Portuguese Poetry



PORTUGUESE POETRY

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"Dorme em n�s o presente."

Fernando Pessoa






O MENINO DA SUA M�E



No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
� Duas, de lado a lado �,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue
De bra�os estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os c�us perdidos.

T�o jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem ?)
Filho �nico, a m�e lhe dera
Um nome e o mantivera:
�O menino da sua m�e�.

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a m�e. Est� inteira
� boa a cigarreira,
Ele � que j� n�o serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a ro�ar o solo,
A brancura embainhada
De um len�o... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

L� longe, em casa, h� a prece:
"Que volte cedo, e bem !"
(Malhas que o Imp�rio tece !)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua m�e.



Fernando Pessoa, in Obra Po�tica e em Prosa, ed. Ant�nio Quadros. Porto, Lello & Irm�o, 1986.





OS PUTOS



Uma bola de pano, num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O c�u no olhar, dum puto.

Uma fisga que atira a esperan�a
Um pardal de cal��es, astuto
E a for�a de ser crian�a
Contra a for�a dum chui, que � bruto.

Parecem bandos de pardais � solta
Os putos, os putos
S�o como �ndios, capit�es da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
� a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
S�o os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.

As caricas brilhando na m�o
A vontade que salta ao eixo
Um puto que diz que n�o
Se a porrada vier n�o deixo

Um berlinde abafado na escola
Um pi�o na algibeira sem cor
Um puto que pede esmola
Porque a fome lhe abafa a dor.



Jos� Carlos Ary dos Santos







Vem sentar-te comigo L�dia, � beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e n�o estamos de m�os enla�adas.
(Enlacemos as m�os.)

Depois pensemos, crian�as adultas, que a vida
Passa e n�o fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao p� do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as m�os, porque n�o vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer n�o gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem �dios, nem paix�es que levantam a voz,
Nem invejas que d�o movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que pod�amos,
Se quis�ssemos, trocar beijos e abra�os e car�cias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao p� um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento �
Este momento em que sossegadamente n�o cremos em nada,
Pag�os inocentes da decad�ncia.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-�s de mim depois
Sem que a minha lembran�a te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enla�amos as m�os, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crian�as.

E se antes do que eu levares o �bolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-�s suave � mem�ria lembrando-te assim � � beira-rio,
Pag� triste e com flores no rega�o.



Fernando Pessoa, in Obra Po�tica e em Prosa, ed. Ant�nio Quadros. Porto, Lello & Irm�o, 1986.





ESTES S�TIOS



Olha bem estes s�tios queridos,
V�-os bem neste olhar derradeiro...
Ai ! o negro dos montes erguidos,
Ai ! o verde do triste pinheiro !
Que saudades que deles teremos...
Que saudade ! ai, amor, que saudade !
Pois n�o sentes, neste ar que bebemos,
No acre cheiro da agreste ramagem,
Estar-se alma a tragar liberdade
E a crescer de inoc�ncia e vigor !
Oh ! aqui, aqui s� se engrinalda
Da pureza da rosa selvagem,
E contente aqui s� vive Amor.
O ar queimado das salas lhe escalda
De suas asas o n�veo candor,
E na frente arrugada lhe cresta
A inoc�ncia infantil do pudor.
E oh ! deixar tais del�cias como esta !
E trocar este c�u de ventura
Pelo inferno da escrava cidade !
Vender alma e raz�o � impostura,
Ir saudar a mentira em sua corte,
Ajoelhar em seu trono � vaidade,
Ter de rir nas ang�stias da morte,
Chamar vida ao terror da verdade...
Ai ! n�o, n�o... nossa vida acabou,
Nossa vida aqui toda ficou.
Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro,
Dize � sombra dos montes erguidos,
Dize-o ao verde do triste pinheiro,
Dize-o a todos os s�tios queridos
Desta ruda, feroz soledade,
Para�so onde livres vivemos.
Oh ! saudades que dele teremos,
Que saudade ! ai, amor, que saudade !



