PORTUGUESE POETRY

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"...n�o h� palavras para dizer esta can��o..."

Manuel Alegre





Ensina-me, ensina-me como se faz
do barro essa can��o,
essa luz que vi mudada em pedra
viva nos teus olhos.

Estou a falar de mim como se n�o fora
estrangeiro, o espinho
indolor da neve cravado na garganta.
J� n�o des�o � pequena pra�a

onde cantam os anjos: o anel
caiu � �gua.
Aqui, dizem, morre-se melhor: o ar
� frio, o campo raso, roxo o orvalho.

� pouco o que desejo,
e desse pouco me despe�o.



Eug�nio de Andrade, in Contra a Obscuridade





MEU CORA��O



Na terra, uma semente pequenina
Abre, ao sol, em sorrisos de verdura.
E o rubro raio aceso que fulmina
Rasga o seio da nuvem que � ternura.

Ao longo de erma e p�lida colina,
Um doce fio de �gua anda � procura
De alguma rosa ang�lica e divina,
Abandonada e morta de secura.

Meu forte cora��o tamb�m nasceu
Para criar, cantando, um novo c�u.
Ningu�m lhe entende a m�stica harmonia !

Lembra remota estrela desmaiada
Que mal se v�, na ab�bada azulada,
Mas, para um outro mundo, � grande dia.



Teixeira de Pascoaes, in Terra Proibida





PAL�CIOS ANTIGOS



Bons castelos leais, nas rochas constru�dos,
�s contor��es do vento, � chuva enegrecidos,
que vamos admirar na ang�stia dos poentes;
grandes salas feudais com telas de parentes,
que vamos admirar na ang�stia dos poentes;
os antigos her�is e as sombras dos guerreiros ?

Uma grande tristeza enorme vos habita !...
No entanto, a alma antiga ainda em v�s palpita.
evocando a como��o das cr�nicas guerreiras:
e, mau grado o destro�o, a erva e as trepadeiras,
como um desejo bom nas almas devastadas,
cresce, ao vento, uma flor no peito das sacadas.

A parasita hera avassalou os muros !
Aninha-se o bolor nos cantos mais escuros;
tudo dorme na paz das cousas silenciosas,
e nos velhos jardins, aonde n�o h� rosas,
s�, resistindo ainda aos s�culos injustos,
uma V�nus de pedra espera, entre os arbustos.

Paira em tudo o sil�ncio e o l�gubre abandono
das cousas que j� est�o dormindo o grande sono,
evocando inda em n�s os velhos cavaleiros,
e, �s lufadas do vento, os grandes reposteiros,
entre as nossas vis�es das �pocas sublimes.
agitam-se, ao luar, sanguentos como crimes.

Mas, no entanto, o poeta entende aquelas dores
e as mudas solid�es, os largos corredores,
as boas castel�s, as g�ticas janelas,
abertas toda a noute, a olhar para as estrelas...
S� ele sabe os ais e os gemidos das portas,
e inveja, �s vezes, ser o p� das cousas mortas !



Gomes Leal, in Claridades do Sul





O MOSTRENGO



O mostrengo que est� no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
� roda da nau voou tr�s vezes,
Voou tr�s vezes a chiar,
E disse: "Quem � que ousou entrar
Nas minhas cavernas que n�o desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo ?"
E o homem do leme disse, tremendo:
"El-Rei D. Jo�o Segundo !"

"De quem s�o as velas onde me ro�o ?
De quem as quilhas que vejo e ou�o ?"
Disse o mostrengo, e rodou tr�s vezes,
Tr�s vezes rodou imundo e grosso.
"Quem vem poder o que s� eu posso,
Que moro onde nunca ningu�m me visse
E escorro os medos do mar sem fundo ?"
E o homem do leme tremeu, e disse:
"El-Rei D. Jo�o Segundo !"

Tr�s vezes do leme as m�os ergueu,
Tr�s vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer tr�s vezes:
"Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que � teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. Jo�o Segundo !"



Fernando Pessoa, in Mensagem





SONETO



Fecham-se os dedos donde corre a esperan�a,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porqu� esperar, porqu�, se n�o se alcan�a
Mais do que a ang�stia que nos � devida ?

Antes aproveitar a nossa heran�a
De inten��es e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lan�a
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a m�o que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que invent�mos e nos fita.



Jos� Carlos Ary dos Santos





CREPUSCULAR



H� no ambiente um murm�rio de queixume,
De desejos de amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espa�o,
Tem del�quios de gozo e de cansa�o,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se espasmos, agonias d'ave,
Inapreens�veis, m�nimas, serenas...
- Tenho entre as m�os as tuas m�os pequenasss,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas m�os t�o brancas d'anemia...
Os teus olhos t�o meigos de tristeza...
- � este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.



Camilo Pessanha


A VIDA



Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
a luz que nesta vida me guiava,
olhos fitos na qual até contava
ir os degraus do túmulo descendo.

Em se ela anuviando, em a não vendo,
já se me a luz de tudo anuviava;
despontava ela apenas, despontava
logo em minha alma a luz que ia perdendo.

Alma gémea da minha, e ingénua e pura
como os anjos do céu (se o não sonharam...)
quis mostrar-me que o bem bem pouco dura !

Não sei se me voou, se ma levaram;
nem saiba eu nunca a minha desventura
contar aos que inda em vida não choraram...



Jo�o de Deus, in Campo de Flores





ADORAÇÃO



Vi o teu rosto lindo,
esse rosto sem par;
contemplei-o de longe, mudo e quedo,
como quem volta de áspero degredo
e vê ao ar subindo
o fumo do seu lar !

Vi esse olhar tocante,
de um fluido sem igual;
suave como lâmpada sagrada,
bem-vindo como a luz da madrugada
que rompe ao navegante
depois do temporal !

Vi esse corpo de ave,
que parece que vai
levado como o Sol ou como a Lua,
sem encontrar beleza igual à sua,
majestoso e suave,
que surpreende e atrai !

Atrai, e não me atrevo
a contemplá-lo bem;
porque espalha o teu rosto uma luz santa,
uma luz que me prende e que me encanta
naquele santo enlevo
de um filho em sua mãe !

Tremo, apenas pressinto
a tua aparição;
e, se me aproximasse mais, bastava
pôr os olhos nos teus, ajoelhava !
Não é amor que eu sinto,
é uma adoração !

Que as asas providentes
do anjo tutelar
te abriguem sempre à sua sombra pura !
A mim basta-me só esta ventura
de ver que me consentes
olhar de longe... olhar !



Jo�o de Deus, in Campo de Flores





A vida é o dia de hoje,
a vida é ai que mal soa,
a vida é sombra que foge,
a vida é nuvem que voa;
a vida é sonho tão leve
que se desfaz como a neve
e como o fumo se esvai
A vida dura um momento,
mais leve que o pensamento,
a vida leva-a o vento,
a vida é folha que cai !

A vida é flor na corrente,
a vida é sopro suave,
a vida é estrela cadente,
voa mais leve que a ave:
Nuvem que o vento nos ares,
onda que o vento nos mares
uma após outra lançou,
a vida � pena caída
da asa de ave ferida -
de vale em vale impelida,
a vida o vento a levou !



Jo�o de Deus, in Campo de Flores




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