SUCESSÃO
APOSTÓLICA
O que garantiu a unidade da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa e sua continuidade até hoje, de maneira ininterrupta, conservando intacto o “depósito da fé”, que recebeu do Senhor, é a sua apostolicidade; isto é, a Sucessão Apostólica. Muito cedo a Igreja tomou consciência de que a sua “identidade e missão” estava ligada ao colégio dos Doze Apóstolos, e seus sucessores, os Bispos. Quando nos primeiros séculos surgia uma doutrina nova, às vezes uma heresia, o critério do discernimento era o da apostolidade: "esta doutrina está de acordo com o que ensinaram os Apóstolos?" Está em conformidade com o que ensina a Igreja de Roma, onde foram martirizados Pedro e Paulo? Essas eram as perguntas mais importantes para se chegar ao discernimento. Isto porque os Apóstolos foram as testemunhas oculares do Senhor e dele receberam directamente tudo o que Ele ensinou e realizou para a salvação da humanidade.
A Igreja é a sucessora de Israel. O povo de Israel
era a posteridade das Doze tribos de Jacob, que Deus chamou de Israel. Dá mesma
forma a Igreja é a posteridade dos Doze Apóstolos. Jesus mesmo relacionou a
escolha dos Doze com as Doze tribos de Israel, que prefiguravam a Igreja. “Em
verdade vos declaro: no dia da renovação do mundo, quando o Filho do homem
estiver sentado no trono da glória, vós, que me haveis seguido, estareis
sentados em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel” (Mt. 19, 28).
O livro do Apocalipse revela a Igreja como a
Jerusalém celeste construída sobre Doze pedras fundamentais, nas quais
"estão escritos os nomes dos Doze Apóstolos do Cordeiro". “Levou-me
em espírito a um grande e alto monte, e mostrou-me a cidade santa, Jerusalém,
que descia do céu, de junto de Deus, revestida da glória de Deus.
Assemelhava-se a uma pedra preciosa, tal como o jaspe cristalino. Tinha grande
e alta muralha com doze portas, guardadas por doze anjos. Nas portas estavam gravados
os nomes das doze tribos dos filhos de Israel. Ao oriente havia três
portas, ao setentrião três portas, ao sul três portas, e ao ocidente três
portas. A muralha da cidade tinha doze fundamentos com os nomes dos doze
Apóstolos do Cordeiro” (Ap. 21, 12-14). Essa
belíssima revelação que São João teve da Igreja ensina-nos, através dos
símbolos da figura apocalíptica, a realidade da Igreja. Vemos aí a sua glória
que será consumada no final dos tempos. As três portas abertas permanentemente
para as quatro regiões do mundo são uma imagem da universalidade
(catolicidade) da Igreja, de portas abertas para acolher todas as nações e
todos os homens.
A “grande e alta muralha” simboliza toda a grandeza,
estabilidade e majestade desta Cidade de Deus. Naquele tempo as muralhas
significavam toda a grandeza e segurança da cidade. Nessa muralha haviam “doze
portas guardadas por doze anjos”, são as doze tribos de Israel, através das
quais Deus começou a abrir as portas da salvação para a humanidade. O mais
importante contudo, é notar que os “doze fundamentos” (alicerces) da muralha
traziam “os nomes dos Doze Apóstolos do Cordeiro”. Isto mostra que neles está
edificada a Igreja, como disse São Paulo aos efésios: “Consequentemente, já
não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos santos e membros da
família de Deus, edificados sobre o fundamento dos Apóstolos...” (Ef. 2, 20).
Os Bispos são os Sucessores dos Apóstolos, que foram
testemunhas dos ensinamentos e da Ressurreição de Jesus. Eles estabeleceram os
princípios básicos para toda a vida da Igreja, o Credo
e a Tradição
Apostólica. Cada um deles tinha jurisdição sobre as comunidades cristãs fundadas.
Vemos São Pedro na Capadócia, na Bitínia, no Ponto, na Samaria, em Antioquia e,
por fim, em Roma. São Paulo em Filipos, Éfeso, Corinto, Atenas, Tessalónica,
Chipre, Creta, Roma...
Os Apóstolos ordenaram Bispos, seus sucessores, para
que a Igreja cumprisse até o fim dos tempos a missão que Jesus lhe confiou: “Ide
pelo mundo inteiro, pregai o Evangelho a toda criatura...” (Mt. 28, 18).
Os Bispos da Igreja Universal, embora não tenham
sido testemunhas directas da ressurreição de Jesus, no entanto, pela “Sucessão
Apostólica”, participam do Sacro Colégio dos Apóstolos.
Cada Bispo, individualmente, não tem o “carisma” da infalibilidade,
apenas o Sacro
Concílio Ecuménico. Essa infalibilidade, que o Colégio dos Bispos exerceu
nos 07 Concílios Ecuménicos que a Igreja já realizou, limita-se à definição de
assuntos de fé e de moral.
