André Nichele, originário do Vêneto, nascido a 24 de junho de 1865, serviu no exército italiano numa unidade dos "bersagliere", aquelas forças bem treinadas para ações rápidas. Contava um italiano que os bersagliere trajavam uma farda verde, bastante vistosa e que o belo penacho de plumas que lhe caia na nuca e nos ombros dava-lhes um certo ar de fanfarrão. Os bersagliere eram robustos, fortes, de bela aparência, de modo que facilmente eram notados e respeitados.
Terminado o tempo do serviço militar, André Nichele desposou a jovem Maria Bom, natural de Schio.
A Itália viveu anos conturbados nos meados do século passado.
Não era a grande Itália de hoje que se alinha entre os sete grandes, como a França, a Alemanha, a Inglaterra, os Estados Unidos, o Canadá e o Japão. Era formada pelo reino de Piemonte, ao norte, o reino das Duas Sicílias, ao sul; os Estados Pontifícios no centro e, a nordeste, a Lombardia, o Vêneto e o Tridentino sob dominação do Império Austro-Húngaro desde o Congresso de Viena(1815) que pôs fim às guerras napoleônicas. Havia mais os Ducados de Parma e Mântua. Na década de 1860 a 1870 deu-se o movimento para a unificação italiana, concluido em 1870 com a tomada dos Estados Pontifícios em que o Papado ficou reduzido ao minúsculo Estado do Vaticano.
Mas essa unificação acarretou uma situação econônica desastrosa.
Os italianos foram unificados sob um só governo monárquico; mas a situação social, sobretudo para os camponezes foi desastrosa. Houve também perseguições contra a Igreja movida pelos maçons carbonários. Muito sofreu o grande Papa Pio IX. Vigoravam ainda os latifúndios e os trabalhadores rurais, em sua maioria, trabalhavam como empregados ou em terras arrendadas a altos preços. Enquanto isso, sobretudo com a abolição da escravatura(1888), no Brasil, cresceu a procura de mão de obra para as lavouras. Agentes de imigração enviados por Companhias Colonizadoras, percorriam a Alemanha e a Itália em busca de mão de obra. Os primeiros imigrantes italianos para o Rio Grande do Sul, haviam chegado em 1875 e se estabelecido na localidade de Nova Milano, município de Farroupilha.
Para amenizar a grave situação, sobretudo dos habitantes da zona rural, o Governo italiano autorizou, para começar, a emigração de 100.000 italianos; mas com o passar dos anos esse número ultrapassou a casa dos milhões. Assim acentuou-se a corrente emigratóriaque tomou sobretudo três direções: Estados Unidos, Argentina e Brasil. Formavam-se geralmente grupos de emigrantes das mesmas localidades ou municípios e, assim, acreditavam, poderiam melhor enfrentar as incertezas do futuro.
Esse êxodo de milhares de famílias que deixavam casas vazias, pequenas localidades quase despovoadas, deixava indiferente o Governo; mas não assis o grande bispo de Piacenza, Dom Giovanni Battista Scalabrini e seu colega no episcopado, Dom Geremia Bonomelli, bispo de Cremona.
Através das páginas de "L'Amico del Pópolo", jornal por ele fundado em 1886, Dom Giovanni chama a atenção sobre a triste situação de tantos italianos caídos na dura necessidade de emigrar.
O semanário CORREIO RIOGRANDENSE DE CAXIAS DO SUL, de 21 de julho de 1993, em artigo intitulado "Utopia do imigrante italiano" trouxe um artigo extraido daquele jornal italiano. Vai aqui transcrito, pois nos dá uma idéia do que foram os sofrimentos dos imigrantes, possivelmente também da Família Nichele.
"Em Milão, há vários anos, assisti a uma cena que me deixou na alma sentimentos de profunda tristeza. Passando pela estação, vi o salão, os pórticos laterais e a praça vizinha tomadas por 300 ou 400 pessoas mal vestidas, em diversos grupos. Sobre suas faces bronzeadas pelo sol e sulcadas por rugas precoces que a penúria dói imprimir, transparecia a agitação dos sentimentos que invadiam seus corações naquele momento. Eram anciãos curvados pela idade e pelas fadigas. Homens na flor da idade. Senhoras que arrastavam os filhos atrás de si, ou os carregam no colo. Meninos e meninas...
