A IMPORTÂNCIA DA COMUNIDADE
MONÁSTICA E A IGREJA
NA VIDA CONTEMPLATIVA
Conferência pronunciada pelo Abade Dom Armand Veilleux,
OCSO,
de Scourmont, na Bélgica na Abadia de Gethsemani a 25 de Julho de 1996.
A palavra "contemplação" é uma palavra rica
e bela. Também é ambígua, pois de várias maneiras tem sido compreendida na
tradição cristã. A expressão "vida contemplativa" usada no título
desta conferência, não tem a mesma ambiguidade. Expressa bastante bem o que
considero ser uma das mais importantes dimensões da contemplação. A
contemplação, como eu a vejo, não é um ato isolado,
algo como uma experiência de pico (peak experience) atingida só em ocasiões
esparsas. Trata-se de um modo de vida.
Como cristãos, temos nossas raízes espirituais na
experiência religiosa de Israel, e a principal característica da experiência
religiosa do povo de Israel era ter percebido Deus como alguém presente em sua
vida - suas vitórias e suas derrotas, suas alegrias e
seus sofrimentos. Uma pessoa contemplativa não é só aquela que vê Deus, isto é,
que vê Deus em tudo e em cada um, mas também uma pessoa que vê tudo e cada um
com os olhos de Deus. A pessoa contemplativa é aquela que está profundamente
presente a tudo que ele ou ela vive e experimenta.
O Deus da Bíblia e o Pai de Jesus Cristo não é
alguém tão distante no Céu que não possa ser alcançado pelos seres humanos, nem
alguém que se relacione com pessoas isoladas. Nosso Deus deseja estabelecer
relações pessoais profundas com cada um de nós, mas sempre nos lembra que somos
parte de um povo, de uma família de crentes, de uma família de nações. O Deus
de Abraão, Isaac e de Jacob. O Deus de Jesus Cristo, que é o primogénito de uma
multidão de crentes.
Por esta razão, existe uma relação essencial entre a
vida contemplativa e a experiência da comunidade e de Igreja. Cristo é o
Sacramento da Salvação, pois ele é a manifestação visível perfeita, a perfeita
encarnação do desejo do Pai de salvar toda a humanidade. A Igreja, que é a
comunidade daqueles que crêem no Cristo, é a manifestação visível da mesma
realidade sob o sinal de uma comunhão visível e activa em amor, fé e esperança.
Receber a mensagem de Cristo é ser chamado a segui-lo com outros e a incorporar
sua mensagem de amor universal em nossa vida de serviço, louvor e compaixão
universal, com outros. Uma comunidade monástica é um modo particular de
realizar esta missão e este sacramento.
Isto, é claro, pode ser
vivido de várias maneiras. Falarei da experiência de uma tradição monástica
cenobítica que segue a Regra de São Bento e que me veio através do modo
cisterciense de vida.
A única maneira de falar sobre esta realidade é
falar a partir da experiência. Poderia falar de minha própria experiência,
partilhando com vocês meus desejos, meus sofrimentos e minhas falhas, mas também
do meu comprometimento contínuo com esta busca contemplativa. Poderia também
falar da experiência de todos aqueles que connosco partilharam o que eles
tentaram viver, através de seu ensinamento e de seus escritos. E o corpo da
literatura cristã e monástica sobre a vida contemplativa é muito grande.
Escolhi, ao invés, apresentar-lhes a experiência de uma comunidade concreta de
monges cristãos que recentemente alcançaram, através de seu martírio, a
realização última de sua experiência comunitária contemplativa. Eles
desenvolveram essa experiência através de vários anos de vida comum, e
mostraram sua autenticidade enfrentando a morte juntos. O que eles viveram foi
particularmente bem expresso num curto texto escrito por um deles.
Vocês já sabem que estou falando sobre a comunidade
de Nossa Senhora de Atlas, na Argélia e sobre o testamento de Dom Christian de
Chergé.
