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Não
é brincadeira: atração é mesmo uma questão de química
O
sentimento mais sublime, e o mais exaltado pela arte e pela poesia
desde que a arte e a poesia existem, tornou-se agora a fixação de
categorias profissionais bem diversas: os antropólogos, os bioquímicos
e os neurocientistas que se vêm dedicando a descobrir como, e por
quê, o mundo só parece fazer sentido para nós se aquela
determinada pessoa estiver olhando nos nossos olhos. As conclusões
são no mínimo intrigantes. A paixão, sugerem esses pesquisadores,
é um tipo de dependência química mais potente que o vício da
heroína e capaz de causar tanto ou mais estrago do que este na paz
de nossa vidinha diária. Mais: para alguns visionários, chegará o
dia em que a incapacidade de sentir paixão (ou a propensão
excessiva a se apaixonar) poderá ser tratada por remédios, como
uma dor de cabeça ou uma bursite.
Há
quatro anos, dois cientistas do University College de Londres
fizeram um experimento curioso. Selecionaram estudantes que
declaravam estar loucamente apaixonados e mapearam sua atividade
cerebral. Surpresa: o amor romântico ativa uma área do cérebro
muito menor do que a envolvida, por exemplo, na amizade. Trata-se
também de uma região diferente daquela que se acende quando somos
presas de outras emoções, como o medo ou a raiva. Os mecanismos
neurais postos em marcha pela paixão são os mesmos que respondem
pelas sensações de euforia que nos invadem ao consumir drogas.
"Somos literalmente viciados em amor", disse Larry Young,
pesquisador americano da Universidade Emory, num artigo sobre o tema
na revista inglesa The Economist. Essa parte do cérebro é chamada
de reptiliana – por ter começado a se desenvolver há cerca de 65
milhões de anos, muito antes que os mamíferos se propagassem sobre
o planeta. Essa região neuronal está associada a nosso sistema de
"recompensa". Young explica que, sem ele, os seres vivos
poderiam se esquecer de comer, beber e fazer sexo, o que obviamente
traria péssimos resultados para a sobrevivência das espécies. A
razão pela qual sempre nos lembramos de fazer essas coisas é que
elas nos proporcionam prazer e queremos voltar a esse prazer em
todas as oportunidades possíveis.
Os
mecanismos bioquímicos envolvidos nessas operações são, claro,
incrivelmente complexos e estão longe de ser desvendados em sua
totalidade. Também variam não só de espécie para espécie, mas
de indivíduo para indivíduo. Isso sem falar nos fatores culturais
imponderáveis que agem sobre o ser humano. Mas, de forma geral, o
sexo libera no organismo fartas quantidades de uma substância
neurotransmissora chamada dopamina – e aí sentimos prazer. No
nosso caso, outras substâncias têm também papel preponderante na
química da paixão, como a oxitocina e a vasopressina. Entre outras
coisas, a oxitocina nos ajuda a identificar características
individuais de um parceiro de forma que também elas se tornem
fontes de prazer. Mulheres que acabam de dar à luz têm seu
organismo inundado pela oxitocina. Ela ajuda a promover a formação
dos laços de ternura entre mãe e filho. De certa forma, pode-se
dizer que a oxitocina é ainda o hormônio do instinto maternal.
Talvez atue com o mesmo poder agregador na união que se forma entre
os parceiros sexuais. Esse coquetel químico, acredita-se, é o que
nos faz sentir tomados por uma energia extraordinária, uma motivação
quase obsessiva em obter a recompensa desejada, e sentimentos de elação
ou tragédia conforme nos julguemos mais próximos ou mais distantes
dessa recompensa. Flechados por esse Cupido neuroquímico, enfim,
comportamo-nos todos mais ou menos como a Scarlett O'Hara de ...E o
Vento Levou: somos incapazes de tirar Rhett Butler da cabeça, não
aceitamos "não" como resposta e movemos montanhas, se
necessário, para estar nos braços dele mais uma vez.
