Transgressão e Culpa

 

     Um dos piores e mais insuportáveis sentimentos do ser humano é a culpa. Quem já não sentiu culpa? Aliás talvez seja raro o dia em que não sentimos culpa. Uma mistura de insatisfação, tristeza, mal estar e desconforto com a certeza de que fizemos algo errado ou deixamos de fazer algo que deveríamos fazer. Mas afinal de contas porque sentimos culpa até mesmo quando muitas vezes nós mesmos acreditamos que o que fizemos ou deixamos de fazer não é errado?. Bem os valores nos quais acreditamos nos são ensinados desde a mais remota idade. A partir de nosso nascimento, nossos pais nos passam de forma direta seus próprios valores, crenças e atitudes. Claro que eles passam aquilo que acreditam ser o moralmente correto, o socialmente adequado e acabam exigindo dos próprios filhos que hajam de acordo com esses valores.

     O ser humano ao nascer não traz escala de valores dentro de si. Todo seu comportamento e crenças relacionados com o que deve ou não fazer é um processo aprendido socialmente, primeiro através da família e depois da própria sociedade. Aos poucos no seu desenvolvimento o bebê vai sendo modelado para que cumpra um certo papel que a sociedade espera dele. Assim aprende que deve respeitar os outros, obedecer aos pais, cumprir as leis, manter um comportamento moral dentro do esperado etc. . Claro isso tudo a partir dos valores que os pais acreditam ou a sociedade impõe. Essas normas e valores são passados a partir da crença de que com eles a pessoa conseguirá conviver melhor consigo mesmo e com o grupo social. Durante todo o período da infância, a pessoa vai tendo implantada dentro de si todos esses valores, claro ainda de uma forma não rígida mas que serão a base de toda sua conduta durante a vida. A culpa tem sua origem primitiva em conflitos infantis relacionados com as figuras do pai e mãe. De maneira simplificada se poderia dizer que o bebê numa primeira fase, ao não ter muitos dos seus desejos satisfeitos principalmente pela mãe que o cuida, sente muita raiva dela e destroi em fantasia o que identifica na mãe como mau. Numa fase posterior, quando percebe a importância da mãe, sente culpa pelo que fez e busca reparar as partes que acredita ter destruído em seu corpo.

     Até a chegada da adolescência a criança aceita com certa facilidade todos esses valores que lhe foram passados através da educação, sem grandes questionamentos. Porém a partir daí, quase sempre passa a questionar tudo o que aprendeu e assimilou, mas não digeriu ou não havia tido tempo ainda de poder refletir sobre eles e se posicionar a partir de sua própria personalidade e crenças. A necessidade de auto afirmação e a busca de uma identidade própria, faz com que questione quase tudo o que aprendeu tendo como ponto de referência a si próprio, gerando não raro sérios conflitos no meio familiar.

     Inicialmente os valores que a criança aprende são trazidos para ela de fora para dentro, ou seja, a família e a sociedade buscam incutir em sua personalidade, através da educação, a noção de certo e errado e o que deve ou não fazer. Ainda bem pequena, a criança vai assimilando esses valores dentro de si mesma e desenvolve uma instância psíquica para resguarda-los. A isso a psicanálise chama de "superego" que seria o representante interno dos valores sociais e o seu papel é semelhante ao de um juiz ou de um censor. As primeiras etapas da formação do superego se dá mediante a internalização das proibições parentais. Essas proibições internalizadas pela criança são poderosas devido a ameaça de castigo que implicam, porém era de se esperar que pudessem ser desobedecidas quando ninguém estivesse vendo. Bem isso muitas vezes acontece assim mesmo, só que o superego a medida que vai se desenvolvendo assume o papel não só de censor mas também pune como um juiz sempre que a pessoa não age de acordo com as normas que já estão internalizadas, através do sentimento de culpa. Agora a pessoa não necessita mais dos pais ou de alguém fora de si que a castigue sempre que se afastar do padrão de comportamento esperado, porque já tem um representante dentro de si mesma que a vai punir sempre que não agir como lhe foi ensinado.

     A medida que vai se tornando mais adulto, desenvolvendo sua inteligência e crescendo afetivamente, o indivíduo vai definindo para si mesmo a partir do aprendizado anterior, seus próprios valores e crenças. Nem todos correspondem ao que aprendeu porque muitos dos valores e padrões de comportamento mudam com o tempo e claro que o que os pais acreditavam ser o melhor ou correto nem sempre serve para os filhos. Aí sempre que busca agir dentro de crenças fruto de uma maturidade pessoal, esbarra com o próprio juiz internalizado, ou seja, o superego. Temos visto a nível clínico que algumas pessoas tem um superego extremamente rigoroso e punitivo. Sentem culpa e tristeza por quase todos os seus comportamento, vivendo angustiadas e deprimidas, tendo uma vida psíquica extremamente pobre. Não conseguem se libertar das normas primitivas internalizadas e sempre que o fazem ou acreditam estar fazendo, são muito punidas através da culpa. Essa luta interna costuma absorver grande parte da capacidade criativa empobrecendo o indivíduo nas suas relações social e realizações pessoais. Essas pessoas precisam de ajuda profissional que as ajude a lidar com o conflito interno existente entre os valores aprendidos na educação e os novos padrões de comportamento assimilados na fase adulta, eliminando a angústia gerada. A psicanálise e diversas outras técnicas psicoterápicas são instrumentos valiosos de ajuda para que as pessoas possam crescer e viver com suas próprias crenças sem amargurar com os fantasmas do passado. Só assim poderão transgredir as crenças primitivas internalizadas, libertos de níveis sufocantes de tristeza e culpa.

 

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