Ao Colégio dos Doze, Jesus disse: “Em verdade eu
vos digo: tudo o que ligares na terra será ligado no céu, e tudo o que
desligares na terra será desligado no céu” (Mt. 18, 18). É com esta
autoridade, recebida directamente de Jesus, que o Colégio Episcopal se reúne em
Concílios para “ligar na terra” o que é para o bem e a salvação dos fiéis.
Jesus disse que aquele que se recusa a ouvir a Igreja, “seja para ti como um
pagão e um publicano” (Mt. 18, 17). Aqui Jesus deixou muito claro para os
Apóstolos que é a Igreja que tem a palavra final nas decisões das coisas do
Reino de Deus. Aquele que recusar a ouvir e obedecer à Igreja, deve ser
considerado como um “pagão e um publicano”, isto é, ateu e pecador. E além
disso garantiu aos Apóstolos que ouvi-los é ouvir a Ele mesmo e ao Pai. “Quem
vos ouve, a Mim ouve; e quem vos rejeita a Mim rejeita; e quem Me rejeita,
rejeita Aquele que Me enviou” (Lc. 10, 26).
Para que a transmissão da Boa-Nova chegasse então
aos confins da terra e dos tempos, os Apóstolos foram preparando os pastores
das comunidades, seus sucessores. Vejamos alguns casos:
São Paulo deixa Timóteo como Bispo de Éfeso: “Torno
a lembrar-te a recomendação que te dei, quando parti para a Macedónia: devias permanecer em Éfeso
para impedir que certas pessoas andassem a ensinar doutrinas extravagantes”
(1 Tm. 1, 3). A principal preocupação de Paulo é com
a “Sã
Doutrina” (v.10) que Timóteo deve garantir na comunidade. Essa continua a
ser a principal missão do Bispo também hoje na Igreja, além de ser para
o seu rebanho o pai espiritual e a pedra viva da unidade. “Por esse motivo
eu te exorto a reavivar a chama do dom de Deus que recebeste pela imposição das
minhas mãos” (2 Tm. 1, 6).
Aqui vemos a ordenação de Timóteo pela imposição das
mãos de São Paulo. Até hoje a Igreja repete esse gesto na ordenação dos
sacerdotes e Bispos, e assim garante a Sucessão Apostólica.
Paulo também escolheu Tito para Bispo de Creta: “Eu
te deixei em Creta para acabares de organizar tudo e estabeleceres anciãos
(sacerdotes) em cada cidade, de acordo com as normas que te tracei” (Tt. 1, 5). Essa passagem mostra que os Apóstolos iam
definindo as "normas” da Igreja, que foram formando a Sagrada
Tradição Apostólica, tão importante e legitima quanto a própria Bíblia.
Para a comunidade de Filipos, São Paulo envia
Epafrodito: “Julguei necessário enviar-vos nosso irmão Epafrodito, meu
companheiro de labor e de lutas...” (Fil. 2, 25).
O autor da Carta aos Hebreus, provavelmente algum
dos discípulos de S. Paulo, recomenda os fiéis aos seus dirigentes:
“Sede submissos e obedecei aos que vos guiam (pois eles velam por vossas
almas e delas devem dar contas)" (Hb. 13, 17).
Nos Actos dos Apóstolos, vemos São Paulo despedindo-se emocionado dos anciãos
de Éfeso (“não tornareis a ver minha face”) e recomenda-lhes o rebanho, como
sua grande preocupação: “Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o
qual o Espírito Santo vos constituiu Bispos,
para pastorear a Igreja de Deus, que Ele adquiriu com o seu próprio sangue. Sei
que depois de minha partida se introduzirão entre vós os lobos cruéis, que não
pouparão o rebanho” (Act. 20, 28). Mais uma vez a grande preocupação de São
Paulo é com os “lobos cruéis”, os falsos profetas. “Mesmo dentre vós surgirão homens que hão de proferir doutrinas perversas,
com o intento de arrebatarem após si os discípulos” (Act.
20, 30). Sabemos que já no inicio do cristianismo os Apóstolos tiveram que
enfrentar a terrível heresia do gnosticismo, de fundo dualista, o qual negava
que Jesus tivesse se encarnado de facto, uma vez que consideravam a matéria
como má. Desta forma anulava-se a obra redentora de Cristo.
Nessas palavras de São Paulo vemos toda a
importância dos bispos, constituídos pelo Espírito Santo. O mesmo recomenda São
Pedro aos pastores: “Eis a exortação que dirijo aos anciãos que estão entre
vós... Velai sobre o rebanho de Deus, que vos é confiado. Tende cuidado
dele...” (1 Pe. 5, 1-4). Logo no início da
evangelização, São Paulo dá normas a Timóteo e a Tito de como devem ser os
bispos: “Eis uma coisa certa: quem aspira ao episcopado, saiba que está
desejando uma função sublime. Porque o Bispo tem o dever de ser irrepreensível,
casada uma só vez, sóbrio, prudente, regrado no seu proceder, hospitaleiro,
capaz de ensinar. Não deve ser dado a bebidas, nem violento, mas condescendente,
pacífico, desinteressado; deve saber governar bem a sua casa, educar os seus
filhos na obediência e na castidade. Pois, quem não sabe governar a sua própria
casa, como terá cuidado da Igreja de Deus?” (1 Tm.