A
pesquisadora Helen Fisher, da universidade americana Rutgers, acaba
de lançar um livro – Why We Love: the Nature and Chemistry of
Romantic Love, ou Por que Amamos: a Natureza e a Química do Amor
Romântico – que ilumina consideravelmente esse cenário. Helen
acredita que o amor ocorre em três diferentes essências: desejo,
amor romântico e ligação duradoura. Elas se manifestariam
conforme o efeito pretendido por nossa natureza – respectivamente,
o sexo, a formação de pares ou a criação da prole. Apesar de
compartilharem alguns mecanismos, essas essências são produzidas
por sistemas independentes entre si. É aí que mora o problema:
mesmo sendo independentes, elas freqüentemente trabalham nas mais
variadas combinações. Pode-se sentir, simultaneamente, uma ligação
profunda com um parceiro estável, paixão por uma segunda pessoa e
desejo sexual por uma terceira – ou quarta, ou quantas forem. Em
sociedade, esses impulsos costumam ganhar o nome de traição e
promiscuidade, fonte de infindáveis dores de cabeça e, em caso de
descuido, de filhos inesperados. Por isso mesmo eles são simultâneos.
Conclui Helen Fisher: "Não fomos construídos para ser
felizes, mas para nos reproduzir".
Fonte:Revista
Época - Texto: CRISTIANE SEGATTO - Ilustrações: ELIZABETH
TOGNATO
Cientistas
lançam luzes sobre o que acontece no cérebro dos apaixonados e
avisam: romance vicia como cocaína
O
supra-sumo da cantada cafajeste anda ocupando o tempo e as verbas de
pesquisa dos cientistas americanos. O chavão do ''acho que rolou
uma química entre nós'', deflagrado por nove em cada dez
conquistadores baratos, nunca foi levado tão a sério. Estudos
baseados em imagens do cérebro dos apaixonados e experiências de
terapia gênica realizadas com roedores sugerem que o amor é mesmo
fruto de dependência química.
A
antropóloga Helen Fisher, da Rutgers University, acaba de lançar
nos Estados Unidos o provocador Why We Love: the Nature and
Chemistry of Romantic Love (Por Que Amamos: a Natureza e a Química
do Amor Romântico), publicado pela editora Henry Holt and Company.
Em sua quarta obra sobre o tema, a pesquisadora explica que as relações
dos casais são regidas por três circuitos distintos no cérebro,
com motivações e emoções próprias e acompanhadas de diferentes
descargas neuroquímicas. Segundo ela, a humanidade burilou esse
mecanismo com o objetivo primordial de unir homem e mulher e
garantir a reprodução da espécie. O primeiro desses sistemas é o
da luxúria, a necessidade de gratificação sexual que faz com que
as pessoas se sintam motivadas a ''caçar'' um(a) parceiro(a) até o
final da balada. O terceiro desperta a necessidade de um vínculo
duradouro. Provoca aquela sensação de calma, segurança e
bem-estar que parece cochichar aos enamorados: ''Sigam em frente,
vocês serão capazes de se tolerar por tempo suficiente para criar
um filho''. Entre estes dois, desponta o mais explosivo e
angustiante: o do amor romântico, caracterizado por descargas de
dopamina, que viciam como cocaína ou chocolate.
No
futuro, a paixão poderá ser estimulada com injeções
O
bombardeio químico dessa fase instala na vida de quem está
loucamente apaixonado uma mistura de céu e inferno. Uma única
pessoa monopoliza a atenção do sofredor, que passa a sentir uma
euforia desmedida quando as coisas vão bem e um desespero
avassalador quando algo dá errado. A gangorra emocional é tão
pronunciada que Helen enxerga nessa fase sintomas que lembram os do
chamado transtorno bipolar, doença caracterizada por bruscas variações
de humor disparadas por um desequilíbrio neuroquímico no cérebro.
O
alvo da flecha de Cupido exibe disposição hercúlea, a ponto de
passar noites em claro pensando no ser amado. Quimicamente viciado
na imagem do parceiro, não há dúvida de que gostaria de levá-lo
para a cama. Mais do que sexo, porém, o ''barato'' que anseia é a
certeza da afeição correspondida, materializada em e-mails e
telefonemas respondidos. ''Há muitas razões que fazem com que alguém
sinta interesse por um parceiro específico. Atração sexual e
identificação intelectual são alguns dos fatores envolvidos
nisso, mas, quando a pessoa enxerga no outro as características
ideais que procura, o cérebro é estimulado quimicamente e ela se
apaixona'', disse Helen a ÉPOCA. ''Trata-se de um sistema muito
primitivo, o mesmo que dispara o medo'', explica.
