Portuguese Poetry



PORTUGUESE POETRY

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"...� sempre a tremer que levo o sol � boca."


Eug�nio de Andrade



Ai o ponteiro da tortura
naquela sala
que a matem�tica tornava mais escura
em vez de ilumin�-la.

Felizmente s� o nada-de-mim ficava l� dentro.

O resto corria no p�tio-em-que-nos-sonhamos,
p�ssaro a aprender os c�lculos do vento
aos saltos do solo para os ramos.

Mas s� quando voltava para casa � tardinha
encontrava a minha verdadeira matem�tica � espera
na l�gica dura das teclas do piano,
no perfil-oiro-pedra da vizinha,
na flauta de �gua macia do tanque
- chuva de Mozart nos zincos da Primavera.....

Matem�tica cantante.



Jos� Gomes Ferreira, in Poeta Militante





O ledo passarinho que gorgeia
Da alma exprimindo a c�ndida ternura;
O rio transparente, que murmura,
E por entre pedrinhas serpenteia;

O sol, que o c�u di�fano passeia,
A lua, que lhe deve a formosura,
O sorriso da aurora alegre e pura,
A rosa, que entre os z�firos ondeia:

A serena, amorosa Primavera,
O doce autor das gl�rias que consigo,
A deusa das paix�es e de Citera:

Quanto digo, meu bem, quanto n�o digo,
Tudo em tua presen�a degenera,
"Nada se pode comparar contigo."



Bocage





ABDICA��O



Toma-me, � noite eterna, nos teus bra�os
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansa�os.

Minha espada, pesada a bra�os lassos,
Em m�os viris e calmas entreguei;
E meu ceptro e coroa - eu os deixei
Na antec�mara, feitos em peda�os.

Minha cota de malha, t�o in�til,
Minhas esporas, de um tinir t�o f�til,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei � noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.



Fernando Pessoa Ort�nimo





ARMA SECRETA



Tenho uma arma secreta
ao servi�o das na��es.
N�o tem carga nem espoleta
mas dispara em linha recta
mais longe que os foguet�es.

Erecta na torre erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se Vida.
Chama-se Amor simplesmente.



Ant�nio Gede�o





E POR VEZES



E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os bra�os que apertamos
nunca mais s�o os mesmos E por vezes

encontramos de n�s em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
s� o sarro das noites n�o dos meses
l� no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos



David Mour�o-Ferreira





Trago um sabor de vidas no meu peito...
Quem me viveu, antes de mim, a vida ?
Cada palavra dita tem o jeito
De ter sido por outros proferida...

Esta quimera a que eu estava afeito,
Virgem num sonho inda mais alto erguida,
D�-me a impress�o que se deitou no leito
De toda a gente, e est� prostitu�da...

Eu falo e escuto algu�m que em mim falasse !
Meu Deus, se as pr�prias l�grimas da face
S�o dor de algu�m no mundo, peregrino !...

Oh, minha alma revolta �s como o mar
Onde, uma a uma, v�m navegar
Todas as caravelas do destino...



Domingos Monteiro, in Sonetos





O azul, o azul rouco, o azul
sem cor, luz g�mea da sede.
Acerca deste rigor
tenho uma palavra a dizer,

uma s�laba a salvar
desta aridez, asa
ferida, o olhar arrastado
pela pedra

calcinada, h�mido
ainda de ter pousado
� sombra de um nome,
o teu:

amor do mundo, amor de nada.



Eug�nio de Andrade, in Contra a Obscuridade





Quem fosse acompanhando juntamente
Por esses verdes campos a avezinha
Que, depois de perder um bem que tinha,
N�o sabe mais que cousa � ser contente !

Quem fosse apartando-se da gente,
Ela por companheira e por vizinha,
Me ajudasse a chorar a pena minha,
E eu a ela o pesar que tanto sente !

Ditosa ave ! que ao menos, se a Natura
A seu primeiro bem n�o d� segundo,
D�-lhe o ser triste a seu contentamento.

Mas triste quem de longe quis ventura,
Que pera respirar, lhe falte o vento,
E pera tudo, enfim, lhe falte o mundo !



Lu�s de Cam�es, in L�rica





ADAMASTOR



"Fui a sombra do medo;
Esse medonho vulto que o luar
Esbo�a, no arvoredo,
Quando o perfil do vento � de gelar;
E, nas encruzilhadas dos caminhos,
H� dem�nios e doidos burburinhos...
E os homens, entre l�vidos terrores,
Abra�am negra dor desconhecida,
Dor morta e ressurgida,
Aquela dor, fantasma de outras dores.

A minha Apari��o,
Os nautas assustava,
Quando, em fraguedos, saibro, escurid�o,
Sinistro promont�rio, as ondas penetrava;
E o meu rouco bramido retumbava,
Por toda a neptunina solid�o.

Eu, dantes, fui a Treva...
Minha sombra, depois, amanheceu;
Tingiu-se de oiro e rosa; e j� se eleva,
Na luz do c�u...

Chorei, deli meus ossos fragorosos,
Reconstruindo em carne de beleza,
Meus grandes membros tenebrosos;
Minhas fei��es de terra e de bruteza...

Sou a alma do tr�gico Gigante;
Esse terror do antigo navegante,
Revelada em perfeita claridade.

Eu sou o Adamastor em alma de saudade."



Teixeira de Pascoaes, in Sempre, 2� ed., Coimbra, 1902





AS M�OS



Com m�os se faz a paz se faz a guerra.
Com m�os tudo se faz e se desfaz.
Com m�os se faz o poema - e s�o de terra.
Com m�os se faz a guerra - e s�o a paz.

Com m�os se rasga o mar. Com m�os se lavra.
N�o s�o de pedras estas casas mas
de m�os. E est�o no fruto e na palavra
As m�os que s�o o canto e s�o as armas.

E cravam-se no tempo como farpas
as m�os que v�s nas coisas transformadas.
Folhas que v�o no vento: verdes harpas.

De m�os � cada flor cada cidade.
Ningu�m pode vencer estas espadas:
nas tuas m�os come�a a liberdade.



Manuel Alegre, in O Canto e as Armas




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