3, 1-7). Também a Tito, a quem São Paulo delega o poder de ordenar outros
Bispos, ele faz recomendações semelhantes, ao escolher os pastores: “Sejam
escolhidos entre quem seja irrepreensível, casado uma só vez, tenha filhos
fiéis...”. “Porquanto é mister que o Bispo seja irrepreensível, como administrador
que é posto por Deus. Não arrogante, nem colérico, nem intemperante, nem
violento, nem cobiçoso. Ao contrário, seja hospitaleiro, amigo do bem,
prudente, justo, piedoso, continente, firmemente apegado à doutrina da fé como
foi ensinada, para poder exortar segundo a são doutrina e a rebater os que a
contradizem” (Tit. 1, 5-9). Todas essas passagens
mostram abundantemente que os Bispos foram escolhidos pelos próprios Apóstolos,
“constituídos pelo Espírito Santo” (Act. 20,
28), para governar a Igreja.
Nas cartas de Santo Inácio de Antioquia, falecido no
ano 107, já encontramos a organização actual da Igreja. Vemos ali um Bispo
residente em cada diocese e respondendo por essa parte do rebanho do Senhor.
“Segui ao Bispo, vós todos, como Jesus Cristo ao Pai. Segui ao presbítero como
aos apóstolos. Respeitai os diáconos como ao preceito de Deus. Ninguém ouse
fazer sem o Bispo coisa alguma concernente à Igreja. Como válida só se tenha
a Eucaristia
celebrada sob a presidência do Bispo ou de um delegado seu. A comunidade
reúne-se onde estiver o Bispo e onde está Jesus Cristo está a Igreja Católica
(Universal). Sem a união ao Bispo não é lícito baptizar
nem celebrar a Eucaristia; só o que tiver a sua aprovação será do agrado de
Deus e assim será firme e seguro o que fizerdes” (Antologia dos Santos Padres,
Ed. Paulinas, Pág. 44, 3ª ed.
1979, pág. 43).
Esse testemunho do primeiro século da Igreja mostra
bem a Sucessão Apostólica e a importância do Bispo. Já no primeiro século vê-se
que sem o Bispo, ordenado pelos apóstolos, ou um delegado seu (Presbítero), não
se pode celebrar a Eucaristia. No combate aos hereges gnósticos do seu tempo, São Ireneu
(†202), no primeiro século, dizia: “Ora, todos esses hereges são de muito
posteriores aos Bispos, aos quais os Apóstolos entregaram as Igrejas
[particulares]... Necessariamente, pois, tais hereges, cegos para a verdade,
mudam sempre de direcção e disseminam as doutrinas de modo discordante e
incoerente. Ao contrário, o caminho dos que pertencem à Igreja cerca o universo
inteiro e, possuindo a firme tradição dos apóstolos, faz-nos ver que todos
possuímos a mesma fé” (Contra as Heresias).
São do mesmo Santo Ireneu estas palavras que mostram
a importância da Sucessão Apostólica: “Foi inicialmente na Judeia que [os
apóstolos] estabeleceram a fé em Jesus Cristo e fundaram Igrejas, partindo em
seguida para o mundo inteiro a fim de anunciarem a mesma doutrina e a mesma fé.
Em todas as cidades iam fundando Igrejas das quais, desde esse momento, as
outras receberam o enxerto da fé, a semente da doutrina, e ainda recebem cada
dia para serem igrejas. É por isso mesmo que sejam consideradas como
apostólicas, na medida em que forem rebentos das Igreja Apostólicas. É
necessário que tudo se caracterize segundo a sua origem. Assim, essas Igrejas,
por numerosas e grandes que pareçam, não são outra coisa que não a primitiva
Igreja Apostólica da qual procedem. São todas primitivas, são todas apostólicas
e TODAS UMA SÓ. Para atestarem a sua unidade, comunicam-se
reciprocamente na paz, trocam entre si o nome de irmãs, prestam-se mutuamente
os deveres da hospitalidade... Desde o momento em que
Jesus Cristo, Nosso Senhor, enviou os apóstolos para
pregarem, não se podem acolher
outros pregadores senão os que Cristo instituiu. Pois ninguém
conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho tiver revelado.”
E Santo Ireneu conclui dizendo: “Nestas condições, é
claro que toda doutrina em acordo com a dessas igrejas apostólicas, matrizes e
fontes originárias da fé, deve ser considerada autêntica, pois contém o que
tais igrejas receberam dos apóstolos, os apóstolos e Cristo, e Cristo de Deus”
(Contra as Heresias).
Esse testemunho de Santo Ireneu, discípulo de São
Policarpo, discípulo por sua vez do apóstolo São João, mostram com clareza a
importância da Sucessão Apostólica e da Tradição. Alguns elementos são
necessários para que o Bispo seja legítimo Sucessor dos Apóstolos:
2. Seja escolhido pela Igreja (Comunidade) e
ordenado por Bispos legítimos da Igreja.
3. Conserve intacta a doutrina transmitida desde o
tempo dos Apóstolos.