Todos irmanados por um só pensamento, em busca de um mesmo objetivo. Eram emigrantes. Pertenciam a várias províncias da Alta Itália e, com trepidação, esperavam o trem que os levaria às praias do Mediterrâneo, donde zarpariam para as longínquas Américas com a esperança de serem menos hostil a fortuna e menos ingrata a seus filhos, a terra.
Partiam os pobrezinhos, uns chamados pelos parentes que os haviam precedido no êxodo voluntário; outros, sem bem saber para onde, levados pelo poderoso instinto com que migram as aves. Iam para a América, onde, como tantas vezes ouviram dizer, havia trabalho bem remunerado para qualquer pessoa dotada de braços fortes e de boa vontade.
Com lágrimas, se haviam despedido do torrão natal que os ligava a si por numerosas e doces lembranças. Mas, sem remorsos, abandonavam a pátria que apenas lhes era conhecida sob duas formas odiosas: o recrutamento militar e a cobrança dos impostos.
E tinham razão, porque, para os deserdados, a pátria é a terra que lhes garante pão e lá, bem longe, esperavam consegui-lo menos parcimonioso e menos custoso."
FAMÍLIA QUE REZA UNIDA, PERMANECE UNIDA.
Por volta de 1896 André Nichele deixou a bela região da Alta Itália e embarcou em Gênova, rumo ao Brasil com a esposa Maria e duas crianças, João e Verônica. Desembarcou em Santos.
São Paulo foi o primeiro estado a receber trabalhadores italianos angariados por Nicolau Vergueiro para suas fazendas de café. Não foi possível descobrir em que lugar André Nichele se fixou; na capital ou no interior. O certo é, porém, segundo contaram seus filhos, que ele não se deu bem por lá, sobretudo devido ao clima.
Tendo ouvido dizer que o Rio Grande do Sul tem clima temperado como o Vêneto, arranjou algumas economias e foi estabelecer-se em Canoas, a poucos quilômetros de Porto Alegre. Canoas naquele tempo era apenas distrito do município de Gravataí, mas com perspectivas de bom futuro, porque é atravessada pela estrada-de-ferro. André fixou residência nas imediações da atual Base Aérea, á esquerda da ferrovia Porto Alegre em direção norte, rua Araçá.
Além dos filhos João e Verônica nascidos na Itália, e Mateus nascido na Viagem, tiveram mais os filhos: Antônio, Angelina, André e Paulo.
Angelina faleceu solteira, bem jovem. André filho e Paulo, abraçaram a vida religiosa na congregação lassalista. André Nichele, em Canoas, dedicou-se à agricultura em sua propriedade e numa colônia de terras em Mato Grande nas vizinhanças do Rio dos Sinos, a pouca distância. Plantou um parreiral e, durante algum tempo, forneceu vinho ao Instituto São José do Lassalistas, em Canoas.
A família Nichele era profundamente cristã. O dia de trabalho terminava com a reza do terço em famíli, seguido do canto das Ladainhas de Nossa Senhora, cantadas(em latim) naquela toada tradicional nas famílias italianas.
André foi fabriqueiro da igreja paroquial, sineiro e bom colaborador do Padre Vigário. Assíduo à santa missa e cerimônias religiosas, mesmo em idade avançada, fazia questão de ir à igreja. Quando começou a sentir dificuldade em caminhar, fazia-se levar de carrocinha. Como ele queria assistir a santa missa ajoelhado, os filhos ou os netos colocavam-lhe uma almofada debaixo dos joelhos. Ele irradiava piedade. Foi assim, sobretudo com seu exemplo, que educou tão bem seus filhos.
A família Nichele foi família exemplar. Os descendentes continuam naquela vivência cristã transmitida de pai a filhos, confirmando o que dizem tantos sociólogos:
" A PRIMEIRA E INDISPENSÁVEL ESCOLA PARA A FORMAÇÃO DOS BONS CIDADÃOS É O LAR CRISTÃO "
Origens de André Nichele
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