Aquela pequena comunidade monástica era uma
comunidade tipicamente cristã, isto é, não um grupo de pessoas que tinham
escolhido um ao outro, mas um grupo de pessoas que tinham escolhido a mesma
vocação, ou melhor, que haviam sido chamados à mesma missão. A história da
comunidade é complexa. Fundada como refúgio para um grupo de monges da
Eslovénia em 1934, logo se tornou uma fundação regular de uma abadia francesa,
quando a Argélia era ainda um território francês. O mosteiro sobreviveu à
guerra da Independência da Argélia e à saída de quase todos os franceses do
país. Num determinado momento, a Ordem pensou em fechá-lo, mas decidiu à época
mantê-lo como uma presença contemplativa cristã numa sociedade muçulmana. A
comunidade foi então repovoada com monges que vieram de várias comunidades e de
diferentes tradições monásticas. Eram todos gente forte que haviam escolhido
vir para a Argélia. Foi só através do diálogo, oração e atenção contemplativa
às manifestações da vontade de Deus que eles alcançaram uma profunda e notável
unidade que os conservou alegremente corajosos durante os últimos três anos de
suas vidas.
Vamos agora olhar alguns aspectos de sua experiência
através de algumas passagens do testamento de Dom Christian (que foi o texto
escrito no dia em que as primeiras ameaças à sua vida foram feitas): Se
acontecer um dia - e poderia ser hoje - em que eu me
torne uma vítima do terrorismo que agora parece pronto a engolir todos os
estrangeiros que vivem na Argélia, gostaria que minha comunidade, minha Igreja
e minha família se lembrassem que minha vida foi DADA por Deus e a este país.
Há aí vários elementos de grande significado nesta
curta sentença. Christian queria que sua comunidade, sua Igreja, sua família
lembrassem de algo. Sua vida não era uma relação solitária entre ele e Deus.
Ele tinha consciência de pertencer a uma comunidade (minha comunidade), à
Igreja (minha Igreja) e a uma família natural (minha família). Todas essas
relações eram muito importantes para ele. Mas mais importante era o facto de
que sua vida não lhe pertencia. Ela havia sido dada. E dada não só a Deus, mas
também àquele país que é a Argélia. Tudo aí é muito encarnado. Ele não possui
sua própria vida; ele não possui sua comunidade, sua Igreja, sua família; ele
renunciou a elas, mas elas permanecem importantes para ele.
Eis aí um homem livre, pobre e puro de coração que
pode ver a Deus.
Este desapego radical não é algo pronto e acabado de
um dia para outro e feito sozinho. Era uma experiência comum que ele fez com o
resto da sua comunidade. Nesta sua última carta circular, em Dezembro de 1995,
os irmãos de Atlas diziam, falando de uma possível morte: "a morte
violenta de um de nós ou de todos nós juntos seria simplesmente a consequência
lógica de todas as formas de renúncia que já fizemos: da família, do país, da
comunidade, para seguir a Cristo."
Pois com estas formas de renúncia, a comunidade real
de Christian e de seus irmãos compreendia não só os doze monges de Tibhirine e
Fez, mas também dos membros de suas respectivas famílias e de todo o povo da
Argélia que eles amavam.
Christian amava-os tanto que ele não podia desejar o
martírio, uma vez que desejá-lo significaria que alguém que ele ama deveria
cometer um terrível crime contra o Deus da vida.
Não vejo, de facto, como poderia me alegrar se este
povo que amo for acusado indiscriminadamente de meu assassinato.
Responsabilizar um argelino, quem quer que seja,
seria um preço muito alto a pagar por aquilo que talvez seja chamado "a
graça do martírio", especialmente se ele diz que agiu em fidelidade com o
que acredita que seja o Islão.
Alguém que alcançou tal nível de pureza de coração é
um real contemplativo. E esta é a profunda relação entre a vida comunitária e a
vida contemplativa.
Pois isto será o que serei capaz de fazer, se Deus
assim o quiser - imerso meu olhar naquele do Pai,
contemplarei com ele seus filhos do Islã da mesma
forma como ele os vê, todos radiantes com a glória do Cristo, o fruto de sua
Paixão, e cheio com o Dom do Espírito, cuja alegria secreta será sempre de
estabelecer a comunhão e de remodelar a semelhança divina, brincando com nossas
diferenças.