Em todos os tempos da história da Igreja houve
Comunidades (Igrejas) que se tornaram nacionais, independentes, autocéfalas,
autónomas, independentes, sem serem heréticas e/ou cismáticas como outras
Comunidades que abandonaram a Fé genuína, e que mantiveram uma válida e
inquestionável Sucessão Apostólica. É o caso, por exemplo, da “Igreja
Católica Apostólica Brasileira”, fundada por São
Carlos Duarte Costa, Bispo que rompeu a plena comunhão com a Igreja
Católica Apostólica Romana, colocando-se fora da obediência ao Papa, mas
permanecendo como um válido e inquestionável Bispo da Igreja Universal, com uma
válida e genuína Sucessão
Apostólica, que transmitiu a doze Bispos, por si ordenados. Entre eles
recordo São
Milton Cunha, e Sua Eminência Reverendíssima, Dom
Luiz Fernando Castillo Mendes, actual Presidente da Igreja Católica
Apostólica Brasileira.
Outro exemplo é o dos Bispos “patriotas” que foram
instituídos por governos comunistas e sagrados por um Bispo “colaboracionista”,
que romperam a plena comunhão com a Igreja Católica Apostólica Romana,
colocando-se fora da obediência ao Papa, mas permanecendo como válidos
Sucessores dos Apóstolos, estando em válida Sucessão Apostólica, como os Bispos
que deram origem à Igreja Vétero-Católica, que em 1870, após o Concílio
Vaticano I, romperam a plena comunhão com a Igreja Católica Apostólica Romana,
colocando-se fora da obediência ao Papa, mas permanecendo como válidos
Sucessores dos Apóstolos, por não aceitarem os Dogmas heréticos da Infalibilidade
Pontifícia e da Imaculada Conceição, no ponto de vista Romano.
Assim são também os Bispos da Igreja Anglicana, que
embora tivessem permanecido no início com uma válida Sucessão Apostólica,
aceitaram algumas das Reformas Protestantes, afastando-se da genuína Doutrina
Cristã, e colocando em causa a validade da Sucessão Apostólica, embora
permaneçam com o chamado “Episcopado Histórico”.
Os protestantes perderam a Sucessão Apostólica
porque romperam com a Igreja dos Apóstolos e seus sucessores. A encarnação do
Verbo é uma realidade histórica que se prolonga através da Igreja e da Sucessão
Apostólica. Jesus disse claro aos Apóstolos: “Estarei convosco até a
consumação dos séculos” (Mt. 28, 20). Os Santos
Padres da Igreja diziam: “Ubi Petrus,
ibi Ecclesia; ubi Ecclesia, ibi
Christus” (Onde está Pedro está a Igreja, onde está a
Igreja está Jesus Cristo”.
Santo Ireneu (140-202) escreveu que: “Onde está a
Igreja aí está o Espírito Santo, e onde está o Espírito Santo de Deus, aí estão
a Igreja e o tesouro de todas as graças, porque o Espírito é a verdade”.
Santo Agostinho (354-430) confirmava dizendo: “Onde
está a Igreja aí está o Espírito de Deus. Na medida que alguém ama a Igreja é
que possui o Espírito Santo”. “Fazei-vos Corpo de Cristo se quereis viver do
Espírito de Cristo. Somente o Corpo de Cristo vive do seu Espírito”.
São
João Crisóstomo (350-407) mandava: “Não te afaste da Igreja: Nada é mais
forte do que ela. Ela é a tua esperança, o teu refúgio. Ela é mais alta que o
céu e mais vasta que a terra. Ela nunca envelhece”.
Santo Hipólito (160 - 235) também dizia: “A Igreja é
o local onde floresce o Espírito”.
São Justino (†165) dizia que: “O mundo foi criado em
vista da Igreja”.
O que Santo Epifânio (+403) confirmava: “A Igreja é
a finalidade de todas as coisas”.
São
Cipriano (†258), Bispo de Cartago no norte da África dizia: “A Esposa de
Cristo não pode adulterar, é fiel e casta. Aquele que se separa dela saiba que
se junta com uma adúltera, e que as promessas da Igreja já não o alcança.
Aquele que abandona a Igreja não espere que Jesus Cristo o recompense, é um
estranho, um proscrito, um inimigo”.
Deus Pai disse a Santa
Catarina de Sena, nos “Diálogos”: “Foi na dispensa da hierarquia
eclesiástica que eu guardei o Corpo e o Sangue do meu Filho”. Foi no seio
da Igreja hierárquica que o Senhor depositou o seu mais precioso tesouro. E a
mesma Santa disse certa vez: “Tenham a certeza de que quando eu morrer, a única
causa de minha morte será meu amor pela Igreja”.
A outra doutora da Igreja, Santa
Teresa de Ávila (1515-1591) dizia: "Eu sou filha da Igreja!"; “Em
tudo me sujeito ao que professa a Santa Igreja Católica Romana, em cuja fé
vivo, afirmo viver e prometo viver e morrer”. É importante notar que Santa
Teresa viveu exactamente no tempo da Reforma Protestante, iniciada em 1517.
