PORTUGUESE POETRY
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"...o sonho
comanda a vida..."
Ant�nio Gede�o
DEL�RIO
N�o
posso crer na morte do menino.
E julgo ouvi-lo e v�-lo a cada passo.
� ele ? N�o. Sou eu que desatino,
� a minha dor sofrida, o meu cansa�o.
Del�rio que me prendes num abra�o,
Emendar�s a obra do Destino ?
V�-lo-ei sorrir, de novo, no rega�o
Da m�e ? Verei seu rosto pequenino ?
Mist�rio ! Sombra imensa ! Alto segredo !
Jamais ! Jamais ! Quem sabe ? Tenho medo !
Que sinto em mim ? A treva ? A luz futura ?
Ah, que a dor infinita de o perder
Seja a alegria de o tornar a ver,
Meu Deus, embora noutra criatura !
Teixeira de Pascoaes, in Elegias, Porto, A Renascen�a
Portuguesa, 1912
ALMA
PERDIDA
Toda a
noite o rouxinol chorou,
gemeu, rezou, gritou perdidamente !
Alma de rouxinol, alma de gente,
tu �s, talvez, algu�m que se finou !
Tu �s, talvez, um sonho que passou,
que se fundiu na dor, suavemente...
Talvez seja a alma, alma doente
de algu�m que quis amar e nunca amou !
Toda a noite choraste... e eu chorei
talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
que ningu�m � mais triste do que n�s !
Contaste tanta coisa � noite calma,
que eu pensei que tu eras a minh'alma
que chorasse perdida a tua voz !
Florbela Espanca, in Livro das M�goas
A
ESMOLA DO POBRE
Nos
toscos degraus da porta
De igreja r�stica e antiga,
Velha, tr�mula e mendiga,
Implorava compaix�o.
Quase um s�culo contado
De atribulada exist�ncia,
Ei-la, enferma e na indig�ncia,
Que � piedade estende a m�o.
Duas crian�as brincavam
A dist�ncia na alameda;
Uma trajava de seda,
Doutra humilde era o trajar.
Uma era rica, outra pobre;
Ambas louras e formosas;
Nas faces a cor das rosas,
Nos olhos o azul do ar.
A rica ao deixar os jogos,
Vencida pelo cansa�o,
Viu a mendiga, e ao rega�o
Uma esmola lhe lan�ou;
Ela recebe-a, e a crian�a
Que a socorre compassiva,
Em prece fervente e viva
Aos anjos encomendou.
Dum ligeiro sentimento
De vaidade possu�da,
� crian�a mal vestida
Disse a do rico trajar:
-"O prazer de dar esmolas
"A ti e aos teus n�o � dado;
"Pobre como �s, coitado !
"Aos pobres o que h�s de dar ?"
Ent�o a crian�a pobre,
Sem mais sombra de desgosto,
Tendo o sorriso no rosto,
Da igreja se aproximou;
E ap�s, serena, em sil�ncio,
Ao chegar junto da velha,
Descobrindo-se, ajoelha
E a magra m�o lhe beijou.
E a mendiga, alvoro�ada,
Ao colo os bra�os lhe lan�a,
E beija a pobre crian�a,
Chorando de como��o.
� assim que a caridade
Do pobre ao pobre consola.
Nem s� da m�o sai a esmola,
Sai tamb�m do cora��o.
J�lio Dinis, in Poesias, 11� ed., Lello & Irm�o, Porto, 1926
PEDRA
FILOSOFAL
Eles n�o
sabem que o sonho
� uma constante da vida
t�o concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles n�o sabem que o sonho
� vinho, � espuma, � fermento,
bichinho �lacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa atrav�s de tudo
num perp�tuo movimento.
Eles n�o sabem que o sonho
� tela, � cor, � pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pin�culo de catedral,
contraponto, sinfonia,
m�scara grega, magia,
que � retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que � Cabo da Boa Esperan�a,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dan�a,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
p�ra-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cis�o do �tomo, radar,
ultra-som, televis�o,
desembarque em foguet�o
na superf�cie lunar.
Eles n�o sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avan�a
como bola colorida
entre as m�os de uma crian�a.
Ant�nio Gede�o, in Poesias Completas
SER
POETA
Ser poeta
� ser mais alto, � ser maior
Do que os homens ! Morder como quem beija !
� ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aqu�m e Al�m Dor !
� ter de mil desejos o esplendor
E n�o saber sequer que se deseja !
� ter c� dentro um astro que flameja,
� ter garras e asas de condor !
� ter fome, � ter sede de Infinito !
Por elmo, as manh�s de oiro e de cetim...
� condensar o mundo num s� grito !
E � amar-te, assim, perdidamente...
� seres alma, e sangue, e vida em mim
E diz�-lo cantando a toda a gente !
Florbela Espanca, in Charneca em Flor, Liv. Gon�alves, Coimbra, 1934
ADEUS
J� gast�mos
as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou n�o chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gast�mos tudo menos o sil�ncio.
Gast�mos os olhos com o sal das l�grimas,
gast�mos as m�os � for�a de as apertarmos,
gast�mos o rel�gio e as pedras das esquinas
em esperas in�teis.
Meto as m�os nas algibeiras
e n�o encontro nada.
Antigamente t�nhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
�s vezes tu dizias: os teus olhos s�o peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram poss�veis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aqu�rio,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje s�o apenas os meus olhos.
� pouco, mas � verdade,
uns olhos como todos os outros.
J� gast�mos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
j� n�o se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
s� de murmurar o teu nome
no sil�ncio do meu cora��o.
N�o temos j� nada para dar.
Dentro de ti
n�o h� nada que me pe�a �gua.
O passado � in�til como um trapo.
E j� te disse: as palavras est�o gastas.
Adeus.
Eug�nio de Andrade
�CARO
A minha
Dor, vestia-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de m�os postas e adorei-a.
Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multid�es desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...
Depois, ruflaram alto asas de agoiro !
Um sil�ncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:
Jesus ! ru�na em cinza o trono de oiro !
E, mis�rrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.
Jos� R�gio, in Poemas de Deus e do Diabo
O que h�
em mim � sobretudo cansa�o -
N�o disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansa�o assim mesmo, ele mesmo,
Cansa�o.
A subtileza das sensa��es in�teis,
As paix�es violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em algu�m,
Essas coisas todas -
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansa�o,
Este cansa�o,
Cansa�o.
H� sem d�vida quem ame o infinito,
H� sem d�vida quem deseje o imposs�vel,
H� sem d�vida quem n�o queira nada -
Tr�s tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o poss�vel,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou at� se n�o puder ser...
E o resultado ?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a m�dia entre tudo e nada, isto �, isto...
Para mim s� um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansa�o,
Um suprem�ssimo cansa�o,
�ssimo, �ssimo, �ssimo,
Cansa�o...
�lvaro de Campos
FIM
Quando eu
morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Fa�am estalar no ar chicotes,
Chamem palha�os a acrobatas !
Que o meu caix�o v� sobre um burro
Ajaezado � andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por for�a ir de burro.
M�rio de S�-Carneiro
VIVER
Quem
passou pela vida em branca nuvem
E em pl�cido repouso adormeceu;
Quem n�o sentiu o frio da desgra�a,
Quem passou pela vida e n�o sofreu,
Foi espectro de homem, n�o foi homem,
S� passou pela vida, n�o viveu.
Francisco Octaviano
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