Poems by MIGUEL TORGA

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"...Sou uma fome incontida/ De viver..."






SAGRES



Vinha de longe o mar...
Vinha de longe, dos confins do medo...
Mas vinha azul e brando, a murmurar
Aos ouvidos da terra um c�smico segredo.

E a terra ouvia, de perfil agudo,
A confidencial revela��o
Que iluminava tudo
Que fora bruma na imagina��o.

Era o resto do mundo que faltava
(Porque faltava mundo !).
E o agudo perfil mais se agu�ava,
E o mar jurava cada vez mais fundo.

Sagres sagrou ent�o a descoberta
Por descobrir:
As duas margens da certeza incerta
Teriam de se unir !



in Poemas Ib�ricos





LIVRO DE HORAS



Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que v�o em leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que s�o tr�s,
E dos pecados mortais
Que s�o sete,
Quando a terra n�o repete
Que s�o mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras l�cidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andan�as
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, � mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter ra�zes no ch�o
Desta minha condi��o.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser anjo ca�do
Do tal c�u que Deus governa;
De ser o monstro sa�do
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim !



in O outro livro de Job





D. SEBASTI�O



Quem vai � luz do C�u com a luz da Terra,
Encontra a escurid�o no seu caminho;
Quem vai buscar a noiva em som de guerra,
Morre sem noiva e sem amor, sozinho.
Encontra a escurid�o no sol ardente,
Arma do Anjo Negro mascarado
Que cega todo aquele que � sua frente
Ergue o rosto agressivo e confiado.
Morre na areia seca do deserto,
Seu corpo nu a apodrecer no ch�o,
Simplesmente coberto
Pelo pranto sem fim duma Na��o.
E eu fui a Deus com alma natural,
E o meu grito de amor desafiou.
E Deus toldou-se quando eu dei sinal,
E a noiva nem sequer me sepultou !



in Poemas Ib�ricos





COMUNH�O



Tal como o campon�s, que canta a semear
A terra,
Ou como tu, pastor, que cantas a bordar
A serra
De brancura,
Assim eu canto, sem me ouvir cantar,
Livre e � minha altura.
Semear trigo e apascentar ovelhas
� oficiar � vida
Numa missa campal.
Mas como sobra desse ritual
Uma leve e gratuita melodia,
Junto o meu canto de homem natural
Ao grande coro dessa poesia.



in C�ntico do Homem





BUC�LICA



A vida � feita de nadas:
De grandes serras paradas
� espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Ca�das e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poesia;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma M�e que faz a tran�a � filha.



S. Martinho de Anta, 30 de Abril de 1937





UNIVERSALIDADE



Aqui declaro que n�o tem fronteiras.
Filho da sua p�tria e do seu povo,
A mensagem que traz � um grito novo,
Um metro de medir coisas inteiras.

Redonda e quente como um grande abra�o
De p�lo a p�lo, a sua humanidade,
Tendo ra�zes e localidade,
� um sonho aberto que fugiu do la�o:

Vento da primavera que semeia
Nas montanhas, nos campos e na areia
A mesma l�cida semente,

Se parasse de medo no caminho,
tamb�m parava a vela do moinho
Que m�i depois o p�o de toda a gente.



in Nihil Sibi





MACERA��O



Pisa os meus versos, Musa insatisfeita !
Nenhum deles te merece.
S�o frutos acres que n�o apetece
Comer.
Falta-lhes g�nio, o sol que amadurece
O que sabe nascer.

Cospe de t�dio e nojo
Em cada imagem que te desfigura.
Nega esta rima impura
Que responde de ouvido.
Denuncia estas s�labas contadas,
Vest�gios digitais do evadido
Que deixa atr�s de si as impress�es marcadas.

E corta-me de vez as asas que me deste.
Mandaste-me voar;
E eu tinha um corpo inteiro a recusar
Esse �mpeto celeste.



in Penas do Purgat�rio





MAGNIFICAT



Ai, a vida !
Quanto mais me magoa, mais a canto.
Mais exalto este espanto
De viver.
Este absurdo humano,
Quotidiano,
Dum poeta cansado
De sofrer,
E a fazer versos como um namorado,
Sem namorada que lhos queira ler.

Cego de luz, e sempre a olhar o sol
Num aturdido
Deslumbramento.
Cada breve momento
Recebido
Como um dom concedido
Que se n�o merece.
Ai, a vida !
Como d�i ser vivida,
E como a pr�pria dor a quer e agradece.



in Di�rio XIII





M�E



M�e:
Que desgra�a na vida aconteceu,
Que ficaste insens�vel e gelada ?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada ?

Como as est�tuas, que s�o gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presen�a cinzelada em pedra dura,
Que n�o tem cora��o dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti - n�o me respondes.
Beijo-te as m�os e o rosto - sinto frio.
Ou �s outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detr�s do terror deste vazio.

M�e:
Abre os olhos ao menos, diz que sim !
Diz que me v�s ainda, que me queres.
Que �s a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim !



S. Martinho de Anta, 1 de Junho de 1948. in Di�rio IV, 1949




QUASE UM POEMA DE AMOR



H� muito tempo j� que n�o escrevo um poema
De amor.
E � o que eu sei fazer com mais delicadeza !
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Gra�a
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E ba�a
Bebedeira.
Mas ou seja que vou envelhecendo
E ningu�m me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paix�o
Me mantenha calado
O cora��o
Num �ntimo pudor,
- H� muito tempo j� que n�o escrevo um poeemma
De amor.



Coimbra, 7 de Fevereiro de 1950. in Di�rio V, 1951





PERFIL



N�o. N�o tenho limites.
Quero de tudo
Tudo.
O ramo que sacudo
Fica varejado.
J� nascido em pecado,
Todos os meus pecados s�o mortais.
Todos s�o naturais
� minha condi��o,
Que quando, por excep��o,
Os n�o pratico
� que me mortifico.
Alma perdida
Antes de se perder,
Sou uma fome incontida
De viver.
E o que redime a vida
� ela n�o caber
Em nenhuma medida.



Coimbra, 2 de Mar�o de 1979. in Di�rio XIII, 1983





RECATO



L�.
Mas decifra,
Com a raz�o
E o cora��o,
Versos que nem eu quero que o pare�am,
De t�o negros que s�o.
Todo o poema � um teste
Que p�e � prova a inquieta��o
De quem nele se aventura.
Este
Que te proponho a horas mortas,
E � um tronco de tortura
Penitente,
Abre-te cautamente
As portas
De uma pungente
Dor envergonhada,
Assim veladamente
Solu�ada.



Coimbra, 17 de Novembro de 1984




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