Almeida Garrett, in Folhas Ca�das





ELEGIA NA SOMBRA



Lenta, a ra�a esmorece, e a alegria
� como uma memoria de outrem. Passa
Um vento frio na nossa nostalgia
E a nostalgia torna-se desgra�a.

Pesa em n�s o passado e o futuro.
Dorme em n�s o presente. E a sonhar
A alma encontra sempre o mesmo muro,
E encontra o mesmo muro ao dispertar.

Quem nos roubou a alma? Que bruxedo
De que magia incognita e suprema
Nos enche as almas de dolencia e medo
Nesta hora inutil, apagada e extrema?

Os heroes resplandecem a distancia
Num passado impossivel de se ver
Com os olhos da f� ou os da ancia.
Lembramos nevoa, sombras a esquecer.

Que crime outrora feito, que peccado
Nos impoz esta esteril prova��o
Que � indistinctamente nosso fado
Como o pressente nosso cora��o ?

Que victoria maligna conseguimos �
Em que guerra, com que armas, com que armada ? �
Que assim o seu castigo irreal sentimos
Collado aos ossos d'esta carne errada ?

Terra tam linda com heroes tam grandes,
Bom sol universal localizado
Pelo melhor calor que aqui expandes,
Calor suave e azul s� a n�s dado �

Tanta belleza dada e gloria ida !
Tanta esperan�a que, depois da gloria,
S� conheceu que � facil a descida
Das encostas anonymas da historia !

Tanto, tanto ! Que � feito de quem foi ?
Ninguem volta ? Do mundo subterraneo
Onde a sombria luz por nulla doe,
Pesando sobre onde j� esteve o craneo,

N�o restitue Plut�o a sob o ceu
Um heroe ou o animo que o faz,
Como Eurydice dada � dor de Orpheu;
Ou restituiu, e olh�mos para traz ?

Nada. Nem f� nem lei, nem mar nem porto.
S� a prolixa estagna��o das maguas,
Como nas tardes ba�as, no mar morto,
A dolorosa solid�o das aguas.

Povo sem nexo, ra�a sem supporte,
Que, agitada, indecisa, nem repare
Em que � ra�a, e que aguarda a propria morte
Como a um comboio expresso que aqui pare.

Torvelinho de duvidas, descren�a
Da propria conciencia de se a ter,
Nada ha em n�s que, firme e crente, ven�a
Nossa impossibilidade de querer.

Plagiarios da sombra e do abandono,
Registramos, quietos e vazios,
Os sonhos que ha antes que venha o somno
E o somno inutil que nos deixa frios.

Oh, que ha de ser de n�s ? Ra�a que foi
Como que um novo sol occidental
Que houve por typo o aventureiro e o heroe
E outrora teve nome Portugal...

(Falla mais baixo ! Deixa a tarde ser
Ao menos uma externa quieta��o
Que por ser f�ra fa�a menos doer
Nosso descompassado cora��o.

Falla mais baixo! Somos sem remedio,
Salvo se do ermo abysmo onde Deus dorme
Nos venha dispertar do nosso tedio
Qualquer obscuro sentimento informe.

Silencio quasi ! Nada digas ! Cala
A esperan�a vazia em que te acho,
Patria. Que doen�a de teu ser se exhala ?
Tu nem sabes dormir. Falla mais baixo !)

� incerta manh� de nevoeiro
Em que o Rei morto vivo tornar�
Ao povo ignobil e o far� inteiro �
�s qualquer coisa que Deus quer ou d� ?

Quando � a tua Hora e o teu Exemplo ?
Quando � que vens, do fundo do que � dado,
Cumprir teu rito, reabrir teu Templo
Vendando os olhos lucidos do Fado ?

Quando � que s�a, no deserto de alma
Que Portugal � hoje, seu sentir,
Tua voz, como um balou�ar de palma
Ao p� do oasis do que possa vir ?

Quando � que esta tristeza desconforme
Ver�, desfeita a tua cerra��o,
Surgir um vulto, no nevoeiro informe,
Que nos fa�a sentir o cora��o ?