A fim de que possamos sentir mais profundamente a
riqueza da Tradição
Apostólica transcrevo abaixo um trecho de Santo Hipólito (160-235), da
Igreja de Roma, mártir, autor de grandes escritos litúrgicos usados ainda hoje,
sobre a “eleição e consagração dos bispos”; “Seja ordenado Bispo quem for
irrepreensível e tiver sido eleito por todo o povo. Uma vez designado e aceito
por todos, reúna-se o povo juntamente com o presbitério e os bispos presentes,
no domingo. Com o consentimento de todos, imponham os bispos sobre ele as mãos,
permanecendo imóvel o presbítero. Mantenham-se todos em silêncio, orando em seu
coração pela descida do Espírito. A seguir, um dos bispos presentes, instado
por todos, impondo a mão sobre o que é ordenado Bispo, reze dizendo: Deus Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, Pai
das misericórdias e Deus de toda a consolação, que habitas as alturas e baixas o
olhar para o que é humilde, tu, que conheces todas as coisas antes de nascerem,
tu que destes as leis da tua Igreja pela palavra da tua graça, elegendo desde o
princípio a raça dos justos de Abraão, constituindo os chefes e os sacerdotes;
tu, que não deixaste sem administração o teu santuário; tu, que desde o início
dos séculos te aprouvesse em ser glorificado neste que escolheste, derrama
agora a força que vem de ti - o Espírito de chefia que
deste a teu Filho querido, Jesus Cristo, e que Ele concedeu aos Santos
Apóstolos, os quais constituíram por toda parte a tua Igreja, teu Templo, para
glória e louvor perpétuo do teu nome. Pai, que conheces os corações, concede a
este servo que escolheste para o episcopado, apascentar o teu santo rebanho e
desempenhar irrepreensivelmente diante de ti o Primado do Sacerdócio,
servindo-te noite e dia. Concede-lhe tornar incessantemente propícia a tua
face, oferecer as oblações da tua Santa Igreja e, com o espírito do sacerdócio
superior, ter a faculdade de perdoar os pecados segundo a tua ordem, distribuir
os cargos segundo o teu preceito; dissolver quaisquer laços, segundo o poder
que deste aos apóstolos, ser do teu agrado pela ternura e pureza de coração, oferecendo-te
um perfume agradável, por teu Filho Jesus Cristo, pelo qual a ti a glória, o
poder e a honra - ao Pai e ao Filho, com o Espírito
Santo na Santa Igreja, agora e pelos séculos dos séculos. Amém” (Antologia dos
Santos Padres, C. Folch Gomes, Ed. Paulinas, 3°ed.,
1979, pags 172-3).
Esta oração de Santo Hipólito, do segundo século da
Igreja, mostra a riqueza e a importância da Tradição Apostólica.
A Igreja reza na Santa Missa, no Prefácio dos
Apóstolos: “Pastor eterno, vós não abandonais o rebanho, mas o guardais
constantemente pela protecção dos Apóstolos. E assim a Igreja é conduzida pelos
mesmos pastores que pusestes à sua frente como representantes de vosso Filho
Jesus Cristo, Senhor Nosso”. Por esta oração eucarística observamos que a
Igreja vê nos seus pastores hierárquicos os “representantes” do próprio Senhor.
Afinal, foi a eles que Jesus disse no momento da sua
Ascensão: "Vós sereis testemunhas de tudo isto" (Lc.
24, 48). “Sereis minhas testemunhas... até os confins do mundo” (Act. 1, 8). Eles, os Apóstolos, foram enviados em missão
pelo próprio Senhor.
“Quem vos recebe a Mim recebe. E quem me recebe, recebe aquele que me enviou”
(Mt. 10, 40). São Paulo reconhece isto:
“Anunciar o Evangelho não é glória para mim; é uma obrigação que se me impõe.
Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho ! ... é uma
missão que me foi imposta” (1 Cor. 9,
16). Na saudação aos gálatas ele diz: “Paulo Apóstolo -
não da parte dos homens, nem por meio de algum homem, mas por Jesus Cristo e
por Deus Pai” (Gal. 1, 1). Isto mostra porque a
hierarquia é Sagrada; porque foi desejada e instituída pelo próprio Cristo. A
Igreja nasceu, cresceu e caminha na “doutrina dos Apóstolos” (Act. 2, 42). Os Bispos - apóstolos
de hoje - continuam a mesma missão de Jesus. “Como o Pai me enviou, eu também
vos envio” (Jo. 20, 21). E Jesus avisa: “Em verdade em verdade vos digo: quem
recebe aquele que eu enviei recebe a mim; e quem me recebe, recebe aquele que
me enviou” (Jo. 13, 20). E disse ao Pai na Oração Sacerdotal, antes de sofrer a
Paixão: “Como tu me enviaste ao mundo também eu os enviei ao mundo” (Jo. 17,
18). Jesus os escolheu pessoalmente - e continua a
fazê-lo ainda hoje. “Depois, subiu ao monte e chamou a si os que Ele quis.
