Poems by MIGUEL TORGA
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"...Eu, pecador, me confesso/ De ser assim como sou..."
AVE DA ESPERAN�A
Passo a noite a sonhar o amanhecer.
Sou a ave da esperan�a.
P�ssaro triste que na luz do sol
Aquece as alegrias do futuro,
O tempo que h�-de vir sem este muro
De sil�ncio e negrura
A cerc�-lo de medo e de espessura
Maci�a e tumular;
O tempo que h�-de vir - esse desejo
Com asas, primavera e liberdade;
Tempo que ningu�m h�-de
Corromper
Com palavras de amor, que s�o a morte
Antes de se morrer.
in Penas do Purgat�rio
DIES IRAE
Apetece cantar, mas ningu�m canta.
Apetece chorar, mas ningu�m chora.
Um fantasma levanta
A m�o do medo sobre a nossa hora.
Apetece matar, mas ningu�m mata.
Apetece fugir, mas ningu�m foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
Apetece morrer, mas ningu�m morre.
Apetece matar, mas ningu�m mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.
Oh ! Maldi��o do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas
Que deixam ver a vida que n�o temos
E as ang�stias paradas.
in C�ntico do Homem
DESFECHO
N�o tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
(S� a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte.)
Fosse qual fosse o ch�o da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presen�a impertinente
Do teu vulto calado
E paciente...
E lutei, como luta um solit�rio
Quando algu�m lhe perturba a solid�o.
Fechado num ouri�o de recusas,
Soltei a voz, arma que tu n�o usas,
Sempre silencioso na agress�o.
Mas o tempo moeu na sua m�
O joio amargo do que te dizia...
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas v�o a par na teimosia.
in C�mara Ardente
CAM�ES
Nem tenho versos, cedro desmedido,
Da pequena floresta portuguesa !
Nem tenho versos, de t�o comovido
Que fico a olhar de longe tal grandeza.
Quem te pode cantar, depois do Canto
Que deste � p�tria, que to n�o merece ?
O sol da inspira��o que acendo e que levanto
Chega aos teus p�s e como que arrefece.
Chamar-te g�nio � justo, mas � pouco.
Chamar-te her�i, � dar-te um s� poder.
Poeta dum imp�rio que era louco,
Foste louco a cantar e louco a combater.
Sirva, pois, de poema este respeito
Que te devo e confesso,
�nica nau do sonho insatisfeito
Que n�o teve regresso.
in Poemas Ib�ricos
SITUA��O
N�o h� ref�gio, e o terror aumenta.
� tal e qual o drama aqui na sala:
A luz da tarde em agonia lenta
E a maci�a negrura a devor�-la.
Dor deste tempo atroz, sem refrig�rio,
Eis os degraus do inferno que nos restam:
Morrer e apodrecer no cemit�rio
Onde fantasmas como eu protestam.
in Penas do Purgat�rio
PIET�
Vejo-te ainda, M�e, de olhar parado,
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto.
Sobre o golpe sem fundo do meu lado
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que ado�ava tanto.
Depois, a noite de uma outra vida
Veio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz;
Mas o teu pranto, pela noite al�m,
Seiva do mundo, ia caindo, M�e,
Na sepultura fria da raiz.
in Di�rio I
P�TRIA
Serra !
E qualquer coisa dentro de mim se acalma...
Qualquer coisa profunda e dolorida,
Tra�da,
Feita de terra
E alma.
Uma paz de falc�o na sua altura
A medir as fronteiras:
- Sob a garra dos p�s a fraga dura,
E o bico a picar estrelas verdadeiras...
in Di�rio II
IDENTIDADE
Matei a lua e o luar difuso.
Quero os versos de ferro e de cimento.
E, em vez de rimas, uso
As conson�ncias que h� no sofrimento.
Universal e aberto, o meu instinto acode
A todo o cora��o que se debate aflito.
E luta como sabe e como pode:
D� beleza e sentido a cada grito.
Mas como as inscri��es nas penedias
T�m maior dura��o,
Gasto as horas e os dias
A endurecer a forma da emo��o.
in Penas do Purgat�rio
�CLOGA
Demos as m�os. Aquece e aproxima.
Temos t�o pouco tempo !
Dentro de n�s germina
O desencanto,
Mas os tojos s�o tenros ao nascer...
E enquanto
O rebanho rumina,
Podemo-nos amar sem padecer.
Sim, � fugaz esta ternura aflita,
Mas n�o h� outra com mais dura��o.
A eternidade
� o sono que, maci�o, no caix�o
Aguarda o desenlace deste dia
Todo acordado, todo claridade,
Breve aceno do sol que o alumia.
in Penas do Purgat�rio
ORFEU REBELDE
Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a f�ria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.
Outros, felizes, sejam rouxin�is...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o c�u e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que h� gritos como h� nortadas,
Viol�ncias famintas de ternura.
Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em leg�tima defesa.
Canto, sem perguntar � Musa
Se o canto � de terror ou de beleza.
in Orfeu Rebelde
MUDEZ
Que desgra�a, meu Deus !
Tenho a Il�ada aberta � minha frente,
Tenho a mem�ria cheia de poemas,
Tenho os versos que fiz,
E todo o santo dia me rasguei
� procura n�o sei
De que palavra, s�ntese ou imagem !
Des�o dentro de mim, olho a paisagem,
Analiso o que sou, penso o que vejo,
E sempre o mesmo tr�gico desejo
De dar outra express�o ao que foi dito !
Sempre a mesma vontade de gritar,
Embora de antem�o a duvidar
Da exactid�o e for�a desse grito.
Mudo, mesmo se falo, e mudo ainda
Na voz dos outros, todo eu me afogo
Neste mar de sil�ncio, �ntima noite
Sem madrugada.
Sil�ncio de crian�a que ficasse
Toda a vida crian�a,
E nunca conseguisse semelhan�a
Entre o pavor e o pranto que chorasse.
in Orfeu Rebelde
S. LEONARDO DE GALAFURA
� proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capit�o no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
� num antecipado desengano
Que ruma em direc��o ao cais divino.
L� n�o ter� socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Ser�o charcos de luz
Envelhecida;
Razos, todos os montes
Deixar�o prolongar os horizontes
At� onde se extinga a cor da vida.
Por isso � devagar que se aproxima
Da bem-aventuran�a.
� lentamente que o rabelo avan�a
Debaixo dos seus p�s de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
� um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho !
in Di�rio IX
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