PORTUGUESE POETRY
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"Louco, sim,
louco, porque quis grandeza..."
Fernando Pessoa
Ai Nenhum de v�s ao
certo me conhece,
Astros do espa�o, ramos do arvoredo,
Nenhum adivinhou o meu segredo,
Nenhum interpretou a minha prece...
Ningu�m sabe quem sou... e mais, parece
Que h� dez mil anos j�, neste degredo,
Me v� passar o mar, v�-me o rochedo
E me contempla a aurora que alvorece...
Sou um parto da Terra monstruoso;
Do h�mus primitivo e tenebroso
Gera��o casual, sem pai nem m�e...
Misto infeliz de trevas e de brilho,
Sou talvez Satan�s - talvez um filho
Bastardo de Jeov� - talvez ningu�m !
Antero de Quental
N�O SE
PERDEU NENHUMA COISA EM MIM
N�o se perdeu nenhuma
coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser est�o suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E atrav�s de todas as presen�as
Caminho para a �nica unidade.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia I
POEMA
DO SIL�NCIO
Sim, foi por mim que
gritei,
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de ang�stia e de revolta.
Foi em meu nome que fiz,
A carv�o, a sangue, a giz,
S�tiras e epigramas nas paredes
Que n�o vi serem necess�rias e v�s vedes.
Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito !
Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a raz�o das �pi-tr�gi-c�micas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...
O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de mais, �nsias de Altura e Abismo,
Tinham ra�zes banal�ssimas de ego�smo.
Que s� por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os c�us o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou t�o humano !
Senhor meu Deus em que n�o creio !
Nu a teus p�s, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.
Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este ch�o que aos p�s se me pegou,
Sofro por n�o poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir !
Senhor meu Deus em que n�o creio, porque �s minha cria��o !
(Deus, para mim, sou eu chegado � perfei��o...)
Senhor d�-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.
Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me n�o mova ! que eu n�o fale !
Ah ! tamb�m sei que, trabalhando s� por mim,
Era por um de n�s. E assim,
Neste meu v�o assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.
Mas o meu sonho megal�mano � maior
Do que a pr�pria imensa dor
De compreender como � egoista
A minha m�xima conquista...
Senhor ! que nunca mais meus versos �vidos e impuros
Me rasguem ! e meus l�bios cerrar�o como dois muros,
E o meu Sil�ncio, como incenso, atingir-te-�,
E sobre mim de novo descer�...
Sim, descer� da tua m�o compadecida,
Meu Deus em que n�o creio ! e por� fim � minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciar�o a minha fome.
Jos� R�gio, in As Encruzilhadas de Deus
VII.
NOITE TRANSFIGURADA
Crian�a adormecida, �
minha noite,
noite perfeita e embalada
folha a folha,
noite transfigurada,
� noite mais pequena do que as fontes,
pura alucina��o da madrugada
- chegaste,
nem eu sei de que horizontes.
Hoje vens ao meu encontro
nimbada de astros,
alta e despida
de solu�os e l�grimas e gritos
- � minha noite, namorada
de vagabundos e aflitos.
Chegaste, noite minha,
de p�lpebras descidas;
leve no ar que respiramos,
n�tida no �ngulo das esquinas
- � noite mais pequena do que a morte:
>
nas m�os abertas onde me fechaste
ponho os meus versos e a pr�pria sorte.
Eug�nio de Andrade
ARROJOS
Se a minha amada um
longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.
Se ela deixasse, ext�tico e suspenso
Tomar-lhe as m�os mignonnes e aquec�-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o nome das estrelas.
Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clar�o dos rel�mpagos nocturnos.
S'ela quisesse amar, no azul do espa�o,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o sol como desfa�o
As bolas de sab�o das criancinhas.
Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os p�s abalaria.
Se aquela por quem j� n�o tenho risos
Me concedesse apenas dois abra�os,
Eu subiria aos r�seos para�sos
E a lua afogaria nos meus bra�os.
S'ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das c�taras estranhas,
Eu ergueria os vales mais profundos
E abalaria as s�lidas montanhas.
E se aquela vis�o da fantasia
Me estreitasse ao peito alvo como arminho,
Eu nunca, nunca mais me sentaria
�s mesas espelhentas do Martinho.
Ces�rio Verde
O QUINTO IMP�RIO
Triste de quem vive em
casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Fa�a at� mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar !
Triste de quem � feliz !
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a li��o da raiz -
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente � ser homem.
Que as for�as cegas se domem
Pela vis�o que a alma tem !
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra ser� teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite come�ou.
Gr�cia, Roma, Cristandade,
Europa - os quatro se v�o
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebasti�o ?
Fernando Pessoa, in Mensagem
ASPIRA��O
Eu queria mais altas as
estrelas,
Mais largo o espa�o, o sol mais criador,
Mais refulgente a lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;
Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas !
E abrir os bra�os e viver a vida,
- Quanto mais funda e l�gubre a descida
Mais alta � a ladeira que n�o cansa !
E, acabada a tarefa... em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no ber�o uma crian�a !
Florbela Espanca, in Charneca em Flor
TUDO � FOI
Fecho os olhos por
instantes.
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
j� todo o mundo � diferente.
J� outro ar me rodeia;
outros l�bios o respiram;
outros al�ns se tingiram
de outro Sol que os incendeia.
Outras �rvores se floriram;
outro vento as despenteia;
outras ondas invadiram
outros recantos de areia.
Momento, tempo esgotado,
fluidez sem transpar�ncia.
Presen�a, espectro da aus�ncia,
cad�ver desenterrado.
Combust�o perene e fria.
Corpo que a arder arrefece.
Incandesc�ncia sombria.
Tudo � foi. Nada acontece.
Ant�nio Gede�o, in Poesias Completas, 2� ed., 1968
SONETO
Meus dias de rapaz, de
adolescente,
Abrem a boca a bocejar, sombrios:
Deslizam vagarosos, como os Rios,
Sucedem-se uns aos outros, igualmente.
Nunca desperto de manh�, contente.
P�lido sempre com os l�bios frios,
Ora, desfiando os meus ros�rios pios...
Fora melhor dormir, eternamente !
Mas n�o ter eu aspira��es vivazes,
E n�o ter como t�m os mais rapazes,
Olhos boiados em sol, l�bio vermelho !
Quero viver, eu sinto-o, mas n�o posso:
E n�o sei, sendo assim enquanto mo�o,
O que serei, ent�o, depois de velho.
Ant�nio Nobre, Belos Ares, 1889
PARA
ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO
Para atravessar contigo
o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade, para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha r�pida noite meu sil�ncio
Minha p�rola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do para�so
C� fora � luz sem v�u do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto
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