Designou Doze entre eles para ficar em sua companhia. Ele os enviava a pregar,
com o poder de expulsar os demónios” (Mc. 3, 13-14).
Desde o início de sua missão, Jesus instituiu os
Doze, como diz a "Ad Gentes": “os germes do
Novo Israel e ao
mesmo tempo a origem da sagrada hierarquia” (AG, 5).
Jesus associou os Apóstolos à sua própria missão, recebida do Pai. Por isso Ele
ensina-lhes que como “o Filho não pode fazer nada por si mesmo” (Jo. 5, 19.30),
mas recebe tudo do Pai que o enviou, da mesma forma eles não podem fazer nada
sem Jesus. “Sem Mim nada podeis fazer” (Jo. 15, 5). Portanto, os Apóstolos
do Senhor, os Bispos hoje, são colocados por Deus como “Ministros da Nova
Aliança”. É o que São Paulo ensina: “Ele é que nos fez aptos para ser
Ministros da Nova Aliança, não a da letra e sim a do Espírito. Porque a letra
mata, mas o Espírito vivifica” (2 Cor. 3, 6). Segundo São Paulo, os apóstolos
são os “embaixadores de Cristo”. “Portanto, desempenhamos o encargo de
embaixadores em nome de Cristo, e é Deus mesmo que exorta por nosso intermédio”
(2 Cor. 5, 20). E Paulo também os vê como “administradores dos mistérios de
Deus”: “Que os homens vos considerem, pois, como simples operários de Cristo e
administradores dos mistérios de Deus” (1 Cor. 4, 1).
Foi a eles que Jesus deu o poder de, em Seu Nome,
Ministrar os Sacramentos
da Salvação, depois de conviver com eles durante três anos, e prepará-los
para essa missão. A eles o Senhor enviou a baptizar: “Toda autoridade me foi
dada no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações; baptizai-as em
nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt. 28, 19). A eles o Senhor
delegou o mandato de ensinar. “Ensinai-os a observar tudo o que vos
prescrevi” (Mt. 28, 20).
A eles o Senhor garantiu a sua assistência
permanente: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo”
(Mt. 28, 20). A eles o Senhor deu o poder de perdoar: “Recebei o Espírito
Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; aqueles a
quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo. 20, 22-23).
Santo Agostinho escreveu importantes palavras sobre
a missão que Cristo confiou à Sua Igreja, de perdoar os pecados:
“Se na Igreja não existisse a remissão dos pecados, não existiria nenhuma
esperança, nenhuma perspectiva de uma vida eterna e de uma libertação eterna.
Rendamos graças a Deus que deu à Sua Igreja um tal dom”. “Quem não crer que a
Igreja lhe perdoa os pecados, a esse não lhe serão perdoados os pecados”.
Através dos seus Sacerdotes a Santa Igreja Católica Ortodoxa é a portadora da
misericórdia de Deus aos seus filhos queridos, porque Jesus assim o quis. Sobre
isso dizia o grande São Gregório Magno (540-604), Papa e doutor da Igreja: “Os
Apóstolos receberam, pois, o Espírito Santo para desligar os pecadores da
cadeia dos seus pecados. Deus fê-los participantes do seu direito de julgar; e
eles julgam em Seu Nome e em Seu lugar. Ora, como os Bispos são os Sucessores
dos Apóstolos têm o mesmo direito”. “O pecador, ao confessar sincera e contritamente
os seus pecados, é como Lázaro: já vive, mas está ainda ligado com as ataduras
de seus pecados. Precisa de que o Sacerdote lhas corte; e corte-lhas
absolvendo-o”. É preciso termos muito claro que sem os Sacramentos não há
salvação; mas sem a Igreja não há os Sacramentos, já que eles foram confiados à
Igreja por Cristo. Logo, sem a Igreja não há salvação, nos planos ordinários de
Deus. São
Tomás de Aquino ensinava que: “O bem de Cristo é comunicado a todos os
membros, e essa comunicação faz-se através dos Sacramentos da Igreja”.
A eles o Senhor conferiu o poder de actualizar,
“tornar presente”, o seu Sacrifício do Calvário oferecido ao Pai por toda a
humanidade: “Isto é o meu corpo que é dado por vós; fazei isto em memória de
mim” (Lc. 22, 19-20). São Clemente (88-97), Bispo
de Roma, quarto Papa da Igreja, colaborador de São Paulo (cf. Fil. 4, 3), na importante Carta escrita aos Coríntios, para
debelar a rebelião dos fiéis contra os pastores, já no século I expunha as
bases da eclesiologia, mostrando que Jesus Cristo recebeu todo o poder do Pai e
incumbiu os Apóstolos de estabelecerem a Hierarquia.
Assim, os Apóstolos cumpriram a ordem e puseram à frente das Igrejas, Bispos,
presbíteros e diáconos como auxiliares, tendo regulamentado a sua Sucessão, com
normas claras, para que, com a comunidade, fossem escolhidos sempre os
melhores.