Quando ? Estagnamos. A melancholia
Das horas successivas que a alma tem
Enche de tedio a noite, e chega o dia
E o tedio augmenta porque o dia vem.

Patria, quem te feriu e envenenou ?
Quem, com suave e maligno fingimento
Teu cora��o supposto socegou
Com abundante e inutil alimento ?

Quem fez que durmas mais do que dormias ?
Que fez que jazas mais que at� aqui ?
Aperto as tuas m�os: como est�o frias !
M�e do meu ser que te ama, que � de ti ?

Vives, sim, vives porque n�o morreste...
Mas a vida que vives � um somno
Em que indistinctamente o teu ser veste
Todos os sambenitos do abandono.

Dorme, ao menos, de vez. O Desejado
Talvez n�o seja mais que um sonho louco
De quem, por muito te ter, Patria, amado,
Acha que todo o amor por ti � pouco.

Dorme, que eu durmo, s� de te saber
Presa da inquieta��o que n�o tem nome
E nem revolta ou ansia sabe ter
Nem da esperan�a sente sede ou fome.

Dorme, e a teus p�s teus filhos, n�s que o somos,
Colheremos, inuteis e cansados
O agasalho do amor que ainda pomos
Em ter teus p�s gloriosos por amados.

Dorme, m�e Patria, nulla e postergada,
E, se um sonho de esperan�a te surgir,
N�o creias nelle, porque tudo � nada,
E nunca vem aquillo que ha de vir.

Dorme, que a tarde � finda e a noite vem.
Dorme, que as palpebras do mundo incerto
Baixam solemnes, com a dor que t�m,
Sobre o morti�o olhar inda disperto.

Dorme, que tudo cessa, e tu com tudo,
Quererias viver eternamente,
Fic��o eterna ante este espa�o mudo
Que � um vacuo azul ? Dorme, que nada sente,

Nem paira mais no ar, que fora almo
Se n�o fora a nossa alma erma e vazia,
Que o nosso fado, vento frio e calmo
E a tarde de n�s mesmos, calma e fria �

Como - longinquo sopro altivo e humano ! �
Essa tarde monotona e serena
Em que, ao morrer, o imperador romano
Disse: Fui tudo, nada vale a pena.



Fernando Pessoa Ort�nimo





AS MINHAS ASAS



Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao c�u.

- Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que m'as deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao c�u.
Veio a cobi�a da terra,
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas n�o quis dar.
- Veio a ambi��o, co'as grandezas,
Vinham para m'as cortar,
Davam-me poder e gl�ria;
Por nenhum pre�o as quis dar.

Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voava ao c�u.

Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E j� suspenso da terra,
Ia voar para elas,
- Deixei descair os olhos
Do c�u alto e das estrelas...
Vi entre a n�voa da terra,
Outra luz mais bela que elas.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
J� n�o se erguiam ao c�u.

Cegou-me essa luz funesta
De enfeiti�ados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores !

- Tudo perdi n'essa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Pena a pena me ca�ram...
Nunca mais voei ao c�u.



Almeida Garrett, in Flores sem Fruto





LIBERDADE



Ai que prazer
N�o cumprir um dever.
Ter um livro para ler,
E n�o o fazer !
Ler � ma�ada,
Estudar � nada.
O Sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
sem edi��o original.
E a brisa, essa,
De t�o naturalmente matinal,
Como tem tempo n�o tem pressa...

Livros s�o pap�is pintados com tinta.
Estudar � uma coisa em que est� indistinta
A distin��o entre nada e coisa nenhuma.

Quanto � melhor, quando h� bruma,
Esperar por D. Sebasti�o,
Quer venha ou n�o !

Grande � a poesia, a bondade e as dan�as...
Mas o melhor do mundo s�o as crian�as,
Flores, m�sica, o luar, e o sol, que peca
S� quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
� Jesus Cristo,
Que n�o sabia nada de finan�as
Nem consta que tivesse biblioteca...



Fernando Pessoa Ort�nimo






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