Por
meio de análises de ressonância magnética, a equipe de Helen
descobriu peculiaridades nos neurônios dos apaixonados. Enquanto
olhavam fotos do ser amado, eles apresentaram maior atividade em
regiões do cérebro como o núcleo caudado e a área tegmental
ventral, responsável pela produção da dopamina, um poderoso
estimulante que produz a sensação de gratificação que explica o
vício por cigarro, drogas, chocolate e... amor.
Ao
contrário do que se imagina, os homens caem na armadilha da paixão
mais rápido que as mulheres, sustenta Helen. No entanto, a equipe
observou diferenças nos circuitos cerebrais acionados pela imagem
da pessoa amada. Os homens demonstraram maior atividade nas regiões
relacionadas aos estímulos visuais e à ereção do pênis. As
mulheres, por sua vez, demonstraram um alvoroço nas regiões
responsáveis pela emoção, atenção e recuperação de memórias.
Essas
diferenças fazem todo o sentido do ponto de vista da evolução da
espécie, explica a antropóloga. O homem das cavernas baseava-se no
exame visual para determinar se a fêmea aparentava sinais de
juventude e vigor, fundamentais para lhe proporcionar uma prole saudável.
Já as mulheres buscavam um bom protetor e provedor do lar. Por
isso, fizeram bom negócio ao desenvolver a memória que lhes
permite avaliar (e cobrar) promessas feitas e valorizar demonstrações
de afeto, em vez de nortear a escolha do parceiro apenas pela aparência
física.
Além
do ''sistema compensatório dopaminérgico'', nome técnico desse
mecanismo químico, a antropóloga suspeita que outros fatores, como
excesso de norepinefrina e falta de serotonina, também estejam
envolvidos na disparada do amor romântico. Atualmente, Helen se
dedica a estudar essa hipótese. Ela pretende provar que circuitos
envolvidos no pensamento racional se tornam mais pronunciados à
medida que a relação se consolida. A paixão avassaladora e o vício
seriam gradativamente substituídos pelas sensações de calma,
profundidade e nenhuma necessidade de urgência.
Os
mecanismos químicos que explicam o amor dos casais parecem ser uma
sofisticação da atração animal verificada nos mamíferos. Em vez
de copular com o primeiro que aparece, os bichos escolhem
determinados parceiros e evitam outros. O cientista Larry Young, da
Emory University, em Atlanta, investiga esse fenômeno em duas espécies
de pequenos roedores que vivem no Canadá. As duas espécies
compartilham 99% da carga genética, mas apresentam uma diferença
curiosa no comportamento sexual. Enquanto os bichos das pradarias
(Microtus ochrogaster) são monogâmicos, os que preferem as
montanhas (Microtus montanus) não querem saber de parceiros
exclusivos. Os cientistas descobriram que um único gene faz toda a
diferença. Na espécie monogâmica, ele ativa os receptores de
vassopressina e oxitocina, na região do cérebro responsável pelo
sistema de recompensa que desencadeia o vício e a predileção por
determinado parceiro. Por meio de terapia gênica, Young aumentou a
quantidade de receptores das substâncias do amor no cérebro dos
roedores da espécie ''devassa''. Resultado: eles se tornaram fiéis.
Estará
próximo o dia em que o amor e a monogamia poderão ser induzidos
por uma simples injeção? ''Teoricamente é possível manipular as
emoções humanas alterando a química do cérebro por meio de
drogas'', diz Young. ''Acredito que algum dia poderemos estimular o
amor entre os casais. Mas daí a garantir monogamia é pedir
demais...'', brinca.
A
ciência que pretende explicar o amor está longe de ser definitiva.
Na Idade Média, a crença de que o coração seria o centro das emoções
era compartilhada até pelos estudiosos mais credenciados. No século
passado, o foco das atenções mudou-se para o cérebro e, nas próximas
décadas, muitas explicações deverão surgir do entendimento da
interação entre os genes. Essas descobertas prometem lançar luzes
sobre as dificuldades de relacionamento e propor soluções. Mas
elas cumprem outra função social: a de gerar saborosa munição
para as conversas de botequim.
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