Vale a pena relermos o que o quarto Papa escreveu já
lá no século I: “Também os nossos Apóstolos sabiam, por Nosso Senhor Jesus
Cristo, que haveria contestações a respeito
da dignidade Episcopal. Por tal motivo e como tivessem perfeito
conhecimento do porvir, estabeleceram os acima mencionados e deram, além disso,
instruções no sentido de que, após a morte deles outros homens comprovados lhes
sucedessem em seu Ministério. Os que assim foram instituídos por eles, ou mais
tarde por outros homens iminentes com a aprovação de toda a Igreja, e serviram
de modo irrepreensível ao rebanho de Cristo com humildade, pacífica e
abnegadamente, recebendo por longo tempo e da parte de todos o testemunho
favorável, não é justo em nossa opinião que esses sejam depostos de seu ministério”
(Cor. 42, 1-3). Nessas palavras do quarto Papa da Igreja, vemos que os
Sucessores dos Apóstolos, chamados de “homens iminentes”, eram aprovados por
toda a Igreja e não podiam ser afastados do Ministério. Vemos aí também, o
Bispo de Roma actuando como o Pastor da Igreja, intervindo na rebelião de
Corinto.
São significativas as palavras de São Clemente: “Os
Apóstolos receberam a boa-nova em nosso favor da parte do Senhor Jesus Cristo.
Jesus Cristo foi enviado por Deus. Cristo portanto vem de Deus e os Apóstolos
de Cristo; essa dupla missão realizou-se pois em perfeita ordem por vontade de
Deus... Assim, proclamando a palavra de Deus no interior e nas cidades,
estabeleciam suas primícias, como Bispos e Diáconos, dos futuros fiéis, depois
de prová-los pelo Espírito Santo” (Cor. 42, 1-4). Assim São Clemente mostra-nos
que a Hierarquia foi querida por Deus Pai e por Jesus, sendo, portanto,
Sagrada. Isto mostra a apostolicidade da Igreja e as origens da Sucessão
Apostólica. Fora dessa Sucessão que vem directamente de Cristo, não há
legitimidade para se actuar em seu Nome. A Igreja Ortodoxa, assim como a Igreja
Católica Romana, por graça especial de Deus, guardam intacta essa Sucessão
Apostólica, assim como muitas outras Igrejas nacionais, independentes, Autocéfalas
e/ou autónomas, que delas derivam.
Falando sobre isso diz o Concílio Vaticano II,
embora não seja ecuménico: “Esta missão divina, confiada por Cristo aos
Apóstolos deverá durar até o fim dos séculos (Mt. 28, 20), pois o Evangelho,
que eles devem transmitir, é para a Igreja o princípio de toda sua vida,
através dos tempos. Por isso os Apóstolos, nesta sociedade hierarquicamente
organizada, cuidaram de constituir os seus sucessores. De facto, não só se
rodearam de vários colaboradores no ministério, mas, para que a missão a eles
confiada tivesse continuidade após a sua morte, os Apóstolos, quase por
testamento, incumbiram os seus cooperadores imediatos de terminar e consolidar
a obra por eles começada... Constituíram assim os seus sucessores e dispuseram
que, por morte destes, fosse confiado o seu ministério a outros homens
experimentados” (LG, 20).
Santo Irineu (†202), mártir do século II, relata-nos
essa firme Tradição nos seus escritos “Contra as Heresias”, dos primeiros
séculos do Cristianismo: “Assim, todos os que desejam a verdade podem perceber
em qualquer Igreja a tradição dos apóstolos manifestada no mundo inteiro. E nós
podemos enumerar os que os apóstolos instituíram como Bispos nas Igrejas, bem
como suas Sucessões até nossos dias” (III, 3, 1).
Foi Santo Irineu quem elaborou a lista dos primeiros
Papas da Igreja, até o décimo segundo, Eleutério, do seu tempo. Ele diz:
“Depois de ter fundado e edificado a Igreja, os bem-aventurados apóstolos
transmitiram a Lino o cargo do episcopado... Anacleto o sucedeu. Depois, em
terceiro lugar a partir dos apóstolos, é a Clemente que cabe o episcopado. Ele
tinha visto os próprios apóstolos, estivera em relação com eles; sua pregação
ressoava-lhe aos ouvidos; sua tradição estava presente ainda aos seus olhos. Aliás
ele não estava só, havia em sua época muitos homens instruídos pelos
apóstolos... A Clemente sucede Evaristo; a Evaristo, Alexandre; em seguida...
Sixto, depois Telésforo, também glorioso por seu martírio; depois Higino, Pio,
Aníceto, Sotero... Eleutério em 12º lugar a partir dos Apóstolos”. E Santo
Irineu conclui: “É nesta ordem e sucessão que a tradição dada à Igreja desde os
apóstolos, e a pregação da verdade, chegaram até nós. E está aí uma prova muito
completa de que é única e sempre a mesma, a fé vivificadora que, na Igreja
desde os Apóstolos, se conservou até o dia de hoje e foi transmitida na
verdade” (III, 2, 2). Esse testemunho de um santo do segundo século, mostra bem a Sucessão Apostólica e a Tradição viva da
Igreja, que tem a mesma importância da Revelação escrita.