Em tudo o que se tem dito e escrito sobre o diálogo
inter-religioso, não penso que haja algo que tenha alcançado tal profundidade.
Por outro lado, esta é a atitude contemplativa que deseja ver através dos olhos
de Deus e contempla todos os filhos do Islão (do Budismo, do Hinduísmo, de
Israel, etc.) como ele as vê, em sua beleza radiosa. Por outro lado, esta é a
bela visão de um Deus brincalhão que tem secreta alegria em estabelecer
comunhão, remodelando em cada um a semelhança original (sua semelhança),
jogando com as diferenças.
E então, Dom Christian agradece a Deus por sua vida:
Por esta vida perdida, totalmente minha e totalmente
deles, agradeço a Deus que parece tê-la desejado inteiramente para esta ALEGRIA
em tudo e a despeito de tudo. Neste AGRADECIMENTO, que resume minha vida
inteira a partir de agora, certamente incluo vocês, amigos de ontem e de hoje,
e vocês, meus amigos deste lugar.
E então vem a parte mais misteriosa e mais bela do
texto. No início do Testamento existe uma espécie de subtítulo: "Quand un A-Dieu
est en-visagé" (A
palavra francesa A-Dieu é muito mais forte do que o
equivalente inglês "farewell", e há um jogo
de palavras pois envisagé quer dizer contemplado, mas
também pode significar, na linha de pensamento de Lévinas,
en-visagé, isto é algo que recebeu um visage, ou que foi transformado num visage
(rosto).
Com isto em mente, podemos entender a parte final da
mensagem, onde Christian fala da pessoa que poderia tirar-lhe sua vida:
E também você, o amigo do meu momento final, que não
terá consciência do que estiver fazendo. Sim, quero AGRADECER a você e este
"A-DEUS" "en-visagé de toi", isto é, recomendando-o a Deus que assumiu um
rosto em você (ou em quem eu verei a face de Deus).
Esta capacidade de ver a face de Deus, a encarnação
de Deus na pessoa que está cortando sua garganta é certamente o fruto de uma
profunda vida contemplativa vivida na relação profunda com um grupo de irmãos,
com uma Igreja e com toda a família humana.
A Comunidade de Nossa Senhora de Atlas era uma
comunidade monástica pequena comum, vivendo uma vida de solidão, oração,
trabalho e silêncio. Quando se tornou perigoso aos estrangeiros e especialmente
aos cristãos permanecer na Argélia, e quando foram convidados a sair, várias
pessoas disseram aos monges: "Vocês deveriam partir. Compreendemos que os
missionários queiram ficar para continuar seu trabalho de evangelização, mas
não existe razão alguma para que vocês fiquem, uma vez que podem continuar sua
vida de oração em qualquer outro lugar. Rezar aqui ou rezar na França é a mesma
coisa." Tal raciocínio não fazia nenhum sentido para qualquer destes
monges. Pois eles viviam aquela vida de oração por tanto tempo junto e naquele
lugar que não só haviam se unido profundamente como comunidade, mas haviam
criado laços profundos com a Igreja local inteira, por um lado, e também com um
grupo de muçulmanos devotos, especialmente uma comunidade sufi, que
regularmente vinha ao mosteiro para reflectir e rezar com eles. Haviam também
desenvolvido laços profundos de amizade com a população local, ao ponto de
permitir aos muçulmanos do lugar usar um prédio do mosteiro como mesquita do
vilarejo.
Tudo isto tem algo a ver com a vida contemplativa?
Claro que sim. Foi sua presença, não como indivíduos, mas como uma comunidade
cristã num mundo muçulmano que os capacitou gradualmente a ver a Deus - não um Deus abstracto, mas um Deus que se tinha "en-visagé", isto é, que havia assumido uma face em
cada um dos irmãos muçulmanos, incluindo aquele que poderia cortar-lhe suas
gargantas.
E a história não parou com sua morte. Pois devido
àqueles monges muito humildes e simples, e devido ao modo como viveram, milhões
de pessoas, incluindo milhões de muçulmanos da Argélia, viram algo da face de
Deus neles. A vida contemplativa não tem fronteiras.
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)