A CONTROVÉRSIA MONOTELITA
O III Concílio
(in Trullo) de Constantinopla (681)
Mansi, XI. 635 C ss
[Calcedónia provocara o cisma monofisita do Oriente
e a tendência monofisita do Segundo Concílio de Constantinopla não revogara a
definição calcedoniana. Entrementes, a ameaça que os persas e os árabes
representavam para o império do Oriente tornara o cisma um perigo político.
Ciro, Patriarca de Alexandria, encorajado pelo Imperador Heráclio, sugeriu ao
Papa Honório que os cismáticos poderiam ser reconciliados por uma fórmula
(proposta por Sérgio de Constantinopla) que admitiu as duas naturezas mas uma
só "operação ou vontade divino-humana" (enérgei e thélêma). Honório,
que parece ter considerado a terminologia como coisa indiferente, sobre a base
de que a impecável vontade humana de Cristo não podia estar em conflito com sua
vontade divina e que as duas vontades, agindo em uníssono, não podem se
distinguir de uma só vontade, concordou com essa fórmula
"monotelita", a qual foi publicada por Heráclio na Echtesis, em 638.
Mas os sucessores de Honório viram aí uma ponta de lança monofisita e, em 649,
Martinho condenou a Echtesis. Seguiu-se um cisma que durou até 681, quando a
conquista árabe do Egipto e da Síria terminou com toda a motivação para se
buscar uma reconciliação com os monofisitas às custas do Ocidente. O imperador
depôs o Patriarca, pediu orientação ao Papa Ágato e um Concílio - contado como
sendo o sexto Ecuménico – reuniu-se no Trullus (recinto abobadado) do palácio.
Os monotelitas - inclusive Honório - foram condenados e o cisma terminou.
Depois da repetição da doutrina calcedonense sobre a pessoa de Cristo, a
definição se expressa assim:]
Pregamos também duas vontades naturais nele, bem
como duas operações naturais (enérgeiai), sem divisão, sem mudança, sem
separação, sem partilha, sem confusão. Isto pregamos de acordo com a doutrina
dos Santos
Padres. Duas vontades naturais, não contrárias (que Deus o afaste), como
afirmam os ímpios hereges, mas sua vontade humana seguindo a vontade divina e
omnipotente, não lhe resistindo, nem se lhe opondo, mas antes sujeita a ela.
Pois a vontade da carne tinha de ser dirigida e estar sujeita à vontade divina,
segundo o sapientíssimo Atanásio. Porque assim como se diz que sua carne deve
ser e é a carne de Deus Verbo, assim se diz que a vontade natural da carne
pertence a Deus Verbo, como de facto pertence; ele mesmo o diz: "Desci do
céu não para fazer minha própria vontade, mas a vontade do Pai que me
enviou" (Jo 6.38), designando como "própria" a vontade da carne,
visto que a carne se tornou sua própria carne.
Portanto, assim como sua santíssima e imaculada
carne, vivificada pela alma, não foi destruída ao ser deificada, mas continuou
no seu próprio estado e esfera, assim também sua vontade humana não foi
destruída ao ser deificada, mas antes foi preservada, como diz Gregório, o
teólogo: "Pois o querer que entendemos ser um acto da vontade do Salvador
não é contrário a Deus, mas inteiramente deificado".
Mons. Dom ++ Paulo
Jorge de Laureano – Vieira y Saragoça
(Mar Alexander I
da Hispânea)