A missão do Bispo é tríplice: “santificar”,
“ensinar” e “governar”, em nome do próprio Cristo. É o que nos ensina o
Concílio: “Juntamente com o múnus (missão sagrada) de santificar, a consagração
episcopal confere ainda os de ensinar e de governar...”. “Pela imposição das
mãos e pelas palavras consecratórias, confere-se a graça do Espírito Santo e
imprime-se o carácter sagrado, de tal modo que os Bispos, de maneira iminente e
visível, fazem as vezes do próprio Cristo, Mestre, Pastor e Pontífice, e agem
em seu nome” (LG 20). Entretanto,
para que isto seja real é preciso que o Bispo esteja “em comunhão hierárquica
com ... o Colégio” (LG 20).
Cada Bispo é escolhido pelo Povo de Deus, recebendo
o Ministério
de Pedro e dos demais Apóstolos, através da Sagração Episcopal, dum Bispo
válido e legítimo, fiel á Sã Doutrina e com válida Sucessão Apostólica. Dizer
que a Igreja é Apostólica é o mesmo que dizer que ela permanece em comunhão de
fé e de vida com a sua origem.
Com que autoridade algumas pessoas se intitulam a si
mesmas de bispos? Quem lhes confiou este mandato, esta graça e esta missão,
senão a Igreja de Deus, pela eleição canónica pelo Povo e pela Ordenação
Ministerial? Sem a Sucessão Apostólica o cristianismo fica subjectivo, à mercê
do capricho dos homens, sem a garantia e a infalibilidade do Espírito Santo.
Sabemos que toda a Igreja é apostólica; logo,
todos os seus membros, os baptizados, participam da sua missão de evangelizar o
mundo. O apostolado é toda a actividade da Igreja no sentido de “estender o
reino de Cristo a toda terra” (AA, 2). Logo, todos somos chamados a
evangelizar; entretanto, é preciso ficar muito claro que ninguém pode evangelizar
“por conta própria”, no sentido de fazer um apostolado “independente da
Igreja”, sem estar em comunhão com o Bispo da diocese; e, o que seria pior
ainda, pregando uma doutrina que não seja aquela oficialmente aprovada pela
Igreja.
Todo aquele que evangeliza, seja para uma pessoa ou
para multidões, exerce um ministério por delegação da Igreja, e dos Bispos, e
portanto não pode ensinar o que quer, mas o que manda a Igreja. O Papa São Paulo
VI disse certa vez aos Padres Conciliares:
"A fidelidade ao depósito da Revelação é claro que exige que não se passe
em silêncio alguma verdade da fé: o Povo de Deus, confiado aos nossos cuidados,
tem o sagrado e inalienável direito de receber a Palavra de Deus, toda a
Palavra de Deus" (PR, N. 419, Abril de 1997, pag.
165).
Na Exortação Apostólica "Catechesi
Tradendae", o Papa São João
Paulo II foi mais claro ainda: "Para ser verdadeira a oblação da fé,
aqueles que se tornam discípulos de Cristo têm o direito de receber a palavra
da fé não mutilada, falsificada ou diminuída, mas sim plena e integral, com
todo o seu rigor e com todo o seu vigor. Atraiçoar em qualquer ponto a
integridade da mensagem é esvaziar a própria catequese... Assim a nenhum
catequista verdadeiro é lícito fazer, por seu próprio arbítrio, uma selecção no
depósito da fé, entre aquilo que considere importante e rejeitar o resto"
(CT, 30). Hoje, mais do que nunca, os leigos são chamados a evangelizar, como
jamais na história da Igreja Universal; portanto, cresceu muito a
responsabilidade de estarmos preparados bem para isso. Infelizmente, ainda
existe muita “achologia” nas aulas de religião, catequeses e pregações, onde
muitas vezes prevalece mais a opinião particular do catequista, do professor de
teologia, etc., do que a Doutrina genuína e oficial da Igreja, ensinada pelo
Magistério. E isto acontece principalmente no campo da Moral. Na Encíclica “Veritates Splendor”, o Papa falou
de maneira enfática sobre esta questão: “A teologia Moral não se pode reduzir a
um conhecimento elaborado só no contexto das chamadas ciências humanas. Os
princípios morais não são dependentes do momento histórico em que são descobertos.
Além disso, o facto de alguns crentes agirem sem observar os ensinamentos do
Magistério ou considerarem erradamente como moralmente justa uma conduta
declarada pelos seus Pastores contrária à lei de Deus, não pode constituir
argumento válido para rejeitar a verdade das normas morais ensinadas pela
Igreja. A afirmação dos princípios morais não é da competência dos métodos
empíricos formais” (VS, 111).
Por tudo o que foi dito podemos compreender porque a Igreja é apostólica e
porque sem os Bispos, que herdaram o mandato dos Apóstolos, não pode haver
legítima Igreja. Jesus quis assim para preservar a integridade da fé que leva à
salvação e que deve chegar a todos os homens de todos os tempos e lugares. Sem
a Igreja,
Una, Santa, Católica e Apostólica, isto jamais será possível.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)