Portuguese Poetry



PORTUGUESE POETRY

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"...Nunca mais servirei senhor que possa morrer."

Sophia de Mello Breyner Andresen




AS ALDEIAS



Eu gosto das aldeias sossegadas,
com seu aspecto calmo e pastoril,
erguidas nas colinas azuladas,
mais frescas que as manh�s finas de Abril.

Pelas tardes das eiras, como eu gosto
de sentir a sua vida activa e s� !
V�-las na luz dolente do sol-posto,
e nas suaves tintas da manh� !...

As crian�as do campo, ao amoroso
calor do dia, folgam seminuas,
e exala-se um sabor misterioso
da agreste solid�o das suas ruas.

Alegram as paisagens as crian�as
mais cheias de murm�rios de que um ninho;
e elevam-nos �s coisas simples, mansas,
ao fundo, as brancas velas dum moinho.

Pelas noites de Estio, ouvem-se os ralos
zunirem suas notas sibilantes...
E mistura-se o uivar dos c�es distantes
com o c�ntico met�lico dos galos.



Gomes Leal





CAN��O A MEIA VOZ



A minha vida � sempre ontem
E o meu desejo, amanh�.
Hoje � uma coisa parada.
Nada sei nem fa�o nada.
Certeza � palavra v�.

N�o sou. Ou fui ou serei.
Se ao menos tivesse f� !
Corro atr�s duma quimera,
Ou ent�o fico-me � espera,
Por�m � espera de qu� ?

Porque abri as minhas m�os
E deixei fugir o instante
Que havia nelas ainda ?
Agora o nada n�o finda
E o tudo � sempre distante !

Vir�s tu ao meu encontro
Ou sou eu que devo achar-te ?
Quem pudera descansar !
Ver, ouvir e n�o pensar !
Ser aqui e em toda a parte !

Chego tarde ou muito cedo.
Ou paro aqu�m ou al�m.
Houvesse algo para mim
Sem ter princ�pio nem fim,
Sem ser o mal nem o bem !



Cabral do Nascimento, in Cancioneiro, Edit. Inova, Porto, 1976





DESENHO



Varina
Sentada
Na areia:
- Que sina
Te � dada,
Na manh� chegada
Com a mar� cheia ?

- "Canastra vazia,
Barqueiro morrido..."
- vem da maresia
Teu pensar dorido.

N�o penses t�o claro;
Vai � tua lida.
Pensar, � amaro
Padecer da vida.

E a vida � sonhada
Viagem incerta...
- Varina sentada
Na praia deserta !



Carlos Queir�s, in Desaparecido e Outros Poemas, 3� Ed. �tica, Lisboa, 1957





BALADA DA NEVE



Batem leve, levemente,
Como quem chama por mim...
Ser� chuva ? Ser� gente ?
Gente n�o � certamente
E a chuva n�o bate assim...

� talvez a ventania;
Mas h� pouco, h� poucochinho,
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho...

Quem bate assim levemente,
Com t�o estranha leveza
Que mal se ouve, mal se sente ?...
N�o � chuva, nem � gente,
Nem � vento, com certeza.

Fui ver. A neve ca�a
Do azul cinzento do c�u,
Branca e leve, branca e fria...
- H� quanto tempo a n�o via !
E que sa�dade, Deus meu !

Olho-a atrav�s da vidra�a.
P�s tudo da c�r do linho.
Passa gente e, quando passa,
Os passos imprime e tra�a
Na brancura do caminho...

Fico olhando �sses sinais
Da pobre gente que avan�a
E noto, por entre os mais,
Os tra�os miniaturais
Duns p�zinhos de crian�a...

E descalcinhos, doridos...
A neve deixa inda v�-los
Primeiro bem definidos,
- Depois em sulcos compridos,
Porque n�o podia ergu�-los !...

Que quem j� � pecador
Sofra tormentos, enfim !
Mas as crian�as, Senhor,
Porque lhes dais tanta dor ?!...
Porque padecem assim ?!...

E uma infinita tristeza
Uma funda turba��o
Entra em mim, fica em mim pr�sa.
Cai neve na natureza...
- E cai no meu cora��o.



Augusto Gil





O PAL�CIO DA VENTURA



Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por s�is, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O pal�cio encantado da Ventura !

Mas j� desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada j�, rota a armadura...
E eis que s�bito o avisto, fulgurante
Na sua pompa a a�rea formosura !

Com grandes golpes bato � porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais !

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro s�, cheio de dor,
Sil�ncio e escurid�o - e nada mais !



Antero de Quental





Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais m'espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcan�ar assim
o bem t�o mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado:
Assi que, s� para mim
anda o mundo concertado.



Lu�s de Cam�es





PASSAGEM DAS HORAS



[Ms.] 10/4/1923

Nada me prende, a nada me ligo, a nada perten�o.
Todas as sensa��es me tomam e nenhuma fica.
Sou mais variado que uma multid�o de acaso,
Sou mais diverso que o universo espontaneo,
Todas as epochas me pertencem um momento,
Todas as almas um momento tiveram seu logar em mim.
Fluido de intui��es, rio de suppor-mas,
Sempre ondas sucessivas,
Sempre o mar - agora desconhecendo-se
Sempre separando-se de mim, indefinidamente.

� caes onde eu embarque definitivamente para a Verdade,
� barco, com capit�o e marinheiros, visivel no symbolo,
� aguas placidas, como as de um rio que ha, no crepusculo
Em que me sonho possivel -

Onde estaes que seja um logar, quando sois que seja uma
hora ?

Quero partir e encontrar-me,
Quero voltar a saber de onde,
Como quem volta ao lar, como quem torna a ser social [?],
Como quem ainda � amado na aldeia antiga,
Como quem ro�a pela infancia morta em cada pedra de
muro,
E v� abertos em frente os eternos campos de outr'ora
E a saudade como uma can��o de m�e a embalar fluctua
Na tragedia de j� ter passado,
� terras ao sul, conterraneas, locaes e visinhas !
� linha dos horizontes, parada nos meus olhos,
Que tumultos de vento proximo me � ainda distante,
E como oscillas no que eu vejo, de aqui !

Merda p'r� vida !
Ter profiss�o pesa aos hombros como um fardo pago,
Ter deveres estagna,
Ter moral apaga,
Ter a revolta contra deveres e a revolta contra a moral.
Vive na rua sem sizo.



�lvaro de Campos





NAVIO NAUFRAGADO



Vinha dum mundo
Sonoro, n�tido e denso.
E agora o mar o guarda no seu fundo
Silencioso e suspenso.

� um esqueleto branco o capit�o,
Branco como as areias,
Tem duas conchas na m�o,
Tem algas em vez de veias
E uma medusa em vez de cora��o.

E em seu redor as grutas de mil cores
Tomam formas incertas quase ausentes
E a cor das �guas toma a cor das flores
E os animais s�o mudos, transparentes.

E os corpos espalhados nas areias
Tremem � passagem das sereias -
Das sereias leves de cabelos roxos
Que t�m olhos vagos e ausentes
E verdes como os olhos dos videntes.



Sophia de Mello Breyner Andresen, in Dia do Mar





Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paix�es, que me arrastava;
Ah ! Cego eu cria, ah ! m�sero eu sonhava
Em mim quase imortal a ess�ncia humana.

De que in�meros s�is a mente ufana
Exist�ncia falaz me n�o dourava !
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, s�cios meus e meus tiranos !
Esta alma, que sedenta em si n�o coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, oh Deus !... Quando a morte � luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver n�o soube.



Bocage





REGRESSO AO LAR



Ai, h� quantos anos que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar !...
Foi h� vinte ?... h� trinta ? Nem eu sei j� quando !...
Minha velha ama, que me est�s fitando,
Canta-me cantigas para eu me lembrar !...

Dei a volta ao mundo, dei a volta � Vida...
S� achei enganos, decep��es, pesar...
Oh ! a ing�nua alma t�o desiludida !...
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me adormentar !...

Trago d'amargura o cora��o desfeito...
V� que fundas m�goas no embaciado olhar !
Nunca eu sa�ra do meu ninho estreito !...
Minha velha ama que me deste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar !...

P�s-me Deus outrora no frouxel do ninho
Pedrarias d'astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, v�, pelo caminho !...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar !

Como antigamente, no rega�o amado,
(Venho morto, morto !...) deixa-me deitar !
Ai, o teu menino como est� mudado !
Minha velha ama, como est� mudado !
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar !...

Canta-me cantigas, manso, muito manso...
Tristes, muito tristes, como � noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcan�o
Que a minh'alma durma, tenha paz, descanso,
Quando a Morte, em breve, me vier buscar !...



Guerra Junqueiro, in Os Simples, Lello & Irm�o-Editores




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