minuto. E não é só o meu pai... eu vi os estado em que você deixou o meio-nórdico, se não me engano, seu filho, não é? E o semideus dos mares, então? Eu poderia citar vários outros, mas pra que se acima de todos eles está o seu querido Eros? “Oros, meu anjo, vou passar um tempo com o ruivo idiota enquanto isso me espera, tá?”
Plaft! E os cinco dedos da minha mão direita estavam estampados no rosto de Sophia.
- Eu não admito, Sophia, que você fale assim de mim, que sou mãe, e que tente justificar os seus erros através dos meus. Eu não tenho que explicar nada a você, embora agora eu diga isso: eu amo o seu pai, Sophia, eu o amo o Hades de verdade e é por isso que estou aqui no Tártaro. E se eu não o amasse, nem você nem seus irmãos existiriam. Por mais que você não acredite ou despreze o fato, você é fruto desse amor.
Sophia abandonou a posição altiva e deixou as lágrimas rolarem livremente pelo rosto quente.
- Eu só queria que você não se intrometesse na minha vida. – disse com voz entrecortada.
- Não estou me intrometendo, estou tentando ajudar... Vamos, o que me diz do seu pai?
- Eu o amo e admiro, mas ele não sabe sobre isso... Ele me faria escolher um ou outro... Mas ele tem moral pra isso...
- Ora, minha filha! Eu já disse: sou sua mãe, não sua inimiga. E por mais que eu não tenha moral pra dizer o que é certo ou errado, eu só quero o melhor pros meus filhos... e isso inclui o Abel, o Dharma e você.
Ela escondeu o rosto com as mãos, e dessa vez a torrente de lagrimas veio mais forte. Eu a abracei, encostando sua cabeça em meu ombro e afastando seus cabelos, vermelhos como os do pai, de seu belo rosto, agora congestionado pelo choro.
- Vamos meu amor. Não é atacando que se defende, poderíamos evitar muitas guerras inúteis se nos lembrássemos disso. Pela sua atitude, percebo que se condena, mas não dá direito a mais ninguém de fazer o mesmo... Quero que saiba que não estou condenando seus atos, só quero evitar encrencas futuras...
- Eles já sabem, mamãe.- ela ainda chorava no meu ombro.
- Eu sei disso também. Sem querer, eu vi o que aconteceu...
- Inicialmente, pensei que estivesse tudo bem, mas depois daquela noite, eles começaram a me tratar diferente... e a amizade dos dois é mais forte... – fez uma pausa para estancar as lágrimas, depois continuou.- Primeiro eu tive medo de que eles brigassem, agora lamento por não ser tão importante a ponto de não ter causado uma briga...
- Ah, minha Sophia! Não seria hora de conversar com eles? Afinal o fato de ambos saberem que você se relaciona com os dois não significa que tudo está claro. Existem coisas que é preciso verbalizar. Por exemplo: alguma vez você prometeu exclusividade?
- Não.
- Então, eles precisam saber que você não enganou ninguém. E se mesmo assim, eles não voltarem a ser como eram antes, talvez esteja na hora de procurar outros braços... mesmo que sejam dos meus antigos amantes...
Rimos juntas, abraçadas ainda.
- Perdão mamãe... Estou assustada... obrigada por insistir.
Beijei sua testa e enxuguei suas ultimas lágrimas.
- Tudo bem meu felzinho... – eu disse e ela riu. Depois, informou:
- Antes de você vir morar aqui, eu nunca tinha visto meu pai tão feliz... E se você o abandonar, eu nunca mais vou perdoar você.
Sophia pode ficar sossegada, não tenho a menor intenção de abandonar a minha família.
Persephone
quarta-feira, 22 de dezembro de 2004
Ah deus sublime, Camões estava errado: amar o Amor é tão doloroso! Tu sabes, elevado deus, que subi alto em suas asas e que contigo conheci a beleza suprema, mas como poderia continuar depois de perfeição assim se não sou digna de tal? E de tudo já tentei: estar perto tenta-me, estar longe tortura-me, entregar-me? Não: sujar-nos-ia a traição. E a ti Amor, meu amor, abnego.
Estou em frangalhos. Meu instinto diz sim. Minha consciência diz não e eu fico dividida outra vez. Como continuar dessa forma? Como viver assim e ainda denominar tudo isso de “amor”?
De fato, tive uma conversa com o Hades que, teoricamente, era para ser definitiva. Eu estou com muito medo, ele idem, falamos o que era necessário e nunca conseguíamos. Ele disse que não ia me deixar partir, e eu que não tinha a menor intenção de deixá-lo e por isso que pedi com tanta insistência eu não se exaltasse com o que aconteceu. E o que aconteceu, aconteceu e fim, por fraqueza minha e desatenção. Mais fraqueza do que desatenção, é verdade, mas devemos considerar como traição? E o que eu sinto, que eu penso, que lembro? Essas lembranças tão insistentes e, agora, doloridas... Céus! Ainda agora só tenho aquele gosto na boca, aquele toque e a minha fuga. Deuses, deuses! Como desejei e me forcei a frustrar o meu instinto! E o Hades? Será que sabe como me custa rejeitar uma parte que me falta? E tudo isso por quê? Porque eu o amo demais para desrespeitar um acordo que ele considera tão importante!
E estou acabada! Hades disse que vai continuar lutando. Eros disse que não se importa em esperar. E eu? Até quando vou agüentar tanta luta e tanta espera? Quando vou poder ter sossego e ter sempre a cabeça no travesseiro do escolhido? Quando... nunca fui capaz de escolher um ou outro. Sempre deixei que tomassem essa decisão por mim, mas Hades disse: “estou ciente das possíveis conseqüências dos meus atos. Não vou desistir de você e você vai ficar mesmo que eu precise amarrá-la junto a mim. Só peço que não faça nada premeditadamente e que se esforce para manter a sua palavra”. E eu chorei apoiada em seu peito, me sentindo a pior das vilãs.
Perdoe-me, Hades,
se as vezes pareço não dar valor ao nosso amor,
se pareço volúvel e não inspiro confiança,
perdoe-me.
Sei bem que o magôo,
com minhas atitudes impensadas,
com meus sorrisos, abraços, mãos entrelaçadas,
e por isso peço perdão.
Mas há de saber, amado Hades,
que se não escondo
a intimidade que tenho com outros
é porque tenho a minha consciência limpa
por não ter traído nunca seu amor e sua fidelidade.
E há de ter certeza, querido Ruivo,
de que nunca fingi amor
e que se sou sua esposa agora
é porque eu o amo mais do que pode imaginar.
Persephone
terça-feira, 28 de dezembro de 2004
Loucura total no panteão! Pois é, como todos sabem, o Poseidon surtou e tremeu a Terra (placas tectônicas) e com isso inundou a Ásia... PUTA-QUE-O-PARIU POSEIDON!!!! O Hades já tem problemas de mais todo fim-começo de ano, não precisava mais desse... Agora está todo o povo do Mundo Inferior, isto é, o Hades junto com os meus filhotes e o Lú, tudo doido tentando botar ordem na casa... e o Hermes, coitado?! Está correndo pracarai tentando orientar os mortos que vocês sabem que nesse caso é em excesso... E eu que pensei que o Hades teria um pouco de sossego depois do furacão Ivan... tcs tcs tcs... E o Eros? Bom, esse tava rondando os festejos de Natal.
Beijo pro povo que passou aqui nesses seis meses, espero muito amor na vida de todo mundo!!!
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Persephone
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